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The Hunt, George Orwell e quem mantém o poder na sociedade

Uma lebre e uma tartaruga vivem em uma mesma vila. Certo dia, cansada de ver o comportamento arrogante da lebre, a tartaruga resolve chamá-la para uma corrida. Confiante de que ia vencer, a lebre aceita e no dia da competição, dispara na frente. Com o objetivo de tripudiar a sua adversária, no entanto, dorme perto da linha de chegada. Aproveitando a oportunidade, a tartaruga avança sem parar e quando a lebre finalmente percebe o que está acontecendo e corre em busca do prêmio, é tarde demais e perde a corrida. Mais tarde no mesmo dia, a tartaruga está jantando com sua mulher e filho, comemorando sua inesperada vitória, quando a lebre entra na casa e mata eles ali mesmo. Antes sua família, depois a própria tartaruga. Segundo Crystal (Betty Gilpin), protagonista do longa The Hunt, a moral dessa história é simples: não existem oportunidades iguais, e quem quer algo vai conseguir seja lá por qual meio necessário ou quais serão suas consequências. Ou seja, as pessoas que têm poder (ou dinheiro) simplesmente pegam o que elas querem e fica por isso mesmo.

Durante a campanha eleitoral de 2016, Hillary Clinton chamou os apoiadores de Donald Trump de pessoas “deploráveis”. Esse mesmo termo aparece em The Hunt mais de uma vez ao longo das suas quase duas horas de duração. Tanto a história contada no primeiro parágrafo do texto quanto as eleições presidenciais nos Estados Unidos têm uma ligação direta no roteiro, que aos poucos se transforma em uma sátira que mistura elementos clássicos do terror embutida em uma narrativa sobre classes.

A história da produção, escrita por Damon Lindelof e Nick Cuse (que juntos trabalharam recentemente também na série Watchmen), dirigida por Craig Zobel, e distribuída pela Blumhouse, começa quando seis pessoas completamente aleatórias acordam no meio de uma floresta. Eles têm uma mordaça na boca e não têm ideia do que está acontecendo, com armas e dispositivos de guerra ao seu redor, à disposição. Logo nos primeiros minutos, mais da metade deles acaba morrendo, ou pisando em bombas armadas pelo perímetro, ou simplesmente caindo em armadilhas violentas e cruéis. Atores como Emma Roberts e Justin Hartley não ganham destaque na trama e desaparecem em questões de segundos e todas aquelas figuras reunidas parecem não ter nenhuma ligação entre si. Aparentemente. Aos poucos, e com a ajuda da protagonista, os sobreviventes vão entendendo o que está acontecendo com eles: estão sendo caçados, sem dó nem piedade. Ao roubar um walkie talkie de um dos “caçadores”, os orquestradores do evento os chamam de  “os deploráveis”.

Atenção: este texto contém spoilers!

The Hunt é um filme que chega depois de passar por muitos mais baixos do que altos. Antes mesmo de sua estreia, adiada nos cinemas por causa de dois tiroteios nos Estados Unidos e depois por causa do coronavírus, Donald Trump, que percebeu o teor político e social do longa, foi ao Twitter protestar sobre sua história, chamando a elite hollywoodiana liberal de racista em um nível extremo, nas suas próprias palavras. Toda essa movimentação sobre uma obra que ninguém nem sequer tinha visto ainda (nem mesmo o presidente dos EUA, é preciso acrescentar) aumentou consideravelmente as expectativas do público em relação ao longa e talvez por isso uma decepção generalizada fosse praticamente impossível de evitar.

The Hunt

Mas The Hunt não é um filme ruim, tampouco uma obra-prima do cinema de gênero. A história vai ganhando novas camadas à medida em que Crystal segue sua trajetória para tentar descobrir o que está acontecendo e por que ela está sendo caçada, sendo que o roteiro toma certo tempo para responder todas as perguntas, indo do presente ao passado para o fazê-lo. No passado, por exemplo, o público vê um grupo de milionários que se reúnem para criar essa “caçada”, onde eles escolhem a dedo pessoas que são consideradas os “deploráveis” — apelido que mais pra frente se torna oficial. Isso tudo acontece porque uma corrente de mensagem onde eles brincam em caçar e matar pessoas que disseminam ódio na internet acaba viralizando, e cada um deles acabam sofrendo as consequências (algo que envolve perda de dinheiro e emprego). Com a ideia de oferecer uma dose de realidade para a própria fake news que os comentadores de fórum odiosos tinham criado, os ricos selecionam pessoas homofóbicas, anti-aborto, que caçam animais e outras figuras que praticam ações imperdoáveis. O objetivo é, deixe-me ser bem clara, caçá-las por esporte, e oferecer uma espécie de justiça que não seria possível pelos “meios convencionais”.

No centro desta narrativa, está Athena (Hilary Swank). Na medida em que as pessoas vão cobrando um posicionamento sobre a caçada, que fica conhecida como manorgate, elas também vão exigindo uma declaração da empresária — que recentemente tinha comprado uma mansão na Suécia (manor em português significa mansão. O suposto evento fica conhecido assim porque, segundo a internet, tudo aconteceria no quintal da própria casa de Athena). Se sentindo injustiçada por causa das acusações e dolorida pela perda do emprego e dos seus bens materiais, ela é a responsável por organizar e motivar grande parte da caçada, sendo que ela usa o livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, publicado em 1945, como um ponto de referência. Na sua lógica distorcida, Crystal é o líder Bola de Neve, o porco protagonista que tem ideias tão revolucionárias que acaba sendo um alvo direto de Napoleão.

Para quem não sabe, a história de A Revolução dos Bichos acompanha uma fazenda que passa por uma revolução incomum, onde os bichos, liderados pelos porcos, tomam o poder dos humanos e instalam um regime igualitário e justo para todos, que passa a ser chamado de “animismo”, cujo o principal lema é “quatro patas bom, duas patas ruim”. A revolução é comandada por Bola de Neve e Napoleão, sendo que esse último acaba deixando o poder tomar o melhor de si e, em uma reviravolta não tão surpreendente, um golpe é colocado em andamento para que líderes totalitários assumam o poder. Os porcos aprendem a ler e a escrever, começam a mandar nos outros animais e se mudam para a casa grande. O resto dos bichos passam a comer menos e trabalhar mais. De certa forma, a narrativa fala sobre a ganância e a dinâmica do poder e, no final, os porcos já estão desenvolvidos o suficiente para andar em duas patas. “Todos os animais são iguais, mas uns são melhores do que os outros.” 

O romance é considerado um dos maiores e melhores livros de todos os tempos, estudado e referenciado até hoje em diversas obras da cultura pop. No contexto do longa essa pontuação parece inteligente no primeiro momento, mas pensando muito bem sobre ela, o contexto em que ela é aplicada não parece ser tão sofisticado assim. Geralmente, uma boa homenagem vem de sutilezas pequenas da trama. Mas o objetivo de The Hunt claramente não é ser sutil ou fazer uma crítica tímida. O roteiro de Cuse e Lindelof é expositório e óbvio, e que mais de uma vez os personagens veem (literalmente) porcos andando pela região no qual eles fogem — bichos apelidados carinhosamente pelos ricos de Orwell. Esse teria sido um grande trunfo da narrativa se, no final, a história não fosse cheia de inconsistências e pequenos problemas que se acumulam e formam um resultado não tão satisfatório assim. Para entender um pouco mais, é preciso também falar sobre Crystal.

No presente da narrativa, o público vai entendendo gradualmente quem é Crystal. É interessante perceber que quando The Hunt começa, o rosto da protagonista não é a primeira a aparecer. Em um primeiro momento, o longa parece dar a impressão de que existe a possibilidade de ter mais de um sobrevivente na caçada, ou que o público pode escolher para quem torcer, mas esse não é nem um pouco o caso. Por meio da sua postura e das suas atitudes (que consistem mais em observar e atacar do que apenas conversar sobre o que está acontecendo), o roteiro mostra que ela não é necessariamente a figura pintada com as cores dos deploráveis que estão sendo caçados ao seu lado. Além de mostrar que seu papel no que os ricos chamam de “revolução” é muito maior.

The Hunt

Crystal tem uma personalidade quieta e taciturna, é ex-militar e carrega um sotaque forte do que os americanos chamam de redneck. Apesar de estar inserida em uma produção que tenta a qualquer custo ser extremamente política, a protagonista é construída basicamente como uma pessoa apolítica, que não liga para os republicanos, os liberais ou qualquer outra discussão levantada e motivada por pautas sociais. Seu principal objetivo na vida é sobreviver, assim como na própria caçada em si.

Por causa do seu passado militar, ela é a única que consegue passar por todos os obstáculos e chegar até Athena, que a espera na sua mansão. O clímax do filme é basicamente uma grande e longa sequência de ação, onde as duas tentam a qualquer custo matar uma a outra. Durante uma conversa entre as duas protagonistas, Crystal revela que a líder da caçada pegou a mulher errada e que na cidade em que ela mora, existem duas pessoas com o mesmo nome. A única diferença é que seu sobrenome é Mae, sendo que a da outra, responsável por exigir justiça na internet pela suposta caçada, é May. Fazendo com que sua verdadeira identidade seja um mistério até o fim, o longa levanta uma questão sobre as fake news e o mundo das redes sociais — e o fato de que as informações raramente são checadas antes de as pessoas agirem em consequência ao que foi dito. É como se o ciclo se fechasse: Athena buscou justiça por causa de uma notícia falsa e espalhada sem verificação dos fatos, assim como ela literalmente pegou a mulher errada para caçar. Ninguém é imune ao cair nos problemas apresentados por um mundo de pós-verdades, onde existe muita informação e poucas maneiras de controlar a veracidade das ocorrências.

Assim como a lebre, mesmo depois de ter perdido a corrida para tartaruga, reclama o título que acha que pertence a ela na base da força e do ódio, Athena faz justiça pela forma como as informações erradas são espalhadas e reforça o mesmo tipo de comportamento que tanto abominava antes. Quem tem o poder, mantém o poder. Não existe saída. Mas na medida em que o roteiro volta sua atenção para A Revolução dos Bichos, a mensagem parece mais uma vez se perder. Entre uma das coisas que Athena deixa para Crystal, é que ela era a caça que eles chamavam de Bola de Neve. Depois que Trump foi eleito, mais de uma vez o livro de Orwell foi usado e citado pelas pessoas para falar sobre as medidas absurdas do presidente e como ele se assemelha a Napoleão, o porco ditador. O apelido de Crystal foi escolhido porque, de certa forma, Bola de Neve realmente trabalhou com Napoleão por algum tempo, mas é difícil chegar a essa conclusão. Nem mesmo a própria protagonista parece entender da onde surgiu isso.

Durante a última conversa que elas têm juntas, ambas jogadas e machucadas no chão, Crystal pergunta porque Athena a chama de Bola de Neve — já que o porco era considerado o “herói”, idealista que gostaria de transformar a fazenda onde eles viviam em um lugar exponencialmente melhor, sendo que ela considera Crystal apenas um ser odioso que espalha fakes news na internet. Nesse momento, Athena parece surpresa: “você já leu A Revolução dos Bichos?”, ela pergunta. Afinal, como pode uma redneck do Mississippi ter lido o mesmo livro que ela, uma mulher que se considera tão culta, liberal e progressista? Não importa. Deitadas ali e completamente arrebentadas pela luta bizarra e criativa que tiveram momentos antes, algo se perde na narrativa. A impressão que fica é que Athena não entendeu o livro na qual passou o filme inteiro referenciando, já que Napoleão e Bola de Neve podem ter trabalhado juntos no começo, mas eventualmente se tornam símbolos de duas lutas bem diferentes. Uma da liberdade, outra de um regime totalitário.

O que fica claro, no entanto, é que Athena não liga se ela pegou a verdadeira Crystal ou não. Ela está mais do que feliz de, naquele momento, matar uma mulher que na sua cabeça disseminou uma mensagem do qual ela não concorda. Não importa se é verdade ou não, ela não tem tempo ou vontade de checar. E essa, com certeza, é uma atitude muito mais Napoleônica do que qualquer outra coisa.

The Hunt

Quando terminam de lutar, Athena morre. Crystal, no entanto, acaba sobrevivendo. Ela sobe, toma um banho, coloca a melhor roupa da sua adversária, rouba seus cachorros e entra no jatinho particular da empresária, com objetivo de voltar para casa. Oferece caviar e champanhe para a aeromoça, que diz nunca ter sido permitida comer daquele jeito antes. A história termina e o poder não está na mão do mesmo 1%, não naquele momento.

The Hunt é um filme que com certeza pode ter mais de uma interpretação, mas afinal qual é a sua mensagem definitiva? Ao jogar pessoas com uma índole duvidosa dos dois lados da moeda (conservadores e liberais), talvez o discurso principal seja de que ambos contêm pessoas ruins ou que praticam atos imperdoáveis. Mas isso não é uma novidade; ou, talvez, seja principalmente sobre a cultura do cancelamento e como ela exclui as pessoas da possibilidade de melhorar e crescer; ou talvez seja sobre as fake news e a pós-verdade do mundo; ou, mais do que isso, seja sobre explorar classes e os problemas de uma sociedade que se encontra polarizada o suficiente para causar danos irreparáveis, e como os pobres se tornam a maior vítima desse sistema. Temas como esse foram explorados em obras-primas como o brasileiro Bacurau, o despretensioso Ready or Not e até mesmo o ganhador do Oscar, Parasita — todos com mais êxito em abordar um ponto e explorá-los. Ao tentar fazer por classes o que Jordan Peele fez pelo racismo em Corra!, no entanto, The Hunt falha ao criar uma trama que é contraditória, ou que sequer consegue achar sua verdadeira essência.

Faz algum tempo que o mundo se descolou do conceito do “normal” e vive em uma realidade quase distópica. Parece um exagero falar e usar termos como distópico, mas é quase impossível não pensar sobre isso todos os dias após ligar a TV e acompanhar pelo menos uma hora de qualquer jornal diário. A ascensão de líderes fascistas aumenta cada vez mais a polarização social e política. É difícil saber em quem confiar, além de conseguir separar o que é verdade e o que é mentira, e quase todo mundo com quem tenho contato carrega uma grande sensação de cansaço e impotência. De certa forma, The Hunt reforça ainda mais esse sentimento. Apesar de ter uma premissa violenta, que brinca com elementos do gore e do terror, a produção da Blumhouse não parece existir em uma realidade tão distante assim. Não é difícil pensar que talvez um dia as elites realmente venham a criar jogos e caçar pessoas “deploráveis” por diversão, justamente porque acham que estão acima da lei — como a sociedade ensina pessoas que têm dinheiro ou poder a achar que estão. E mais do que isso, que eles usem livros que são considerados revolucionários para justificar tais atos.

Como sátira, The Hunt não é tão inteligente quanto acha que é, mas por causa da atuação sensacional de Gilpin (que tem potencial para se tornar uma grande estrela de ação, dada a oportunidade), pelo menos é entretenimento garantido. Se você procura algo mais elaborado e profundo, esse não é o lugar. As alegorias aqui são óbvias, e até mesmo necessárias, mas acabam não entendendo realmente a que vieram e morrem na praia, sem conseguir a profundidade necessária para criar uma obra completamente satisfatória dentro do seu gênero — ou até mesmo catártica.

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