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Dreamcatcher: uma história de terror no k-pop

Como gênero musical, o k-pop poderia ser basicamente definido como música pop produzida na Coreia do Sul. No entanto, conforme o contexto social e econômico foi mudando a dinâmica da sociedade coreana e a forma como a música é consumida dentro e fora do país, foram se estabelecendo mais algumas características para definir o que é ou não k-pop.

Recentemente, estes debates se fizeram mais presentes conforme a onda Hallyu vai se espalhando mundo afora. O projeto de exportação de cultura coreana — que engloba muito mais do que música — já vinha se expandindo, principalmente no próprio mercado asiático. Os incentivos do governo buscam fazer com que vários produtos da pequena península gerem renda. A música, o cinema, os dramas, a arte em geral, mas também a culinária, a tecnologia e até mesmo produtos cosméticos do país não só criam receita, mas também atraem investimento, turistas e fortalecem o soft power nacional. Globalmente, o pop coreano já vinha conquistando fãs para além dos países no leste da Ásia.

Há alguns anos, grupos como BTS e BLACKPINK vêm despontando nas paradas musicais e têm  aberto ainda mais espaço para outros atos da música coreana no visado mercado musical estadunidense. Eles estão conquistando os topos de paradas musicais e constantemente batendo os próprios recordes de vendas de álbuns e ingressos para suas turnês em estádios — e agora virtuais — e seguem mantendo viva a venda de álbuns físicos — um tipo de mídia dada como morta pelo resto do mercado, mas vital para a música coreana por seu valor colecionável e também potencial de contato com ídolos. Eles conquistam fãs e sucesso, mas ainda assim os músicos dessa indústria não recebem a mesma atenção de rádios e premiações que artistas de outras nacionalidades. Diante do inegável talento, carisma e dedicação dos artistas, o espaço que eles tomam incomoda o já acomodado mercado estadunidense.

Após indicações e vitórias consecutivas de grupos de k-pop em premiações musicais e audiovisuais da indústria europeia e estadunidense, a categoria k-pop surgiu em alguns dos prêmios mais famosos da indústria musical. A divisão evidencia que há público que acompanha esses grupos e dá audiência às premiações por causa deles, mas nem assim os votantes (quando as premiações não são de voto popular) se abrem para premiá-los de forma justa.

A segregação é histórica. Anteriormente implementada para não premiar nas categorias principais, mas não gerar controvérsias maiores, a divisão em categorias já separou em artistas latinos, de R&B, e hip-hop — outros ritmos que ganham o público e são dominados por artistas não-brancos. Mas agora, as razões para a categorização se tornam ainda mais evidentes quando pensamos na situação de grupos de grande visibilidade e que apresentam altíssimos números de venda como BTS, indicados ao Grammy em categorias irrisórias — quando o grupo poderia ser indicado em diversas delas pois a qualidade das letras, melodias e produção de seus álbuns não só é incontestável como também tem a mão de seus integrantes, que se ligam diretamente à criação da própria música. O k-pop é constantemente acusado de não ter qualidade, por ser taxado como uma fábrica de música meramente comercial, já que membros de grupos femininos e masculinos são selecionados e treinados por empresas. Não que estas características de fato importem na qualidade final dos produtos culturais gerados na sociedade capitalista, na qual os EUA também se incluem, a arte se vende como produto de outras formas por lá, mas a autenticidade dela não costuma ser muito contestada.

A questão é que mesmo fazendo tudo que pudesse ser incluído em outras indicações, o BTS não teve seu talento reconhecido, mas ainda assim foram chamados para se apresentarem no show. A apresentação do grupo masculino foi deixada por último, como tentativa de prender a audiência da enorme e organizada base de fãs, e gerou indignação na internet. Ainda que se render a lógica da competitividade estadunidense e às premiações sempre subjetivas, votadas majoritariamente por homens cis heterossexuais brancos, seja uma tentação — já que o título é um reconhecimento desejado por anos por qualquer pessoa dentro da indústria, o debate sobre o que é ou não k-pop não precisa ser pautado por isso.

É interessante que se defina o que é k-pop para o próprio entendimento dos ciclos dessa indústria tão diferente dos padrões ocidentais, justamente porque o próprio conceito que delimita o gênero pode variar. Entre fãs da cultura coreana é comum que surjam esporadicamente discussões que busquem esclarecer os limites do que é exatamente o pop representado neste nome, já que, como um gênero fluído, ele inclui referências a outros ritmos. Este é um debate levantado em alguns momentos com a intenção de separar aquilo que pode ser classificado como mera música comercial e o que seria de fato arte. Muitas vezes, a ideia de fazer essa divisão acaba sendo uma forma de rebaixar principalmente a parte da indústria que se encaixa no padrão mais exportado: os idols. Um dos argumentos é que, por se tratar de uma categoria tão comercialmente competitiva de arte, os idols não têm valor artístico. Mas num mundo em que o capitalismo transforma arte em mercadoria, quem é que não está fazendo arte de forma comercial?

Idols são cantores de grupos que normalmente se apresentam em programas de auditório e competição musical. Reunidos por empresas, estes grupos femininos, masculinos ou — raramente — mistos recebem treinamento para canto, dança, moradia e alimentação enquanto se preparam para suas estreias. Depois de selecionados, integrantes masculinos ou femininos recebem um conceito de acordo com o perfil dos integrantes. Às vezes, o conceito permanece o mesmo por muitos anos, mas eventualmente ele pode se transformar conforme o sucesso do grupo vai crescendo ou diminuindo. Por vezes, é a própria dinâmica do mercado que vai fazendo com que o conceito mude com o tempo. Este conceito é o modo como os grupos vão se apresentar ao mundo, e normalmente serve como fio condutor das narrativas musicais e líricas que serão apresentadas por aquelas pessoas.

Seres humanos usam o recurso narrativo para dar sentido às coisas que observam. Com o tempo, desenvolvemos uma enorme capacidade de elaborar linhas narrativas cada vez mais complexas para conectar fatos isolados, porque as histórias nos unem em torno de fogueiras, inicialmente literais e agora figurativas. Quando narramos, apresentamos lições, comentamos criticamente os acontecimentos sociais e também vamos criando senso de comunidade, justamente porque falamos de emoções em comum entre as pessoas. Gostamos de histórias, nos conectamos a elas, e basta ter contato com a internet para que algum coach surja ensinando sobre como aplicar storytelling para vender produtos, fazer conquistas românticas e até mesmo o mais básico: contar histórias. Afinal, nós iremos olhar para fatos e criar histórias, porque sentir coisas através dessa forma segura é uma forma de entretenimento que ensina e foi ficando gravada no nosso DNA. Quem decide usar essa tendência à narrativa para contar histórias consegue grandes feitos como manipular fatos, convencer pessoas, e até mesmo conquistar o afeto — algo tão poderoso. Os recursos que podemos usar para contar histórias são muito mais do que palavras. Várias outras linguagens podem ser utilizadas: a visual, a corporal e até mesmo a música.

Dreamcatcher

Qualquer pessoa que já tenha visto um vídeo de k-pop sabe também que a estética e o visual são características importantes que compõem algo maior junto à música. Elas também servem para narrar histórias. Não é só a letra da música que nos conta algo: os cenários, a atitude cênica dos integrantes diante das câmeras, os figurinos e maquiagens. Não se pode dizer que esse domínio das diferentes linguagens não aconteça em outros segmentos do mercado global. Mas se estamos definindo gêneros musicais, o k-pop é um dos que sabe como explorar os recursos visuais muito bem.

O k-pop é um gênero para ser apreciado não apenas com ouvidos, mas também com os olhos — o que não diminui a qualidade da música por si só. Muito provavelmente porque as apresentações em programas de TV competitivos são o ponto principal para a divulgação das músicas de trabalho, as coreografias, ou no mínimo uma postura cênica ensaiada se tornaram essenciais para o gênero. Nos vídeos musicais, os cenários chamam a atenção e são sempre pensados com cuidado para destacarem a coreografia. As atuações e closes apresentados pelos cantores nos vídeos também chamam a atenção e comumente são replicados nos palcos das apresentações televisivas — reforçando a importância visual para esta forma de arte.

Em especial na indústria idol, existe uma preocupação evidente com a estética. Como em todos os lugares do mundo sob a competição capitalista, a exigência de padrões acaba gerando exageros prejudiciais ao lado mais fraco, e, no caso, os idols — que são empregados subordinados às grandes empresas — são aqueles mais suscetíveis a abusos em nome da perfeição e da beleza, em especial por normalmente serem muito jovens e estarem constantemente sob a pressão da competição. É comum vermos corpos magros e padronizados e ouvirmos sobre dietas obrigatórias para os grupos femininos e masculinos, e se sabe também que plásticas costumam ser incentivadas no país onde a indústria cosmética mais se desenvolve. Também há uma atenção especial a cabelos e maquiagens — inclusive nos homens — não só impecáveis depois de rotinas pesadas de dança, mas também sempre buscando alguma inovação ou uma expressão bem marcada. No entanto, muito além de reforçar como padrão estético algumas características desejáveis para aquela sociedade, nossos olhos são expostos também a visuais específicos que acompanham cada grupo.

Dreamcatcher

Se olharmos para um grupo no tapete vermelho de uma premiação, podemos identificá-los pelas roupas coordenadas, que transmitem não só uma unidade entre seus membros, mas também qual é a atmosfera da música que irão nos apresentar. Algumas vezes, a identidade visual dos grupos até mesmo nos conta qual estilo musical está sendo representado. Os grupos muitas vezes abraçam um conceito específico não apenas musical ou lírico, mas visual e estético, que vai além destes detalhes, e acaba se tornando uma marca.

É bastante comum que grupos apresentem alguns conceitos que fazem mais sucesso entre o público. No caso dos grupos de garotas, são comuns o aegyo (conceito fofo), girl next-door (a garota comum e aparentemente despreocupada) ou o sexy. As músicas — que podem ser compostas, produzidas e escritas pelas próprias cantoras, mas normalmente passam pela supervisão e coordenação das empresas que são as principais responsáveis por todos os processos da produção audiovisual — acabam acompanhando a proposta estética para aquele grupo. Os conceitos mais comuns são aqueles que apelam a uma parcela maior de fãs em potencial. Mas para algumas empresas menores, vale a pena o risco de apostar em nichos não-atendidos.

Afinal, o k-pop é um gênero que foi se desenvolvendo para conquistar e fidelizar fãs. Para as empresas que gerenciam os grupos, isso é essencial para que os ídolos conquistem troféus nos programas onde são votados. Estas vitórias são ostentadas pelos fandoms não apenas por serem uma conquista para os cantores, que trabalham duro para obtê-las, mas também por darem mais visibilidade ao grupo. Mais vitórias dão mais atenção na mídia e nas redes sociais e isto leva a mais vendas de álbuns e angaria mais fãs que irão a shows e eventos com os grupos. Os fandoms são essenciais para que essas vitórias se perpetuem — já que a votação do público é crucial para dar troféus aos grupos — e a longevidade dos atos depende bastante dessa constante conquista e manutenção de fãs. É por isso, também, que a indústria estimula um tipo de contato entre fãs e ídolos bem específico: eventos on-line, lives, momentos em que os fãs podem conversar com seus cantores favoritos enquanto seus álbuns são autografados e ainda eventos nos quais ídolos e fãs apenas passam tempo juntos, fazendo brincadeiras no palco.

Além disso, os fandoms recebem nomes, cores específicas para que se identifiquem, lightsticks com designs representativos da conexão fã e ídolo — bastões de luz que normalmente são vistos formando um mar colorido e uniforme nos shows —, fóruns específicos na internet onde podem se reunir não apenas entre eles, mas também com os ídolos, que costumam esporadicamente conversar com fãs nesses lugares. O senso de comunidade que vai se criando, além de gerar renda com a venda infinita de produtos oficiais, ainda mantém os fãs próximos uns aos outros e também com a sensação de estarem mais próximos dos ídolos, nestes espaços seguros de adoração, admiração e interação.

Grupos masculinos, chamados boygroups e não boybands (no k-pop, boy bands normalmente são os boygroups que tocam instrumentos — como numa banda), normalmente são voltados para o público feminino. Tanto que é comum que seus fandoms sejam referenciados e tratados como se fossem namoradas dos cantores — que muitas vezes abdicam de uma vida romântica pública para continuar vendendo esta fantasia às fãs. Já os grupos femininos são diferentes: algumas das empresas querem nos vender suas cantoras como exemplo de empoderamento para outras mulheres, outras querem ser nossas melhores amigas, e há também aqueles grupos que se dirigem aos homens. Mas existem muitas pessoas que não se encaixam em nenhum desses perfis de público-alvo. Sob os olhos de empresários, este é mais um público a ser conquistado, fidelizado e que pode render lucros, principalmente quando o conceito escolhido é menos comum. É em um desses nichos que encontramos Dreamcatcher.

Tendo estreado sob o nome Minx, as cinco integrantes iniciais — JiU, SuA, Siyeon, Yoohyeon e Dami — apresentavam um conceito visual e musical mais divertido — oferecendo músicas de verão com clipes coloridos e animados. Mais tarde, a empresa sob a qual se organizavam decidiu incluir mais duas integrantes — Handong e Gayeon — e o grupo fez um novo debut sob o nome Dreamcatcher. A partir daí, o conceito muda e a narrativa também.

Dreamcatcher

As sete integrantes poderiam perfeitamente se encaixar em um conceito mais sensual ou se voltar para o conceito fofo porque beleza padrão não lhes falta. No entanto, Dreamcatcher se volta para uma estética mais dark e gótica: roupas escuras com referências clássicas ou mais voltadas para o visual que algumas bandas de rock adotariam. Obviamente, o visual casa com o novo conceito musical: ouvimos muitas guitarras pesadas e uma bateria marcante, como as de uma banda de rock. Os vocais, embora lembrem os de outros grupos de pop e contem com interferências de rap — parte integrante da sonoridade da maioria dos grupos de k-pop — acompanham melodias definidas pela Happy Face Entertainment (empresa na qual o grupo se encontra) como Hard-Rock, Power Metal e Eletrônica e há influências de outros gêneros além destes. Como parte integrante do k-pop, as coreografias estão presentes nos vídeos musicais e apresentações dos grupos, e acompanham os conceitos melódicos, líricos e visuais propostos pelo grupo.

Além de se destacar pela sonoridade, Dreamcatcher é um grupo bem sucedido em contar histórias. Só que aqui a história não é colorida, fofa ou simplesmente sensual como as outras que já testemunhamos no k-pop. Dreamcatcher, ao menos em sua primeira fase, está nos contando uma história de terror.

Com uma discografia composta por dois single-albuns coreanos, dois em japonês, mais sete mini álbuns (sendo um deles um especial) e dois álbuns completos (um japonês e um coreano), os vídeos musicais e performances do grupo se destacam da maioria dos outros grupos femininos. Dreamcatcher, incorpora, na primeira sequência de videos de sua carreira, elementos visuais de diferentes tipos de filmes de terror e contam ao Insomnia — o nome oficial do fandom — uma única narrativa, dividida em partes.

“Chase Me”, single de estreia da nova fase do grupo sob o novo nome, começa com uma imagem que imediatamente nos remete a um filme de terror: sozinho em um corredor sombrio, um homem caminha por uma casa ou hotel com uma atmosfera sinistra. A mala que ele carrega nos sugere que ele irá seguir a sugestão no título da faixa: aparentemente, ele está ali para investigar, perseguir ou caçar as integrantes do grupo, que representam personagens misteriosas com um passado sombrio. Como sugerido no nome do EP de 2017, Nightmare, as cenas se parecem com as de um pesadelo: enquanto cantam e dançam uma música com solos de guitarra bem destacados e bateria marcantes, closes das cantoras ao redor do personagem principal do clipe vão se alternando e revelando que o cenário investigado é bem mais sinistro do que parece. As integrantes fazem aparições fantasmagóricas que usam recursos de filmagem comuns em filmes de terror paranormal, sugerindo que elas são espíritos que assombram aquele local. Então surge a dúvida embasada pela letra da música: quem é que está perseguindo quem?

Tudo parece de fato um pesadelo numa casa antiga mal-assombrada: o investigador, que registra aparições, desaparições e outros fenômenos usa um machado para abrir um dos quartos, enquanto vemos imagens intercaladas das integrantes do grupo em uma espécie de ritual com elementos associados a satanismo. Por fim, quando ele chega ao quarto trancado, vemos uma fotografia antiga das jovens em trajes que sugerem tempos antigos. Como as boas histórias de terror contadas nas noites de insônia, ficamos no suspense até o próximo clipe. A dúvida que fica nessa história é: Dreamcatcher — o apanhador de sonhos — é um objeto utilizado nos quartos para que os sonhos ruins se afastem. Mas o clipe termina com dúvidas: as meninas são o pesadelo em si ou estão nos protegendo dele? Elas querem nos contar essas história para que a insônia passe ou para que os pesadelos tirem nosso sono?

A narrativa de terror continua em “Good Night”, single do EP chamado Fall Asleep in the Mirror. Seguindo a mesma linha musical e sonora, a cena inicial é a última que vimos no vídeo anterior: o investigador paranormal encontrando a foto antiga das garotas naquele cômodo misterioso. Como a letra sugere, estamos presos em um pesadelo junto àquele homem que é alvo de brincadeiras das garotas. Somos apresentados ao que parecem ser flashbacks das meninas da fotografia. Agora, elas correm pelas florestas, aparentemente sendo perseguidas por pessoas totalmente cobertas e encapuzadas — que parecem ser… elas mesmas. No hotel onde a investigação paranormal continua, o espelho chama a atenção do homem, e começamos a desvendar em livros e cartas que surgem em cena uma espécie de pacto ou ritual que prendeu as garotas da foto naquela casa, e de um dos lados do espelho. A última cena deste segundo ato musical consiste em uma reviravolta: ao que tudo indica, o homem agora está preso naquele hotel, do outro lado do espelho, enquanto as mulheres, encapuzadas, se tornam aparentemente livres.

Embora este filme não prometa continuações, fica ainda o mistério de que tipo de criaturas são as mulheres de roupas claras, retratadas na fotografia, e quem são as suas versões encapuzadas que vêm da obscura floresta e possuem o livro que guarda os mistérios que pudemos testemunhar. Quem é humano? Quem é aterrorizante? Talvez, o que toda essa história esteja nos sugerindo é que os pesadelos escondem mais do que o óbvio aterrorizante. E como nos nossos sonhos ruins, as imagens às vezes apenas se interpõem sem que tenhamos respostas muito claras sobre o que as liga. Cabe a nós, em nossa insônia, interpretar os símbolos daquilo que nos assombra o sono.

A própria fotografia destes dois primeiros atos abusa do contraste entre tons escuros — para reforçar a ideia de que algo diabólico e maligno será mostrado — e tons claros e maquiagens leves — para propor a inocência inicial das integrantes do grupo.  É comum que alguns grupos — como BTS, TXT e Aespa — tenham seus próprios universos cinematográficos e seus clipes se desenvolvam dentro daquela simbologia comum, e Dreamcatcher continua explorando o tema terror nos clipes seguintes, desenvolvendo um pouco mais esse universo , onde as integrantes continuam interpretando tanto as misteriosas criaturas do além quanto suas contrapartes aparentemente inocentes. Muito longe de serem estas mocinhas inocentes perseguidas por monstros e fantasmas ou mulheres consideradas vilãs más por não cumprirem com o que se espera delas, Dreamcatcher representa mulheres protagonistas de suas próprias histórias — ainda que sejam de terror.

Descobrimos isso quando a narrativa faz um flashback e volta ao ponto anterior às investigações paranormais do primeiro clipe. A música de trabalho do primeiro mini-album Prequel, chamada “Fly High”, nos conduz de volta para o cotidiano daquelas garotas da foto, na mansão onde viviam e que hoje é assombrada. Presas entre o sonho e o pesadelo sugerido pela letra da canção, o clipe nos leva de volta à vida delas, até que as versões encapuzadas e armadas com o livro reaparecem. Aquelas garotas, por mais se divirtam brincando com quem ousa invadir o universo delas, também estão presas ali e não sabemos se os rituais que já havíamos testemunhado antes e que reaparecem em “Fly High” são uma tentativa de fugir daquele mundo ou o que as mantém ali. Aqui, os trajes das versões inocentes das garotas fotografadas remetem a ícones infantis, mas nem assim elas são passivas vítimas do terror. O que as imagens nos lembram é que às vezes um sonho pode se tornar um pesadelo e não temos muito controle sobre aquilo.

O vídeo de “You and I”, faixa título do segundo mini-álbum do grupo, Escape the ERA, nos leva de volta ao cenário inicial, só que sem a visita de um intruso, como aconteceu em “Chase Me”. Como sugere o título do mini-álbum, as meninas estão presas no local, e tentam atravessar o portal mágico que as prende ali. A letra, que faz uma tentativa de reconciliação com um outro alguém misterioso pode compor a narrativa sugerindo que as garotas querem escapar daquele pesadelo solitário.

“What”, single do terceiro mini-álbum, Alone in the City, nos leva pela primeira vez a um cenário mais moderno. O figurino também incorpora peças mais urbanas, mas a trama ainda tem elementos de terror sobrenatural e agora até mesmo sugestões a uma investigação criminal. Embora estejamos em um centro urbano e não mais em uma assombrada mansão no interior, o cenário ainda resgata elementos dos clipes anteriores, sugerindo que mesmo que as personagens interpretadas pelas cantoras estejam na cidade, o passado e as mesmas assombrações ainda as perseguem. Talvez, o que este clipe queira nos apontar é que nossos piores pesadelos podem nos acompanhar até mesmo quando mudamos de cenário. Enquanto isso, o refrão explicita o desejo incessante de acordar dos pesadelos. Será que ele está mesmo no fim? Elas estão conseguindo escapar desse cenário idílico que já foi um sonho e agora as prende e aterroriza?

“Piri”, faixa título de The End of Nightmare, quarto mini-álbum das garotas, as leva outra vez para cenários obscuros, com efeitos e objetos que assustam de forma mais conceitual. São ideias que as assombram, mas desta vez, as garotas enfrentam essas coisas assustadoras e começam a interagir e reagir aos elementos que antes eram apenas elementos de terror. Se a fábula de terror se encerra aqui, podemos refletir sobre o que essa história nos sugere: encarar nossos medos pode mesmo por um fim a nossos pesadelos? E quando acordamos dos nossos sonhos — o que as palavras da canção sugerem — nossos pesadelos acabam?

A sequência de clipes com elementos de terror ainda tem um epílogo com a faixa japonesa “Breaking Out”. Com batidas tropicais que parecem dar o tom visual, que começa apenas com uma dança despretensiosa em um cenário neutro, somos surpreendidos quando as guitarras reaparecem para o refrão e, com elas, cenas mais sinistras e enigmáticas que remetem às que nos acostumamos a ver neste universo sombrio. Enquanto isso, cenas das integrantes tentando se aproximar entre os fios vermelhos do destino começam a nos conduzir a uma narrativa mais simbólica e indireta, até que, apenas no fim do vídeo elas conseguem outra vez formar um círculo de mãos dadas e voltam a se unir. Segundo a letra da música, “sozinhas” elas não podem sair do sonho. Unidas, podem sair da escuridão e sair do pesadelo para dar início a uma nova história, um novo capítulo. Seria este o fim do começo, como sugere o nome do álbum em japonês, The Beginning of the End?

O mini-álbum Raid of Dream de 2019, sugere que não, e reinicia o drama daquelas garotas, agora em um cenário distópico que nos é introduzido com o video de “Deja Vu”. Agora, elementos mágicos sobrenaturais e poderosos começam a aparecer. Mesmo que estejam em um novo mundo, Dreamcatcher está sendo perseguida por criaturas misteriosas, agora com poderes ainda mais imprevisíveis e a partir daí uma nova era de pesadelos mais tecnológicos e realistas se inicia no universo visual que o grupo nos apresenta. Um novo capítulo ou uma nova saga se iniciam.

Dreamcatcher é um caso de grupo de k-pop bem sucedido em assumir formatos narrativos familiares para contar uma só história que nos prendem em suspense e mistério, mexendo com nossas emoções e nossa curiosidade. As cantoras protagonizam uma história de terror usando múltiplas linguagem e abusando do visual e daquilo que já conhecemos como aterrorizante para nos despertar a mesma sensação de um sonho: confusão, mas uma confusão que parece ter significado e nos abre possibilidades para várias interpretações. Como seres que gostam de narrativas, nos prendemos ao enigma das garotas que querem aterrorizar nossos sonhos e suavizar nossos pesadelos, e acabamos conectando os símbolos para que a história nos conecte ao grupo. Afinal, quem é que não está preso — de algum modo — em uma realidade que parece um sonho ou pesadelo, do qual nem sempre podemos escapar? A vida não acaba sendo apenas um sonho, às vezes bom e às vezes ruim? Dreamcatcher é o apanhador de sonhos que veio pra nos contar histórias — de terror — e nos distrair, usando todos os recursos de seu gênero musical pra nos fazer viajar para um mundo onírico.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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