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Dor e Glória: o retrato mais íntimo e doloroso de Pedro Almodóvar

Pedro Almodóvar tem um cinema que é colorido e engraçado, ao mesmo tempo que é humano e profundo. Com uma paixão em retratar sexualidade, vidas que são regadas pela intensidade e mulheres que são diferentes e cheias de nuances, o espanhol usa sua cinematografia como catalisador para explorar protagonistas interessantes e profundos. Sua assinatura é marcante e mesmo que as produções sejam maximalistas ao extremo na fotografia e nos figurinos, e até nas atuações, todos os seus roteiros são íntimos na essência. De certa forma, sua vida como diretor e sua paixão por cinema está impressa em todas as suas criações, bem como sua cultura e sua criação. É por isso que quando o cineasta anunciou que Dor e Glória seria sua obra mais pessoal até então, fiquei curiosa para saber qual seria o resultado.

Atenção: este texto contém spoilers

Diferente da suas mais famosas produções, como o explosivo Volver (2006) ou o perturbador A Pele que Habito (2011), Almodóvar mostra certo amadurecimento nas suas criações mais recentes. Julieta, por exemplo, é mais silencioso, menos engraçado e usa mais da contemplação do que as suas outras obras. A história lançada em 2016 faz um estudo de personagem que costura épocas diferentes da vida da protagonista-título, mas acaba nem sempre funcionando. Em Dor e Glória o cineasta parece ter entrado em um contato mais profundo com a mensagem que gostaria de passar, usando das mesmas técnicas.

Dessa vez, Almodóvar também opta por contar a jornada do protagonista em dois momentos diferentes: no presente, quando Salvador Mallo (Antonio Banderas) já é um cineasta em decadência, que não consegue mais escrever ou dirigir por causa das suas doenças; e no passado, durante sua infância, onde ele tenta captar a pobreza, a relação de Mallo com a mãe e principalmente sua paixão inocente e nova pela arte, com foco principal no cinema. Cada pequeno momento que aconteceu no passado tem uma influência direta na forma que o protagonista age no futuro, e a direção do cineasta faz essas conexões de forma orgânica, precisa e com foco em todas as relações que Salvador levou durante a vida.

Existem quatro figuras importantes e decisivas na vida de Salvador: sua mãe Jacinta, o ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia), sua paixão, Federico (Leonardo Sbaraglia), e o pintor e artista Eduardo (César Vicente).

Dor e Glória

Alberto é o ator principal de Sabor, um dos maiores sucessos do diretor, feito no começo da sua carreira. Os dois, no entanto, não se falam há anos por causa do ego envolvendo as decisões artísticas que foram tomadas na época em que a produção foi gravada. A história de ambos se cruza outra vez quando o longa alcança o status de cult e vai ganhar uma remasterização com direito a uma conversa com o diretor e o elenco. Ao entrar em contato com Alberto outra vez, Salvador reencontra também sua vaidade, seu ego, mas, acima de tudo, sua paixão por escrever e fazer cinema. A dinâmica ainda sofre com os mesmos problemas que nasceram anteriormente, mas permite que o protagonista abra uma porta para explorar sentimentos adormecidos durante muito tempo, como o relacionamento amoroso com Federico, por meio da escrita.

É mais ou menos nessa época também que ele começa a usar drogas, com objetivo de esquecer e superar as dores do seu corpo. O uso das substâncias, principalmente heroína, faz com que ele tenha um surto criativo e escreva um monólogo sobre sua vida, sua relação com Federico. Projeto feito especialmente para Alberto interpretá-lo, também é o principal motivo pelo qual ele reencontra Federico, seu grande — e aparentemente único — amor.

Quando se propõe a falar sobre o desejo sexual do protagonista, ou de amor romântico em geral, a narrativa traça um pequeno e sutil paralelo entre Federico e Eduardo.

Eduardo, que ajudava na casa da sua mãe durante a infância com pequenos trabalho de pintura, em troca por aulas para aprender escrever e ler, é o homem que representou, de certa forma, o “despertar” da sua preferência sexual por homens. Na cena em que ele descobre sua orientação, quando o homem se banha na sua frente, também tem uma febre intensa e desmaia, como uma metáfora para sua descoberta e um ponto de ruptura de inocência. Mais tarde, ele conhece Federico, que se torna seu amante e seu parceiro.

Os dois terminam quando Federico começa a sucumbir ao vício por heroína. Não por uma coincidência, Dor e Glória reúne os dois justamente quando Salvador, que nunca usou nenhuma substância antes, consome as mesmas sem parar. Sua reconexão com o seu ex-amante é cheio de momentos pequenos de cumplicidade e amor envelhecido, que se tornou algo especial, mas também serve para levar o protagonista além, para que ele descubra qual seu próximo passo na vida e parar de usar as drogas.

Dor e Glória

É interessante perceber que mesmo que o protagonista dessa vez seja um homem, as personagens femininas ainda têm um papel fundamental na narrativa de Almodóvar. Não fica exatamente claro no roteiro qual é a orientação sexual de Salvador, mas o seu grande amor é um homem, Federico. As outras mulheres da sua vida adulta são profissionais que trabalham para ele. Mesmo assim, a influência de Jacinta na forma como ele lida com as coisas ainda é palpável e importante. Na primeira parte da narrativa, quem representa a mãe é Penélope Cruz, retomando sua parceria com o diretor. Ainda que seja um papel secundário, a atriz dá força e nuances para uma mulher pobre e religiosa. Sua luta para o que o filho estude e tente achar uma saída para o destino que a vida lhe designou ao nascer é admirável.

Na medida em que Salvador foi crescendo e se tornando um homem, a relação foi ficando mais complicada e limitada pela falta de capacidade de Jacinta (agora vivida por Julieta Serrano) de se conectar os seus sentimentos, ou com aquilo que Salvador se tornou. “Eu te ofendo ao ser quem eu sou?”, pergunta o filho para a mãe. No presente, ela já está morta, e Salvador descreve o evento como algo que ele nunca foi capaz de superar. Ou seja, o impacto que ela teve na sua vida (aceitando ou não às escolhas que ele fez), foi gigante.

Quando o longa-metragem chega nos seus minutos finais, a mente de Salvador volta para um momento fundamental da sua infância: quando ele e sua mãe dormiam no chão de uma estação de trem. A câmera, que antes focava no dois deitados, se afasta e mostra que, na verdade, aquilo é a gravação do próximo filme de Mallo, com Penélope Cruz como a mãe e Asier Flores como sua versão criança. Com essa pequena peça de metalinguagem em uma narrativa como essa, a história se consagra como um estudo de personagem satisfatório, liderado por uma atuação cheia de nuances da parte de Antonio Banderas — que concorre ao Oscar de Melhor Ator pelo papel.

Dor e Glória

Conhecido por sempre criar um clímax estrondoso, desafiador e essencial para os seus longas, Pedro Almodóvar subverte essas expectativas com Dor e Glória. Aqui, o clímax da trama é justamente a realização de Salvador de que, talvez, ele devesse contar uma última história: a sua. E essa decisão não vem do nada, mas sim é construída por meio de cada um dos momentos criados pela narrativa. Cada conversa, cada lembrança, cada peça do quebra-cabeça dá origem ao que ele chama de O Primeiro Desejo. Se é o seu desejo sexual, o seu desejo pela arte, de cuidar e dar uma vida melhor para sua mãe, ou até mesmo os três juntos, é uma resposta que o espectador pode descobrir ao analisar a obra e tirar suas próprias conclusões.

O que faz a produção tão universal e satisfatória é justamente a capacidade do roteiro de analisar com tamanha profundidade várias épocas e pessoas que foram importantes para o protagonista. Na medida em que Salvador redescobre a sua vida e seus sentimentos, a sensação de nostalgia é dolorosa e chega em abundância, fazendo com o público olhe para momentos da própria trajetória com uma visão diferente.

Afinal, Dor e Glória é um filme sobre um homem criativo, que superou as expectativas do mundo apesar do lugar em que nasceu. Salvador cresceu na pobreza, estudou em uma escola católica, ao mesmo tempo que amou intensamente a arte, o cinema. Se dedicou à suas paixões e principalmente àqueles que amou, e na parte final da sua trajetória, teve de dar alguns passos para trás e reavaliar seus defeitos para conseguir seguir em frente, apesar da perda e dos problemas apresentados pela vida. De fato, um filme emocional, pessoal e comovente.

Dor e Glória recebeu 2 indicações ao Oscar nas categorias de Melhor Ator (Antonio Banderas) e Melhor Filme Estrangeiro. 

oscar 2020

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