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Uma mulher no escuro: diferentes faces do trauma

Uma jovem mulher traumatizada pelos acontecimentos de sua infância: essa é Victoria, a protagonista de Uma Mulher no Escuro, sexto romance de Raphael Montes, lançado em maio de 2019 pela Companhia das Letras. Quando era muito pequena, a personagem presencia o assassinato de sua família. Vinte anos depois, o passado ainda a assombra e seus maiores medos reaparecem na sua vida de forma inesperada.

Victoria é a única sobrevivente de um atentado violento que dizimou sua família. No seu aniversário de 4 anos, assistiu seus pais e o irmão mais velho serem mortos a facadas por um adolescente, estudante da escola dirigida por seu pai. A menina passa, então, a ser criada por uma tia-avó, única parente restante, e vamos reencontrá-la vinte anos depois, quando uma mensagem pintada na parede do seu quarto revela que o assassino da sua família pode estar à espreita.

Até então, a personagem vive uma vida reclusa e tem — como é de se esperar — dificuldade em estabelecer relações de confiança. Além da tia-avó Emília, que agora vive em uma casa de repouso para idosos, Victoria se relaciona apenas com Dr. Max, seu psiquiatra, com Arroz, um rapaz que ela conheceu pela internet e com quem fez amizade, cuidando de manter uma distância razoável e sem realmente compartilhar com ele informações sobre a sua vida, e eventualmente com Georges, um escritor que frequenta o café onde Victoria trabalha. O único objeto que a liga ao seu passado e à sua família é Abu, o ursinho de pelúcia de sua infância.

O possível ressurgimento de Santiago, o assassino, traz à tona todos os traumas com que Victoria passou os últimos 20 anos tentando aprender a lidar. Além disso, toda a situação obriga a moça a escavar seu próprio passado em busca de pistas que possam levá-la até Santiago, e nesse processo acaba descobrindo algumas verdades sobre sua família que permaneceram enterradas por todo esse tempo.

É difícil falar sobre um livro de suspense sem estragar a experiência de leitura, então vou abordar alguns temas levantados, evitando falar diretamente sobre os fatos. Considero esse texto seguro no quesito spoiler, mas deixo a critério da audiência decidir prosseguir ou não com a leitura antes de ler o livro. Garanto não revelar nada sobre a resolução final do grande mistério da trama.

Victoria é uma personagem razoavelmente interessante, mas bastante rasa. É óbvio que uma experiência como a que ela viveu tão jovem marcaria qualquer pessoa para toda a vida, e possivelmente seria suficiente para moldar toda uma personalidade, mas no caso de Uma Mulher no Escuro, parece que, se eliminarmos o trauma, não sobra absolutamente nada. Victoria é uma personagem estereotipada e infantilizada, confinada nos limites de um acontecimento que se desenrolou em sua vida vinte anos antes.

Uma mulher no escuro - Raphael Montes

Não bastasse isso, ela é a única personagem feminina de destaque. A única relação que a moça tem com outra mulher é com a tia, que aparece de forma um pouco mais destacada mais para o final da trama. Com essa exceção, todas as pessoas com quem Victoria consegue criar algum laço são homens, o que serve ao propósito de criar e alimentar suspense, mas ainda assim não se justifica.

Um aspecto interessante de Uma Mulher no Escuro é a forma como o trauma é representado, não apenas por meio da protagonista, mas em outros personagens, e guarda uma relação central com o mistério da trama. Sem entrar em detalhes excessivos, o livro recai no já exaustivamente criticado uso do estupro como dispositivo de construção de personagem. Apesar disso, a inversão do gênero mais comum dessas situações faz com que a situação toda seja um pouco mais complexa de se analisar.

A presença de uma mulher no papel de abusadora não deixa de ser uma quebra de paradigma, mas os fatos são que 96% dos abusadores registrados em casos de estupro são homens, um dado que precisa ser frisado para que não nos esqueçamos que essa violência é marcadamente uma violência de gênero. Importante ressaltar também que o estupro dificilmente pode ser pensado como satisfação de impulsos sexuais, pura e simplesmente. É uma questão de poder, de exercer domínio sobre o corpo de outra pessoa. Todos esses fatores ficam eclipsados no uso instrumental feito do estupro em Uma Mulher no Escuro.

Apesar de tudo isso, essa inversão de papéis pode ajudar a pensar a forma como o gênero influi na forma como lidamos com situações traumáticas, por meio do paralelo entre os homens e a mulher retratados no livro, assim como a forma como meninas e meninos são ensinados a lidar com questões envolvendo sexualidade. É esperado de meninos desde jovens que demonstrem sua virilidade e suas disposições sexuais, o contrário do que ocorre no caso de meninas.

Uma Mulher no Escuro também traz à tona a forma como a violência e o abuso podem se perpetuar se não forem abordados e tratados da forma devida. O livro menciona, ainda que de passagem, as diferentes consequências que o abuso pode ter na vida de pessoas diferentes, o que é um ponto bastante interessante.

Finalmente, o suspense do livro é construído de uma forma bacana, que escorrega ligeiramente mas não chega a cair no óbvio. Tudo parece encaminhar na direção explorada para, no final, subverter as expectativas e, por isso, merece uma menção honrosa. A leitura é interessante e tem um bom ritmo, uma escolha interessante para quem gosta de suspense e descrições explícitas de violência.

Ficha técnica Uma mulher no escuro - 3,5 estrelas

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras.


** A arte em destaque é de autoria da editora Paloma.

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