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Digo te amo para todos que me fodem bem: a literatura erótica de Seane Melo

Digo Te Amo Para Todos que Me Fodem Bem é uma leitura até para quem não sabe que quer ler literatura erótica. Com um título instigante, o livro de estreia da escritora maranhense Seane Melo, lançado em 2019, é sobre parte da vida de uma mulher a partir de suas transas (ou da falta de transas). A protagonista dessa história é Vanessa, uma jovem hétero de 27 anos que mora em São Luís do Maranhão. A história é dividida em três capítulos, um para cada cara com quem ela se relaciona no período: João, Mateus e Thiago.

Desde 2015, Seane publica textos de ficção erótica no Medium e em outras revistas digitais. Os contos são realistas e diretos, protagonizados por mulheres de vinte e poucos anos, na maioria das vezes explorando casos de sexo casual. Ela também lançou de forma independente a coletânea Ao Vivo em Goiânia: Quatro Contos de Patroa e o conto “O primo de Aziz“. Atualmente, está publicando um romance sobre ghosting “Oi, sumido!”, lançando novos capítulos gratuitos de tempos em tempos.

É claro que as histórias possuem cenas explícitas, descrições gráficas e detalhadas sobre atos sexuais. Afinal, o texto da autora é assumidamente erótico. O trunfo é que essas passagens servem tanto para causar desejo em quem estiver lendo quanto para revelar mais sobre os personagens das histórias. As cenas de sexo não estão perdidas entre uma história qualquer, mas são parte inseparável da vida da protagonista. Não é tão fácil pensar em outros bons exemplos de transas na ficção além da série Vida, uma produção latina do canal Starz pouco conhecida no Brasil. Como no livro, o sexo é também uma forma de apresentar os personagens, com o adicional da representatividade LGBT+.

As protagonistas de Seane são mulheres que pensam durante o sexo ou que tentam não pensar demais, são mulheres que se lembram de transas passadas, que recontam essas mesmas histórias para as amigas, omitindo alguns detalhes e dando mais atenção a outros. A proposta da escritora é, como dito numa entrevista para o projeto Mulheres que Escrevem, escrever a mulher que ela mesma queria encontrar na ficção erótica, tão restrita a narrativas escritas por homens, marcadas por inacreditáveis orgias regadas a drogas, como em Pørnopopeia de Reinaldo Moraes, uma referência da escritora normalmente mencionada em entrevistas.

Em Digo Te Amo, a primeira vez que Vanessa aparece de fato transando com alguém é já na página 38. E é uma transa sem penetração. A espera causa expectativa no leitor, que pode se perguntar: mas essa mulher não vai transar nunca? Esse não era um livro erótico? Cadê o bacanal? As primeiras cenas são de fantasia, masturbação, memórias. Narrado em primeira pessoa, conhecemos boa parte do que a protagonista pensa e do que espera do seus ficantes. Ela fala, por exemplo, de inseguranças que se passam na cabeça de muita gente, sobre essa sensação de que nunca vai aparecer uma pessoa nova, sobre não saber se a distância do cara é só uma mudança natural da relação ou se algo aconteceu e aquele ficante vai desaparecer.

“Como uma espécie de conversa mais íntima, o livro não tem sexo mirabolante, situações romantizadas ou descrições sem nexo, tão fora da realidade que beiram ao ridículo; ele é sobre uma mulher como eu, como minhas amigas, como você e como qualquer outra que já tenha cruzado o nosso caminho,” escreveu Vanessa Pessoa na resenha para o site Livro e Café.

Parte da história já havia sido publicada no Medium em textos avulsos fora da ordem que aparece no livro e que ainda estão disponíveis para leitura. Os contos foram reordenados e conectados por algumas páginas de recheio que dão fluidez à obra enquanto romance. Por isso, ler os capítulos sobre João (que era Jefferson nos contos online) é como ouvir de novo uma boa história que uma amiga contou há bastante tempo. As outras partes (Mateus e Thiago) passaram por mais adaptações.

Como a trama se passa em São Luís, é interessante perceber como a linguagem coloquial do livro retrata bem o sotaque e a faixa etária dos personagens, no uso sutil de expressões como “mangar de alguém” (caçoar) ou “lenda!” (um tipo de interjeição usada para falar de situações improváveis). Com exceção de Maria Firmina dos Reis, que voltou a ganhar certo destaque nos últimos anos com a reedição de Úrsula, os escritores maranhenses conhecidos nacionalmente são homens como Ferreira Gullar e Aluísio Azevedo.

Também aparecem no texto de Seane elementos que situam a narrativa na capital maranhense, como o bar do Veneto, o costume de comer caranguejo na praia, a Avenida dos Holandeses, sem cair na obviedade de um passeio pelo centro histórico da cidade. Considerando que Seane tem um sotaque nordestino diferente, é como se a pernambucana Duda Beat cantasse para ela esse trecho da música Bixinho: “Ei, meu bem/Com esse sotaque cê me deixa louca/Cheira meu cabelo, aperta minha coxa/Que com esse beijo cê me deixa doida“.

Para não ser acusada de nepotismo maranhense, vale dizer que, por mais que o livro seja um ótimo livro de estreia, tive a impressão de que a primeira parte (“João”) teve mais desenvolvimento que as outras duas. A parte mais prejudicada é a terceira (“Thiago”), que parece não combinar com as outras histórias. Além disso, é nos capítulos finais — na verdade, nas páginas finais — que surge toda uma discussão sobre limites entre abuso e responsabilidade emocional, uma discussão ainda mais delicada quando envolve a acusações públicas em redes sociais como o Twitter. O tema não foi aprofundado e não tem muita serventia para o desenvolvimento da protagonista, que não era uma das mulheres que acusavam Thiago de alguma forma de abuso. Às vezes, no mundo real, esses casos realmente não influenciam a vida de quem não está diretamente relacionada às denúncias. Só que, no livro, o episódio pareceu perdido em meio a uma história que já se encaminhava para o fim.

Outro ponto negativo é que muitos personagens secundários são citados sem que algum deles seja verdadeiramente aproveitado, principalmente os amigos da protagonista. Quem poderia ganhar mais destaque se outros nomes não fossem apenas citados seria, por exemplo, Luísa, a amiga bissexual de Vanessa.

Digo Te Amo Para Todos que Me Fodem Bem é um livro provocante não só pela temática erótica e pelo título (e que título!). Na história, Vanessa é uma mulher que, além de ter um trabalho qualquer que ela odeia, também é autora de poemas eróticos e precisa lidar com os achismos alheios de que tudo o que escreve é baseado em experiências pessoais. Assim, o livro flerta com elementos autobiográficos, já que isso também acontece com Seane desde que ela começou a publicar os contos pornográficos, e o assunto foi até abordado no texto Uma mina que (d)escreve putaria, de 2016. Na sua história mais recente e ainda em elaboração, “Oi, sumido!”, a protagonista (Elvira) também é autora de contos eróticos, o que indica que os bastidores sobre a escrita pornográfica ainda vai aparecer bastante na obra da maranhense.


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