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Marielle Franco, a heroína que escolhemos

Em 12 de março de 2019 foi ao ar na rede Globo o primeiro episódio de Marielle, o documentário. A série documental explica os desdobramentos e as investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista, Anderson Pedro Gomes, ocorrido em 14 de março de 2018. A produção é do jornalismo da TV Globo, tem direção de Caio Cavechini, e roteiro de Cavechini e Eliane Scardovelli.

A série perpassa vários temas relacionados à vida política e pessoal da vereadora. São exibidas imagens da família, entrevistas com a mãe, o pai, a irmã e a filha, e imagens do arquivo pessoal da família, como sua festa de debutante. A esposa de Marielle, Mônica Benício, aborda o relacionamento e os momentos que viveu após o assassinato. A companheira de Anderson, Agatha Arnaus Reis, também é entrevistada e fala sobre o filho, que tinha poucos meses de idade quando perdeu o pai. A trajetória política de Marielle, desde tempos de liderança na favela da Maré até se tornar assessora de Marcelo Freixo (PSOL), sua candidatura e eleição como vereadora são marcadas por uma postura combativa. Vários de seus amigos e colegas atestam sua força e a sua presença. A série traz o episódio do projeto de lei do Dia da Visibilidade Lésbica como um bom exemplo dessa postura.

À época, por 19 votos a 17, a Câmara rejeitou o projeto de lei de Marielle, que incluía o Dia da Visibilidade Lésbica no calendário oficial do Estado do Rio de Janeiro. A rejeição aconteceu exatamente no mês de celebração da data. “A minha palavra é palavra de mulher, mas vale. Não é só palavra de homem que vale não.” disse Marielle em tom de reprimenda ao deputado Marcello Siciliano (PHS) em uma sessão da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro em 2017. A fala foi uma crítica à postura de deboche que alguns parlamentares adotaram nos bastidores após a rejeição do projeto. Alguns meses depois do assassinato, Siciliano seria indicado como um dos suspeitos de envolvimento no crime.

Ao longo dos episódios, a investigação policial é abordada em detalhes, esclarecendo a ligação entre outros suspeitos e acusados de envolvimento no caso. São muitos os motivos por trás da incapacidade do Estado brasileiro em fornecer uma resposta rápida para crimes como esse. A série traça uma análise sobre alguns deles, como o problema do controle de armas e munições, que é quase inexistente, e a dificuldade em encontrar provas contra os acusados. Os jornalistas, que também fazem a vez de narradores, explicam questões de balística, as dificuldades enfrentadas pela perícia, as taxas de elucidação de inquérito de homicídio e a dificuldade em solucionar casos como o assassinato de Marielle, indo fundo em questões técnicas da investigação policial.

Por seguir um padrão editorial das produções da rede Globo, a série documental se assemelha às reportagem do Fantástico ou do Jornal Nacional — inclusive usa trechos dessas reportagens em sua narrativa. Chega a ser incômoda a forma como, em diversos momentos, a produção exalta o trabalho investigativo do jornalismo da emissora. Esse padrão, de muitas formas, limitada a abordagem apresentada — afinal, a rede Globo tem suas agendas sobre a qual se baseiam as escolhas sobre o que será mostrado e o que não será.

Isso não significa dizer que em um documentário independente, por exemplo, não há essa ação de decidir o que será mostrado ou não. Dentro do jornalismo, e basicamente de qualquer produção narrativa, há sempre um jogo de escolhas entre o que terá visibilidade e o que será deixado de lado — e essa escolha sempre parte de um posicionamento político. A noticiabilidade, esse processo de escolha, faz parte do processo de narrativa de fatos retirados da nossa realidade. O mesmo aconteceria ao buscar os referenciais dos responsáveis por uma produção independente. Indicar que esse é um trabalho que segue padrões de uma emissora é um exercício que ajuda a entender de que perspectiva partem os jornalistas responsáveis por ele e com que objetivos eles estão alinhados. É importante compreender essa questão para reconhecer as limitações da produção. Além disso, essa questão também trás à tona outros elementos importantes. É inegável que, por ser uma obra da TV Globo, os jornalistas têm a possibilidade de acessar entrevistados e documentos que, muito provavelmente, outra equipe teria dificuldades. Isso passa inclusive pelo aparato legal do qual a emissora dispõe, que permite mostrar e falar sobre questões com menos riscos para os jornalistas envolvidos até toda qualidade técnica exibida.

Foto de Renan Olaz/Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

O que há de realmente positivo na série, entretanto, está além de todas as questões de emissora, acesso, dinheiro. Ao longo de seis episódios de uma hora — ou seja, seis horas de material — a série reúne muita informação, apurada por um equipe de jornalistas competentes e cumpre, de forma muito satisfatória, o papel fundamental: o de ser memória.

Após a morte de Marielle, informações falsas sobre sua vida e sua trajetória foram espalhadas com o objetivo que só poderia ser o de descredibilizar sua vida e sua obra. O documentário retrata inclusive o caso da desembargadora Marilia de Castro Neves Vieira, que replicou diversas postagens em suas redes sociais com mentiras sobre a vereadora. Marília escreveu, em suas redes: “Qualquer outra coisa diversa é mimimi da esquerda tentando agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro.” Foram muitas as mentiras contadas. O portal Congresso em Foco, em 19 de março de 2018, ou seja, cinco dias após a morte de Marielle, publicou o conteúdo Fake news: 5 mentiras que espalharam sobre Marielle“. Dentre elas está a tentativa de vincular a imagem de Marielle com o Comando Vermelho e a “defesa de bandidos”.

O que acontece é que em trajetórias como a de Marielle, que representam um sopro de mudança e esperança, a narrativa é disputada o tempo todo, em vida e também após a sua morte. Sem respeito a ninguém, as histórias são inventadas em uma velocidade gigantesca e são facilmente compradas por certos grupos. Pouco importa a verdade, o importante é encaminhar a mensagem. No período de lançamento da série, a irmã de Marielle, Anielle Franco, publicou um fio no Twitter falando sobre a série documental e sobre o filme ficcional, ambos baseados na vida da vereadora. Filme este que gerou polêmica própria pela indicação de José Padilha (Tropa de Elite, O Mecanismo) para o posto de diretor. Em sua publicação, Anielle levantou a questão da dificuldade de ter controle sobre a forma como a história de sua irmã seria usada. Ela diz: “Queremos sim que a história da Mari continue sendo contada para que o mundo nunca se esqueça. Mas uma das coisas que aprendemos nesses últimos dois anos é que não temos o controle de quem/quando/onde/como algo será falado e produzido sobre Marielle”. 

O segundo episódio da série, intitulado “Multidão”, mostra a Praça Floriano repleta de pessoas, completamente tomada, no dia seguinte ao assassinato. Em menos de 24 horas, o movimento surgia na cidade. “Caiu a ficha do que Marielle tinha se tornado”, diz Marcelo Freixo. Em menos de um mês, diversas marchas e passeatas se espalharam pelo Brasil entoando a mesma questão: “Quem matou Marielle?” No livro Meus Heróis Não Viraram EstátuaPedro Puntoni e Luiz Bolognesi fazem um breve apanhado sobre quem são os nomes lembrados em ruas e praças de grandes cidades do Brasil. Quem escolhe essas figuras? Quase toda história do nosso país é construída sobre a lembrança e os feitos de homens brancos, donos de escravos ou genocidas, mas essas informações nunca estão estampadas nas placas de ferro dos monumentos, raramente são lembradas. Suas biografias elencam apenas grandes feitos, opiniões e conquistas que transformem aquele homem — sempre um homem — em um personagem ideal.

Reprodução/Mídia Ninja

O primeiro capítulo do livro, intitulado “A história é sempre uma versão”, fala sobre a história contada e escrita pela versão dos vitoriosos. São eles que escolhem os heróis que vão virar estátuas, que vão ter seus nomes postos em ruas e praças. Como exemplo, uma das figuras mais retratadas em monumentos, bustos, nomes de praças e de avenidas no país, Duque de Caxias possui cerca de 52 biografias, algumas das quais escritas ainda durante sua vida.

Caxias é lembrado por comandar o exército brasileiro em guerras e recebeu a alcunha de “pacificador” por controlar os movimentos internos de insurgência, dizimando os opositores do Império. Essa “memória” do duque pacificador foi construída para a fundamentação de um projeto político. No livro Duque de Caxias: o homem por trás do monumento, a doutora em História e professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Adriana Barreto de Souza, é citado um dos primeiros biógrafos de Caxias, o Padre Joaquim Pinto de Campos, como um dos responsáveis por fixar uma memória de feitos e conquistas que serviria melhor que monumentos de bronze. Por meio da exaltação de certos atributos e conquistas do duque, e do esquecimento e diminuição de importância de outros, a memória de patrono do Exército Brasileiro e “pacificador” foi estabelecida.

Caxias não é o único herói nacional fabricado pela repetição e rememoração de seus feitos. Em ações institucionais, a escolha de quem homenagear quase sempre está a serviço de um projeto político. O discurso fascista finge adotar a postura de preservação da história, mas a única história que ele quer ver preservada é a contada por eles. Por isso, como explicado no artigo, em inglês, da Revista Jacobin, derrubar estátuas não significa apagar o passado, mas enxergá-lo com clareza, lançar luz sobre a verdade biográfica desses homens chamados de heróis. Essa postura, contudo, não se limita às ações institucionais. A importância de lembrar das agendas de uma grande emissora, está em sempre pensar quais são as histórias que ela decide contar. Segundo uma matéria do portal Notícia Preta, no evento de lançamento organizado pela Globoplay, Anielle perguntou: “Será que se a Marielle não tivesse sido covardemente assassinada há 2 anos nós estaríamos aqui hoje, num evento da Globoplay, assistindo a ela num telão?”

Ainda em Meus Heróis Não Viraram Estátua, Puntoni e Bolognesi falam sobre como é recente o processo de retomada da memória figuras como Zumbi dos Palmares e Dandara. O Quilombo dos Palmares é reconhecido como o maior quilombo do Brasil colonial, resistindo por mais de um século contra os avanços imperiais. Situado na Serra da Barriga, o quilombo teve, durante um período, Zumbi como líder. Dandara, sua esposa, liderava exércitos e participava das batalhas. Zumbi foi assassinado em 1695, teve sua cabeça levada como troféu e exemplo. A primeira celebração da data aconteceu apenas 300 anos após sua morte. Nas escolas, até hoje, é muito mais comum ouvir a história do único duque brasileiro do que estudar qualquer trecho da experiência única conduzida na Serra da Barriga. No imaginário popular, se perpetua a ideia de que quem libertou os negros foi Princesa Isabel, em toda sua bondade e benevolência. Basta uma investigação histórica sem crédito dizer que Zumbi dos Palmares possuía escravos e toda sua luta passa a ser irrelevante.

A maior parte das praças, ruas, avenidas e monumentos do nosso país homenageiam os nomes de homens do exército. Ainda assim, incomoda muito o gesto simbólico de colocar uma placa com o nome de Marielle na praça que “pertence” a um marechal. Incomoda ao ponto de a retirada dessa placa ser transformada em atração de circo — com a presença e anuência do atual Governador do Estado do Rio de Janeiro. Incomoda ao ponto de a placa quebrada ser transformada em totem e estampar a parede do gabinete de um deputado. Essa celeuma deixa claro a importância de insistir, contar e recontar a história e a trajetória de Marielle, de manter sua imagem viva como um símbolo de luta e resistência.

A série documental faz, portanto, um bom trabalho mostrando o caminho de Marielle até o cargo parlamentar, sua força e o impacto da sua presença. Deixa ali, reunido em um só lugar, caminhos e possibilidades para entender quem é Marielle. Eu não conhecia Marielle à época de sua vitória como a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, mas eu conhecia Áurea Carolina e me lembro bem como sua vitória foi celebrada — e, para muitos, inesperada.

Pessoalmente, à época do assassinato, fui capaz de entender melhor o que significava Marielle na câmara do Rio quando conheci sua história e quando pensei no que significava ter Áurea na Câmara, e o que significa ela estar, agora, no Congresso. É o que significa Andreia de Jesus na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, e o que significa Renata Souza e Dani Monteiro, companheiras de luta de Marielle, estarem na Assembleia do Rio. E todas as outras Marielles, Áureas, Andreias, Renatas e Danis espalhadas pelo Brasil, disputando espaços que insistem em dizer que não são delas. Todos os dias elas transformam a tragédia em ação. Todos os dias escolhemos as heroínas que vamos transformar em estátuas.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira.

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