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Meninas Malvadas: nas quartas nós usamos rosa

Quando Meninas Malvadas estreou nos cinemas, em 2004, os tempos eram outros: Mark Zuckeberg havia acabado de criar o Facebook, Millie Bobby Brown era apenas um bebê, a internet discada ainda era uma realidade na vida de muitos e “My Happy Ending”“Toxic” e “My Immortal” estavam no top da MTV. Quase 15 anos depois, não há dúvida de que pisamos em um chão muito diferente: as redes sociais são parte intrínseca de nossas vidas; Millie Bobby Brown é a estrela não só de Stranger Things como também de outros blockbusters; a internet está disponível em praticamente qualquer lugar, sempre ao alcance de um clique; e as músicas citadas, hoje são tocadas durante a programação nostálgica das rádios. Algumas coisas, no entanto, não mudaram desde então — e a relevância de Meninas Malvadas é uma delas.

Escrito por Tina Fey — que também atua no longa como a professora Mrs. Norbury — e baseado livremente no livro Queen Bees and Wannabes: Helping Your Daughter Survive Cliques, Gossip, Boyfriends, And Other Realities Of Adolescence, da escritora norte-americana Rosalind Wiseman, Meninas Malvadas dificilmente poderia ser considerado um filme perfeito — impregnado do chamado feminismo branco, o filme usa estereótipos de gênero na construção de seus personagens e quase não há minorias em cena —, mas continua a ser uma fonte irresistível de diversão e frases de efeito que usamos até hoje.

No filme, Lindsay Lohan é Cady, uma adolescente de 16 anos prestes a frequentar um colégio pela primeira vez, após anos sendo educada em casa. Filha de um casal de zoólogos, o trabalho dos pais impediu que Cady crescesse nas tradicionais escolas norte-americanas, possibilitando, porém, o seu contato com a rica fauna e flora de algumas reservas africanas. Após retornar aos Estados Unidos, os pais se animam com a perspectiva de ver a única filha finalmente estudar em um colégio, mas sua incursão no high school não rende bons frutos de imediato e a adolescente se atrapalha em um sem número de situações. Não demora para que Cady perceba que o comportamento dos animais não é tão diferente assim dos adolescentes — ao menos não dentro do microcosmo escolar —, e, à medida que compreende as convenções sociais daquele ambiente, é apenas uma questão de tempo até que ela passe a se encaixar.

Janis Ian (Lizzy Caplan) e Damian (Daniel Franzese) são os primeiros que a acolhem e a apresentam ao colégio e às hierarquias que regem o lugar, e é nesse contexto que Cady tem o seu primeiro contato com as Plastics (ou As Poderosas, na versão dublada em português), o grupo das meninas mais populares da escola, composto pela abelha-rainha Regina George (Rachel McAdams) e suas fiéis escudeiras, Gretchen Wieners (Lacey Chabert) e Karen Smith (Amanda Seyfried). Embora seja alertada por seus novos amigos sobre a má fama do grupo, Cady acaba fascinada pelas meninas e, após uma conversa no refeitório em que Regina George a tira de uma situação constrangedora (“não é certo você sair com a Gretchen e depois dar em cima dessa pobre garota inocente”), é convidada a se sentar à mesa com elas, que se tornam suas principais companhias.

“O mundo das garotas é uma selva”

A analogia com o comportamento animal é feita mais de uma vez ao longo do filme, especialmente quando trata da dinâmica entre meninas no ambiente escolar, a hostilidade velada que sentem umas pelas outras, e suas inseguranças e frustrações. Em determinado momento, Cady revela que, uma vez no mundo animal, elas lidariam com sentimentos e conflitos como leoas, literalmente arrancando o cabelo umas das outras — o que, mais tarde, quando o conteúdo do Livro do Arraso (Burn Book, no original) vem à tona, de fato acontece. Meninas Malvadas destaca, no entanto, que essa rivalidade não existe de maneira isolada, mas como uma consequência dos discursos que essas jovens ouvem a vida inteira e que as incentiva a estabelecerem relações negativas e de competição umas com as outras. É desnecessário dizer que grande parte dos conflitos que movem a narrativa são resultado de mágoas profundas e disputas que vão desde o coração do aluno veterano e gatinho até amizades, aparência e popularidade — aspectos que são responsáveis por definir quem é quem dentro daquele ambiente.

Se inicialmente Cady parece imune ao discurso padrão, é evidente que, após algum tempo, a nova dinâmica passa a influenciar seu comportamento de tal modo que nem mesmo seus pais a reconhecem mais. O plano de vingança contra Regina George — que também nasce como um reflexo dessa mesma dinâmica — também perde o seu propósito: enquanto no início o objetivo principal é vingar a amiga maltratada por Regina no passado, logo Cady passa a agir por conta própria e toma decisões que servem somente a si mesma, ignorando até mesmo as pessoas que a acolheram quando ela era apenas uma novata perdida nos corredores da escola. Em determinado momento, Regina descobre que Cady a havia enganado e então inicia seu próprio plano de vingança, o que inclui desmascará-la na frente de todo o colégio. Mas o plano só funciona momentaneamente e, como é mostrado mais tarde, o episódio serve muito mais para evidenciar o quanto aquelas meninas sofrem e quanto aquele ambiente é hostil, ou como é difícil ser uma garota adolescente. Mesmo as meninas pouco populares exibiam comportamentos similares, falando mal umas das outras ou diminuindo colegas e amigas — ou seja, esse não era um comportamento exclusivo de um único grupo. Todas são garotas más e todas as garotas más são, também, vítimas.

A confusão, porém, faz com que seja possível que Cady eventualmente perceba o próprio erro tanto quanto o de outras garotas. Seu principal insight acontece em uma competição dos Matletas, um grupo de alunos extremamente talentoso em matemática: quando participa da rodada de desempate com uma garota de outra escola, ela percebe que o fato da menina ser menos bonita tanto não ajuda quanto não atrapalha a própria Cady, o que imediatamente a leva a refletir sobre tudo o que acontecera ao longo do ano escolar. E conclui: “Chamar alguém de gordo não te torna mais magra, chamar de idiota não te torna mais inteligente, estragar a vida de Regina George com certeza não me deixou mais feliz. Temos que tentar resolver os problemas diante de nós.” — uma lição que continua a reverberar mais de uma década depois.

“Em 3 de outubro, ele me perguntou que dia era”

Em uma das aulas de matemática, Cady conhece Aaron Samuels (Jonathan Bennett), veterano do colégio e ex-namorado de Regina. Cady se apaixona quase instantaneamente e, ainda que seja avisada por Gretchen e Karen que ex-namorados estão fora dos limites, ela se deixa envolver e logo começa a tentar fazer com que Aaron preste atenção nela. Cady é extremamente talentosa em matemática enquanto Aaron, definitivamente, não é. Cady é até mesmo convidada para fazer parte do Clube de Matemática do colégio — o que, nas palavras de Gretchen, é suicídio social —, mas começa a fingir não entender os exercícios apenas para que Aaron lhe dê atenção enquanto explica a ela as equações. Para deixar sua história ainda mais real, Cady começa até mesmo a ir mal nas provas, recebendo notas vermelhas e ficando próxima de reprovar de ano. Mrs. Norbury a alerta disso, mas Cady já está tão obcecada e envolvida com seu plano de conquistar Aaron e derrubar Regina George, que ignora os conselhos da professora.

Cady se diminui para ser notada por Aaron, e se um homem tem algum problema com o brilhantismo de uma mulher, esse problema é exclusivamente dele. Desde pequenas somos ensinadas a caber em moldes determinados pela sociedade; as mulheres costumam se anular por homens com alguma frequência, principalmente se relacionamentos amorosos estão envolvidos. Uma lição que Meninas Malvadas nos dá nesse quesito é que nunca devemos fingir ser o que não somos apenas para atrair a atenção de um garoto. Ele pode ficar sexy com o cabelo jogado para trás, mas nada disso importa se você não puder ser verdadeira em sua presença — sem falar que, no caso de Aaron Samuels, ele nem é tudo isso no final das contas, visto que permite que Regina desmereça Cady sem interferir ou não faz nada para impedir o bullying recorrente da abelha-rainha pra cima de Gretchen e Karen.

“Eu a odiava, mas ainda queria que ela gostasse de mim”

Após Regina George espalhar cópias do Livro do Arraso pelo colégio e ver todas as meninas brigando umas com as outras por conta de fofocas e boatos maldosos escritos pelas Plastics, o diretor decide reuni-las no ginásio para tentar entender o que aconteceu. Nesse contexto, Mrs. Norbury começa a dialogar com as alunas, e é nesse instante que temos alguns dos momentos mais icônicos de Meninas Malvadas. Quando a professora pede para que levantem as mãos todas as meninas que já falaram mal das amigas pelas costas, todas elas se manifestam, mostrando que, em menor ou maior grau, todas já sofreram julgamentos da parte de quem menos esperavam. A competição entre meninas é apenas mais um sintoma que reproduzimos ao sermos criadas em uma sociedade patriarcal. Além dos diferentes tipos de violências a que somos expostas durante toda a vida, ainda somos instigadas a ver outras mulheres como rivais e potenciais inimigas. O ódio que mulheres manifestam umas pelas outras está diretamente ligado com a insegurança — e é essa insegurança uma das grandes armas que mantém as mulheres em um eterno ciclo de submissão e controle. A competição entre mulheres não faz parte da natureza feminina, como querem nos fazer acreditar, mas é um conceito construído por uma estrutura social que nos valida apenas quando consegue nos desumanizar.

Quando Mrs. Norbury diz para as alunas que elas “precisam parar de se chamar de piranhas e vadias” porque “isso incentiva os homens a fazerem o mesmo” é justamente sobre sororidade que ela está falando. Um dos conceitos intrínsecos ao feminismo, sororidade significa dizer que mulheres precisam se unir e basear-se na empatia e companheirismo antes de julgar ou apontar o dedo para a outra. Isso não quer dizer, no entanto, que é preciso amar todas as mulheres, mas quer dizer que não julgar a outra é um ponto de partida essencial para que mulheres possam se fortalecer, livrando-se do peso dos estereótipos de gênero criados por uma sociedade machista. Quando chamamos umas às outras de vadias e piranhas, permitimos que os outros, por consequência, também nos chamem assim. Mulheres já possuem problemas o suficiente para lidar sem precisar se preocupar também com o julgamento feito por outras mulheres. Não precisamos fazer um bolo de arco-íris e sorrisos umas para as outras, mas respeitar nossas diferenças é essencial.

“Finalmente, o mundo das garotas estava em paz”

É preciso muito suor, lágrimas e maquiagem borrada para que a paz reine ao final de Meninas Malvadas, mas com algum esforço, isso é possível. A busca por aceitação social a qualquer custo, o slut-shaming — que ainda nem era chamado assim em 2004 —, a sexualização das garotas, a pressão social e os estereótipos de gênero estão impressos em cada frame de Meninas Malvadas. Ainda que seja uma comédia adolescente, o filme tem muito valor, principalmente ao mostrar o microcosmo do high-school norte-americano e como comportamentos tóxicos podem ser repetidos a exaustão apenas por serem considerados normativos.

Considerado, em um primeiro momento, um filme para garotas, Meninas Malvadas conseguiu ser transformado em um clássico dos anos 2000. Bem-sucedido nas bilheterias e entre a crítica, o filme teve sucesso ao colocar em suas personagens características com as quais todas podemos nos identificar. Cady, ao deixar-se influenciar pela situação e a briga entre Regina e Janis, é o retrato de alguém que sentiu o sabor do sucesso e do fracasso, mas se reconstruiu mesmo assim. Ainda que Regina figure como a abelha-rainha do colégio, é marcante sua insegurança com o corpo, principalmente quando decide submeter-se a dietas malucas apenas para conseguir se manter no padrão que considera ideal. Gretchen parecia em dúvida a respeito de seu lugar no mundo, enquanto Karen apenas seguia a deixa de suas amigas, deixando de ser sua própria pessoa. E mesmo Janis, com toda sua raiva e roupas excêntricas, é apenas o retrato de alguém que procura esconder suas cicatrizes vestindo-se de atitude rebelde. Todas nós somos — ou fomos — um pouco de cada uma dessas meninas um dia, tentando sobreviver a uma mar de incertezas, pressões e torcendo para sermos aceitas. Ainda bem que estamos trabalhando para mudar esse cenário, uma luta de cada vez. Grool.

O texto foi escrito em parceria por Ana Luíza e Thay


** A arte em destaque é de autoria da editora Thayrine Gualberto.

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