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As mulheres na Semana de Arte Moderna de 1922

Quando falamos sobre arte, entretenimento e cultura, as produções brasileiras ainda são minoria. Seja porque a indústria cultural ainda é majoritariamente anglófona (somada à recente onda do entretenimento sul-coreano) ou simplesmente por uma questão de gosto pessoal, as produções nacionais não são as mais comentadas. Isso vem mudando: há pouco tempo existia ainda menos conteúdo sobre a cena artística brasileira do que existe hoje. Entre os movimentos artísticos e artistas renomados, nossas referências seguem sendo majoritariamente internacionais. Os nomes dos clássicos brasileiros ficam guardados na mesma gaveta das fórmulas de física, conteúdo que precisamos aprender para o vestibular e, muitas vezes, nunca mais pensamos neles.

Este ano comemoram-se os cem anos da realização da Semana de Arte Moderna de 1922, um evento conhecido por ter mudado os rumos das artes brasileiras, mas que também têm suas origens ligadas à Europa. Num país permeado pelo colonialismo (até hoje), não é de se espantar que as expressões artísticas também estivessem submetidas aos gostos e pensamentos europeus. Também em 1922, ser mulher significava enfrentar muitos desafios para se fazer ouvida: a sociedade, a política, a religião e as artes eram espaços pouco frequentados por nós. As mulheres ainda não podiam votar e nem trabalhar sem autorização expressa dos maridos ou pais, que tinham respaldo do Código Civil para controlar o salário que elas ganhavam, inclusive. Hoje em dia, a situação é bastante diferente, ainda que os desafios não tenham deixado de existir. Se as coisas mudaram foi também porque as mulheres do passado abriram o caminho para que hoje pudéssemos nos expressar artisticamente.

Semana de Arte Moderna de 1922

Participaram da Semana de Arte Moderna de 1922 apenas quatro brasileiras, no meio de um número muito maior de homens, como era habitual. Anita Malfatti, Regina Gomide Graz, Zina Aita e Guiomar Novaes foram os nomes femininos que estiveram presentes no evento. Além da dificuldade que encontravam para entrar nesses espaços, havia também uma distinção entre as artes apropriadas para os homens e para as mulheres. Mulheres deveriam escrever poemas, tocar instrumentos musicais delicados e pintar aquarelas, que deveriam ser tão suaves quanto sua personalidade.

Embora a representatividade feminina deva ser sempre lembrada, também não podemos esquecer que essas mulheres pertenciam à elite brasileira, com condições de vida melhores que a da maioria da população. Essa condição social garantiu não apenas tempo livre para se dedicarem às artes, como dinheiro para os materiais, instrumentos e aulas necessários. O dinheiro assegurava também que elas pudessem circular entre os artistas da época, inclusive passando temporadas na Europa. De forma geral, todo o evento teve um caráter burguês, que não diminui sua importância, mas faz com que seja necessário cuidado ao pensar nessa arte como representativa do povo brasileiro.

Semana de Arte Moderna de 1922
“A Estudante”, de Anita Malfatti (1915-16).

Voltando à presença feminina, cada uma das quatro participantes têm histórias de vida interessantes que, de uma maneira ou de outra, influenciaram a arte que produziam. Começando por Anita Malfatti, que teve suas pinturas menosprezadas por Monteiro Lobato diversas vezes. Aos 13 anos de idade, Anita havia tentado se suicidar, deitando nos trilhos do trem da estação Barra Funda, em São Paulo. A partir daí, começa a se dedicar à pintura como forma de salvar a própria vida. A pintora nasceu com uma doença que não permitia que mexesse o braço direito muito bem, fez uma cirurgia que não deu certo e precisou aprender a pintar com a mão esquerda — o que fez muito bem, diga-se de passagem. Em 1917, expõe suas obras na Exposição de Pintura Moderna, evento que inspirou a realização da Semana de Arte Moderna. Mesmo com essas questões, Anita foi reconhecida nacional e internacionalmente como uma grande influência na arte e um dos mais importantes nomes do modernismo.

Se o nome de Anita certamente é conhecido, o de Regina Gomide Graz, nem tanto. Além de pintora, Regina também trabalhava com tapeçaria e foi uma das primeiras artistas a trabalhar com artes têxteis no Brasil. Convidada a expor suas tapeçarias na Semana de Arte Moderna, Regina passou a fazer parte dos pequenos grupos de intelectuais brasileiros. Um ano depois, em 1923, fez uma vasta pesquisa sobre a tecelagem indígena no Alto Amazonas. Naquela época, havia pouquíssimo interesse em estudar a arte e os modos de vida indígenas, e ela foi uma pioneira nessa área.

Semana de Arte Moderna de 1922
“Homens Trabalhando”, de Zina Aita (1922).

Já Zina Aita foi desenhista, pintora e ceramista, mas expôs apenas suas telas na Semana. Zina foi muito criticada pela sua arte, que não era compreendida naquele momento. Além do modernismo, tinha fortes ligações com o impressionismo também, o que a tornava muito diferente de tudo que existia. Enquanto os homens eram vanguardistas, as mulheres eram esquisitas demais para a época. Foi ela quem levou o movimento modernista para Belo Horizonte, onde tinha nascido. Entre as quatro, seu nome é o menos estudado e conhecido. Até hoje, não se sabe detalhes da sua biografia ou a extensão da sua produção artística.

Guiomar Novaes não fazia parte do movimento modernista, mas foi convidada a se apresentar durante a Semana. Guiomar era pianista e tinha grande apego pelos clássicos. Por isso, entrou em conflito com outros artistas da Semana de Arte Moderna (que rejeitavam os clássicos e, com frequência, os menosprezavam). Essa briga fez com que o nome dela ficasse praticamente apagado dos registros sobre o evento, ainda que existam declarações de que a sua apresentação tenha sido uma das mais impressionantes e mais aclamadas pelo público. Guiomar era tão reconhecida no mundo da música que chegou a se apresentar até para a Rainha Elizabeth II.

Outras artistas que foram importantes para o movimento modernista — as artes brasileiras em geral —, foram Tarsila do Amaral e Patrícia Galvão (Pagu). Diversas outras mulheres contribuíram para o desenvolvimento do movimento modernista e as artes brasileiras, mas não têm seus nomes lembrados e muitos menos escritos em livros.  Felizmente, hoje em dia os registros são abundantes e as mulheres artistas encontram novas possibilidades e maneiras de serem ouvidas.

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