Categorias: LITERATURA

A Guerra Que Me Ensinou a Viver: a invencível Ada

Quando encontramos a pequena Ada em A Guerra Que Salvou a Minha Vida, a menina não sabia ao certo quantos anos tinha e muito menos o dia em que nasceu. Ela e seu irmão mais novo, Jamie, não conheciam nada além do apartamento onde viviam com a Mãe em um bairro pouco favorecido da Londres de 1939. Os anos são difíceis, a Inglaterra e a Alemanha estão em guerra, e as crianças estão sendo evacuadas de Londres para o campo com o objetivo de afastá-las dos bombardeios que podem atingir a cidade.

Os aviões nazistas estão à caminho e Hitler, cada vez mais insano. É nesse momento que Ada vê uma oportunidade de mudar de vida junto com seu irmão e fugir dos maus-tratos perpetrados pela Mãe, e a menina decide se misturar ao comboio de crianças evacuadas, tentando a sorte em outro lugar. Dessa maneira, Ada e Jamie vão parar na casa de Susan Smith, uma mulher triste e solitária que vive reclusa e que, em um primeiro momento, se recusa a receber os irmãos em sua casa como parte dos esforços de guerra do SVC, Serviço Voluntário Feminino, liderado por Lady Thorton. Ada e Jamie, acostumados a não serem desejados por ninguém, aceitam seu destino, mas Lady Thorton insiste e, finalmente, Susan os abriga. A partir desse momento, a guerra salvaria não apenas as vidas de Ada e Jamie, mas também de Susan e até mesmo da mulher de ferro que é Lady Thorton.

A Guerra Que Salvou a Minha Vida, escrito por Kimberly Brubaker Bradley e lançado no Brasil em 2017 pela DarkSide Books, é uma ode à esperança narrada por uma criança que vivenciou, desde muito cedo, o nojo e o desprezo vindos da própria mãe. Ada, que nasceu com o pé torto, uma deficiência que poderia ter sido facilmente evitada por meio de uma cirurgia, passou toda sua curta vida sendo ojerizada pela mãe, que se envergonhava da má formação com que a filha nasceu. A guerra surge na vida de Ada como um recomeço para ela e seu irmão, abrigados em Kent no meio de pastagens verdinhas e mar ondulante, um lugar que os salvaria e os abraçaria com amor.

Após o sucesso de seu primeiro livro, Kimberly Brubaker Bradley retoma a história de Ada em A Guerra Que Me Ensinou a Viver, também lançado no Brasil pela DarkSide Books. Nesse segundo livro, reencontramos Ada, Susan e todos os personagens que aprendemos a amar e a sensação é a de rever amigos queridos enquanto nos sentamos para tomar um chá e colocamos a conversa em dia. O ano é 1940, a guerra contra o nazismo de Hitler adquire tons cada vez mais dramáticos, e Ada, Susan e Jamie — sem esquecer do pônei Manteiga e do gato Bovril — construíram uma família para si em meio aos escombros de um bombardeio. Ada, enquanto isso, está prestes a realizar a cirurgia que, nas palavras da menina, cortaria e rearranjaria os ossos de seu tornozelo, formando um pé funcional. A menina sente medo, além de expectativa, mas Susan permanece ao seu lado para acalmá-la, certificando-se de que tudo ficará bem. “Onze anos que acontecia a guerra entre todo o resto do mundo e eu”.

Ainda que esteja vivendo sua nova vida ao lado de Susan em um lar amoroso e seguro, é difícil para Ada se desconectar dos velhos hábitos adquiridos de seu contexto anterior de medo e abuso, e a lembrança da Mãe é uma constante nos pensamentos da menina mesmo quando ela já não pode mais alcançá-la. Anos de dor e sofrimento não são apagados de uma hora para outra, por mais diferente que seja a nova realidade em que se encontra, e Ada não consegue se sentir segura e despreocupada mesmo com todo o amor e cuidado de Susan. A menina não pôde ser criança quando era tempo, cuidando de Jamie na ausência da Mãe, e agora Ada não consegue desvencilhar-se das obrigações que impôs a si mesma ainda tão nova. Se durante A Guerra Que Salvou a Minha Vida Ada procurava encontrar um lugar no mundo, em A Guerra Que Me Ensinou a Viver, a menina precisa aceitar que agora pertence não apenas a um lugar, mas também à Susan e todos aqueles que verdadeiramente se importam com ela e a amam por completo. Ao passar toda a vida sem amor e carinho, Ada resiste ao aceitar sua nova realidade e, talvez por medo de perder tudo o que lhe é mais querido de uma hora para a outra, se fecha e se afasta de Susan e seus cuidados.

Os maus-tratos sofridos por Ada durante toda a infância causaram um trauma difícil de superar, e isso está refletido na maneira como Kimberly Brubaker Bradley conta sua história. A Guerra Que Me Ensinou a Viver, assim como o primeiro volume da série, também é narrado por Ada, e ainda que a menina seja espirituosa e corajosa, permanece também teimosa e um tanto arredia — e isso, de maneira alguma, é culpa dela. Convencida pela Mãe de que não merecia amor, atenção ou carinho, Ada entende que essa é a única maneira de se relacionar com os outros e demora a permitir que Susan entre verdadeiramente em sua vida. Susan, por outro lado, não tem mais receio em acolher as crianças pois aprende a amá-las de todo o coração, e os esforços que realiza para fazer com que Ada entenda sua nova vida são dignos de todo o amor do mundo. Jamie, por ser mais novo que Ada e não ter uma deficiência, não recebeu tanto ódio e desprezo da Mãe quanto a irmã e por isso para ele é mais fácil aceitar Susan, algo que Ada não consegue compreender com facilidade. Leva tempo para curar uma vida inteira de abusos e humilhações, mas Susan não desiste e dá o espaço necessário para que Ada se sinta confortável o suficiente para procurá-la por conta própria.

“O Jamie e eu também éramos náufragos, mas no fim das contas não tínhamos sido resgatados. Não tínhamos chegado a uma ilha. Ainda lutávamos para não nos afogarmos no mar abalado pela tormenta.”

A Guerra Que Me Ensinou a Viver insere novos personagens à rotina de Ada e sua família, e isso enriquece ainda mais a história. Além da questão das crianças refugiadas, aquelas que mais sofrem e perdem quando uma guerra está em curso, a autora também traz para a sua narrativa a realidade dos judeus alemães, pessoas que precisaram fugir de seu país para manter a própria vida, deixando para trás tudo aquilo que possuíam, além de suas famílias, devido a cólera de um líder enlouquecido. A escrita de Kimberly Brubaker Bradley cria uma trama delicada e sensível que consegue contar, por meio dos olhos de uma criança, as dificuldades enfrentadas por aqueles que são diretamente atingidos por um conflito armado. Há o racionamento de alimentos, os toques de recolher, os blecautes escurecendo as janelas à noite, as sirenes que avisam sobre os bombardeios e a ameaça de morte que se materializa quando o mensageiro de bicicleta aparece no horizonte — as circunstâncias são as piores possíveis, mas a invencível Ada persiste e resiste à elas.

Kimberly Brubaker Bradley desenvolveu, mais uma vez, uma história que marca e emociona na mesma medida que diverte. Como A Guerra Que Me Ensinou a Viver é narrado pelo ponto de vista de Ada, uma criança, algumas das observações feitas pela menina e o irmão são dignas da inocência intrínseca à elas. Mesmo que o livro fale sobre a guerra e as crianças envolvidas nela, é possível encontrar momentos leves e infantis, como quando Jamie decide adotar as galinhas e o porco da família, dando nomes à eles, ou quando Ada se confunde a respeito da existência de dragões — é a inocência misturada com a falta de conhecimento, falas sem censura de crianças que estão apenas começando a se sentir confortáveis no mundo em que vivem.

Ao final da edição — impecável, no já conhecido padrão DarkSide Books de qualidade — ainda encontramos uma mensagem de Myriam Rawick, de 13 anos, uma criança síria, refugiada e sobrevivente da guerra civil que assola seu país: “Pela primeira vez, entendi o que significava a guerra. A guerra era minha infância destruída sob essas ruínas e fechada em uma caixinha. […] Para mim, da minha infância, só sobra isso. Só uma caixinha”. Quisera que ela — e nenhuma outra criança no mundo — não precisasse entender a guerra.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora DarkSide Books.


** A arte em destaque é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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2 comentários

    1. Costumo ler na hora do almoço, no trabalho, e não foram poucas as vezes em que tive que segurar o choro! O livro é lindíssimo, pra chorar e pra sorrir. (: