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Entre Vinho e Vinagre: uma ode às amizades femininas

Seja pela sua longa trajetória no Saturday’s Night Live (SNL), seja pelo papel de Leslie Knope em Parks and Recreation, pelas breves falas em Meninas Malvadas, pela parceria com Tina Fey, ou, enfim, pelas dezenas de outras grandes aparições, Amy Poehler construiu para si mesma, no mundo da TV e da comédia, uma carreira com muitos pontos altos e com um significativo peso. Em maio de 2019, essa carreira contou com mais um marco: dirigiu seu primeiro filme, Entre Vinho e Vinagre (Wine Country), uma produção original da Netflix.

A história tem uma premissa muito simples: seis mulheres, amigas há décadas, se reúnem em Napa para comemorar o aniversário de cinquenta anos de uma delas. Contudo, seu extraordinário elenco — que conta, além da própria Amy, também com Rachel Dratch, Ana Gasteyer, Maya Rudolph, Paula Pell e, como uma espécie de convidada especial que não poderia mesmo não aparecer, Tina Fey — faz com que a simplicidade do enredo tenha o potencial de se tornar um grande filme de comédia, especialmente para o público que retrata: mulheres. E a história não falha em entregar o que promete.

Em um fim de semana carregado de vinho, essas seis mulheres vivenciam o que qualquer reunião de grandes amigas tem o potencial de se tornar, seja ela um grande evento, seja apenas um encontro no barzinho durante a happy hour. Com personalidades variadas e vivendo suas vidas de maneiras muito únicas, elas dividem risadas escandalosas, piadas sexuais escancaradas, pequenos segredos, manias íntimas e se apresentam como um grupo de verdadeiras amigas, apesar dos anos, dos eventuais afastamentos e de nem sempre concordarem umas com as outras. Melhor ainda, são amigas que estão envelhecendo juntas e enxergam essas grandes mudanças de maneiras muito diferentes, mas também muito divertidas.

Mais que os acontecimentos do filme, que não são extraordinários — porque não precisam mesmo ser —, o que faz com que a produção cinematográfica de Poehler se torne especial e única é justamente a intensa rede de sentimento que existe entre as mulheres que ela apresenta e que dialogam com o público feminino que o assiste. Nas conversas bêbadas, nas brincadeiras ou nas brigas, o que a espectadora de Wine Country encontra o tempo inteiro é uma uma cena que a permite se reconhecer na tela, associá-la a fatos da sua vida pessoal e, por isso, rir e chorar e de fato se envolver com a narrativa.

Poehler constrói com eficácia um relacionamento entre amigas que é verdadeiro sem parecer forçado, e que, porque não repete a dinâmica dos relacionamentos femininos clichês — normalmente baseados em uma compreensão absoluta e sem conflitos entre mulheres, ou criados a partir da necessidade de conversar sobre um homem —, permite que as experiências do filme pareçam também acessíveis, reais. Erguer seis mulheres de personalidades, vivências, realidades financeiras e medos completamente diferentes não é tarefa fácil e, mais importante, não é uma tarefa com a qual os diretores normalmente se preocupam, mas que ela executa sem tropeçar nenhuma vez.

A idade das personagens também não é um fator do qual Poehler se esquiva. Muito embora esteja sempre envolvido em um enorme tabu, o envelhecimento feminino — e suas consequências — é amplamente abordado ao longo do filme, que, afinal, se presta a ser uma história sobre a celebração de um aniversário que é também um marco: cinquenta anos, meio século.

Para a maior parcela feminina da sociedade, envelhecer é um problema, uma prova de que já não somos mais desejáveis, sexys, capazes de construir nada, como se a idade carregasse também uma limitação. A infantilização compulsória a qual estamos todas submetidas — e o medo constante das rugas, dos cabelos brancos, das “pelancas”, etc. — é a grande movimentadora de uma série de indústrias, e é a responsável por nos fazer engatar em processos cirúrgicos desnecessários e no mundo dos cremes anti-tudo. Uma mulher jovem é uma mulher desejada, é uma mulher que ainda tem oportunidades, é uma mulher que ainda é, sob o olhar masculino, válida, útil. No filme, uma mulher jovem é apenas mais uma mulher. E embora a idade traga as suas eventuais problemáticas — a crise de coluna, a incapacidade de aguentar uma noite de bebedeira e acordar bem no dia seguinte, todos os remédios que precisam ser tomados na hora certa, por exemplo —, ela não significa o fim absoluto de uma vida inteira; na verdade, às vezes significa justamente que é hora de começar de novo: como no caso da sua própria personagem de Poehler e da personagem interpretada por Rachel Dratch, que, com 47 e 50 anos, respectivamente, precisam lidar com uma demissão e um divórcio.

No fim das contas, envelhecer não é um problema: é o que permite que se cante “Eternal Flame” a plenos pulmões e se comemore a visita de Brené Brown em um restaurante que você ocupa. É também o que permite maturidade para engatar nas questões difíceis da vida, como a família, a morte e o medo da solidão. É, enfim, o que nos traz paz de espírito para transar com um homem vários anos mais novo só porque sim; para contratar uma taróloga que preveja o nosso futuro só pela graça da coisa; para ignorar os comentários de todos os especialistas muito interessados no vinho e simplesmente bebê-lo.

Em um ritmo que nos faz sentir também um pouco bêbadas, Poehler dirige uma história que nos abraça enquanto mulheres e que contempla grande parte das nossas questões, que nos faz sentir, no fim das contas, um pouco menos sozinhas. Mais que homens fumando charutos e bebendo uísque; mais que as comédias escancaradas com clichês repetitivos; mais que o apelo desesperado para agradar um público que não parece conhecer direito, esse filme de comédia é um ponto fora da curva e a prova de que os talentos de Poehler escoam e ainda ocuparão muitos espaços. Como uma reunião entre amigas que dura apenas 1h47min, mas que também dura um fim de semana inteiro, Entre Vinho e Vinagre é uma aposta certeira na comédia que um grupo de mulheres extremamente talentoso é capaz de produzir.

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