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Fearless (Taylor’s Version): sem cavalo branco, destemida

Eu e Taylor Swift temos, além das mesmas iniciais no nome, praticamente a mesma idade. Talvez justamente por isso, à época do lançamento de Fearless em 2008, eu não tenha entrado na febre dos fãs da cantora e acabei não sendo tão cativada por suas músicas country e narrativas românticas, muito ocupada tentando ser destemida por mim mesma. Hoje, com o lançamento de seu Fearless (Taylor’s Version), me vejo muito mais em contato com a cantora, e em quem ela se transformou com o passar dos anos, do que antigamente.

Mas até chegar aqui, passamos por um longo caminho. Eu, para deixar de lado a bobagem de pautar minhas vontades e desejos de acordo com as expectativas alheias, ela, perdendo o direito sobre sua arte e recuperando-a por meio das regravações das músicas que compôs ainda adolescente e no início da vida adulta. Há dois anos, Taylor anunciou que regravaria seu antigo material como forma de readquirir os direitos sobre suas composições após as chamadas masters (originais) gravadas enquanto fazia parte da Big Machine terem sido adquiridas por Scooter Braun sem que ela tivesse a oportunidade de comprá-las. A história das regravações de Taylor Swift, inclusive, é uma das minhas favoritas dentro da indústria da música e provavelmente reverberará por anos como exemplo de alguém que retomou o controle da própria narrativa — algo que faz parte da mitologia de Taylor Swift talvez como nenhuma uma outra coisa é capaz de fazer. Para além da “longa lista de ex-namorados” (que ficou completamente no passado, importante frisar) e as canções de coração partido por desilusões amorosas, o que Taylor sempre dominou com maestria foi justamente a mágica de contar histórias.

Revisitando Fearless tanto tempo depois de seu lançamento original e regravando as canções com uma voz mais madura e arranjos especiais, mas que ainda soam como as canções antigas, a cantora novamente toma para si o que sempre foi seu de direito, mas parou nas mãos de quem sequer apreciava seu trabalho por completo. Suas histórias, seus sonhos e desejos, tudo repousava nas músicas que lançou ainda adolescente e que conversaram com as expectativas de milhares de outros adolescentes ao redor do mundo. Claro, Taylor Swift tinha o privilégio de vir de uma família estruturada, financeira e emocionalmente falando, de ter o carisma e o look considerado perfeito (que, em seu documentário, descobrimos que foi cultivado em cima de um distúrbio alimentar e problemas de autoimagem), que ajudaram a pavimentar seu caminho para o estrelato, mas nada disso teria permanecido se não houvesse um verdadeiro talento em tudo o que ela se propõe a fazer.

Fearless (Taylor’s Version) contém todas as dezenove canções lançadas originalmente em 2008, além da extra “Today Was a Fairytale” do longa Idas e Vindas do Amor, e outras seis composições inéditas, as chamadas From the Vault. Aqui podemos entrar em contato com a nossa adolescente interior e cantar “Love Story” e “You Belong With Me” a plenos pulmões, dançando no quarto com o som nas alturas, para desespero de nossos familiares quarentenados no cômodo ao lado. O que Taylor faz bem, e sempre o fez, é embutir em suas canções um sentimento atemporal de pertencimento, seja enquanto canta country, quando se aventura no pop ou mergulha de corpo e alma no indie, como acompanhamos em seus recentes lançamentos de pandemia, os álbuns surpresa folklore e evermore. Taylor sempre foi excelente em narrar sentimentos e ocasiões, então quando ela canta versos como “There’s something ‘bout the way/ The street looks when it’s just rained/ There’s a glow off the pavement/ You walk me to the car/ And you know I want to ask you to dance right there/ In the middle of the parking lot” [“Tem algo de especial sobre o jeito/ Que a rua fica quando acabou de chover/ Há um brilho na calçada/ Você me leva até o carro/ E você sabe que eu quero lhe pedir para dançar bem ali/ No meio do estacionamento”], em Fearless, canção que abre o álbum, ela consegue imprimir imagens mentais que casam com sensações que são praticamente universais no amor romântico.

Fearless (Taylor's Version)

Iniciar as regravações de seu trabalho por Fearless, seu segundo álbum de estúdio, que lhe rendeu o primeiro Grammy de Álbum do Ano (outros dois viriam com 1989, de 2016, e o já citado folklore de 2020), e não por Taylor Swift, de 2006, já dá a dica de que a cantora e compositora buscaria forças na sua antiga persona para reaver seus direitos, e não há nada melhor do que uma garota adolescente tomando as rédeas de seus sentimentos para nos relembrar o que é ser destemida de verdade. Em Fearless recebemos as narrativas intrínsecas à adolescência feminina, aos dilemas dos primeiros amores, a melhor amiga e, claro, o que é ser uma adolescente per se. Como ouvir Fifteen e não pensar que, ei, já passei por isso, quando Swift canta “And when you’re fifteen/ Feeling like there’s nothing to figure out/ Well, count to ten, take it in, this is life/ Before you know who you’re gonna be/ At fifteen” [“E quando você tem quinze anos/ Você sente como se já soubesse tudo que precisa saber/ Bem, conte até dez, reflita, isso é a vida/ Antes de você saber quem você deve ser/ Aos quinze anos”]?

É o mesmo sentimento que cativa um ouvinte mais atento de “The Best Day”, que consegue recontar com cores e sensações a história de uma infância protegida e encantada. “There is a video I found from back when I was three/ You set up a paint set in the kitchen and you’re talking to me/ It’s the age of princesses and pirate ships and the seven dwarves/ And daddy’s smart and you’re the prettiest lady in the whole wide world” [“Há um vídeo que achei de quando eu tinha 3 anos/ Você montou um conjunto de pintar na cozinha e você estava falando comigo/ Esta é a época de princesas e navios de piratas e os sete anões/ Papai é esperto e você é a moça mais bonita de todo o mundo”]. Há uma doçura intrínseca a cada verso, momentos que soariam simplistas se narrados por qualquer outra pessoa mas fazem perfeito sentido quando estão vindo de Swift.

Mesmo que eu não tenha vivido a Swift Fever em tempo real no final dos anos 2000, ainda assim foi impossível passar incólume por suas canções. Seja nas aulas de violão que eu fazia com a minha irmã em que ensaiamos “Love Story” incontáveis vezes quando eu, pedante, só queria tocar Pearl Jam, ou nas publicações do Tumblr, era impossível não conhecer as canções de Taylor Swift. Sendo assim, ouvir as seis From the Vault é ser transportada para aquela época de um jeito confortável, como se estivesse recebendo notícias de uma amiga com quem não converso há muito tempo. É dessa maneira que encaro “You All Over Me”, em que Taylor faz dueto com Maren Morris, “Mr. Perfectly Fine”, mais uma canção para Joe Jonas, mas que cabe até mesmo em toda a situação Swift versus Scooter(s) se quisermos ir pelo viés da ironia, e “That’s When”, dueto com Keith Urban. A voz mais madura de Taylor somada aos versos de sua persona adolescente é um casamento praticamente perfeito — é nesse momento em que vemos que seu icônico verso de “All Too Well”, “so casually cruel in the name of being honest”, nasceu com o “Hello, Mr. Casually Cruel” de “Mr. Perfectly Fine”. É aquela história: “Mr. Perfectly Fine” andou para que “All Too Well” pudesse correr.

Observar Fearless depois de esmiuçar os trabalhos mais recentes de Taylor em Lover, folklore e evermore, é ver o quanto ela amadureceu enquanto letrista e compositora, mas também notar que o cerne de todo o seu trabalho permanece o mesmo: a criação de narrativas intrincadas e com as quais é fácil se identificar, tendo você se apaixonado pelo seu melhor amigo durante a adolescência, como acontece em “You Belong With Me” ou sido um dos vértices de um triângulo amoroso como cantado na trilogia “cardigan”, “august” e “betty”. Eu também não sou a mesma que dava os primeiros passos na faculdade em 2008, mas espero ter mantido dentro de mim um pouco daquele olhar encantado ao estar iniciando mais uma etapa importante (™) da minha vida — algo que Taylor Swift conseguiu manter durante todos esses anos, mesmo passando pela era reputation no caminho. Agora ela não tem mais toda a inocência de Fearless, mas se mantém verdadeira aos seus sentimentos e à sua arte, mesmo depois de todos esses anos.

Fearless (Taylor’s Version) é um bem-vindo abraço repleto de nostalgia em um mundo que parece ter perdido a capacidade de amar. A inocência da Taylor adolescente entra de mãos dadas com a maturidade da Taylor adulta em um trabalho que soa como um lembrete de que tudo passa, mesmo os corações partidos que parecem que nunca vão se curar, os dramas do ensino médio e ânsia por finalmente começar a viver. Fearless é o álbum ambicioso de uma adolescente que queria conquistar o mundo (e conquistou), repleto de versos escritos por ela sentada no chão do seu quarto imaginando quando finalmente chegaria lá. Em um momento em que a pandemia nos obriga a parar e viver das reminiscências do passado, Fearless encontrou seu caminho para o meu coração de uma maneira que eu nunca acharia possível.

Quando Fearless foi lançado eu estava preocupada demais com outras questões, mergulhada nas minhas músicas indie e grunge, mas, no final das contas, tudo acontece ao seu tempo. Eu posso não ter criado memórias à época em que as músicas foram lançadas, mas estou fazendo tudo isso agora, com as regravações — o que, se paro pra pensar, faz muito mais sentido por serem as canções de Taylor, sem nenhum cara ganhar por isso. Consigo ouvir os versos sobre primeiros amores, como em “Forever and Always”, e me transportar para quando era eu a personagem em “Cause I was there when you said: Forever & always”, das mesma maneira que “Breathe” faz muito mais sentido em versos como “I see your face in my mind as I drive away/ ‘Cause none of us thought it was gonna end that way/ People are people and sometimes we change our minds/ But it’s killing me to see you go after all this time” [“Eu vejo seu rosto na minha mente enquanto eu dirigo para longe/ Porque nenhum de nós pensou que iria acabar desse jeito/ Pessoas são pessoas e algumas vezes nós mudamos de ideia/ Mas está me matando ver você ir depois de todo esse tempo”] do que fazia em 2008. E se a Taylor adolescente canta em Fearless “and I don’t know how it gets better than this”, a Taylor adulta pode responder com toda a certeza do mundo: fica. A princesa salva a si mesma dessa vez, sem cavalo branco, destemida.

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2 comentários

  1. que texto maravilhoso, definiu exatamente a minha sensação ao ouvir o álbum, apesar de ter me conectado com ele em 2008 ouvir a regravação agr é uma experiência totalmente diferente.