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5 referências literárias nas letras de Taylor Swift

É incontestável dizer: Taylor Swift é uma das melhores compositoras de sua geração. Você pode não gostar do som que ela faz, mas seu repertório enquanto letrista só veio evoluindo desde o início de sua carreira. O talento da artista para criar histórias com suas canções é inegável, e o domínio da mágica de tecer narrativas sempre esteve com ela, mesmo em suas primeiras composições, feitas enquanto era adolescente. Se você é fã da cantora, é claro que pensou primeiro em “Love Story”, canção presente no álbum Fearless, de 2008, e em Fearless Taylor’s Version, de 2021. Mas as referências literárias de Taylor Swift estão presentes em muitas outras canções, indicando o vasto interesse da cantora pelos clássicos da língua inglesa e literatura de maneira geral. Aqui estão cinco dessas referências literárias e as conexões com seus versos inspirados.

Romeu & Julieta, William Shakespeare

“Romeo, take me somewhere we can be alone
I’ll be waiting, all there’s left to do is run
You’ll be the prince and I’ll be the princess
It’s a love story, baby, just say, ‘Yes'” 
– Love Story

Impossível não perceber as referências à grande tragédia de William Shakespeare nessa canção. Romeu & Julieta é uma das histórias favoritas de Taylor Swift e a cantora viu a oportunidade perfeita para referenciar o clássico quando se encontrou em uma situação parecida com a da protagonista de Shakespeare, mas sem todas as mortes envolvidas, é claro. Em entrevista para o The New York Times em 2009, Taylor disse que a canção foi inspirada por um garoto com quem ela quase namorou, mas que não era muito querido por seus amigos e família. Usando todo o drama de que somente uma adolescente é capaz, Taylor se colocou no lugar de Julieta quando percebeu que as únicas pessoas que queriam que eles ficassem juntos eram eles mesmos.

taylor swift

Diferente da trama original escrita por Shakespeare, em “Love Story” os protagonistas encontram seu final feliz. Para a jovem Taylor Swift, esse teria sido o final ideal para Romeu e Julieta, então ela decidiu pegar os personagens e colocá-los em uma realidade em que o final feliz não somente é possível, mas se concretiza com um vestido branco e casamento. Para a cantora, “Love Story” é sobre um amor que você precisa esconder, por qualquer que seja a razão — no caso dela, por gostar de um garoto que a família não aprova; no caso de Julieta, toda a tensão envolvendo a rivalidade entre as famílias Montéquio e Capuleto. Não havia briga e disputas entre as famílias de Taylor e o garoto em questão, somente um romance que não era muito bem-visto por seus amigos e familiares. Ainda em “Love Story” há uma breve referência à A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne, no verso em que Taylor canta “’Cause you were Romeo, I was a scarlet letter” [“Porque você era Romeu, eu era uma letra escarlate”], clássico que ela retomaria mais tarde em “New Romantics”, de seu álbum 1989. Taylor nunca namorou o garoto que inspirou “Love Story” (o mesmo que inspirou “White Horse”, também de Fearless), mas a canção segue sendo uma das mais românticas e esperançosas de seu repertório.

Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll

“We found Wonderland
You and I got lost in it
And we pretended it could last forever”
– Wonderland

Assim como em “Love Story”, não há muito segredo a respeito de qual é a referência por trás de “Wonderland”, já indicada no título da própria canção ao mencionar o País das Maravilhas da conhecida história. Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, é um clássico da literatura em língua inglesa e favorito de muitas pessoas, tendo recebido diferentes adaptações audiovisuais ao longo dos anos. A mais conhecida e adorada, sem dúvidas, é a versão clássica da Disney, mas outras experimentações foram lançadas posteriormente, como o Alice no País das Maravilhas protagonizado por Mia Wasikowska com direção de Tim Burton, o jogo de horror Alice: Madness Returns, de 2011, e a série japonesa Alice in Borderland, livremente inspirada no clássico de 1865 escrito por Carroll.

No caso de Taylor Swift, as referências foram utilizadas para contar a história de um relacionamento onde os envolvidos estão tão sedentos um pelo outro que sentem que encontraram o País das Maravilhas apenas para perceber, na sequência, que não era bem assim e que o relacionamento que parecia perfeito estava repleto de rachaduras desde a superfície. Os versos constroem todas as fases do relacionamento, dizendo como os personagens “encontraram o País das Maravilhas, mas se perderam” e como “no final, no País das Maravilhas, ficaram loucos”. Outro verso de “Wonderland” menciona como a curiosidade colocou os personagens da canção em apuros, tal qual Alice ao seguir o Coelho até a sua toca (“Haven’t you heard what becomes of curious minds?” [“Você não ouviu o que resulta de mentes curiosas?”]).

taylor swift

Dois versos que os fãs gostam de dissecar, no entanto, se referem aos olhos verdes e o sorriso do Gato Risonho: “Didn’t you flash your green eyes at me?/ Didn’t you calm my fears with a Cheshire cat smile?” [“Você não piscou seus olhos verdes para mim?/ Você não acalmou meus medos com um sorriso do Gato Risonho?”]. Os versos se referem com clareza ao personagem do Gato Risonho, uma criatura levemente maligna no caminho de Alice, que aparece apenas quando bem entende, mas, para os fãs, também é uma relação óbvia com Harry Styles, seus olhos verdes, e o relacionamento com Taylor Swift (e o fato de que ele também só aparecia quando achava conveniente). Coincidência? Acho que não.

Rebecca, Daphne Du Maurier 

“I wait by the door like I’m just a kid
Use my best colors for your portrait
Lay the table with the fancy shit
And watch you tolerate it
If it’s all in my head, tell me now
Tell me I’ve got it wrong somehow
I know my love should be celebrated
But you tolerate it”
– tolerate it

Na icônica conversa entre Taylor Swift e Paul McCartney para a Rolling Stones, a cantora admite ter lido, à época, Rebecca, livro escrito por Daphne Du Maurier cuja trama tem inúmeros pontos em comum com A Sucessora, da brasileira Carolina Nabuco. O livro de Carolina Nabuco foi lançado em 1934, quatro anos antes da narrativa de Du Maurier, e traduzido para o inglês pela própria Carolina para ser encaminhado para editoras estrangeiras. O manuscrito de A Sucessora foi enviado para editoras dos Estados Unidos para ser publicado, mas nenhuma se interessou pelo título. Ao ler Rebecca, lançado em 1938, muitos críticos se deram conta da semelhança entre as obras, inclusive a própria Carolina que, em sua autobiografia, conta como acredita que o manuscrito enviado para as editoras dos Estados Unidos deve ter parado nas mãos de Du Maurier que, na sequência, escreveu seu próprio texto. Carolina Nabuco decidiu não processar Du Maurier por plágio, mesmo após o livro ter sido transformado em filme por Alfred Hitchcock em 1940, dizendo-se satisfeita com o fato de o plágio ser proclamado pelos leitores de ambos os livros. Mas essa é uma história para outro momento.

Aqui, basta saber que em “tolerate it”, faixa de número cinco do álbum evermore, lançado em 2020, Taylor Swift narra uma história muito parecida com de A Sucessora e Rebecca ao falar sobre como a personagem de sua canção sempre faz o possível pela pessoa que ama, mas que essa pessoa, em contrapartida, apenas a tolera. Em entrevista para a Apple Music, Taylor Swift confirma que a inspiração para compor “tolerate it” veio de fato da leitura de Rebecca:

“When I was reading, you know, ‘Rebecca’ by Daphne du Maurier and I was thinking, ‘wow her husband just tolerates her. She’s doing all these things and she’s trying so hard and she’s trying to impress him and he’s just tolerating her the whole time.’ There was a part of me that was, you know, relating to that because at some point I felt that way so I ended up writing this song ‘tolerate it,’ which is all about trying to love someone who’s ambivalent.” 

“Quando eu estava lendo, você sabe, Rebecca, de Daphne du Maurier, eu pensava, uau, o marido dela apenas a tolera. Ela está fazendo todas essas coisas e está tentando tanto e está tentando impressioná-lo e ele apenas a tolerando o tempo todo. Havia uma parte de mim que estava, você sabe, relacionada a isso porque em algum momento eu me senti assim Acabei escrevendo essa música tolerate it, que é sobre tentar amar alguém que é ambivalente. ”

Tanto em A Sucessora quanto em Rebecca, uma jovem se casa com um viúvo milionário, mas começa a se sentir acuada e perseguida pelas memórias de sua primeira esposa. Quadros com o rosto emblemático da esposa falecida estão dispostos pela mansão em que vão morar, os móveis e decorações escolhidos por ela permanecem, e não há nada que a atual esposa consiga fazer para obliterar a sensação de que nunca será boa o suficiente para fazer o marido esquecer a esposa falecida. No caso de A Sucessora, Marina, a protagonista, é uma jovem que até então vivia em uma fazenda, mas precisa se adaptar à intensa vida da alta sociedade do Rio de Janeiro quando se casa com Roberto, um rico empresário. Marina, então, passa a se sentir pressionada para ocupar o lugar deixado por Alice, a falecida esposa, com perfeição, mas nada do que ela faz parece ser capaz de fazer com que o círculo social em que está inserida deixe de se lembrar da mulher que morreu.

taylor swift

Em “tolerate it”, Swift pega a deixa desse sentimento de inadequação constante e a transforma em uma música triste sobre alguém que tem o coração partido inúmeras vezes por desejar o amor, ter a recíproca desse sentimento, por alguém que só tolera sua presença. No verso “You’re so much older and wiser and I” [“Você é tão mais velho e mais sábio e eu”], Swift referencia o relacionamento entre os protagonistas, cuja diferença de idade é de pelo menos vinte anos e sempre acentuada pelo sentimento de inadequação sentido pela jovem esposa. Enquanto o eu lírico da canção faz de tudo pelo relacionamento, ela percebe que não há recíproca, que a pessoa que ela mais ama não está disposta a fazer os mesmos esforços por ela. Mesmo sabendo que merece algo melhor (“I know my love should be celebrated/ But you tolerate it”) [“Eu sei que meu amor deveria ser celebrado/ Mas você o tolera”], ela continua tentando desesperadamente fazer com que seu parceiro a ame, ainda que seja sem sentido continuar tentando.

Ainda sobre a referência a Rebecca, em “no body, no crime”, faixa de número seis de evermore, o marido da história cantada por Taylor Swift é encontrado morto da mesma forma como uma das personagens do livro de Du Maurier. A referência está no verso “Good thing my daddy made me get a boating license when I was fifteen” [“Ainda bem que meu pai me fez tirar uma licença de barco quando eu tinha quinze anos”]. “no body, no crime” é uma brincadeira de Taylor e sua amiga Este Haim, onde envolve a personagem traída da narrativa — Este —, true crime e o retorno de Swift para o country, evocando canções como “Before He Cheats”, de Carrie Underwood, e “Goodbye Earl”, das The Dixie Chicks.

O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald

“It was so nice throwing big parties
Jump into the pool from the balcony
Everyone swimming in a champagne sea
And there are no rules when you show up here
Bass beat rattling the chandelier
Feeling so Gatsby for that whole year”
– This Is Why We Can’t Have Nice Things

Considerada a obra-prima de F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby, publicado em 1925, também é um dos livros favoritos de Taylor Swift e já foi referenciado em diferentes momentos de suas canções. A mais marcante talvez seja “This Is Why We Can’t Have Nice Things” em que ela, logo nos primeiros versos, fala sobre o quão legal é dar grandes festas, pular na piscina de uma varanda, nadar em um mar de champagne e se sentir Gatsby durante todo o ano. Ainda que faça parte de sua era reputation, sendo a canção de número 13 do álbum, “This Is Why We Can’t Have Nice Things”, para muitos fãs, relembra as grandes festas que Taylor dava durante sua era 1989, algo muito Jay Gatsby de se fazer. De suas grandes festas de 4 de julho, data da independência estadunidense, às celebrações de Ano Novo, as comemorações de Taylor Swift frequentemente contavam com a presença de celebridades como Beyoncé e Lorde, só para citar algumas, em sua mansão em Rhode Island.

Além da evidente referência na primeira estrofe, todo o tema de “This Is Why We Can’t Have Nice Things” se relaciona à festas e celebrações, algo que marca também o enredo de O Grande Gatsby. No romance de F. Scott Fitzgerald acompanhamos a história de Jay Gatsby, um enigmático e rico proprietário de uma grande mansão em Long Island, famoso na narrativa por promover festas luxuosas frequentadas por escritores, produtores de cinema, esportistas de renome, gângsters e todos aqueles que eram “alguém” nos anos 1920. Há um mistério ao redor de Gatsby que parece indecifrável, mas é seu interesse por Daisy Buchanan que acaba por mover a narrativa adiante. Porém, diferente do que possa parecer, “This Is Why We Can’t Have Nice Things” é, do começo ao fim, uma mensagem para Kanye West e sua relação conturbada com a cantora que começou no ano de 2009 no MTV Video Music Award, quando West interrompe o discurso de agradecimento de Swift, e degringola de fato em 2016.

Outra canção de Taylor Swift com referências à O Grande Gatsby, é “happiness”, a faixa número sete de evermore. Quando ela canta “I hope she’ll be a beautiful fool/ Who takes my spot next to you” [“Espero que ela seja uma linda tola/ Que tome o meu lugar ao seu lado”] é uma referência direta ao livro de F. Scott Fitzgerald visto que a expressão “beautiful fool” aparece no livro quando Daisy diz esperar que a filha cresça para ser uma “bela idiota”: na visão da personagem, essa é a melhor coisa que uma garota pode ser neste mundo, “uma linda pequena idiota”. A fala pode parecer rude, ainda mais quando dita por uma mãe sobre a filha, mas mostra o quanto Daisy está ciente do mundo em que vive e de sua tragédia particular. Para Daisy, a sociedade costuma recompensar mulheres por serem tolas, e não inteligentes ou ambiciosas. Essa passagem do livro indica que Daisy está ciente do estilo de vida que escolheu, e que nada foi feito por acaso.

Ainda em “happiness”, o verso “All you want from me now is the green light of forgiveness” [“Tudo que você quer de mim agora é a luz verde do perdão”], faz referência à luz verde, presença marcante em todo O Grande Gatsby. Durante o livro, a luz verde que brilha do outro lado da baía, na casa de Daisy, é tudo que Jay consegue ver e simboliza o desejo dele de se reunir com seu antigo amor.

Jane Eyre, Charlotte Brontë

“Time, curious time
Gave me no compasses, gave me no signs
Were there clues I didn’t see?
And isn’t it just so pretty to think
All along there was some
Invisible string
Tying you to me?”
– invisible string

Publicado em 1847, Jane Eyre, de Charlotte Brontë, conta a história da personagem título e sua jornada na Inglaterra durante o reinado de George III. Órfã e acolhida por uma tia, irmã de seu falecido pai, Jane tem uma infância marcada por abusos psicológicos por parte da tia, e abusos físicos por parte de seu primo. Jane, no entanto, não aceita quieta os abusos que sofre e seu comportamento é visto como afronta pela tia, que faz questão de desencorajar interações de seus filhos e funcionários com a menina, a isolando cada vez mais de todos. Nesse cenário, somente os livros trazem algum conforto para a pobre Jane. Os maus tratos e injustiças que sofre durante a infância fazem Jane aprender desde cedo a se virar sozinha enquanto todos lhe dão às costas. Quando Jane se torna adulta, já longe dos olhos maldosos da tia, ela consegue um trabalho como preceptora em Thornfield Hall para instruir uma garotinha, porém as coisas mudam de figura quando o proprietário do lugar, Mr. Rochester, retorna para a residência.

Jane Eyre causou desconfiança quando publicado pela primeira vez, principalmente devido aos questionamentos a respeito do papel da mulher na sociedade presentes na obra. A primeira publicação feita por Charlotte foi feita sob o pseudônimo de Currer Bell justamente para evitar chamar atenção para o fato da autora da obra ser uma mulher em uma época em que escrever jamais deveria ser uma alçada feminina. Charlotte Brontë passou muito de sua força, coragem e resistência para sua protagonista, o que fica evidente na maneira como Jane se defende e é resiliente, sempre sendo fiel a si mesma.

Nas canções de Taylor Swift, Jane Eyre aparece como referência em “invisible string”, mais especificamente no verso “And isn’t it just so pretty to think/ All along there was some/ Invisible string/ Tying you to me?” [“E não é tão bonito pensar que/ Todo esse tempo existia alguma/ Corda invisível/ Amarrando você em mim?”]. Quando Mr. Rochester fala sobre seus sentimentos para Jane, ele usa a mesma simbologia presente em “invisible string”:

“It is as if I had a string somewhere under my left ribs, tightly and inextricably knotted to a similar string situated in the corresponding quarter of your little frame.”

“É como se eu tivesse uma corda em algum lugar atrás das minhas costelas, do lado esquerdo, atada de modo firme e inexplicável a uma corda similar situada no local correspondente do seu corpo diminuto.”

Mas não é apenas Charlotte Brontë quem usa da simbologia do fio invisível unindo dois amantes: na China há a lenda de Akai Ito (赤い糸) que fala sobre um fio vermelho invisível que une pessoas destinadas a ficar juntas. Independente da situação em que se encontrem, do tempo ou do lugar, o fio, mesmo emaranhado, nunca será partido, unindo o par para sempre. Na lenda chinesa, os fios que unem os amantes está amarrado em seus tornozelos, enquanto na lenda japonesa, Unmei no Akai Ito (運命の赤い糸), que significa “corda vermelha do destino”, os fios unem as almas gêmeas pelos dedos mindinhos. Na lenda japonesa, a verdadeira experiência do amor acontecerá com a pessoa que está do outro lado do fio, ainda que, nesse caminho, elas se relacionem com outras pessoas. É possível encontrar diversas referências à lenda do fio vermelho em produções japonesas, especialmente em animes e mangás como InuYasha, Bleach e Cardcaptor Sakura.

No vídeo de “willow” a linha invisível citada em “invisible string” aparece logo no primeiro frame, quando Swift, sentada ao piano, segura uma linha dourada que a leva para dentro do instrumento, entrando em outra realidade e continuando a narrativa iniciada em “cardigan”, primeiro single de folklore. Mas voltando à Jane Eyre, na sequência de “invisible string” está a canção “mad woman”, que também se relaciona com o livro de Charlotte Brontë. Aqui teremos spoilers do livro, então, cuidado: a primeira esposa de Mr. Rochester foi dada como louca e trancada no ático de Thornfield Hall por ele, mas, o que descobrimos juntos de uma atordoada Jane, é que a loucura de Bertha, a primeira esposa, foi causada pelo próprio Mr. Rochester. O rótulo de “mulher louca” foi colocado em Bertha por Mr. Rochester, o que Taylor Swift leva para seus versos ao cantar “Every time you call me crazy, I get more crazy/ What about that?/ And when you say I seem angry, I get more angry” [“Toda vez que você me chama de maluca, eu fico mais maluca/ Que tal?/ E quando você diz que eu pareço brava, fico mais brava”]. Esses versos, em específico, não se relacionam apenas com Jane Eyre e toda a história pregressa da primeira esposa presa no ático, dada como louca, mas com um estereótipo muito comum às mulheres, o da mulher histérica.

Esse é um rótulo com o qual Swift também tem bastante intimidade, dado o fato de que a mídia já se referiu a ela como histérica e louca, principalmente por cantar sobre seus relacionamentos passados, apontando, por diversas vezes, que sua “longa lista de ex-namorados” só servia de munição para seus versos. O fato é que com Taylor Swift nada é gratuito, e ela não apenas pegou a narrativa da mulher louca como a ressignificou à sua própria vontade em “Blank Space”, de 1989. Em “mad woman”, e também em “the last great american dynasty”, Swift canta sobre como a sociedade misógina em que vivemos sempre ataca mulheres — no caso de “the last great american dynasty”, em “There goes the last great American dynasty/ Who knows, if she never showed up, what could’ve been/ There goes the most shameless woman this town has ever seen/ She had a marvelous time ruining everything” [“Lá se vai a última grande dinastia americana/ Quem sabe, se ela nunca tivesse aparecido, o que poderia ter sido/ Lá se vai a mulher mais louca que esta cidade já viu/ Ela se divertiu bastante estragando tudo”] a personagem é Rebekah Harkness, uma socialite estadunidense, antiga proprietária da mansão em que Taylor mora em Rhode Island. Rebekah, que veio de uma família rica e se casou quatro vezes, também teve a experiência de ser vista como louca e de estragar as coisas, tal como Taylor — e a gente também.


**A arte em destaque imagens que ilustram o texto são de autoria da editora Thayrine Gualberto.

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4 comentários

  1. Passada com o tanto de referências que eu simplesmente deixei passar (Jane Eyre!!!!) Gatsby e Rebecca/A Sucessora eu estou procrastinando a leitura faz anos, mas acho que depois desse texto preciso priorizar, porque tolerate it se tornou uma das minhas preferidas .-. E essa mencao a A Letra Escarlate eu também deixei passar batido…. vai ter uma parte 2? 👀👀👀

  2. Eu sou fã de Taylor desde 2009 e sou completamente apaixonado pelas referências e pela forma como ela domina o storytelling de suas canções. Ela é genial! E esse texto é tão bom que eu gostaria de tê-lo escrito! Hahahaha parabéns!!!