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A previsibilidade de Stranger Things não é uma coisa ruim

Sentido importa. Toda história segue uma estrutura narrativa, todo entretenimento é formulaico. E não há nada de errado nisso. Fosse o caso, não teríamos cursos de roteiro, estudos sobre mitologias e workshops de escrita criativa. Existe todo um aparato de ferramentas visando a mesma finalidade: destrinchar e repassar os elementos arquetípicos responsáveis por construir uma boa história; demonstrar como preencher a necessidade de um começo, meio e fim.

Atenção: este texto contém spoilers!

É difícil dizer de onde surgiu a ideia de que para que algo seja bom, precisa ser subversivo e completamente original — como se isso fosse possível; como se não houvesse um mar profundo e rico em símbolos no qual todos nós temos os dois pés mergulhados, e um pouco da cabeça também —, mas, na prática, o que acontece é justamente o contrário.

Ideias sem estrutura narrativa são apenas caos.

Pessoas podem ser adeptas do niilismo existencial, bradar por que nada faz sentido, ter evidências o suficiente para corroborar sua teoria, mas, nas histórias criadas por nós, tudo tem um porquê de existir. A ficção é diferente da vida justamente para atribuir significado a ela. É o motivo pelo qual os mitos existem, no fim das contas: para que o ser humano faça sentido de si mesmo e do mundo que habita, por meio de sua capacidade de traduzir suas emoções em palavras. A palavra, conectada a outra palavra, de forma intencional e encaixada, nos dá a possibilidade de observar e entender, de organizar externamente o que existe dentro e não se afogar em si mesmo.

Nossas questões internas, ainda que projetadas sobre uma tela, anseiam por resolução, não interrupção.

Stranger Things não se estabelece como uma série que mata protagonistas

stranger things

É isso.

Partindo do pressuposto de que todo entretenimento segue uma fórmula, parece claro que a cartilha seguida pelos Duffer Brothers não é essa. Caso contrário, teriam estabelecido isso na primeira temporada (responsável por introduzir aquele universo e suas regras), ou, quem sabe, até na segunda.

Game of Thrones, sempre apontada como uma série subversiva e, até certo ponto, aclamada por isso, por exemplo, mesmo em toda sua disruptividade, se estabelece assim logo no início. Na primeira temporada, morre o protagonista, e você entende que aquele é o tipo de história em que ninguém está a salvo, não importa o quão importante, justo e bondoso seja. Literalmente qualquer um pode morrer. O nome disso é ordem. Ao entender que ninguém está à salvo, você sabe o que esperar: esperar o inesperado.

E, até certo ponto, não tão inesperado assim.

Nos livros, ninguém morre à toa. Toda morte tem um motivo, serve a algo no roteiro e obedece a um arco. O próprio George R. R. Martin brincava em entrevistas que os produtores executivos eram muito mais cruéis do que ele, pois, na série, mataram muitos personagens que nos livros ainda estavam vivos (obviamente porque não sabiam escrever e se utilizavam disso para tentar mascarar a falta de talento. Palavras minhas, não do George).

E é isso que acontece quando a morte de personagens, junto à necessidade de chocar, é utilizada de forma indiscriminada como recurso preguiçoso por quem não sabe como evocar emoções em seu público de outra forma.

Stranger Things é previsível

Stranger Things

Pois é.

Stranger Things e uma série inspirada em filmes dos anos 1980 famosos por seguirem a clássica Jornada do Herói, onde os protagonistas vivem uma vida ordinária, recebem um chamado, embarcam numa aventura, QUASE MORREM, entendem algo, se salvam no último minuto e fica tudo bem. E estamos falando de uma época onde os protagonistas não só sempre venciam, como representavam OS ESTADOS UNIDOS, e os seus ideais propagados durante a Guerra Fria.

E é, portanto, uma série extremamente previsível.

E isso é bom, é boa escrita.

Não que tudo feito por eles seja bom. Deus sabe que existe a terceira temporada. Mas história nenhuma nasce no vácuo; é preciso ter raízes, um solo estabelecido, disseminar propositalmente sementes que vão gerar frutos mais adiante.

São deixadas dicas ao longo dos episódios para o espectador ligar os pontos e chegar a conclusões antes dos protagonistas (e se sentir muito sagaz no momento da revelação, pois estava certo!). É possível prever os acontecimentos e até mesmo os diálogos dos personagens. Até o momento, nada grita a necessidade de te surpreender com o impensável. E considero isso ótimo.

Existe algo na certeza de que vai ficar tudo bem que te permite realmente vivenciar a possibilidade de tudo dar errado. E é esse o efeito de uma boa construção narrativa: você torce para que não aconteça, mesmo sabendo que vai acontecer. E tem medo de que aconteça, mesmo sabendo que não vai.

Subindo o morro para falar com Deus

Stranger Things

Apesar de serem homens nerds, e, portanto, não confiáveis, os Duffer Brothers não demonstram sadismo em sua escrita — exceto pelo fato de o pobre Steve Harrington (Joe Keery) ter o coração partido todo fim de temporada, e o pobre Will Byers (Noah Schnapp), a Éponine de Hawkins, pairar em situação de sofrimento ao fundo de qualquer cena do Mike (Finn Wolfhard) com a Eleven (Millie Bobby Brown).

Por isso não fazia sentido todos os surtos em relação a possíveis mortes de Max (Sadie Sink) e Steve. Nada na história apontava para isso. O único personagem verdadeiramente em risco era Eddie (Joseph Quinn), seguindo o padrão das outras mortes da série, e das estruturas mencionadas de narrativa: personagens novos, com os quais ainda não temos tanto apego, e carismáticos o suficiente para que a perda seja sentida.

E, apesar de triste e evitável, serviu ao enredo. Alguém precisava morrer. Poderia ter sido o Murray (Brett Gelman), mas foi ele. Alguns sacrifícios são necessários para os Deuses do drama.

Conclusão — até o momento

Stranger Things segue a fórmula clássica dos filmes de sucesso da década de 1980 e 1990, tão em falta na atualidade, que se manifesta cada vez mais cínica e desesperançosa: a Jornada do Herói, onde os protagonistas recebem o chamado, embarcam numa aventura, vivem dificuldades, compreendem algo e saem vitoriosos.

E por isso acho ilógico que qualquer um do núcleo principal morra. Não faz sentido e seria cruel. E esperar que isso aconteça, para que a série seja considerada “boa”, além de bobo, é desonesto, uma vez que eles nunca se apresentaram assim. Significa que não vai acontecer? Não. Claro que não. Como dito, os roteiristas são homens nerds, e, portanto, não confiáveis. Talvez chegue a quinta temporada e não sobre ninguém.

Talvez construam de forma legítima o caminho para a morte de alguma personagem importante — apesar de não conseguir imaginar uma forma não-cruel disso acontecer, visto que a morte não seria exatamente a resolução de um arco, e absolutamente todos os envolvidos terão de viver com as consequências do trauma vivenciado. Oi? São os anos 1980. Não existe terapia no Tumblr ou no Twitter.

Mas o ponto não é esse, e sim mostrar que, até o momento, não é o que vem sendo desenhado.

E aí fica um apelo: será que não conseguimos apenas aproveitar as coisas? É preciso tentar adivinhar o tempo inteiro o que pode acontecer, em vez de apenas aproveitar o que se tem? Quando o entretenimento se tornou fonte de mais agonia do que diversão? É todo mundo tão apavorado assim?

Enfim, Stranger Things, em sua essência, é uma história sobre amor, laços, amizade e propaganda anticomunista.

Espero que tenha um final feliz.

Maria Gabriela é uma mulher que ama demais: comédias românticas, musicais, boybands, homens bonitos que não sabem de sua existência. Pode ser encontrada, na companhia de suas amigas, falando sobre romance, autoconhecimento, fatos do cotidiano, mais romance, e traumas no podcast Ai de mim que sou… e no blog Perdidas.

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