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Literatura nacional, jovem e LGBTQ+: livros impróprios para ler com orgulho

Livros eram banidos nas ditaduras militares e em uma série de outros regimes autoritários, como o nazismo que queimava livros e a Idade Média. Por que seria diferente no Brasil de 2019?

No último fim de semana a Bienal do Livro do Rio de Janeiro foi vítima de censura por parte da prefeitura, sob o comando de Marcelo Crivella. Tudo começou quando o prefeito ordenou o recolhimento do gibi Vingadores – A Cruzada das Crianças, por conta de uma ilustração de dois garotos se beijando, classificada como “conteúdo sexual para menores” pelo bispo. Inicialmente os livros não foram recolhidos, mas foi exigido que a Bienal censurasse os exemplares e demais títulos com temática LGBTQ+ voltados para o público jovem e infantil, que deveriam ser apresentados dentro de uma embalagem, com etiqueta alertando para o conteúdo “pørnográfico” e “impróprio”.

No dia 7 de setembro, feriado da independência do Brasil, quem estava na Bienal pode ver e participar de manifestações contra a censura, o retrocesso e a perseguição que temos vivido nesses tempos sombrios, e os livros novamente foram símbolos de resistência. Depois de uma guerra de liminares e mandados de segurança, as ordens de censura e confisco foram derrubadas, mas abriu-se um precedente perigoso para o retorno de uma história que ainda não foi superada.

A perseguição contra a liberdade de ser, amar e contar nossas histórias que tanto temíamos já está aqui, mas a resistência segue atenta, forte e fortalecida. Se o Crivella condena, a gente aprova, e por isso reunimos nosso time para indicar YAs nacionais para ler com orgulho, porque não existe nada mais apropriado do que a literatura jovem para servir de arma na construção do futuro que queremos ver no lugar desse flashback de mau gosto. Um gênero diverso, criativo, afrontoso, e um dos canais mais interessantes do momento para explorar diferentes formas de viver e amar. Impróprio é ferir a existência do outro, e nós acreditamos na arte e na literatura que libertam, abrem portas e horizontes, produzem identificação e acolhimento. É assim que queremos proteger as crianças. Seguimos!

Amizades, Cacatuas e Outras Coisas Fora de Controle, Mareska Cruz

Por Tati Alves

Helena e Antônia sempre foram melhores amigas, porém não mais. Forçadas a trabalharem juntas em um trabalho de literatura, as duas terão que lidar com o que deu errado em sua amizade. O livro de estreia de Mareska Cruz fala sobre inseguranças, saúde mental, amizade em seus altos e baixos, e que o amor verdadeiro não é exclusividade de relacionamentos românticos.

Conectadas, Clara Alves

Por Lorena Pimentel, editora da Revista Pólen

Ler Conectadas foi um ar fresco no meio das minhas leituras recentes. Não por ele abordar temas fáceis, mas é um livro que só pode ser descrito como adorável. É fácil se identificar com as personagens: Raíssa e Ayla se conhecem porque jogam o mesmo videogame e fazem parte do fandom do jogo — encarando o machismo e o gatekeeping cultural que muitos fandoms têm, mas também as partes boas, como a conexão entre pessoas distantes feita pelas coisas que amamos. Tem também uma história de amizade, não é um livro focado somente no romance, e a amizade entre a Raíssa e Leo, seu melhor amigo, é incrível e significativa pra qualquer adolescente meio esquisito (ou essa ex adolescente esquisita).

Outro ponto recorrente no livro são as relações familiares complexas. Não só entre os adolescentes e seus pais (coisa que não é muito vista em YAs), mas também questões de casamento, tretas entre irmãos, conservadorismo na família tradicional brasileira e as tensões do dia-a-dia. Uma das maiores glórias do livro é com certeza a representatividade responsável LGBTQ+. Não só é bem realista, reproduzindo o processo de autodescoberta pelo qual adolescentes passam, mas também inclui personagens de diferentes identidades sem tokenismo, sem aquele clássico “esse é meu amigo gay”. Outra parte ótima é como Clara Alves situa os personagens nesse caos divertido que é um evento de fandom. O pano de fundo da história se torna parte dela. Todo mundo que foi nerd na escola e passava tempo demais em comunidades do Orkut vai amar esse livro.

Pétala, Olívia Pilar

Por Duds Saldanha

A mineira Olívia Pilar é uma das pessoas que a Duds tem o orgulho de chamar de amiga pessoal, e que escreve as situações mais bregas e clichês mas de um jeito que dificilmente se vê: em histórias com pessoas negras e bissexuais! A história tem um rumo completamente natural e acompanha Bruna sendo atacada por uma enxurrada de sentimentos que fazem parte da vida de toda pessoa apaixonada e que precisa tomar uma decisão. Quem nunca precisou sentar frente a frente com a pessoa que te deixa mais confusa no mundo e todas as questões que acompanham qualquer decisão que você tomar? Estar num relacionamento é extremamente complicado, mas também pode ser mágico, e é nesse ponto que Pétala é um conto tão importante e que precisa ser lido!

Qualquer Clichê de Amor é Amor, André Caniato, André Leonardo, Bianca Melo, Mateus Bandeira, Melanie Kress, Mônica Campos, Rebeca Kim, Vitor Castrillo

Por Bianca Melo, escritora e autora do conto “Romance Rosa-Shocking” na coletânea Qualquer clichê de amor é amor

A coletânea Qualquer clichê de amor é amor surgiu da obsessão das organizadoras e autores por comédias românticas hollywoodianas. Neste livro, nos inspiramos em alguns elementos desses filmes para criar histórias com personagens LGBT+ contextualizadas na nossa cultura e que, assim como nossas adoradas comédias românticas, aquecem o coração com seus finais felizes. Quando falamos em representatividade, é fundamental não apenas incluir personagens LGBT+ em narrativas, mas dar a eles protagonismo em histórias que abordem temáticas diversas, pois somos tão multifacetados como qualquer outra pessoa, o que também envolve nossos queridos clichês. Tudo isso pode parecer banal ou repetitivo para pessoas cisgênero ou heterossexuais, mas é muito importante para que a comunidade LGBT+ seja vista de forma menos estereotipada. Gosto muito de todos os contos, mas alguns destaques são o conto “Aos Trinta”, do André Caniato, “Dez Motivos”, do Mateus Bandeira, e “Um Romance Adolescente”, da Rebeca Kim.

Roda-Gigante, Iris Figueiredo

Por Carol Ramos, mestre em literatura e professora de português

Você deve conhecer Iris Figueiredo por causa de Céu Sem Estrelas. Outra história da autora vale muito a pena ler está na coletânea Perigo: Garotas Unidas. Roda-gigante conta a história de Rebeca, uma garota que está no fim do ensino médio e vai passar o Dia das Bruxas com as amigas em um parque de diversões meio abandonado. Nesse lugar, que representa muito bem o que a protagonista está vivendo, Rebeca revê um fantasma do passado — a menina com quem deu o primeiro beijo, no alto da roda-gigante — e tem a oportunidade de superar um pouco o medo que tem dos próprios sentimentos. Essa é uma história carregada de nostalgia, com leitura de revistas adolescentes, conversas no MSN, “gosto de algodão doce e cheiro de amendoim caramelizado”. O conto é também um exemplar perfeito de história de amadurecimento ou coming of age, porque mostra como as nossas memórias podem não corresponder mais com a realidade, mas isso pode ser bom. Com uma protagonista bissexual que se relaciona com uma menina lésbica, essa história é perfeita para sua lista de leituras LGBT+.

Todas as Cores do Natal, Alliah, Bárbara Moraes, Lucas Rocha, Mareska Cruz e Vitor Martins

Por Laura Lima

Nessa coletânea de contos, cinco autores LGBTQIA+ escrevem sobre personagens também LGBTQIA+ em histórias tipicamente natalinas: amigo-oculto no curso de inglês, ceia que dá errado, viagens e família. O Natal, que muitas vezes é momento de sofrimento para quem não se encaixa na caixinha cis-heteronormativa, vira pano de fundo para narrativas divertidas e emocionantes.

Um Milhão de Finais Felizes, Vitor Martins

Por Alfredo Neto, editor do Sem Spoiler

Pedir em oração a Deus para deixar de ser gay é algo que muitas pessoas LGBTQ+ que tiveram influência do ambiente religioso já passaram. Crescer em uma família que não te aceita e que toda hora te julga é doloroso, e é isso que Vitor Martins mostra em Um Milhão de Finais Felizes. O livro acompanha Jonas, um garoto gay que só consegue se expressar quando está longe de casa, seja trabalhando numa loja de café temática, seja com seus melhores amigos. Certo dia, ele conhece Arthur, o “Barba Ruiva”. Aos poucos, eles começam a se aproximar e desenvolver um forte sentimento um pelo outro. Cheio de referências a cultura pop, o livro fala de maneira leve sobre como é viver dividido entre em um mundo que te condena e outro que te abraça, e o que é necessário sacrificar para permanecer em um desses lugares. É uma história que traz a esperança de dias melhores e conforto para aqueles que estão passando por momentos delicados em casa.

Você Tem a Vida Inteira, Lucas Rocha

Por Duds Saldanha

Um livro que fala de uma maneira completamente crua e absolutamente empática sobre adolescentes LGBTQIA+ vivendo com HIV recheado de informações? Com certeza, pode passar pra cá! A história acompanha as vidas de Ian, Victor e Henrique tendo que lidar com o quanto duas vidas podem mudar com o resultado de um exame. O livro tem momentos incríveis de amizade, descobertas e união.


** A arte em destaque é de autoria de Duds Saldanha.

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2 comentários

  1. A Sybylla tem um conto com uma protagonista trans*! É o “Codinome Electra”. Tá na Amazon também, mas eu li na coletânea do Universo Desconstruído!

  2. Um ótimo livro que eu li há pouco tempo, com personagens LGBT+ foi O Infinito no Meio, da Priscilla Matsumoto. Um livro que lida com abuso, com trauma, com perdão, muito bom.