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Bom dia, Verônica: um thriller brasileiro macabro e impactante

Quando a DarkSide Books lançou a primeira edição de Bom Dia, Verônica, nos idos de 2016, logo me interessei pela trama. A editora anunciou a autora Andrea Killmore envolta em mistérios: sabíamos de antemão que o nome era um pseudônimo para proteger a verdadeira identidade da escritora, alguém que trabalhou na polícia brasileira, inclusive infiltrada em um caso que lhe causou uma grande perda. Seu livro de estreia refletiria toda essa carga emocional pesada, um thriller ambientado na cidade de São Paulo e que não mediria esforços para deixar o leitor com questionamentos durante toda a trama.

Lembro que comprei o livro naquele 2016 e li as pouco mais de 250 páginas em um dia, tamanha era a minha curiosidade a respeito da trama imaginada por Killmore. Eu queria saber logo como a escrivã Verônica Torres faria para desvendar dois mistérios bizarros envolvendo mulheres enquanto agia pelas costas de seu chefe, prestes a se aposentar e sem vontade de se envolver em mais investigações. Com uma vida até então pacata, burocrática e sem muitas emoções, Verônica não pensa duas vezes antes de mergulhar de cabeça em duas perigosas linhas de investigação após presenciar o suicídio de uma mulher e receber a ligação de uma outra pedindo ajuda para continuar a viver.

Não demora para que Verônica se veja enlaçada em tramas tão bizarras quanto macabras, e finalizei a leitura de Bom Dia, Verônica, querendo saber não apenas se haveria mais a contar da história da escrivã de polícia mas também curiosa a respeito da real identidade de Andrea Killmore. Não que isso fosse fazer diferença na maneira como eu continuaria encarando sua história — é só ver o exemplo de Elena Ferrante, a misteriosa autora da Tetralogia Napolitana que se mantém reclusa e no anonimato e que nem por isso faz menos sucesso entre seus leitores.

Bom dia, Verônica

Porém, em 2019, a DarkSide Books revelou o mistério que envolvia Andrea Killmore e seu Bom Dia, Verônica: não havia apenas uma pessoa por trás do pseudônimo, mas duas. Ilana Casoy e Raphael Montes uniram forças e talentos para escrever um thriller brasileiro da melhor qualidade, repleto de situações macabras e reviravoltas impactantes. Casoy já é conhecida da DarkSide Books por ter sido sua primeira autora brasileira e também por ter publicado junto da editora livros como Arquivos Serial Killers: Made in Brazil, Arquivos Serial Killers: Louco ou Cruel e Casos de Família. Criminóloga e escritora, Casoy usou de seu extenso conhecimento do tema para criar Bom dia, Verônica ao lado de Raphael Montes. Este, por sua vez, é escritor agraciado com o Prêmio São Paulo de Literatura por seu romance policial Suicidas, de 2010, tendo publicado também Dias Perfeitos, O Vilarejo e Uma Mulher no Escuro, este lançado pela Companhia das Letras em 2019.

Após o final impactante de seu livro de estreia, de acordo com os autores podemos aguardar por uma trilogia com as sequências Boa Tarde, Verônica e Boa Noite, Verônica — com, Casoy e Montes prometem mais reviravoltas que se aproximam no horizonte da protagonista. Quando do anúncio da real identidade de Andrea Killmore, também ficamos sabendo que Verônica Torres, a protagonista de Bom Dia, Verônica, não ficaria restrita aos livros e logo estrelaria uma série original Netflix com Tainá Mueller no papel principal, adaptando o livro de estreia da dupla.

Mas vamos ao livro. Em Bom Dia, Verônica acompanhamos a personagem título e sua vida outrora pacata virar de cabeça para baixo quando ela decide investigar dois crimes por conta própria. Como escrivã do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa da Polícia Civil em São Paulo, um cargo que recebeu como favor por parte de seu chefe, o delegado Carvana, e em consideração ao seu pai, Verônica não tem muitas perspectivas de avançar na carreira ou se tornar investigadora, seu objetivo real. Aos 38 anos, casada e mãe de dois filhos, ela passa os dias respondendo os e-mails de seu chefe, montando planilhas e arquivando casos. É em um desses dias que começa parecendo banal que o inesperado acontece: uma mulher, saindo da sala do delegado e visivelmente abalada, se joga da janela do 11º andar do DHPP enquanto Verônica a assiste sem poder fazer nada.

“Forcei um sorriso, concordando com ele. Mais do que um soco, o velho merecia umas porradas. Machista de merda. Eu sabia quanto era difícil para qualquer mulher vir até uma delegacia prestar queixa, ter que vencer a vergonha e explicar como foi feita de trouxa por um galã que lhe fez juras de amor via internet.”

O delegado Carvana, prestes a se aposentar, não quer ter que trabalhar no caso da mulher que se suicidou após sair de sua sala e pede que Verônica arquive o caso, porém a escrivã, impactada não apenas com a morte dela mas com a história que a levou até lá, decide investigar tudo por conta própria. Não demora para que Verônica descubra a história de Marta Campos, uma mulher solitária que após se encontrar com um homem que conheceu pela internet termina roubada e com uma infecção estranha na boca. Indignada com o descaso de Carvana diante dos acontecimentos, Verônica toma para si as evidências deixadas por Marta e parte em busca do aproveitador de mulheres mesmo que ela, uma escrivã, não tenha, de fato, experiência com investigações.

Em paralelo, conhecemos a história de Janete, uma mulher ingênua e esposa de um policial militar com um segredo macabro. Ao assistir Verônica no jornal comentando brevemente a respeito da morte de Marta Campos, Janete decide que a policial poderá ajudá-la a se ver livre do marido e decide entrar em contato com ela, mas nem tudo é tão simples quanto parece ser. O marido de Janete, Brandão, é um homem abusivo que além de maltratar e alienar a esposa de todas as maneiras possíveis, a obriga a ser cúmplice da série de crimes macabros cometidos por ele. Encoberto pela farda de policial, Brandão se entende acima da lei e Janete quer colocar um ponto final nessa trajetória de horror, mas lhe falta coragem suficiente para seguir adiante.

Verônica, enquanto isso, não desiste nem de Marta e nem de Janete e faz o possível para desvendar os dois mistérios em que se vê envolvida. Em Bom Dia, Verônica temos duas tramas costuradas de maneira instigante que farão com que o leitor vire as páginas avidamente, desejando chegar logo ao desfecho do livro. Ilana Casoy e Raphael Montes criaram personagens verossímeis que erram e acertam, metem os pés pelas mãos em mais de um momento, e parecem pessoas reais. Pode até mesmo ser um pouco difícil simpatizar com Verônica e seu jeito debochado de encarar a vida — e as outras pessoas — em um primeiro momento, visto que ela não é que o se espera da “heroína” de qualquer história, mas é justamente isso que torna o livro tão interessante.

“A vida é assim: você faz cem coisas certas, mas os sacanas só se lembram de uma coisa errada. É injusto pra caramba, e injustiça dói na alma.”

Embora tenha sede de justiça e queira, de certa maneira, vingar a morte de Marta e libertar Janete de seu relacionamento abusivo, seus métodos não são considerados os mais “corretos”. Porém, se fosse um protagonista masculino a andar no mesmo caminho que Verônica, ele seria reconhecido como um anti-herói, um cara que entende que os fins justificam os meios. E é assim que Verônica age: ela muitas vezes seduz em troca de informações e sexo para ela serve até mesmo como moeda de troca, mas para ela, tudo está sempre muito claro e Verônica não se pune por pensar assim. A protagonista utiliza métodos pouco ortodoxos para atingir seus objetivos, mas ela sabe que, se não for assim, nem Marta nem Janete terão a justiça que merecem.

Isso fica muito claro, por exemplo, nas inúmeras vezes em que Verônica tenta pedir ajuda ao delegado Carvana e se vê ignorada, desacreditada, apenas um reflexo do que acontece com mulheres, na vida real, que tentam denunciar casos de agressão e estupro — por qual motivo as vítimas desses crimes, em sua maioria mulheres, são sempre desacreditadas e precisam provar a violência que sofreram? Bom Dia, Verônica ecoa muito desses problemas reais o que faz com que a narrativa se torne atemporal — de 2016 para cá, três anos após a primeira edição do livro, o que vemos é que pouco mudou com relação a maneira como mulheres são tratadas pelo sistema.

De maneira geral, Bom Dia, Verônica é um livro instigante. É difícil deixá-lo de lado quando mistérios precisam ser resolvidos, mesmo que a protagonista pareça um pouco perdida e tola e alguns momentos da narrativa, mas isso a faz real. Verônica persegue, ao mesmo tempo, um serial killer e um necrófilo, e descobre mais de si e suas potencialidades enquanto isso — ela não é apenas a escrivã que faz o trabalho de secretária de um chefe preguiçoso, a mãe de duas crianças, ou uma esposa presa em um casamento que caiu na rotina, mas também é alguém determinada o suficiente para investigar o que outros não consideraram importante o suficiente. E essa é uma das maiores qualidades de Verônica; ela não desiste mesmo que os cenários que apareçam diante dela sejam surreais e macabros. A narrativa combinada de Ilana Casoy e Rapahel Montes é capaz de deixar o leitor angustiado em diversos momentos — as descrições de algumas cenas são realmente enervantes — e mostra o potencial da dupla em construir narrativas macabras.

As duas edições da DarkSide Books, de 2016 e 2019, trabalham para deixar o leitor pronto para a atmosfera tétrica do livro, com gaiolas e caixas de pássaros decorando as páginas. Ambas as edições, com capa dura, continuam o belo trabalho da editora e com certeza fazem de Bom Dia, Verônica, um livro imprescindível para os fãs do gênero.

“Não chorei as dores do mundo, mas minhas dores já eram suficientes para me inundar por completo. Nem sei quanto tempo fiquei ali, enquanto a raiva crescia a cada soluço, congelando a angústia e alimentando um sentimento novo, guardado a muito custo no fundo da minha alma.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a DarkSide Books.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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3 comentários

  1. “…e explicar como foi feita de trouxa por um galã que lhe fez juras de amor via internet.”
    Pq quando a vitima é homem e a criminosa é mulher as páginas feministas ficam fazendo piada?

    1. Oi Diony, tudo bem?
      Levando em consideração a citação que você pegou, o homem não é a vítima em questão. Não sei se você leu o livro, mas, no caso, o homem enganou e roubou uma mulher, que se suicidou em seguida. Não há piada no texto nesse caso, e nem haveria se a situação fosse ao contrário.