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Soul e a importância de 22

O filme Soul, produzido pela Pixar em parceria com a Disney, continua sendo uma das produções mais assistidas na plataforma de streaming Disney+, um mês após seu lançamento natalino. Conhecido como uma obra filosófica, misturando realidade e metafísica para discutir o significado da vida, Soul entrou na história como um dos filmes mais maduros já criados pelas produtoras.

Não é de hoje que a Pixar tem desenvolvido histórias destinadas a diversos públicos, alçando voos mais altos para além do gênero infantil com filmes como Divertidamente (2015) e Viva: A Vida é Uma Festa (2018). No entanto, apesar da discussão sobre vida e morte não ser recente, a produtora segue inovando com seus enredos e personagens, trazendo lições em menos de duas horas por meio de animações coloridas bem pensadas.

Enredo

Em Soul, acompanhamos a história de Joe Gardner (Jamie Foxx), um professor de música do ensino médio que sonha em ser um grande músico de jazz. Após conseguir impressionar integrantes de um conjunto musical, o personagem conquista a oportunidade de performar e alavancar sua carreira. Ainda no trailer, vemos que um acidente trivial faz com que sua alma seja separada do corpo, levando-o ao além-vida. Diante da iminente morte, Joe Gardner tenta fugir para retornar à Terra a tempo de participar do show.

Soul

No entanto, em sua fuga, o musicista é levado ao “Seminário Você”, uma escola para as novas almas se desenvolverem antes de iniciar uma vida na Terra. Com o plano de retornar ao seu corpo e aproveitar a oportunidade de realizar sua performance, Joe rouba a identidade de um mentor para trabalhar com as almas em treinamento e encontrar uma maneira de retornar ao próprio corpo.

Em sua missão, o protagonista é encarregado de treinar 22 (Tina Fey), uma alma com uma visão pessimista da vida e que há muito tempo nega iniciar sua existência, sabotando seus mentores e seus esforços para auxiliá-la. Decidido a conquistar seus objetivos, Joe engata em uma jornada de autoconhecimento e descoberta com sua pupila, aprendendo que há mais da vida do que ele imaginava.

Protagonismo

Ainda que o trailer e o material de divulgação coloque Joe Gardner no espaço de protagonista, ao longo do filme é possível perceber que 22 ocupa um papel fundamental no desenvolvimento da história e dos personagens. Mais do que a contraparte do personagem principal, 22 é o fio condutor dos desdobramentos que fazem de Soul um filme com grandes lições sobre a vida.

Atenção: este texto contém spoilers!

Desde as primeiras interações entre os personagens, 22 foi responsável por tirar Joe do seu espaço de conforto e fazê-lo perceber a vida com novos olhos. Em sua missão de convencê-la a retornar para a Terra, o musicista acaba revisitando a própria trajetória e percebendo-a por diferentes perspectivas, não só desafiando o que ele tinha como garantido, mas também fazendo-o valorizar cada detalhe.

Soul

Nesse sentido, a verdadeira protagonista da obra age como um catalisador das mudanças necessárias para que Joe Gardner viva uma vida digna, e aproveite as oportunidades que estão à sua porta, ainda que não sejam necessariamente a fama e o sucesso que ele sonhou. É a resistência e a personalidade rebelde de 22 que faz com que o professor de música se aprofunde no que há de bom da vida, apresentando suas experiências externamente, e consequentemente, passando a ser tanto telespectador quanto interlocutor da própria história.

Questão de perspectiva

Para além das cenas no “Seminário Você”, quando os personagens acabam retornando à Terra em corpos trocados, 22 tem a oportunidade de viver o cotidiano de Joe Gardner enquanto ele a acompanha no corpo de um simpático felino. As interações que a personagem tem com as pessoas envolvidas na rotina do musicista cria importantes lições, principalmente sobre as questões que Joe se manteve alheio durante seus dias.

A interação de 22 na barbearia, não só chamando a atenção dos consumidores e funcionários, mas também interagindo profundamente com o barbeiro, mostram ao personagem como o estilo de vida antissocial e recluso que ele viveu por muito tempo é resultado da sua quase obsessão pelo jazz. Em uma cena de menos de dez minutos, a alma em treinamento revela a Joe que há um universo de possibilidades além do sonho que ele se manteve estritamente focado por tanto tempo.

Com o corpo físico no domínio de 22, Joe passa a ser somente um canal de informações e, novamente, recebe a oportunidade de ver a própria vida por uma outra perspectiva. Entre a conversa com sua mãe e as cenas em que a personagem aprecia os detalhes ao seu redor, o musicista caminha em uma jornada de amadurecimento e autoconhecimento, percebendo que seu sonho, sua paixão e missão não são as únicas belezas do mundo.

Soul

Através da alma em treinamento e sua personalidade difícil, Joe Gardner recebe uma segunda oportunidade para viver com qualidade, deixando então de priorizar somente a fama e o sucesso em sua carreira. Além de auxiliá-lo a fazer novos amigos, corrigir o relacionamento problemático com a própria mãe e orientar seus estudantes, 22 acaba se tornando a verdadeira mentora do personagem, orientando-o em uma aventura repleta de momentos cômicos, inesperados e apreciativos.

Representatividade e simbologia

Ainda que 22 não seja uma personagem com gênero definido, pois no filme a vemos explicando que é possível tomar qualquer tonalidade ou forma que queira, ela nos é apresentada pela voz igualmente carismática e antipática de Tina Fey, facilitando não só a identificação com o público feminino, mas também com suas escolhas e personalidade.

Quando afirmo que ela é a real protagonista, não busco diminuir a complexidade do personagem de Joe Gardner, mas sim mostrar que essa é uma obra digna de ser vista por duas perspectivas. Colocar-se no ponto de vista da 22 é uma forma de experienciar um mesmo filme por uma via única e especial, pois se torna possível compreender que para além da rebeldia e indisciplina há uma narrativa com potencial representativo de muitas mulheres no mundo, principalmente durante nossa adolescência e as diversas crises existenciais que nos acompanham ao longo da vida.

Soul

Mais do que uma alma revoltada, 22 representa os desafios que vivemos e suas lições enquanto amadurecemos no mundo. Ainda que sejamos colocadas, como mulheres, em situações complexas e árduas, são os desconfortos e os segundos preciosos fora da zona de conforto que nos impulsionam a nos tornar nossas melhores versões.

Para quem cresceu com uma Disney pouco representativa, com suas donzelas em perigo limitadas ao mesmo tipo físico até o aparecimento de Jasmine, em 1992, acompanhar as novas produções da companhia é como um sopro de ar fresco sobre as narrativas femininas no cinema. Observar crianças e jovens crescendo com personagens femininas e filmes questionadores como Soul é um indicativo, mais do que bem vindo, de que os novos tempos chegaram para ficar e que sim, está passando da hora de ver o potencial das animações para além do público infantil.

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