Categorias: LITERATURA

Úrsula. Romance, 1859

Mulher negra, professora, participante ativa da vida política e intelectual do Maranhão, autora de livros, poemas e contos, além de compositora do hino de libertação dos escravos do estado, Maria Firmina dos Reis tem em seu currículo feitos suficientes para circular entre as figuras mais importantes do país. Ela foi a fundadora da primeira escola mista de educação gratuita e é considerada a primeira romancista brasileira, mas faleceu pobre, cega e esquecida aos 92 anos, quando seu rosto foi trocado pelo de Maria Benedita Bormann, também escritora, porém gaúcha e branca, e sua voz permaneceria nas sombras por cerca de um século.

Em 1859, usando o pseudônimo uma maranhense, a autora lança aquele que seria considerado o primeiro romance brasileiro escrito por uma mulher e também o primeiro romance abolicionista em língua portuguesa. No entanto, sua obra e boa parte de seus dados biográficos foram perdidos quando seu filho, Leude Guimarães, sofreu um assalto.

Úrsula e sua criadora só reapareceram em 1962, quando o pesquisador Horácio de Almeida encontraria um exemplar da primeira (e até então, única) edição do romance junto a um lote de livros usados que adquiriu em um sebo. Treze anos depois, é também ele o responsável pelo prefácio e lançamento do fac-símile do livro. Em 2017, por conta do centenário de sua morte, a vida e obra de Maria Firmina dos Reis ganharia destaque e toda uma leva de novas edições, pesquisas, artigos e homenagens.

Composto por pouco mais de 150 páginas, relatadas por um narrador onisciente, que emite juízo e se mostra empenhado em expor os valores e a realidade das vidas que conta, vemos retratados, além de uma história de amor e suas reviravoltas, as mais diversas formas de sofrimento. Enquanto aves entoam “seus meigos cantos de arrebatadora melodia” em tarde que “parecem resumir em si quanto de belo, de luxuriante, e de poético ostenta o firmamento do equador”, acompanhamos mulheres oprimidas por maridos tiranos, irmãos ciumentos ou homens que não suportam a ideia de seu amor não ser correspondido, e, principalmente, pessoas escravizadas falando sobre as tristezas de sua condição e narrando seu cativeiro. Sobre a última questão, Maria Firmina inova, retratando a escravidão por um ponto de vista inédito em uma época em que a política e a literatura eram feitas por e para homens brancos, sem levar em consideração as dores e as opiniões daqueles tidos como pouco dignos, instruídos ou importantes.

Atenção: este texto contém spoilers!

Logo em “Duas Almas Generosas”, o primeiro capítulo, a escritora busca desligar a imagem do escravizado como ser degenerado pela sua condição. Quando Túlio, que em nenhum momento aparece como o cativo de “alma branca”, salva a vida de Tancredo, cidadão de família rica, o narrador deixa claro que, apesar de todas as diferenças, ambos compartilham o mesmo espírito generoso, a mesma bondade, afinal “as almas generosas são sempre irmãs.”

“O homem que assim falava era um pobre rapaz, que ao muito parecia contar vinte e cinco anos, e que na franca expressão de sua fisionomia deixava adivinhar toda a nobreza de um coração bem formado. O sangue africano refervia-lhe nas veias; o mísero ligava-se à odiosa cadeia da escravidão (…).”

Quando questionado sobre qual a melhor forma de ser recompensado pelo bem que fez, Túlio afirma só desejar que os escravos que cruzarem o caminho de Tancredo sejam tratados com respeito.

“Continuai, eu vo-lo suplico, em nome do serviço que vos presto, e a que tanta importância quereis dar, continuai, pelo céu, a ser generoso, e compassivo para com todo aquele que, como eu, tiver a desventura de ser vil e miserável escravo! Costumados como estamos ao rigoroso desprezo dos brancos, quanto nos será doce vos encontrarmos no meio das nossas dores!”

O jovem senhor, por sua vez, se mostra desgostoso com a situação de seu salvador e de seus iguais e, como forma de agradecimento e de carinho para aquele que chama de amigo, devolve a Túlio sua liberdade. A partir deste momento, o ex-escravizado, seja por carinho, seja por gratidão, seja por não saber bem onde essa liberdade o levaria (afinal, não havia qualquer tipo de auxílio aos alforriados), se vê ligado ao companheiro de alma, seguindo-o até seu infeliz fim.

“Túlio obteve por dinheiro aquilo que Deus lhe dera, como a todos os viventes – era livre como o ar, como o haviam sido seus pais, lá nesses adustos sertões da África; e como se fora a sombra do seu jovem protetor estava disposto a segui-lo por toda a parte (…).”

As falas de Túlio são, via de regra, usadas como denúncia; ele é ouvinte e transmissor da narrativa de Suzana e Antero. A história de Suzana marca todo o processo da diáspora negra, começando com a vida comum de sua terra e passando pelo relato doloroso do navio onde, junto com centenas de outros prisioneiros, fez o trajeto que tinha como destino a servidão em terras brasileiras.

“Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio (…). Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé e para que não houvesse revolta, acorrentados como os animais ferozes das nossas matas (…). É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim e que não lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e famintos (…). A dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade foram sufocados e famintos.”

Antero, em contrapartida, fala sobre uma África marcada pelo trabalho duro, mas, também, por festas e comemorações. O velho guardião que, graças ao senhor bárbaro, trabalha sem descanso, encontra na bebida uma forma de suportas as condições de sua existência. Apesar de não ser descrito como bondoso, Antero não é tido como alguém impiedoso e, sim, como uma vítima, um alguém que encontrou na falta de sobriedade e na obediência formas de garantir a sua sobrevivência.

Servindo como pano de fundo de toda a crítica social, temos o amor de Tancredo e Úrsula. Sempre descrita como doce, bela e cheia de compaixão, a jovem órfã divide com a mãe doente uma vida de solidão e pudor. A paixão pura e urgente é declarada no terceiro capítulo e encontra no tio da moça seu grande obstáculo. Fernando P. é caracterizado como um homem de sinistro olhar, como alguém violento e rancoroso. Sua maldade vai além dos danos causados à irmã ou dos crimes que comete para que Úrsula seja sua; ele é colocado como vilão também pela forma como trata seus cativos.

“Os míseros escravos gemeram de ódio e de dor; mas nem a mais leva exprobação, nem um sinal de justa indignação, se lhes pintou o rosto. Eram escravos, estavam sujeitos aos caprichos de seu bárbaro senhor.”

Apesar do drama nos parecer ultrapassado, clichê e até desnecessário das reviravoltas previsíveis ou da fixação de Tancredo pela ex, Adelaide, Úrsula ainda se mostra um livro relevante e divertido, de leitura prazerosa, para além de sua inquestionável importância literária e social.

“Deixai, pois, que minha Úrsula, tímida e acanhada, sem dotes da natureza, nem efeitos e louçanias da arte, caminhe entre vós.”

Maria Firmina dos Reis apresenta sua Úrsula como humilde, diz — ironicamente ou não — saber que o romance pouco vale, “porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira”, mas não esconde seu desejo de mostrá-lo a toda parte e sua esperança de que ele ao menos sirva de incentivo para outras, para as que virão. Seu feito, aqui, é gigantesco; contando um lado da história que, ainda hoje, muitos negam e esquecem, ensinando àqueles que não tinham qualquer expectativa, sendo pioneira, sendo mensageira, nos mostrando as várias histórias que existem em um período, em uma mesma nação.

Em outubro de 2017, uma Maria Firmina dos Reis sem rosto, mas representada por uma ilustração com a cor e os traços mais parecidos com os que teriam sido seus, estampou a capa da edição número 140 da Suplemento Pernambuco. No meio do dossiê sobre sua vida e obra, o jornalista Leonardo Nascimento destaca a necessidade de revisitar escritos como Úrsula:

“Se entendemos a história como uma arena de disputas pelo direito de significar, e reconhecemos que essa mesma história é escrita (e inscrita) a partir de questões e olhares do tempo em que ela é vertida em discurso, podemos então ‘retornar ao passado’ com dúvidas e questões de ‘nosso tempo’, principalmente quando temos em mãos outras narrativas que podem auxiliar na árdua tarefa de ‘escovar o passado a contrapelo'”.

Chimamanda Ngozi Adichie começa o TED O Perigo da História Única falando sobre como somos vulneráveis às histórias que temos e ouvimos; como, quando crianças, construímos nossas fantasias e ficções através delas, mesmo não encontrando nenhum elemento que possa ser relacionado à vida que vivemos e às pessoas que fazem parte do nosso dia a dia. Por tempo demais nossos clássicos e “livros essenciais” foram compostos por uma única história, por um único traço por uma única voz. Embranquecemos escritores para que esses coubessem na única caixa disponível, esquecemos e apagamos narrativas que nos mostravam a maldade, a desigualdade e as contradições do tal “homem cordial”; silenciamos mulheres com aventais e um destino coletivo, trancamos homossexuais em armários, isolamos indígenas e, assim, perdemos todo um mundo de contos, crônicas, romances, poesias e outras artes, perdemos a potencialidade dessas vidas. Hoje, mais do que nunca, temos a oportunidade e o dever de ouvir outras vozes e de olhar e reescrever nossa história pelos mais diversos ângulos.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui! A ilustração que abre o texto é uma arte inspirada, visto que o único registro conhecido da face da escritora Maria Firmina é um busto.

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