Categorias: TV

O Justiceiro e o estigma da relação entre pacientes e psicólogos

Que a conversa sobre saúde e transtornos mentais tem evoluído nos últimos tempos é um fato. Debatemos mais sobre ansiedade, depressão, bipolaridade e séries como Atypical e Special também colocam em voga temas como autismo e capacitismo. Nesse sentido, a cultura pop tem auxiliado na difusão de representações acertadas de pessoas que convivem diariamente com algum tipo de distúrbio psíquico.

Por outro lado, a presença de personagens que são afetados por problemas de saúde mental em filmes, séries e livros nem sempre é feita da maneira mais adequada. Na medida em que somos agraciados com representações assertivas e que ajudam a subverter alguns estereótipos de indivíduos que sofrem com tais doenças, também nos são entregues incontáveis histórias que não lidam muito bem com personagens do tipo e acabam caindo em um lugar comum que reforça estigmas que há muito tempo deveriam ter sido quebrados e subvertidos.

Além disso, também se engana quem pensa que os únicos afetados pelo costumeiro descaso de Hollywood em se aprofundar em temáticas do gênero, construindo uma narrativa complexa e tridimensional, são os que sofrem de algum transtorno mental. Os psicólogos e psiquiatras, profissionais que ajudam a identificar, entender e tratar tais distúrbios, têm sua presença construída constantemente em produções de forma contraditória e até difamatória, pintado uma realidade do exercício da Psicologia que não existe (ou não deveria existir) e é extramente condenável e transgressora.

Segundo estudo acadêmico conduzido pelos autores Young, Boester, Whitt e Stevens, em 2008, 17% dos filmes mais populares da década de 1990 tem como personagem, pelo menos, um profissional de saúde mental. O modo como psicólogos e psiquiatras são representados é constante tema de estudos, o que levou diversos autores a definirem os estereótipos mais utilizados para representarem a profissão nas telas, sendo alguns dos mais populares “O Oráculo” — aquele que sabe e vê tudo —, “O Arrogante”, “O Sedutor e Antiético”, “A Mulher Incompleta”, “O Detetive”, “O Passivo e Apático”, “O Curador Dramático”, entre outros.

“That portray therapists as being unethical or ineffectual or having powers that they really don’t have, like a special ability to see inside somebody’s personality and to make predictions about behaviour, and the fact is that psychologists and psychiatrists really aren’t much better than anybody else at predicting future behaviour.”

“Isso representa terapeutas como sendo antiéticos ou ineficazes ou com poderes que eles realmente não têm, como a habilidade especial de ver através da personalidade de alguém e fazer previsões sobre comportamentos, e o fato é que psicólogos e psiquiatras realmente não são muito melhor do que outras pessoas em prever comportamentos futuros.” — Psicólogo Danny Wedding em entrevista ao Vice EUA

Além disso, os extremos dentro do âmbito da atuação do psicólogo parecem ser um tema favorito em filmes e séries: ou o profissional é totalmente incompetente e incapaz ou, por outro lado, é agente catalisador de uma mudança milagrosa alcançada pelo paciente em meio a uma epifania provocada por frases de efeito e pré-fabricadas.

Levando isso em conta, os estudos mostram que no que tange a construção de psicólogos na mídia, e por tabela todo o processo terapêutico, roteiristas e outros criadores de conteúdo não conseguem fugir totalmente de personagens com uma história baseada na quebra do rígido Código de Ética Profissional seguido pela categoria, colocando os profissionais em posições em que exibem os mais diversos comportamentos antiéticos e fogem de qualquer conduta minimamente parecida com o real exercício da profissão, prejudicado a imagem, credibilidade e seriedade do grupo profissional.

Conforme a psicóloga Júlia Gerhardt, formada pela Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó), e pós-graduanda em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica, o processo terapêutico exige por parte do psicólogo, e para a efetividade do tratamento, uma conduta ética, impreterivelmente baseada em técnicas e teorias fundamentadas por anos de estudos:

Acerca do papel e do trabalho psicoterapêutico dos profissionais da Psicologia muito se comenta, se troca, se ouve ou mesmo se assiste por aí. Tratam-se de diferentes discursos permeados de fantasias do imaginário individual e coletivo e que, por vezes, podem gerar e disseminar ideias e falas que, uma vez pré-concebidas, encontram-se distanciadas da realidade. Neste sentido, as representações midiáticas têm seu papel de influência no imaginário social, seja para uma representação apropriada, seja para a fetichização deste lugar. Ainda que muitas representações dos profissionais psi em séries e filmes possam destoar do real, considero interessante que os questionamentos sejam feitos e é indispensável que possamos falar sobre essa experiência, a psicoterapia.

Bem, trata-se de um encontro entre dois, o sujeito que sofre e procura ser ouvido e aquele capaz — teórica, técnica, pessoal e eticamente — de ouvi-lo e acolher sua dor e sua história. Encontro visceral, não tão somente da dupla, mas do sujeito consigo mesmo e, para tanto, o trabalho em psicoterapia não pode ser pensado em sua prática fora de um enquadre (setting) seguro e sigiloso, balizado pela ética, posicionado teórica e tecnicamente dentro da respectiva abordagem e de acolhimento humano.

A relação se constrói transferencialmente com tempo, confiança e cuidado. É na relação e na figura do psicoterapeuta que se transfere a história do sujeito que fala. Não cabe ao psicoterapeuta desejar a cura de seu paciente. Ao profissional está o trabalho de estar junto neste processo. Processo de construção e um Eu fortalecido para lidar de maneiras mais saudáveis com seu sofrimento e fazer face às suas paixões e ao mundo que o cerca.”

Claro que representações ruins de qualquer tipo de pessoa ou profissão podem ser produtivas quando possuem um ponto válido e subversivo dentro da trama em que estão inseridos, e mesmo assim é preciso um cuidado muito grande e forte motivação para se arriscar neste caminho. Produtos culturais que apresentam tropos nocivos como normais, sem nenhum tipo de ótica negativa ou subversiva, além de gerarem um desserviço para a comunidade sobre a qual se tratam são de péssimo gosto.

O Justiceiro

Foi desta forma, horrorizada e com um gosto ruim na boca, que assisti a uma das tramas desenvolvidas durante a segunda temporada de O Justiceiro. Cancelada juntamente com o resto do quinhão de séries nascidas da parceira entre Netflix e Marvel, o segundo ano da história de Frank Castle (Jon Bernthal) reserva algumas surpresas não muito boas para os telespectadores, que nada tem a ver com a total falta de ritmo e propósito do roteiro durante os treze episódios.

Atenção: este texto contém spoilers da segunda temporada de O Justiceiro!

Ao final da primeira temporada, Frank teve sua vingança contra Billy Russo (Ben Barnes) após descobrir que o ex-melhor amigo foi um dos grandes responsáveis pela morte de sua família. Ferido gravemente no rosto e com danos cerebrais sérios, Billy tem perda parcial da memória e não lembra de nenhuma das monstruosidades que cometeu nos últimos anos, o que deixa um vácuo em sua vida e lhe traz extrema dor e agonia. Internado em uma clínica para se recuperar tanto física quanto psicologicamente, a segunda temporada nos apresenta a relação de Billy com a psicóloga responsável por seu tratamento, Krista (Floriana Lima). Enquanto pessoas do passado de Billy, como a agente Dinah Madani (Amber Rose Revah), não acreditam, nem por um momento, em sua amnésia e possível recuperação, Krista parece muito certa do bom andamento do caso de seu paciente e segura de seu diagnóstico.

Até aí, tudo bem. O trem começa a sair dos trilhos a partir do momento em que Billy foge em busca de respostas e, sem encontrá-las, encurrala Krista em sua casa e pede por sua ajuda. A psicóloga confiante de que Billy apenas precisa de apoio e alguém que o auxilie a entender e lidar com suas emoções e trauma o acolhe e inicia, juntamente com ele, uma série de manipulações e jogos de mentiras com as pessoas ao seu redor. Não demora muito para que o relacionamento dos dois, já bem fora do âmbito profissional, uma vez que além de não reportar um indivíduo potencialmente perigoso e foragido para as autoridades, Krista o abriga em sua casa, passe para o nível romântico.

Enquanto colabora com os planos ilegais de Billy e o direciona para o caminho que acredita ser o melhor para a relação dos dois (fugir para um lugar onde possam viver tranquilamente) com a desculpa de que novos ares farão Billy superar seus problemas, Krista também usa sua influência e habilidades profissionais para conseguir informações de Madani sobre o que aconteceu com Billy no passado. Sendo terapeuta de Billy e tendo presenciado sua vulnerabilidade e angústias melhor do que ninguém, ao usar mão do poder que tem sobre ele e de sua posição privilegiada para moldá-lo e concretizar objetivos puramente pessoais, o roteiro coloca a persona profissional de Krista sob uma ótica de mau-caratismo e conduta criminosa, rompendo completamente com qualquer diretriz ética e moral, tudo isso de forma mal trabalhada, pouco aprofundada ou sequer problematizada.

O Justiceiro

O roteiro até nos dá pistas das motivações que levam Krista a se envolver com Billy e querer construir uma vida com ele, mas o real motivo nunca fica claro (ela está realmente apaixonada por ele? Toda a relação é apenas um meio de ela consertar os erros do passado? Fazer por Billy o que não conseguiu fazer pelo seu pai? Ou é tudo apenas um desejo de curar alguém por quem ela era responsável profissionalmente?). A certeza que fica é a de que o modo como a trama e o relacionamento entre os dois personagens foi desenvolvida em nada acrescenta positivamente para o telespectador, à discussão e divulgação do exercício do profissional de saúde mental ou sequer como alerta para casos em que psicólogos atuem de maneira antiética já que falta na trama um tom crítico sobre toda a situação.

As decisões narrativas tomadas pelos roteiristas também perpetuam um estigma fortíssimo de que psicólogas são incapazes de não se apaixonar, seduzir ou levar para o lado da atração física a relação profissional que mantém com seus pacientes aos olhos de Hollywood. Outro bom exemplo disso é o modo como a psicóloga Linda Martin (Rachael Harris), da série Lúcifer, é introduzida na trama da série. Procurada pelo Anjo Caído (Tom Ellis) para ajudá-lo a lidar com seus questionamentos e dores, a moeda de pagamento proposta para as sessões, em um primeiro momento, é o sexo. Algum tempo depois a psicóloga cai em si e recorda do Código de Ética que deveria estar seguindo e, apesar de continuar atendendo o personagem, rompe qualquer relação mais pessoal que tenha com ele.

“Sexual relationships between female therapists and their male patients are often portrayed as healing for professionals (Gabbard, 2001) and their patients (TrottPaden, 2001), in contrast with professional ethics (e.g., American Psychological Association, 2010) and evidence that these relationships are very harmful to patients (e.g. Russell, 1993). Films also tend to show women healing their patients through love rather than professional expertise, and are rarely effective otherwise (Gabbard, 2001; Gabbard & Gabbard, 1989).”

“Relações sexuais entre terapeutas e pacientes homens são frequentemente retratadas como curativas para as profissionais (Gabbard, 2001) e para os pacientes (TrottPaden, 2001), em contraste com a ética profissional (e.g., Associação Americana de Psicologia, 2010) e evidências de que essas relações são muito prejudiciais para os pacientes (e.g. Russell, 1993). Filmes também tendem a mostrar mulheres curando seus pacientes por meio do amor ao invés de através de sabedoria profissional, e sendo raramente eficazes ao contrário (Gabbard, 2001; Gabbard & Gabbard, 1989).”

É interessante observar que, segundo o mesmo estudo, são os profissionais homens, na verdade, os mais propensos a cruzar os limites da ética na vida real e se envolver em uma relação física com pacientes do que as mulheres, o que denota uma visão sexista e misógina que afeta diretamente o modo como as mulheres são tratadas e percebidas em nossa sociedade. Afinal, ao ver das produções culturais não há nada que o amor romântico de uma mulher não possa curar.

O Justiceiro

Tudo isso contribui para a montagem de um imaginário social no qual o profissional que lida com saúde mental é desvalorizado, subestimado, inferiorizado e tem sua importância e impacto diminuída e desacreditada. O caminho acerca da conscientização e quebra de estigmas em torno de doenças como depressão e ansiedade avança pouco a pouco, apesar de ainda permanecer forte em alguns quesitos, uma vez que doenças como ansiedade e depressão não são vistas como tais por não causarem feridas aparentes. A contínua reprodução indistinta e irresponsável de psicólogos em situações em que transgridem o Código de Ética e de incompetência em nada contribui para que a áurea de desconhecimento e incompreensão ao redor da profissão e dos temas ligados a ela se dissipe e jogue luz sobre a relevância da atuação destes profissionais em uma sociedade moderna que adoece cada dia mais e aonde fazer terapia ainda é um tabu.

De acordo com estudo realizado pelo instituto Market Analysis, em 2016, apenas 2% dos adultos dos principais centros urbanos do Brasil faziam psicoterapia. Isto em um país que leva o título de população com maior índice de transtorno de ansiedade do mundo e quinta maior taxa de casos de depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O restante do mundo também não vai muito melhor: são 322 milhões de pessoas com depressão, o que representa uma fatia de 4,4% da população mundial.

Não fazer terapia nem sempre é uma escolha pessoal ou consequência de crenças e ideias pré-concebidas, é preciso ter isso em vista também. Muito outros fatores influenciam a não busca por ajuda profissional quando se trata de saúde mental, sobretudo econômicos. Mas nem só de representações ruins sobrevive a indústria cinematográfica. Júlia indica duas séries que acertam na construção da figura do psicólogo, apesar de ocorrerem algumas romantizações acerca do exercício da profissão, os acertos se sobressaem aos erros:

O seriado norte-americano In Treatment (2008-2010) foi produzido e exibido pelo HBO e possui três temporadas; e o seriado brasileiro Sessão de Terapia (2012-2014 e retornando em 2019) ainda que inspirado em In Treatment, não “se repete” e também vale a pena ser acompanhado. De qualquer forma, é importante lembrar que se tratam de produções para entretenimento e há ressalvas a serem feitas em alguns pontos da representação do processo e dos profissionais.”

A reflexão que fica é a que devemos olhar com mais carinho e afeto para estes profissionais, reconhecer sua importância em nossa jornada de autoconhecimento e na busca por meios mais saudáveis de lidar com os anseios, desejos e inseguranças do ser humano. Pensar criticamente e observar de maneira vigorosa o modo como a categoria é retratada, debater nos espaços públicos e privados sobre os preconceitos e crenças infundadas que são atribuídas a Psicologia e desmistificar os estigmas a ela atrelado são exercícios diários que precisamos adotar se quisermos contribuir para que projeções como a de que a depressão será a doença mais incapacitante até 2020 sejam abrandadas.

“O preconceito, que gera estigma, pode ser combatido com conhecimento. Melhorar o conhecimento gera desmistificação de falsas crenças e estereótipos.” — PsiquiatraNadège Herdy para o Estadão.


** A imagem em destaque é de autoria da editora Ana Vieira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *