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Petals for Armor: o jardim figurativo de Hayley Williams

Certa vez um médico me falou que o nosso cérebro busca seus próprios meios de se proteger. Quando acelerado para além da conta, por exemplo, puxa a tomada, desliga a função e obriga o usuário a desacelerar, funcionando quase como um reset em um sistema sobrecarregado. A explicação que ele me ofereceu buscava desenhar com palavras como um transtorno ansioso não controlado poderia acarretar num episódio depressivo. Em seu álbum de estreia como cantora solo, denominado Petals for Armor, Hayley Williams canta o religar de um sistema após uma pane — e que estava há quinze anos em produção.

Orientada e conduzida por seus responsáveis à época da formação da Paramore, a então adolescente de quinze anos só queria fazer música e a qualquer custo. Nessas condições, ainda que pressionada para seguir como artista solo, bateu o pé para seguir carreira em uma banda. Entre cabelos coloridos, número um em paradas, turnês mundiais e um Grammy para casa, o Paramore cresceu para além dos arredores de Franklin, Tennessee, e inegavelmente se tornou uma sensação de alcance global. Mas, se a jornada que começou em meados dos anos 2000 ofereceu frutos, essa também ofereceu dramas. Descompassada, a novela Paramore proporcionou aos tabloides e aos fãs (e em plena luz do dia), muitas trocas de acusações, saídas de membros-chaves, e até mesmo processos judiciais. Em um meio que, assim como muitos outros, é pouco acolhedor e compreensivo às mulheres (ou ao erro de mulheres) — o mundo da música —, Hayley Williams foi relegada ao posto de responsável por tudo o que havia e acontecia de errado na Paramore.

Muito embora o contrato da banda tenha saído em nome da cantora e tenha sido o cerne de diversos problemas e embates dentro do grupo ao longo do tempo, foi só em 2020 que Hayley ofereceu ao mundo todo o seu dinamismo como artista — e não o fez em lugar da Paramore, mas sim para além de tudo aquilo que construiu e ainda construíra com esta. Hoje, com 31 anos, a cantora forja seu caminho não mais apenas como vocal, face e coração da banda que ajudou a criar quando ainda estava na escola, mas o faz ao se colocar no mundo como mais uma voz em prol da vulnerabilidade. Em seu álbum de estreia, Hayley canta sobre demônios e percalços, em uma montanha-russa de sons e lirismos, que, com algumas de suas mais sinceras composições já escritas, dão conta de situar o ouvinte dentro da vida de alguém que cresceu sob os holofotes, fez um punhado de escolhas duvidosas e foi vítima e algoz da própria história. A primeira canção de Petals for Armor, “Simmer”, é um hino sobre a raiva feminina, a raiva silenciosa, que apodrece e transforma de dentro para fora. Cantada entre dentes, Hayley se distancia a longos passos do último trabalho do Paramore, After Laughter. Se lá ela já começava a aceitar o fim de um relacionamento e, após um álbum em que tentou vender o movimento feel good, retornava à veia de confidência, em “Simmer” dita o tom baixo de quem vai cantar sobre sua própria transformação. Raiva, luto e dor são utilizados como adubo para um jardim figurativo que é explorado ao longo de quinze canções e dividido em três partes de um álbum que foi criado como uma tarefa da terapia.

Em recentes entrevistas, a artista põe para fora parte dos ingredientes principais para a produção do disco. Nascida em Nashville, acompanhou desde muito cedo o processo de ruína do casamento dos pais, e aspectos da dor de crescer entre um e outro são temas de canções mais antigas do Paramore, como a melancólica e apaixonada “The Only Exception” [“When I was younger I saw, my daddy cry and curse at the Wind, he broke his own heart and I watched as he tried to reassemble it / And my momma swore that she would never let herself forget, and that was the day that I promised I’d never sing of love if it does not exist”] [“Quando eu era mais jovem eu vi meu pai chorar e amaldiçoar o vento / ele partiu seu próprio coração e eu assisti, enquanto ele tentava consertá-lo / E a minha mãe jurou que ela nunca mais se deixaria esquecer / e foi nesse dia que eu prometi que eu nunca cantaria sobre amor se ele não existisse”], do conturbado álbum brand new eyes (2010). De questões familiares, Hayley Williams utiliza relações femininas para o recontar de uma história marcada pela renegação do seu espaço como mulher. Na canção de estreia fala sobre uma mãe que protege o filho, seguida por “Leave It Alone”, que acessa o luto de perder sua avó em uma queda — perder cognitivamente, não literalmente. Em “Cinnamon” canta sobre abraçar a própria feminilidade e solitude, seja quando conversa com seu cachorro, ou quando deixa sua própria casa cheirando a canela.

Se as letras e sonoridade única da Paramore foram responsáveis por colocá-la em turnês como a Warped Tour, para Hayley, que vivia seus late teens, a receptividade era acompanhada de sexismo — de não-requisitadas competições contra outras bandas de vocais feminino a shows em que fora acertada com camisinhas. Tentando buscar seu lugar ao sol em um meio essencialmente masculino, o mundo da música de rock alternativo, ao longo dos anos pagou o preço por tentar ser “uma dos garotos”. A cultura machista de colocar mulheres contra mulheres prosperou, de certa forma, frente à artista. Da raiva à transformação, “Misery Business”, canção pivotal por jogar o Paramore dentro de grandes círculos, foi aposentada — “once a whore, you’re nothing more, I’m sorry that’ll never change” —, abrindo espaço para composições como “Rose/Lotus/Violet/Iris”, onde, com o apoio da banda feminina boygenius, entoa “and I will not compare other beauty to mine/and I will not become a thorn in my own side/and I will not return to where I once was” [“E eu não irei comparar outra beleza com a minha/e eu não irei me tornar um espinho do meu próprio lado/e eu não irei retornar para onde eu estava antes”]. Com as devidas ressalvas acerca da performance de feminilidade trazer alguma vantagem para mulheres, a artista busca agora estabelecer vínculos com outras mulheres, fortalecendo amizades e se aproximando de artistas do meio, que se não passaram pelas mesmas situações, sabem o que é fazer arte fora da curva pop do mundo da música.

Após assumir que o amor não existe, uma exceção era aberta na canção “The Only Exception” — “but, darling, you are the only exception”. A exceção em questão parece ser Chad Gilbert, vocalista do New Found Glory, com quem Hayley manteve uma relação por quase uma década, desde 2008. Na época com 18 anos, a linha do tempo de Hayley e Chad envolve um noivado em 2014, um casamento em 2016 e culmina em divórcio em meados de 2017, durante a era After Laughter. De uma relação que pouco sabíamos, é possível montar um quebra-cabeça das diversas declarações oferecidas por Williams durante a divulgação de seu primeiro álbum. O casamento? Uma tentativa falha de corrigir um deslize que, para Hayley, ocorreu ainda no início da relação. Dez anos tentando redimir um erro terrível te levam a muitas portas erradas, inclusive diretamente até o altar. “Dead Horse”, que marca a abertura da segunda parte do álbum, é brutalmente honesta ao contar ser a outra primeiro, um início que a levou a permanecer firme mas não tão forte em uma relação da onde muito era podada e da onde havia pouco espaço para crescer. Após anos mantendo as aparências, seguindo o caminho pela qual acreditava ser o correto, desaprendeu a se relacionar — a desilusão e auto sabotagem é explorada em “Why We Ever”, por exemplo.  Já “Pure Love”, que abre a terceira e última parte do álbum, remove a resignação de sua canção antecessora, para introduzir a ideia de um amor mais leve, que é reforçada pela fraca, pouco confessional, muito imaginativa e sonhadora “Taken”.

Utilizando de metáforas da natureza, Petals for Armor é dividido em três grandes atos que se relacionam com a ideia de fogo, terra e água, respectivamente. Da transformação do fogo, à quietude e ao assentamento da terra, o subconsciente de Hayley, a água, é melhor explorado na terceira e talvez mais coesa parte do disco. A dobradinha “Watch Me While I Bloom” e “Crystal Clear”, que encerram o trabalho, são, provavelmente, as melhores e mais significativas canções de todo seu trabalho de estreia. A primeira, por explorar a ideia de cultivar algo — uma flor, a sua própria saúde mental —, deixar para trás aquilo que uma vez já foi e agora não é mais, em busca do céu e de algo a mais. A última, em seu lugar, abraça a possibilidade de algo novo, a possibilidade de ignorar o medo, do apaixonar-se novamente, de dar espaço para uma nova relação prosperar, e seguir em frente. É uma oposta complementar de “Pool”, que aparece no último álbum do Paramore: lá, ela mergulha em uma piscina que já sabe ser rasa, em algo já incerto e abalado.

Ao longo de muitos anos, Hayley Nichole Williams (no original) viu-se diante da escalada vertiginosa da Paramore ao mainstream, ao mesmo tempo que acompanhava a mídia apontando-a como pivô das rachaduras do grupo. Cada vez mais reclusa em sua própria mente, buscou pintar uma ideia de que as coisas estavam mais em controle do que realmente estavam, anulando-se como pessoa para tornar-se o holograma do que pensava melhor combinar com a sua realidade — é feliz e apaixonada em Paramore (álbum de 2013), segue a trilha do então marido e até tenta a vida doméstica mesmo em uma cidade onde se sente solitária. Seguir a vida de forma enevoada, uma vida que em teoria tem tudo para ser boa, que deixa o vento ditar para onde deve seguir, tem seu preço no fim do dia — e esse preço chegou, nela, na forma de ansiedade eclodindo em uma crise depressiva após quase uma década de saúde mental negligenciada. Frustrada e retraída, entra em curto-circuito, e só então aceita que é hora de olhar para dentro para organizar toda sua bagagem emocional.

Somos uma geração que tem sentimentos sobre ter sentimentos: sentimos culpa por estarmos tristes, pois há pessoas passando pelo pior; sentimo-nos mal por estarmos improdutivos durante uma pandemia; não queremos, tampouco, sentir raiva pois faz mal para pele; existe uma culpa intrínseca por, até mesmo, nos sentirmos bem enquanto o mundo entra em colapso. Mas, principalmente, se as coisas estão boas e ainda assim nos sentimos tristes, a primeira intuição não é dar ouvido para o sentimento para tentar compreendê-lo — instintivamente o renegamos. Colocamos panos quentes sob aquilo que sentimos, mantemos a postura, represamos emoções para não lidarmos com estas. Nesse sentido, Petals for Armor é um álbum terapêutico: ele abre espaço para sentimentos até então inexplorados pela artista. Hayley Williams monta uma colagem daquilo que sente e sentiu da sua própria mudança. Organiza emoções, ressignifica outras, observa que seu passado possui nuances e que, sem óculos de lentes cor-de-rosa, o que viveu pode ser diferente daquilo que pensou ter vivido.

How lucky I feel to be in my body again” [“quão sortuda eu me sinto por estar no meu corpo novamente”], abre com seu clássico potencial vocal a canção “Watch Me While I Bloom”, aludindo uma retomada de controle da própria vida e do próprio corpo, que, por mais de ano, não funcionou nem mesmo fisicamente de uma maneira saudável. O álbum, contudo, tem seus altos e baixos e poderia, talvez, ser um disco mais enxuto com canções lançadas de forma extra em uma versão deluxe. Mas ainda que nem sempre acerte em sua execução, Petals for Armor compensa na riqueza de história e de verdade, com um espaço maior para a exploração da criatividade da cantora. O álbum, definitivamente, soa como uma obra para um palco pequeno de uma casa de shows intimistas — e não para um festival de dias em um cruzeiro.

Assim como Fiona Apple fez recentemente em Fetch The Bolt Cutters, Hayley reivindica para si o controle de sua própria narrativa, colocando os pingos nos is sem nenhum remorso. Em Petals for Armor, canta a sua verdade como Hayley Williams, artista solo, e não Hayley do Paramore — sem pedir licença, menos ainda desculpas. O âmago do disco faz jus ao seu nome, pétalas são usadas como armaduras, pois uma vez que Hayley reclama o seu próprio ser e floresce em seu próprio passo, fingir deixa de ser uma opção: não há mais porquê se esconder.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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