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Uma análise sobre memória e amor em Zoey’s Extraordinary Playlist

“Grandes momentos, grandes memórias”. Essa é uma filosofia passada de pai para filhos na série Zoey’s Extraordinary Playlist, cuja segunda temporada foi encerrada recentemente na NBC. Embora Mitch (Peter Gallagher), o pai de Zoey, não esteja mais presente em vida, a frase sobre criar grandes memórias segue marcando todos os momentos da protagonista. A série acompanha o dia a dia da programadora de computadores Zoey Clarke (Jane Levy) que, após um tremor de terra enquanto fazia uma tomografia, ganha superpoderes musicais que revelam os sentimentos mais profundos das pessoas em forma de performances coreografadas que só ela pode ver. É assim que Zoey consegue se comunicar com o pai que na primeira temporada sofre de paralisia supranuclear progressiva. Ela consegue vê-lo cantar enquanto o espaço-tempo congela, o que a torna capaz de vê-lo da maneira que era antes da doença se manifestar. Esse é o centro da primeira temporada, e assim acompanhamos Zoey lidando com seus dons à medida que vai passando pela dor de perder o pai aos poucos.

Atenção: este texto contém spoilers!

Quando a doença de Mitch avança, o som de sua voz, os movimentos faciais e corporais são as primeiras coisas que desaparecem. Mas as memórias do Mitch ainda saudável é o que faz com que a família siga em frente. No episódio em que David (Andrew Leeds) está lidando com a doença do pai e a gravidez da esposa, eles assistem a gravação do casamento de David para relembrar o discurso feito por Mitch sobre paternidade. Mitch, ao assistir o vídeo, acaba se emocionando muito e cai a ficha para todos de que Mitch não estará mais presente para ver David ser pai. Essa trama é algo que o criador da série, Austin Winsberg, passou em sua vida pessoal com a morte do próprio pai.

Zoey’s Extraordinary Playlist nos faz pensar sobre como a vida é curta, fazendo com que a gente se apegue a memórias e dê valor a coisas que já se foram, quando antes não as valorizamos. Os momentos se vão e as memórias brilham mais do que o tempo real. Somos nostálgicos demais e não aproveitamos o que estamos vivendo. Parece que sempre vivemos com a dor de perder algo ou alguém. Agora que estamos em casa devido a pandemia, sempre nos recordamos de outros anos em que fazíamos qualquer outra coisa que não ficar entre quatro paredes. Às vezes as lembranças são as únicas coisas que temos para seguir em frente: lembranças dos momentos, das coisas e das pessoas que amamos.

Zoey’s Extraordinary Playlist

Zoey vive a dor da perda do pai todos os dias, e mesmo sem o ator na série, o personagem se faz muito presente. No episódio oito da segunda temporada, por exemplo, a protagonista desejava muito reviver uma memória de um momento que compartilhou com o pai, mas nada sai como ela deseja. Então Max (Skylar Astin), o melhor amigo de Zoey, comenta que não se pode recriar momentos, mas que eles podem criar novas lembranças. Não que essas novas lembranças poderão substituir as memórias que ela tem do pai; o que Max quer é que Zoey não se feche e se apegue somente ao que já passou, mesmo que essas lembranças sejam as únicas coisas que ela tem do pai agora.

Zoey tem de viver o momento. É um clichê, mas ele funciona e por isso é tido como um. Temos de viver os momentos e tentar fazer com que eles brilhem, assim como as memórias das quais somos tão apegados. Porque talvez não seja como o pai de Zoey dizia para ela, que os momentos têm que ser grandes para que as memórias o sejam. É uma boa filosofia, mas pode fazer com que a pessoa fique obcecada por criar momentos com a obrigação de criar memórias que entrem para a história, momentos que sejam perfeitos. E é aqui que outro clichê, que vem a ser muito verdadeiro também, aparece: são os momentos mais simples que nos marcam.

A segunda temporada de Zoey’s Extraordinary Playlist mostra uma Zoey perdida entre as memórias do pai e uma vida que teria de continuar sem ele. Nos últimos episódios, nos damos conta, junto da protagonista, de que ela nunca aprendeu a lidar com a perda, nenhum tipo dela. E da mesma maneira que ela, nós não estamos preparados para as perdas da vida, que infelizmente agora são mais comuns do que nunca. Ainda que nós saibamos que nada é para sempre e que também partiremos um dia, é difícil se acostumar com a efemeridade da vida.

Zoey’s Extraordinary Playlist

Em meio à pandemia, tivemos que nos adaptar a dor de perder as pessoas de maneira muito rápida. Mesmo na série, em que Zoey perde o pai aos poucos e que, em teoria, seria possível se acostumar com a ideia de que ele não estaria mais para ela em um futuro muito próximo, ela não consegue aceitar que seu destino estava selado.  Em cada episódio acompanhamos Zoey se sentir perdida sem o pai, ainda que as lembranças compartilhadas com ele pudessem ajudá-la em certa medida. Porém, na vida real, onde os sentimentos não podem ser transportados para um número musical, nem mesmo a lembrança daqueles que amamos e se foram são suficientes para nos ajudar a seguir em frente em alguns dias.

Ao procurar um terapeuta em busca de ajuda, Zoey descobre que sua história de amor com Mitch, também é uma história de perda — em certa medida, toda história de amor está ligada de alguma maneira à perda. Hayley Williams canta sobre isso em “Leave It Alone”, música de seu álbum Petals for Armor I: “‘Cause now that I want to live/ Well, everybody around me is dyin'” (“Porque, agora que eu quero viver/ Bem, todos a minha volta estão morrendo”). Na mesma canção, Hayley ainda diz que “se você conhece o amor, melhor se preparar para o luto”. É um jeito bem fatal de ver as coisas, mas de certa forma, não demora para que compreendamos que nada é para sempre. Mesmo que a gente esqueça disso no dia seguinte e sofra com a dor de perder alguém, a morte não deixa de ser a única certeza que temos em vida — ainda que ela sempre nos impacte de forma dolorosa a cada vez.

No decorrer da segunda temporada, Zoey vai aprendendo a lidar com o luto e com as perdas com a ajuda da terapia. Muita gente não tem esse privilégio, ainda mais no Brasil, mas ver a programadora aprender a conviver com o luto e mesmo assim seguir em frente, é reconfortante. Vamos junto com Zoey nessa jornada de aprender a viver sem o pai, mas que sempre se faz presente — em sonhos, em memórias e lembranças, nos fazendo entender que tudo o que ele queria para quem ele amou, era que eles fossem felizes e vivessem bem.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

 

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