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O que podemos aprender com Jane Goodall?

Jane Goodall é uma primatóloga, antropóloga e etóloga, que estudou um grupo de chimpanzés durante 40 anos em Gombe, na Tanzânia. Hoje com 85 anos, um bom tempo se passou desde que iniciou seus estudos e sua relação com os primatas, mas ainda carrega em seu semblante as ferramentas principais com que consolidou sua pesquisa: confiança e empatia.

Quando tinha apenas 23 anos e nenhuma formação acadêmica, Jane partiu para a África a fim de auxiliar um professor em uma pesquisa sobre os chimpanzés. Naquela época ninguém tinha muito conhecimento sobre eles, e o professor queria um colaborador que não possuísse as “formas” mentais e teóricas estabelecidas pela academia.  Jane foi a escolha perfeita: era curiosa, entusiasmada e paciente. A jovem partiu para outro continente e para uma mudança radical de vida que marcaria três mundos: o próprio, o dos chimpanzés e o que nós todas conhecemos.

É assim que inicia o documentário Jane, lançado em 2017 pela National Geographic. Sua narrativa visual derivou da redescoberta das imagens, arquivadas e esquecidas durante 40 anos, que foram reutilizadas para produzi-la junto da narração e comentários atuais da própria Jane. As imagens são vívidas e espontâneas e é fácil gostar de Jane apenas ao assisti-la, caminhando com simplicidade no meio da selva, sempre com um sorriso leve no rosto.

Jane Goodall

Antes de encontrar o documentário, eu não sabia muita coisa sobre Jane. Já tinha ouvido falar, mas com a ideia de que era uma moça que estudava macacos e ajudara a salvá-los — ao menos, essa é a informação mais fácil de encontrar sobre ela. Sabia que ela era importante, mas por algum motivo, só busquei conhecê-la melhor quando li sobre o método empático de seu estudo, e as contribuições dele para um novo modelo de ciência que não explora animais não-humanos, mencionado em um artigo da pesquisadora ecofeminista Alicia Puleo.

A autora comparava o interesse paciente e observador de Jane à violência da vivissecção e dos testes behavioristas dos séculos XVI e XIX, infelizmente ainda presentes em muitos países. Essas pesquisas realizadas de forma cruel pouco nos proporcionaram em parâmetros comportamentais verdadeiros e descobertas relevantes. Já a pesquisa de Jane trouxe conhecimentos obtidos de forma natural, sem forçar ou pressionar ações nos chimpanzés. Foi assim que a ciência passou a ter maior entendimento sobre a vida social e familiar dessa espécie e as semelhanças incríveis que possuímos com eles. Por causa de Jane, sabemos que não somos a única espécie que faz guerras organizadas, ou que cria ferramentas, que sente amor e raiva, que pode ter doenças físicas, como a poliomielite, e mentais, como a depressão.

No documentário podemos ter uma noção do que foi para Jane todas essas experiências, o que é de uma riqueza enorme. As filmagens nos mostram fragmentos de sua vida, principalmente durante o Gombe, suas percepções e sentimentos: no começo, enquanto se aproximava das árvores em que os chimpanzés ficavam durante o dia, apenas com um binóculo e um caderno, mas com a mente aberta e curiosa, pronta para aprender com eles. Depois, já acompanhada do futuro marido e cinematógrafo Hugo van Lawick, enquanto a pesquisa se desenvolvia e tornava-se reconhecidamente importante. E então, como pesquisadora reconhecida e consolidada, com coragem no olhar, fazendo discursos em prol dos chimpanzés diante de milhares de cientistas e pessoas que, muitas vezes, a viam somente como uma “menininha”.

Jane Goodall

É notório também o quanto são trazidos aspectos pessoais de sua vida. Vemos cenas de sua juventude e relação com a mãe; a sensação de liberdade estampada em seu rosto ao caminhar na selva; o amor e a relação estreita que desenvolveu com os chimpanzés; o carinho e respeito mútuo entre ela e Hugo, o interesse dos dois pela vida selvagem; a criação nos primeiros anos de vida do filho; a tristeza ao ver um dos chimpanzés do grupo morrer. No decorrer da narrativa, vemos uma mulher com suas alegrias, frustrações, problemas e ganhos, ocupando-se da própria vida, mas acima de tudo respeitosa para com outra espécie que ninguém conhecia. Em Jane, as barreiras entre humano/animal, cultura/natureza se afinam, e o antiespecismo é visto como a base para seu método científico empático.

Há um grande significado nisso, ao mostrar que antes de ser cientista e pesquisadora, ela é, acima de tudo, humana. E é sua humanidade que a aproxima dos chimpanzés, que está presente em sua expressão quando fala com eles. Jane nos mostra que é isso que nos torna próximas dos outros animais: essa empatia, a gentileza genuína e intrínseca em cada um, e que nós, por acaso, chamamos de humanidade, mas que aqueles que não são humanos possuem da mesma forma. Sem intenções de conquista, dominação e colonização para com a natureza, ela trouxe mais contribuições para a ciência do que qualquer outro pesquisador no ramo. Ela admite, nas filmagens, que os chimpanzés são uma família que a acolheu. E ela os tratou dignamente antes mesmo de identificar semelhanças entre nós e derrubou quaisquer barreiras entre humanidade/animalidade.

Jane quebrou outras normas de comportamento, em sua vida pessoal, opondo-se às expectativas de como uma mulher deve ser. Após construir grande proximidade e uma intimidade devido ao que amavam, Jane e Hugh se casaram e logo o filho Grub nasceu. No entanto, Hugh não pode continuar no Gombe e conseguiu um emprego em outro lugar, e Jane o acompanhou como assistente — mas também para cuidar de Grub. A problemática se dá no momento em que ela, já com seu instituto consolidado, “precisa” segui-lo para que ele possa ter um emprego. Por que Hugh não poderia ser seu assistente e cuidar de Grub? Talvez ela tenha se questionado sobre isso, percebendo que sua vida seria sempre sem significado se continuasse ali, apenas sendo a “assistente do marido”, pois logo depois recusou o trabalho e voltou para o próprio, no Gombe. Jane não estava interessada em se mostrar uma “boa esposa” ou “boa mãe”. Ela arcava com suas responsabilidades, mas mais uma vez, mostrando ser acima de tudo humana, e que não precisava seguir o que a sociedade geral ditava. Ser mãe ou esposa podia ser parte disso, mas não o principal.

Jane Goodall

Sua própria carreira foi colocada em dúvida várias vezes, por cientistas homens mais velhos, repórteres e pessoas que a tomavam somente por uma “jovenzinha com pernas bonitas” e “sem base acadêmica real”. Jane não se deixou levar por tais comentários. É fácil notar isso ao vê-la caminhando segura entre as árvores, pulando riachos no meio da mata, e com a mesma segurança falando firme em conferências, reuniões e coletivas de imprensa. Seja sozinha em uma região afastada dos centros urbanos ou sendo vista por centenas/milhares de pessoas enquanto discursa, Jane falou sua verdade, acreditando sempre na importância ética da pesquisa que realizava. Não só para a espécie humana, mas também para os chimpanzés, e a possibilidade de serem tratados como indivíduos — e não seres sem inteligência, atrações de circo, de filmes, como a maioria dos humanos é ensinado a pensar. Foi isso que a guiou.

Nesse sentido, o que documentário acaba por nos mostrar é que Jane nunca duvidou de si mesma. Ao receber a proposta de ir para Gombe estudar os chimpanzés, ela rapidamente arrumou um emprego e guardou dinheiro durante vários meses para poder se manter lá. Não passou pela sua cabeça se estaria em perigo ou se realmente estaria à altura da tarefa. Ela tinha em si algo que todas nós deveríamos poder acessar em todos os momentos da vida: o pensamento de que estamos, sim, à altura. Independente do que iremos fazer e da socialização que diz às mulheres que precisam ser submissas, passivas e esperar por alguém. Em tempos como os que estamos vivendo, toda mensagem positiva e de força que podemos receber de ações femininas é necessária.

O que podemos aprender com Jane? Levando-a como exemplo, construir uma confiança em quem somos, como pessoas/humanas/mulheres é a base para não depender das expectativas da sociedade e às obrigações do papel de gênero que nos é imposto, onde estivermos. A empatia que rege as relações de Jane com outras espécies, como a dos primatas, é um reflexo da empatia que sente por si mesma, o que a possibilitou subverter questões em sua realidade e posição societária sem precisar abrir mão de si e do que queria, em favor do casamento com um homem, por exemplo. Nisso, é possível aprofundar e questionar: o que mais podemos aprender com Jane Goodall?

Camila Tatsch Ferrari é pesquisadora, feminista e aspirante à escritora. Luta diariamente contra a habilidade de dispersar que recebeu da fada Lucinda ao nascer. Acredita que as histórias podem trazer magia a cada cantinho do mundo e sempre teve enorme pavor de autobiografias, mas aprendeu que é preciso se definir para se reconhecer e pelo jeito, superou.

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