Categorias: FOTOGRAFIA

A Colcha de Retalhos de Catherine Opie

No fatídico ano da virada do milênio, 1999, a banda Le Tigre se lançava para o mundo com o primeiro e homônimo álbum de sua carreira musical. Encabeçada pela ex-Bikini Kill, Kathleen Hanna, o grupo estreava sua caminhada com uma espécie de canção-manifesto, um tributo de estilo firmado e já conhecido pelas trajetórias políticas e artísticas dos integrantes. A letra de “Hot Topic” apresenta as muitas vozes e personalidades que foram e são cruciais para a história cultural e sociopolítica da humanidade. Especialmente as cabeças que buscaram explorar suas áreas de atuação apesar das barreiras impostas pelo patriarcado, pelo racismo e pela heteronormatividade. Figuras que, cada uma com as armas e as abordagens de sua escolha, conseguiram abrir caminhos até então fechados para grupos socialmente marginalizados, firmando a presença de novas perspectivas na construção cultural e representativa das sociedades.

Um dos nomes entoados na canção é o de Catherine Opie — Cathy Opie para os íntimos do trio de musicistas. No mesmo ano que Le Tigre se formava, em 1998, a fotógrafa estadunidense já reunia mais de 10 anos de carreira, 4 projetos autorais e, na ocasião, terminava um dos seus trabalhos mais conhecidos: a série Domestic (1995-1998). É dentro dessa série que Opie culmina as grandes temáticas que a interessam e estão presentes como impulso construtivo de boa parte de suas obras: as múltiplas facetas da sexualidade e do gênero; as noções de comunidade e as fronteiras públicas dentro do que é privado e doméstico e vice-versa, entre outras.

Reconhecendo-se no mundo como uma mulher lésbica, e utilizando essa parte de sua identidade como agente e material produtivo, Catherine Opie busca com sua veia artística explorar suas vontades, suas indagações e sua vida na qualidade de aspectos ao mesmo tempo coletivos e individuais. Isto é, enquanto integrante da comunidade LGBTQIA+, a artista entende que sua existência vem ligada, em primeiro lugar, a um conjunto simbólico pautado por estereótipos forçosos de sua subjetividade — ou melhor, do que supostamente deveria sê-la. Seu reconhecimento público está invariavelmente atrelado aos atributos da heteronormatividade, assim como sua construção identitária  se baseia no enfrentamento — e na absorção — dos princípios desse sistema de convenções.

Simultaneamente, nesse sentido, em sua fotografia, Catherine abraça como objeto de avaliação combativa as expectativas e as práticas violentas do patriarcado sobre não só a sua pessoa, mas também sobre seus companheiros e amigos de luta. Na mesma medida, como forma de subverter essa mesma doutrina discriminatória e uniformizadora, Opie traz à tona em seu trabalho a beleza da contrapartida, apresentando a diversidade dos seus desejos e de seus interesses enquanto artista e indivíduo, aspectos pessoais que, em muitos sentidos, podem e vão se chocar com as expectativas e as demandas tanto do modelo social vigorante, quanto da organização política LGBTQIA+.

catherine opie

Em três de seus mais famosos autorretratos, que juntos concebem uma sequência de imagens formalmente independentes, mas iconograficamente correlatas, a fotógrafa pela primeira vez exterioriza seus pensamentos com relação à identidade e aos anseios que a formam enquanto sujeito e como essas duas particularidades a diferenciam e a aproximam da ideia vigente de domesticidade. Com Self-Portrait/Cutting (1993), de costas nuas para a câmera e para o espectador, sua pele mutilada e com marcas vivas de sangue é o objeto central da imagem. Nela, a derme, há um corte feito por uma amiga pintora de Opie a pedido da mesma. A ferida, por sua vez, simula um desenho infantil de uma família com duas mães sorridentes ao lado de uma casa e um céu ensolarado. Instigada por um término conturbado, a fotógrafa usa seu corpo como um quadro ou um papel em branco, através do qual a própria comunica sua profunda vontade de formar a família que até então não tinha tido a oportunidade de construir. Ainda, em contraste com o corpo curvado e o vermelho do sangue, o pano verde adornado utilizado de fundo pode ser observado como o toque fino e delicado que Opie traz para a imagem, um detalhe que serve de referência às pinturas do século XVI as quais a influenciaram na construção desse e de tantos outros retratos — uma modalidade fotográfica que a artista aperfeiçoou e transformou em sua marca.

Um ano depois, em 1994, a artista produz Self-Portrait/Pervert (1994), expondo-se dessa vez de tronco nu para a câmera e seus observadores, também com um corte sobre seu peito, mas com piercings de agulha por toda a extensão de seus dois braços. Mais preciso e elegante, uma vez que traçado por uma dupla de profissionais, o desenho fixado em sua pele lê a palavra Pervert — Pervertida, em português — enquanto a fotógrafa veste roupas de couro associadas às práticas de BDSM. Com a clara declaração de sua filiação à comunidade queer S&M, e a exibição de um termo pejorativo costumeiramente utilizado para designar participantes dessa subcultura, Opie confronta os estigmas sofridos por esse grupo dando um toque suave e refinado com sua pose ereta e seu fundo de pano florido preto e dourado. Além disso, dá o primeiro dos muitos passos de sua carreira em direção à construção de um corpo imagético capaz de entregar a visibilidade digna e astuciosa para quem um olhar compreensivo foi e é negado.

Por último, e, de certa forma, completando um tríptico, nasce Self-Portrait/Nursing (2004). Novamente com o busto exposto, e nesse caso com o rosto aparente pela primeira vez, Opie se apresenta sentada amamentando seu filho despido no colo. Ambos se encaram com olhares atentos, apresentando uma pose que exala o cuidado da ação materna. Em força, o tecido usado como fundo se assemelha às cicatrizes da palavra “Pervertida” que permanecem no peito da fotógrafa. O relevo das letras na pele serve de lembrança da sua individualidade e de seu caminho conturbado até o momento do autorretrato, confirmando a posição destoante que ela ainda possui apesar de agora conformar-se, nos limites de sua disposição enquanto mulher lésbica, nos termos tradicionais da domesticidade. Mais de dez anos se passaram e a foto parece fechar uma jornada reflexiva da artista, uma que passa também pelas buscas adotadas na série Domestic (1995-1998). Assim, finalmente realizado o seu desejo de formar uma família, e após uma longa década explorando a materialidade e o sentido individual e compartilhado desse conceito através de outras composições familiares, Catherine Opie apresenta talvez seu lado mais vulnerável nessa terceira foto, aproximando-se de sua comunidade ao capturar as particularidades de sua experiência.

Domestic, pelo contrário, e como já dito, é a iniciativa em mostrar para o mundo uma comunidade nos termos de suas especificidades e suas abrangências. Num intervalo dos autorretratos, a fotógrafa tomou a decisão de distanciar a câmera de si mesma para apontá-la a outras perspectivas, procurando, sob os imaginários do que é e de como se forma a domesticidade, as representações lésbicas dentro desse espaço. Catherine Opie, assim sendo, preparou uma viagem de carro ao redor do território estadunidense com o intuito de recolher as histórias e apresentar os arranjos familiares escondidos da iconografia tradicional do lar americano. O estopim para essa empreitada, por sua vez, foi uma visita à exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York intitulada Pleasures and Terrors of Domestic Comfort (Os prazeres e horrores do conforto doméstico, em tradução livre). Repleta de fotógrafos que dedicaram suas carreiras a investigar as cenas domésticas americanas, a mostra, entretanto, se resumia a imagens de um lar tipicamente heteronormativo. Munida, então, de um propósito que com firmeza se alinhava aos seus interesses artísticos, Opie sai em busca dos retratos que, ainda, servirão de suporte às suas convicções políticas e suas investigações afetivas e identitárias.

catherine opie

Mas, para além da temática, as fotografias — nessa série em especial, mas também em seus outros trabalhos — encantam esteticamente e exploram o potencial visual de sua proposta. A vivacidade dos retratos cativa, à princípio, pelas cores e pela ordem das decorações, dos móveis, dos pequenos objetos que detalham o estilo de cada família, umas com filhos, e por isso, possuem um mar de brinquedos nos cantos da casa, outras, dividindo a casa com outras parceiras, possuem cômodos pouco mobiliados e pouco organizados. Assim como as peças decorativas pessoalizam os lares, a arquitetura e os espaços internos e externos conseguem demonstrar as diferenças sociais e os esquemas rotineiros desses lares. Isso tudo na presença de figuras que, apesar de posadas, expressam a naturalidade por trás da intimidade dos olhares, dos sorrisos tímidos ou das posturas, dos corpos relaxados e em contato com suas companheiras — amorosas ou não.

Junto com a combinação de luzes artificial e natural, o enquadramento de todos esses aspectos, mas principalmente das poses, compete às fotos um caráter documental. Esse caráter em muito condiz com o uso de referências artísticas do século XVI, isto é, são artifícios que Opie utiliza para trazer a História para dentro de suas imagens, trazendo os elementos do reconhecimento e da representatividade às personalidades capturadas e aos espectadores que se identificarem com elas. No fim das contas, seu esforço se perpetua como um ato de construção memorialística, um que alinhado à natureza rememorativa e temporal da fotografia é capaz de criar camadas de significado interessantes.

Como todo artista se ancora o pouco que seja em sua vida pessoal para produzir seu trabalho, Opie faz dessas duas instâncias algo completamente indissociável. A intercorrelação entre elas eleva a produção estadunidense a um patamar sedutor, já que se tornam fruto de uma aparente obsessão pelas mesmas discussões e temáticas, circulando sempre ao redor das fronteiras do que são e se definem como sexualidade, intimidade, lar e comunidade. E nessa tarefa de escavação, o amor se apresenta como força propulsora, em estado visível nas imagens e nas figuras retratadas, mas também em condição discreta e pulsante nos retornos de Catherine ao âmago de sua dedicação artística.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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