Categorias: LITERATURA

A terceira vida de Grange Copeland: os ciclos de violência deixados pelo período escravocrata

A Terceira Vida de Grange Copeland é um livro difícil. Mas necessário. É daquelas narrativas que fazem parar para respirar, chorar e repensar sobre todo e qualquer tipo de estrutura opressora que persiste. Pois, embora tenha sido escrito no fim dos anos 1960 e narre o cotidiano de uma família nas duas décadas seguintes, ainda é muito atual. E isso dói.

Lançado pela Editora Record, com tradução de Carol Simmer e Marina Vargas, o livro de Alice Walker acompanha a vida de Grange Copeland, personagem título. Um trabalhador rural, pobre e preto, tentando sobreviver no período pós-escravocrata, no Sul dos Estados Unidos. Institucionalmente falando, a escravidão já havia sido abolida, no entanto as estruturas extremamente racistas e desiguais se mantinham.

Esse é o primeiro livro de ficção da autora de A Cor Púrpura, vencedor do Pulitzer em 1983, publicado no Brasil pela Editora José Olympio. Portanto, leitores já familiarizados com a escrita de Walker talvez não se surpreendam com a maneira crua com que a autora trata as especificidades da segregação racial americana. Não há meias palavras para escrever sobre as consequências causadas pelo ciclo de violência instalado com a escravidão de corpos pretos — e almas pretas. Além disso, em A Terceira Vida de Grange Copeland Walker já abordava elementos que estariam presentes nas suas próximas produções, como o retrato do ambiente rural sulista, o movimento pelos direitos civis e o papel fundamental da educação na emancipação do negro. Componentes de uma segunda camada, levantados com o que Walker observou na infância em Eatonton, na Geórgia, e depois no ativismo.

Para provocação central, a autora escolheu um tema delicado: a violência dentro da comunidade negra. Num misto de exaustão e raiva, Grange Copeland foge da sua primeira vida em direção à segunda, no Norte do país, abandonando mulher e filhos. Diante de uma vida humilhante e da impotência perante o próprio destino, ele vê a fuga como única alternativa para resgatar alguma dignidade. E assim abre uma chaga na própria família. Um dos filhos deixados para trás, Brownfield, sai em busca desse pai, e sem sucesso, decide reconstruir a vida no meio do caminho. Encontra trabalho, depois se casa e enfim se deixa ter a esperança de que dias melhores chegarão. Acreditando que dependia apenas do próprio esforço para que tudo se ajeitasse. Não é o que acontece.

O personagem de Brownfield é o mais simbólico do livro. É nele que Walker deposita as dores do abandono parental, do plano de vida frustrado, desenha a corrosão causada por uma sociedade opressora e a transformação de tudo isso em mágoa e depois ódio, o qual é devolvido em socos e chutes na mulher e nas filhas. A relação de Brownfield com a família e a maneira como ele acha que tem que ser essa dinâmica é permeada por violência física e moral, em consequência de uma masculinidade ferida e perdida com relação à sua função de provedor. Mesmo sendo incapaz de sustentar a casa, Brownfield não admite que a esposa, Mem, seja a responsável por esse sustento. Ela, por outro lado, aceita as agressões para que assim o marido possa — depois de um longo dia de trabalho — sentir-se homem. Mem foi escrita tendo como referência várias mulheres que Walker conviveu. E não é difícil pensar em pessoas reais com essas mesmas características ainda no século XXI. Uma mulher bem instruída, com mais possibilidades que o marido por conta desse acesso à educação, cuja vida doméstica lhe toma um futuro promissor.

Ao retornar do Norte, Grande Copeland volta a ter contato com o filho, conhece as netas e se depara com o dano que sua partida causou. Ainda que ela não seja a única responsável pelo aspecto violento de Brownfield. Walker tece uma teia para discutir culpa e responsabilidade na relação entre pai e filho; e faz o mesmo com as relações de trabalho análogo a escravidão, entre opressor e oprimido, negros e brancos. Através das opiniões de Grange após o que ele viveu no Norte, ela joga para o leitor suas análises acerca do que é justificável diante de condições sob domínio e do que não é.

As sequelas do comportamento destrutivo de Brownfield, assim como os vícios e a repetição de padrão de violência, são pautados com base em casos reais, com o objetivo de tratar o assunto dentro da comunidade negra — assim como fizeram outras autoras ativistas norte-americanas, como Audre Lorde. Cabe a uma das filhas de Brownfield representar alguma possibilidade de mudança nesse ciclo. Em determinado momento, Brownfield chega ao extremo da violência, vai preso e suas três filhas são separadas. Ruth fica sob a responsabilidade do avô e Grange encara a criação da neta como forma de redenção. Quer criá-la para o mundo, prepará-la com instruções que não deu aos filhos e dessa forma fazer dela alguém mais forte. Faz questão que a menina saiba da crueldade com que um ser humano é capaz de tratar o outro, mas ao mesmo tempo não quer que isso a destrua, assim como aconteceu com o filho.

A relação de afeto entre avô e neta é um dos poucos momentos de respiro no livro. A narrativa tensa de Walker nos leva a sentimentos como nojo, repulsa e angústia por quase todo o percurso, propositalmente. A Terceira Vida de Grange Copeland tem um sabor amargo, pois lembra o leitor do quão complexo é construir uma sociedade fundamentalmente justa. E o quão distante ainda se está disso. Lembra também que a liberdade de uns não é liberdade completa se ela não for verdadeiramente para todos. E aponta a educação como caminho para esse ideal. Walker cita Martin Luther King ao abordar o movimento pelos direitos civis, além da participação estudantil que dava corpo a essa mobilização, para mostrar que algo estava mudando e que Ruth poderia fazer parte de uma sociedade diferente da que viveram seus antepassados.

Considerando o contexto em que o livro foi escrito, de fato, muito já mudou de lá para cá. No entanto, há um longo caminho a ser trilhado para que os direitos civis não dependam da cor da pele, do gênero, da origem ou da orientação sexual para serem garantidos. A isonomia do sistema — tanto americano quanto brasileiro, levando em conta algumas similaridades do racismo aqui e lá — continua existindo como busca. Ainda assim, A Terceira Vida de Grange Copeland engrossa debates que seguem pertinentes e reafirma muito do que se defende até hoje como alternativas para se chegar a essa sociedade mais justa e igualitária. A educação como ferramenta de libertação e o poder do afeto como instrumento de cura.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Record.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira

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