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Mães Paralelas: o poder da verdade sobre si

Duas mulheres grávidas se conhecem no hospital momentos antes do nascimento de suas filhas. Tirando o fato de que as duas estavam prestes a parir, elas têm pouco em comum. Janis (Penélope Cruz) é uma fotógrafa de quarenta e poucos anos, tem um apartamento lindamente decorado — ponto para a fotografia impecável do filme — e uma vida estável, na medida do possível. Ana (Milena Smit) vive com a mãe, acaba de sair da escola e não queria ter essa filha. Vidas muito diferentes que são unidas pelo fato de estarem prestes a se tornar mães e por não terem os pais de suas filhas presentes em suas vidas. Essa é parte da premissa de Mães Paralelas (Madres Paralelas, no original em espanhol), o mais recente filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar, lançado nos cinemas e na Netflix em fevereiro de 2022.

Atenção: este texto contém spoilers!

Um dos pontos centrais da narrativa são as mulheres no seu papel de mãe, representado tanto por Janis quanto por Ana, as personagens que têm suas filhas no início do filme, quanto por suas próprias mães, avós e outras antepassadas. Teresa (Aitana Sánchez-Gijón), a mãe de Ana, é uma mãe que faz o possível para estar presente na vida da filha, ao mesmo tempo em que persegue os próprios sonhos. Em determinado momento do filme, ela deixa a filha e a neta recém-nascida em casa e sai numa turnê nacional com sua companhia de teatro. Embora fique claro que ela foi uma mãe ausente em muitos momentos, isso não é utilizado pela trama para criar uma imagem de uma mãe que não se preocupa com a filha. Em momento algum ela é culpada por isso, pois, ao mesmo tempo em que essa mãe se ausenta, o pai de Ana também não está presente. Os dois são igualmente ausentes e igualmente culpados, embora a figura do pai não chegue a ter relevância o suficiente na narrativa.

Toda a história muda de figura quando, passado alguns meses do nascimento das meninas, Janis se dá conta de que sua filha não se parece nada com ou o pai e tampouco com ela própria. Após fazer um teste de DNA, comprova o que já sabia: a criança não era sua filha. Mais tarde, descobre também que sua filha e a de Ana haviam sido trocadas no hospital quando nasceram e que a sua filha havia morrido pouco tempo antes. Dessa forma, a dor de perder não apenas uma, mas duas filhas, leva Janis a esconder a verdade por algum tempo, até que a mentira se torna insuportável. Gostaria de destacar aqui a qualidade da atuação de Penélope Cruz neste papel, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Mostrando mais uma vez que consegue transitar com naturalidade entre papéis leves, até cômicos, e um drama intenso como esse, Penélope Cruz apresenta uma personagem com um passado carregado de dúvidas, que luta para trazer a verdade à tona, mesmo quando a mentira e a omissão parecem mais confortáveis.

Um outro ponto latente em Mães Paralelas é a paternidade ausente. O pai de Ana é mencionado algumas vezes, mas não chega a aparecer no filme. Ele representa uma espécie de castigo na vida da filha, que havia morado com ele durante algum tempo, mas volta para a casa da mãe por não conseguir se adaptar à cidade. Já o pai da filha de Ana é uma pessoa que ela mal conhecia — sua gravidez foi fruto de um estupro sofrido, mais um dos muitos temas sensíveis tratados pelo filme. Apesar disso, Ana consegue amar sua filha e, mesmo tendo a oportunidade de deixá-la com outra pessoa que a amava, escolhe cuidar dela.

O pai da filha de Janis, Arturo (Israel Elejalde),  é um homem casado com outra mulher, que tem outra família e é ausente devido aos próprios pedidos de Janis — mas cumpre um outro papel central na história, que é o de trazer à luz fatos desconhecidos. Durante todo o filme há uma outra história que perpassa a trama, relacionada a uma cova ilegal onde foram enterradas pessoas que foram assassinadas durante a Guerra Civil Espanhola (1936–1939). Embora o assunto seja apenas pincelado durante o filme, demandando um conhecimento prévio do espectador, vejo este ponto como uma conexão interessante entre histórias de vida pessoais e a história de uma nação. Em ambas, a verdade em relação ao próprio passado é um ponto-chave da identidade e da compreensão de si, das relações com os outros e com a sua própria história.

É Arturo o responsável pela escavação da cova e também quem diz para Janis que a filha deles não se parece nem um pouco com nenhum dos dois. Dessa forma, traz à superfície a verdade que outros queriam submergir, pois pode ser dolorida demais. Saber a verdade sobre os pais de cada criança significa esclarecer suas origens, ainda que cada uma das mães tenha amado verdadeiramente suas filhas, tanto as biológicas quanto as de quem cuidaram. Saber de quem são os corpos enterrados na cova também significa conhecer suas origens, pois são os antepassados das pessoas daquele povoado que estão ali, mortos por acreditarem nos seus ideais. Mas conhecer a verdade sobre essas pessoas não é importante apenas para aqueles que estavam diretamente envolvidos com as pessoas assassinadas: trata-se de algo importante para todo o país, pois é a história de vida de uma nação que estava sendo contada ali.

Dessa forma, conhecer a verdade sobre si mesma e sobre o próprio passado é uma das linhas que costura essa belíssima teia de temas. Através da ficção e da história de Janis, Almodóvar trata de um assunto ainda sensível para a Espanha e que não pode ser esquecido. Fazendo um paralelo com o Brasil, o filme serve como um lembrete de nossas próprias dores e da nossa própria história, dos muitos conflitos e mortes durante a Ditadura Militar, que deixou inúmeras covas como as que são mostradas no filme.

Encerro este texto com a mesma citação que o diretor encerra o filme, lembrando que a História está sempre viva e esperando para ser contada:

“No hay historia muda. Por mucho que la quemen, por mucho que la rompan, por mucho que la mientan, la historia humana se niega a callarse la boca.” — Eduardo Galeano

Mães Paralelas recebeu 2 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Atriz (Penélope Cruz) e Melhor Trilha Sonora Original (Alberto Iglesias).


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