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Hayley Kiyoko e a importância da representatividade lésbica na música

Se pararmos para pensar um pouquinho, “representação” é uma palavra que só recentemente começou a ser usada nos mais diversos tipos de mídia. Independente do que queremos representar, o fato é que até alguns anos atrás simplesmente não tínhamos esse tipo de conversa. Atualmente, no entanto, contamos com diferentes pessoas na mídia e na cultura pop que fazem a geração atual se sentir menos sozinha, mais inspirada e segura de ser quem é. Por mais que ainda tenhamos muito chão pela frente e ainda faltem diversos tipos de representação no cenário mainstream, seja em filmes ou séries, na música ou na literatura, graças à internet, hoje temos uma quantidade muito maior de artistas que falam diretamente às minorias.

No meu tempo — e acredito que no seu, que está lendo esse texto, também — isso não existia, e fico feliz ao saber que, de lá pra cá, as coisas melhoraram e tendem a melhorar ainda mais. Quando era mais nova, precisei procurar por pequenos detalhes em histórias e músicas sobre possíveis realidades que gostaria de viver, mas na maioria das vezes foi preciso inventá-los, porque não existiam espaços para alguém como eu. Hoje em dia, nós temos nos mais diferentes tipos de mídia pessoas que estão representando várias minorias e mostrando para o mundo que está tudo bem ser quem você é. Uma delas é Hayley Kiyoko.

Filha de mãe japonesa e pai irlandês, a ariana começou sua carreira muito cedo participando de séries da Disney, como Wizards of Waverly Place, ao lado de Selena Gomez, e dos filmes do Scooby Doo, mas foi o filme Lemonade Mouth que a fez ficar conhecida entre os fãs da Disney. Já adulta, participou de séries como CSI: Cyber; The Fosters, onde interpretou uma personagem lésbica com problemas com drogas; e da mais recente temporada de Insecure. Apesar de amar atuar e continuar ativa na profissão, a maior paixão de Hayley é a música. Sua primeira canção foi composta aos oito anos e até hoje seu pai insiste para esta que seja lançada. Sua carreira, contudo, não demorou muito para começar já que, na adolescência, ela entrou para a girlband The Stunners ao lado de Tinashe, que foi anunciada para abrir a primeira turnê de Justin Bieber e já tinha um álbum em andamento, mas o grupo acabou se separando no ano seguinte.

Apesar de ter tido uma prévia do que a aguardava no mundo musical, Hayley não era ela mesma e nem se sentia confortável. Em diversas entrevistas ela comentou sobre a pressão de ser sensual para agradar ao olhar masculino enquanto fazia parte do grupo. Um desses fatores era a plena consciência de que gostava de meninas, mas não estava pronta para se assumir. As coisas finalmente começaram a melhorar quando voltou a cantar músicas de sua autoria, sobre suas próprias experiências e sentimentos. Seu primeiro EP, A Belle To Remember, e seu sucessor, This Side of Paradise, foram lançados respectivamente em 2013 e 2015, mas foi com o clipe “Girls Like Girls” que ela atingiu seu primeiro sucesso. Atualmente, o clipe soma mais de 90 milhões de visualizações e resultou num contrato assinado com uma grande gravadora, a Atlantic Records. “Girls Like Girls” foi a primeira música que escreveu sobre como se sentia em relação a meninas. A letra da música mostra de forma simples, porém direta, que tal sentimento é comum, dizendo que “Girls like girls like boys do — nothing new” [“Garotas gostam de garotas como garotos gostam – nada de novo”].

“Eu estava numa sessão de composição e um compositor disse ‘Ah, você não deveria usar esse pronome porque outras pessoas não vão poder cantar.’ E eu respondi ‘Desculpe, eu tenho cantado músicas héteros a minha vida inteira, e estou bem.’” — disse ao Buzzfeed.

Inicialmente, seus clipes continham homens como pares amorosos, porque Hayley não queria ser vista como uma cantora definida por sua sexualidade. No entanto, com a recepção do clipe, ela percebeu não só que o mundo precisava de artistas que trouxessem esse tipo de visibilidade, como também que, para se expressar totalmente na música, ela precisava falar sobre tudo o que sentia, inclusive sobre amar mulheres. No meio de uma sessão, enquanto escrevia “Girls Like Girls”, ela se sentia inquieta e sua parceira de composição perguntou sobre o que ela gostaria de escrever e ainda não tinha escrito. Hayley só conseguiu pensar sobre ser lésbica e se relacionar com mulheres, então escreveu a música que nem imaginava que viraria um hit e, a partir daí, não tinha como voltar atrás. Hoje, seus fãs a chamam de Lesbian Jesus e fazem diversas montagens do seu rosto no corpo de Jesus, junto, a hashtag #20GAYTEEN, que tuitou logo no início do ano e é usada constantemente por seus fãs, por ela, e até por outros artistas.

“Eu não queria liderar com [a minha sexualidade], porque não sabia o que as pessoas iriam pensar. Eu senti como se as pessoas não fossem me aceitar como uma artista pop. Não estou querendo me sentir especial, mas não tem ninguém assim lá fora. É assustador.” — disse, para a Billboard.

Falando sobre outros artistas, não podemos deixar de reconhecer que lésbicas no cenário musical não são algo novo. Pelo contrário, existem várias cantoras lésbicas — Emily Haynes do Metric, Annie Clark mais conhecida como St. Vincent, Beth Ditto do grupo The Gossip —, mas nenhuma delas fala sobre se relacionar com outra mulher, e sim sobre relacionamentos em geral, o que não deixa de ser importante. A dupla de gêmeas lésbicas Tegan and Sara talvez sejam a maior referência quando falamos de cantoras lésbicas no cenário da música pop, estando elas em cena há mais de 15 anos, mas suas letras não têm definição de gênero. Shura, Muna e até mesmo Halsey, que recentemente cantou sobre sua bissexualidade em “Strangers”, são cantoras também conhecidas por falar abertamente da sua sexualidade, seja em clipes ou entrevistas, mas que nunca falam especificamente na música sobre amar alguém do mesmo sexo. E apesar de parecer algo pequeno, não é.

Assim como Kiyoko, desde pequena eu também assistia a filmes, reality shows e séries à procura de qualquer contato com duas garotas se beijando, mas elas sempre acabavam se machucando, morrendo ou cometendo suicídio. Era cansativo e acredito que toda menina que tinha interesse em outras meninas tenha se questionado se esse era o único final possível para nós. Parecia uma punição por algo “errado” até mesmo em mídias que exibiam esse tipo de narrativa de forma não preconceituosa. Hayley optou por mostrar para todos que existe um final feliz para todo o tipo de amor, e sabe que ver isso desde muito nova pode moldar uma pessoa de forma positiva ou negativa. “Nossa, estou ferrada” foi o que ela e eu pensamos quando vimos todas as referências sobre amar uma mulher serem assimiladas ao sofrimento ou a um final ruim. Desde “Girls Like Girls”, Hayley dirige os próprios clipes sempre focando em relações lésbicas. Ela quer normalizar o fato de serem duas garotas em um clipe, somente mais uma história de amor, e não um “olha, um clipe em que duas garotas se beijam!”. Não deveria ser necessário ainda falar sobre isso, mas é. Principalmente quando seus pares amorosos são de etnias variadas. Uma mulher descendente de japoneses com uma namorada negra, latina, loira, etc. Representatividade não somente para lésbicas, mas para todos os tipos de lésbicas.

Expectations, seu primeiro álbum, foi lançado na última semana de março de 2018. Foi por vontade própria que Hayley decidiu lançar um álbum que registra várias partes da sua vida, que não se resume somente à amorosa apesar de, infelizmente, ainda ser reconhecida por sua orientação sexual na cena musical, mas sobre diversos momentos importantes dos últimos anos. A música “Mercy/Gatekeeper” fala sobre a recuperação após um acidente que sofreu e a depressão que veio junto. “Molecules” é uma linda balada em homenagem ao irmão de uma amiga que faleceu. Uma parte do discurso no velório a inspirou a escrever sobre como nos sentimos quando alguém que amamos nos deixa. Na música “Palmtree”, Kiyoko fala sobre Los Angeles de um ponto de vista diferente do comum, geralmente sendo ligado ao sucesso, dinheiro ou Hollywood, mas como um olhar reflexivo sobre a cidade, suas palmeiras e toda uma geração de pessoas que se perdem enquanto tentam se encontrar. E uma das minhas favoritas, se não a favorita, o novo single, dueto com outra cantora LGBTQAI+, Khelani, chamada “What I Need” fala sobre uma menina que está apaixonada, mas ao mesmo tempo precisa que ela decida se quer se envolver com Hayley ou não, pois até então se identificava como heterossexual. Essa música, inclusive, tem a mesma narrativa de “Curious” e “Feelings”, seus singles anteriores, sendo ambas escritas para mesma pessoa. O título do álbum, Expectations, foi escolhido por ser sua maior qualidade e fraqueza. Seus EPs anteriores foram sobre descobertas e acontecimentos do passado, seu primeiro álbum é também a primeira vez que ela fala sobre a sua vida no momento atual. Grande parte das músicas são completamente inspiradas em acontecimentos que Hayley viveu como a marca no pescoço em “He’ll Never Love You”.

“E agora estou realmente lidando com a vida real e as situações em que estive, então realmente parece honesto e parece que cada faixa realmente representa uma parte diferente da minha personalidade e de quem eu sou” — para Teen Vogue.

Apesar de ser um disco muito pessoal, musicalmente ele é muito diferente, o que faz bastante sentido se falarmos da vida de uma jovem de vinte e poucos anos. Todas nós somos obrigadas a lidar com diversos acontecimentos ao mesmo tempo nas nossas vidas e foi essa a identidade que a cantora quis seguir no seu álbum de estreia. Hayley tem como ídola a cantora Sia e é influenciada por outros artistas como Fiona Apple e Arcade Fire. Uma outra grande influência que abriu o caminho pelo qual Hayley percorre, é a dupla de gêmeas canadense Tegan and Sara e a música “I Kissed A Girl” de Katy Perry. A música saiu quando ela tinha 17 anos e já sabia que era lésbica, mas nunca tinha ouvido nada na rádio que falasse com todas as letras sobre beijar uma garota, mesmo que por diversão. T&S, por outro lado, sempre deixou suas músicas sem gênero — como já dito anteriormente — mas é de conhecimento mundial que as irmãs gêmeas são lésbicas e nunca tiveram vergonha disso. Essas influências a fizeram se sentir menos sozinha e ligou uma luz necessária para existir coragem em contar a sua própria história para o mundo inteiro. O seu maior orgulho é não ter desistido e nós só temos a agradecer.

Hoje, Hayley ainda é considerada uma artista pequena, em ascensão, mas não podemos negar que cada passo, cada single, cada música, cada show, ela vem conquistando mais fãs e espaço na mídia. Além de ir crescendo como um ícone e alcançando mais pessoas como artista, ativista e uma referência de que sim, você pode ser quem é e ainda conseguir realizar o seu sonho. Em uma entrevista, desabafou falando que quando estava na escola chegava em casa, ia tirar um cochilo e sonhava com um mundo diferente que, felizmente, está vivendo agora. Posso falar que eu fazia a mesma coisa e é de um alívio imenso assistir clipes, ouvir músicas e ler sobre mulheres lésbicas de uma forma natural e não como algo único, e aos poucos também estou chegando perto do paraíso que sonhava quando era mais nova graças a artistas como Hayley. Graças a ela, e muitas outras que sei que ainda serão influenciadas e que estão por vir, daqui algum tempo o cochilo de meninas lésbicas não será seu modo de fugir para um mundo ideal, porque já estarão vivendo nele.

** A arte em destaque é de autoria da editora Thayrine.

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1 comentário

  1. TEXTO SENSACIONAL!
    Eu conheci a Hayley pela Disney, e quando vi o clipe de Girls Like Girls há uns anos atrás, fiquei maravilhada e impressionada com a qualidade da artista. Acompanhei ela até o lançamento do primeiro álbum esse ano com muita expectativa, e não me decepcionei. Eu gosto de todas as faixas, e de ouvir o disco inteirinho, porque sinto que ele conta uma história. Uma das minhas coisas favoritas dela são também os clipes, que sempre trazem uma narrativa interessante (adoro o de Curious, e o mais recente com a Kehlani).