Categorias: LITERATURA

Conectadas: amores, relações virtuais e assédio contra mulheres gamers

“(…) Feéricos era outro nível. Era um MMORPG, o que significava que pessoas do país inteiro podiam jogar juntas e interagir, cada uma interpretando um personagem.” É esse o universo onde começa Conectadas, romance de Clara Alves, publicado pela Editora Seguinte, selo da Companhia das Letras.

Por mais que a gente tente escapar às vezes (eu mesma não tento tanto assim não), o mundo dos e-sports está cada dia mais perto. Vira e mexe acompanho os tuítes de clubes brasileiros que têm suas próprias equipes, e é um passo natural que isso esteja também cada vez mais inserido na literatura. Especialmente na literatura jovem-adulta escrita por mulheres, pois, nós jogamos também! É a segunda vez que resenho um livro que traz mulheres e jogos, e eu sempre começo achando que a leitura não vai ser pra mim. Ao final do livro estou completamente absorta pela história. Foi assim com Heróis de Novigrath, e foi assim com Conectadas.

Em linhas gerais, Conectadas acompanha a história de Raíssa e Ayla, duas meninas que se conheceram por meio do Feéricos, um jogo de computador em formato RPG online, e logo sentiram uma conexão que ia além do mundo criado pela Nevasca Studios. Só tinha um porém: Raíssa jogava fingindo ser Leo, um menino.

Tudo começou para ela como quase sempre começa pra meninas que são gamers: a ideia era se passar por um garoto para não ser assediada por ser mulher. Bem simples, né? Enquanto isso era um fingimento apenas para seus “companheiros de jogatina” (nas palavras da própria Raíssa), estava tudo bem, já que ninguém precisava conhecer ninguém pessoalmente ou falar sobre a vida. Até que chegou Ayla, e aí as coisas começaram a sair do controle.

O enredo atinge mesmo seu “problema principal” quando a Nevasca Studios anuncia um concurso de cosplay que vai levar o vencedor e um acompanhante para a convenção de Feéricos, com tudo pago, e as duas resolvem participar. Mas e se Ayla ganhar e quiser levar Leo? Como Raíssa vai lidar com isso? É preciso ler para saber!

A história escrita por Clara Alves nos dá um enredo tecnicamente simples mas cheio de problematizações, afinal, é muito tênue a linha entre enganar uma menina se passando por um cara e manter essa história por mais tempo do que deveria, e explicar para ela (e para o leitor) que não era exatamente enganação e sim um mecanismo de defesa que saiu do controle. E essa linha fica especialmente tênue quando Raíssa começa a entender o que realmente sente por Ayla. Qualquer pessoa que se identifique como mulher bissexual, pan ou lésbica vai se sentir representada quando Raíssa explica que começou a descobrir sua sexualidade por meio das personagens femininas que admirava e que davam “frio na barriga”. Diversas vezes eu me peguei pensando no quão errado era a história do catfishing, mas ao mesmo tempo o quão igualmente errado era uma mulher ter que fazer isso por medo de assédio para começo de conversa.

Durante toda a leitura eu me senti muito mais triste pela Raíssa ter sido “chutada” para esse lugar de enganadora e mentirosa por uma realidade machista que estava totalmente fora de seu controle. É claro que você pode se perguntar: “ok, mas porque ela não falou pra Ayla o que tava acontecendo? Ela também é mulher e entenderia.

Mas aí é que tá.

Estamos acostumados com personagens “à lá John Green“, que já são poéticas, inteligentes demais para seus 16 anos, e cheias de frases de efeito, mas uma das coisas que mais me encanta em histórias jovem-adultas é a total liberdade de poder pensar que sim, adolescentes são meio idiotas e ainda estão descobrindo o que é certo e errado, e por diversas vezes precisei me lembrar que Raíssa era uma menina no ensino médio. A leitura com essa perspectiva faz toda a diferença. Eu vejo que essa é uma vitória especialmente do jovem-adulto nacional, que conta a história de pessoas que são reais.

Acredito que, no final do dia, é assim que dá para descrever Conectadas: uma história real com pessoas reais. Mais uma vez, assim como em Novigrath, não deixe que o medo de “não ser pra você” te afaste de uma história genuína e que diz tanto.


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Duds Saldanha. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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