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Happier Than Ever: o final não tão feliz de Billie Eilish

Nos três shows da turnê milionária do seu primeiro álbum, WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?, Billie Eilish apresentou um clipe em que, pela primeira vez, aparecia de sutiã. Para a cantora norte-americana e quem a acompanhava, foi um passo chocante, na medida que ela sempre foi conhecida por usar roupas largas, com medo de ter seu corpo hipersexualizado e, ao mesmo tempo, ter a sua música ofuscada por ele. “If I wear what is comfortable/ I am not a woman/ If I shed the layers/ I’m a slut” [Se eu uso o que é confortável, eu não sou uma mulher, se eu tiro as camadas, eu sou uma prostituta], ela recitava, enquanto tirava a camiseta e era engolida por um mar de piche. Na época, provavelmente nem a própria Billie poderia imaginar que “Not My Responsability” viria a se tornar a nona faixa do seu segundo disco, Happier Than Ever, e ditar boa parte do tom dele.

O fato é que, para Billie, lidar com a própria imagem sempre foi uma questão desde sua adolescência. Seu quadro de depressão se deu quando, aos 13 anos, ela sofreu uma lesão que a fez abandonar a dança, algo a que se dedicava desde criança. Na mesma época, Billie lançava “ocean eyes”, música que alavancou sua carreira e que, inclusive, havia sido gravada por ela e pelo seu irmão, Finneas O’Connel, dentro de casa, para que a própria Billie dançasse.

Portanto, foi todo esse conjunto de fatores que causou a surpresa com o ensaio que Billie fez para a edição de junho da Vogue britânica, em que a cantora aparece platinada, com um espartilho do estilista Alexander McQueen e mostrando muito mais do seu corpo do que jamais havia revelado. As fotos acompanharam a matéria de capa, na qual ela discorreu sobre o complexo esquema para esconder o cabelo em processo de descoloração por baixo de uma peruca nas suas últimas aparições, a produção de seu segundo álbum e explicou as decisões estéticas da sua nova era:

“Suddenly you’re a hypocrite if you want to show your skin, and you’re easy and you’re a slut and you’re a whore. If I am, then I’m proud. Me and all the girls are hoes, and f**k it, y’know? Let’s turn it around and be empowered in that. Showing your body and showing your skin — or not — should not take any respect away from you.”

“De repente, você é uma hipócrita se quer mostrar sua pele, e você é fácil e você é uma vagabunda e uma prostituta. Se eu sou, então estou orgulhosa. Eu e todas as garotas somos vadias, e que se foda, sabe? Vamos dar a volta por cima e nos empoderar com isso. Mostrar nosso corpo e mostrar sua pele — ou não — não deve tirar nenhum respeito de você.” — Billie em entrevista para a Vogue

Mais ou menos no mesmo período, Billie também lançou a música e o vídeo de “Your Power”, canção com violão acústico em que fala sobre uma experiência de abuso envolvendo um adulto e uma menor de idade. Mais distante do seu trabalho anterior e com um viés mais crítico do que suas outras músicas, ela parecia pronta para falar sobre assuntos e traumas para os quais, anteriormente, não estava. Na entrevista, também revela que ainda não enxergava o tema com o olhar merecido e como sua visão de mundo amadureceu com o passar dos anos.

Se WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO? é sobre o monstro embaixo da cama e o que carregamos dentro de nós mesmos, Happier Than Ever é sobre a passagem da adolescência para a vida adulta diante da mídia, o mundo dos homens e todo o tipo de abuso que eles cometem.

Sobre amadurecer e surpreender

“I’m gettin’ older, I think I’m agin’ well/ I wish someone had told me I’d be doin’ this by myself” [Eu estou ficando mais velha, e acho que estou envelhecendo bem/ Queria que alguém tivesse me contado que teria que passar por isso sozinha], Billie canta nos primeiros versos de Getting Older, canção que abre o álbum. Logo no início, ela deixa claro toda a trajetória que percorreremos com ela ao longo das 16 músicas, a vivência de se tornar uma mulher adulta diante das câmeras dos paparazzi, o peso da fama, abusos e acordos de confidencialidade realizados à luz de encontros às escondidas.

Nós nunca sabemos o que de fato vem de uma experiência pessoal e o que veio da imaginação da cantora e de seu irmão e produtor, Phineas, que trabalhou junto com Billie no porão de casa durante o período de isolamento social nos Estados Unidos. De certa forma, é reconfortante saber que mesmo uma das mulheres mais jovens a ganhar um Grammy consegue manter certa privacidade e ter uma vida fora do alcance das redes sociais e sites de fofoca.

Um dos elementos que torna Happier Than Ever tão bom é justamente tomar um caminho oposto ao que seria esperado de Billie Eilish. Se a expectativa era que ela seguisse mais próxima do trap, o álbum assume um tom mais tranquilo e pessoal através de baladas como Billie Bossa Nova”, “Halley’s Comet” e “Everybody Dies”. Diferente de Taylor Swift, que matou sua antiga eu para assumir uma nova persona e, depois, ressuscitá-la, a Billie que já conhecíamos continua lá. Isso fica claro em músicas como “Oxytocin”, “OverHeated” e “NDA”. Mas até nos ritmos mais agitados, em melodias pensadas para serem dançadas, as letras parecem atingir uma camada mais profunda no ouvinte.

Mesmo os hits lançados muito antes da divulgação do álbum, como my future”, em que Billie fala sobre as expectativas da vida pós-pandemia — “‘Cause I, I’m in love/ With my future/ Can’t wait to meet her” [Porque eu, eu estou apaixonada/ Pelo meu futuro/ Mal posso esperar para conhecê-la] — e Therefore I Am”, parecem encaixar muito bem no álbum. Especialmente esta última, que vem de uma transição perfeita de “NDA” para, seguida a ela, sermos apresentados à Happier Than Ever”, à faixa título.

Com clipe lançado no mesmo dia que o próprio álbum, era de se imaginar que ela fosse o grande hit dessa nova era. Com uma transição dentro dela própria na qual a própria Billie parece estar colocando algo para fora, toda a composição tem um tom catártico, como um grande desabafo. E segundo a cantora, essa era a intenção.

“It was very satisfying to scream, because I was very angry. There’s so much anger in those songs — anger and disappointment and frustration.”

“Foi muito satisfatório gritar, porque eu estava muito zangada. Tem tanta raiva nessas músicas — raiva e desapontamento e frustração.”

A expectativa era de que ela encerrasse o álbum. Essa também era a ideia da própria artista se não fosse por Male Fantasy”, música em que a cantora fala sobre a culpa e a frustração que sente ao assistir pornografia para se distrair. Como quem diz que, por mais que você cresça e perceba todos os problemas do mundo, estamos inseridos em um sistema cruel e, portanto, é difícil fugir de determinados comportamentos que não necessariamente nos agradam e nos orgulhamos.

Mas, como a própria Billie já deixa avisado na primeira faixa do álbum, assim como todos nós, ela está fazendo o seu melhor: “I’m happier than ever, at least, that’s my endeavor/ To keep myself together and prioritize my pleasure” [Eu estou mais feliz do que nunca, pelo menos esse é o meu esforço/ Me manter de pé e priorizar o meu prazer].

happier than ever

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