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Saga da Conquistadora: o fogo e sangue de Lada Dragwlya

E se Vlad III Dracul, príncipe da Valáquia, tivesse uma filha tão impiedosa e cruel quanto ele? É a partir desse exercício de imaginação que a autora Kiersten White dá início a sua Saga da Conquistadora — trilogia que compreende os livros Filha das Trevas, Dona do Poder e Senhora do Fogo — para contar a sua versão da história do temível líder valáquio que, com muito derramamento de sangue, defendeu seu território contra o avanço do Império Otomano no século XV. Os livros, publicados no Brasil pela Plataforma 21, contam a história de Lada Dragwlya, uma menina que aprende desde muito nova que a chave para a sobrevivência em um mundo governado por tiranos é não seguir as regras.

A trilogia de Kiersten White toma emprestado da História alguns momentos chave da expansão do Império Otomano, liderado pelo sultão Mehmed II, O Conquistador, e o enfrentamento direto com Vlad III que defendia a autonomia de Valáquia, para criar sua narrativa. Durante anos Vlad foi capaz de impedir o avanço otomano pela Europa ao barrar o acesso do exército rival em sua província, que ocupava, até então, quase todo o sul da Romênia. Na trama de Kiersten White, é nesse universo de guerras políticas e batalhas pela expansão de reinos que tem início a história de Lada. Vlad não se impressiona com a filha devido ao seu gênero e ele, que raramente passa tempo o suficiente na presença dela para de fato conhecê-la, não pensa muito a respeito da prole. Além da menina, a filha mais velha dentro do casamento, Vlad também é pai de Radu que, mesmo sendo um menino, não cai nas graças dele por viver chorando e se escondendo atrás de sua ama em busca de proteção. O mundo não é gentil com os irmãos Dragwlya, mas a trajetória de ambos ainda terá muitos obstáculos pelo caminho antes que possam se considerar, de fato, felizes — se é que felicidade é algo possível nessa história.

Filha das Trevas

Saga da Conquistadora

“Somos aquela árvore, ela pensou, segurando o galho de cheiro forte junto ao nariz. Desafiamos a morte para crescer.”

No início da Saga da Conquistadora acompanhamos a infância nada comum de Lada. A menina, nascida na nobreza, não poderia ser mais distante dos pais. A mãe, um sopro de mulher que vive em um casamento sem amor e repleto de abusos, não tem força para cuidar de seus filhos, e tanto Lada quanto Radu são sempre relegados aos cuidados da ama. Vlad, enquanto isso, segue fazendo os jogos políticos que consegue para se manter como voivoda de Valáquia, ou seja, o príncipe responsável por todo o território. Para isso, ele precisa negociar regularmente com o Império Otomano e o sultão Murad, que constantemente solicita o pagamento de tributos e o envio de meninos valáquios para fazer parte dos janízaros, a elite do exército otomano, uma força composta por súditos, comumente raptados de invasões a outros territórios ou cedidos como tributos ainda crianças, e convertidos ao islã para lutar pelo sultão.

Em uma de suas novas manobras para se manter no poder de Valáquia, Vlad concede os filhos Lada e Radu, duas crianças, como reféns para o Império Otomano e prova de sua lealdade para com Murad. Sem olhar para trás, Vlad deixa os filhos em um lugar desconhecido para que cresçam rodeados de estranhos na corte otomana. Lada, como é de sua natureza, está decidida a não sucumbir diante seus inimigos, e jura, ainda em tenra idade, retornar à Valáquia como príncipe e líder de seu povo. Radu, um menino bonito e afetuoso, acaba se sentindo muito mais à vontade na corte inimiga do que no próprio lugar em que nasceu. Entre aulas sobre o islã e a cultura otomana, além de provas irrefutáveis do poder do Império e do sultão, Lada e Radu acabam encontrando um amigo entre os estranhos: Mehmed, filho do sultão com uma de suas concubinas, até então distante da linha sucessória por não ser filho de uma das esposas oficiais de Murad.

Os três acabam se unindo por necessidade, e não demora a nascer uma amizade entre eles. Enquanto Radu aceita de bom grado quaisquer migalhas de carinho que possa receber de quem quer que seja, Lada luta o quanto possível contra os sentimentos que começa a nutrir por Mehmed. Para ela é inconcebível se tornar amiga de um otomano, o símbolo máximo de tudo o que ela perdeu quando foi entregue à corte de Murad como refém, e tenta resistir ao que sente a todo custo. Mas Mehmed, tão solitário quanto Lada e Radu, é um menino inteligente e que tem no olhar o brilho daqueles destinados a grandes feitos, e não demora para que os irmãos se deixem inebriar pela luz que emana do pequeno zelote. Os laços que se formam nesse momento, quando os três ainda são crianças, retornarão durante suas vidas para lembrá-los de que amor e ódio, lealdade e vingança, podem ser os dois lados de uma mesma moeda.

“Amor e vida. Coisas que podiam ser concedidas e tiradas em um piscar de olhos, tudo em nome do poder. Era impossível para ela abrir mão da própria vida. Já do amor…”

Em Filha das Trevas, Kiersten White desvela diante de nossos olhos, e ao lado de Lada e Radu, a corte otomana, os costumes do islã, e o poder do Império Otomano, sempre disposto a tomar o que quer que seja simplesmente porque tem meios para isso. Lada, mesmo criança, está sempre tomando notas do que pode aprender em termos de estratégia militar e não demora a encontrar um lugar entre os janízaros, treinando com eles e traçando as primeiras linhas de seu plano ambicioso de retomar Valáquia das mãos otomanas. Radu, enquanto isso, se entrega ao islã e se converte, encontrando no silêncio das orações a paz que nunca teve em sua terra natal. Os irmãos, um com mais reservas do que o outro, também não demoram a entregar seus corações a Mehmed, o que sela o destino dos três para sempre.

Além de ter uma narrativa cativante no primeiro livro de sua trilogia, Kiersten White já quebra alguns dos tropos comuns a esse tipo de fantasia: mesmo apaixonada por Mehmed, Lada não deixa seus desejos e ambições de lado e nem perde a cabeça em nome do amor que sente, permanecendo sempre fiel àquilo que acredita ser seu destino, e seu direito: ser príncipe de Valáquia. Lada é uma protagonista ambiciosa e impetuosa, nem sempre descrita por sua beleza mas sempre lembrada por sua ferocidade, inteligência e determinação. Radu, o outro ponto de vista da narrativa de Filha das Trevas, é o completo oposto da irmã, mas igualmente admirável de se acompanhar: confuso a respeito do que sente por Mehmed, os questionamentos de Radu a respeito de sua sexualidade e como isso é visto dentro da religião que escolheu como sua enriquecem a trama e nos faz pensar a respeito de quanta dor poderia ser evitada se às pessoas fosse permitido simplesmente amar. Ainda criança, entrando na adolescência, nem Lada nem Radu sabem o que fazer com aquilo que sentem, e cada um lida a sua maneira com o amadurecimento que vem com a idade.

O triângulo construído pela autora em Filha das Trevas é o que impulsiona a narrativa adiante, sempre fazendo o leitor pender ora para um lado, ora para o outro, costurando os sentimentos dos três em tramas políticas e guerras. Alternar os pontos de vista do livro entre Lada e Radu enriquece ainda mais a narrativa, nos fazendo acompanhar a mesma história por meio de impressões completamente diferentes, visto que os irmãos não possuem praticamente nada em comum além do mesmo sangue e o amor por Mehmed. Lada sempre vê as situações em que está envolvida como meios para um fim — retomar a Valáquia —, enquanto Radu tenta tirar o melhor de cada instante, ansiando por cada olhar e sorriso de Mehmed. Lada é toda fogo e sangue, Radu é observação e sentimento, e cada um luta com as armas de que dispões para sobreviver na corte otomana. Kiersten White mescla com maestria as emoções conflitantes das crianças, crescendo e se descobrindo em uma corte otomana, com fatos históricos e licenças poéticas, o que torna Filha das Trevas um perfeito início de trilogia.

Dona do Poder

Saga da Conquistadora

“Não consigo imaginar um deus que abomine o amor, seja qual for a maneira que expressamos nossa ternura uns pelos outros.”

O segundo livro da trilogia enriquece ainda mais a trama da Saga da Conquistadora quando Kirsten White aprofunda as histórias envolvendo Lada, Radu e Mehmed. Agora relativamente mais velhos e experientes, porém nem sempre com aquilo que sentem uns pelos outro sob controle, os três começam a avançar mais rapidamente em direção aos seus objetivos maiores: o trono de Valáquia, para Lada, a conquista de Constantinopla, para Mehmed, e ser amado por inteiro, para Radu.

Crescer no coração do Império Otomano transformou as crianças em jovens forjados para a luta, cada um à sua maneira. Lada finalmente consegue retornar à Valáquia, mas não sem antes deixar seu coração despedaçado pelo caminho, mas ela não tem tempo para pensar muito sobre isso. Sua maior preocupação no momento é tornar Valáquia grande e, para isso, começa a fazer alianças e a tratar aqueles que se opõem a ela com extrema violência — não é à toa que Lada pensa em si mesma como um dragão, uma criatura feroz capaz de exterminar com fogo tudo aquilo que se coloca entre ela e seu objetivo maior, nem que o resultado seja um país imerso em cinzas. Não é fácil para Lada conquistar a confiança dos boiardos, nobres valáquios detentores de terras e exércitos, mas a população não demora a aclamá-la e aceitá-la como sua salvadora. Se na força bruta e na inteligência militar Lada não hesita, ela precisa do auxílio de Radu para lidar de maneira diplomática com os nobres valáquios, mas seu irmão escolhe Mehmed e não parte em seu socorro, indo parar em Constantinopla como agente duplo do sultão.

No segundo livro da trilogia, Kirsten White nos mostra mais de Radu, seus sentimentos confusos a respeito de Mehmed e sua jornada de autodescoberta. Nascido em um lugar violento, irmão mais novo de Lada, que é toda fogo e ferocidade, Radu, quando criança, não conseguia se impor ou se proteger sozinho. Foi apenas com seu amadurecimento na corte otomana, e sua conversão ao islã, que ele conseguiu começar a entender melhor seu lugar no mundo. O amor que sente por Mehmed continua a nortear suas decisões, mas em Dona do Poder Radu começa a questionar se o sultão, e amigo, sabe o que ele sente e se apenas o manipula como bem entende por conta desse amor. Essas questões surgem para Radu principalmente quando Mehmed o incube da perigosa missão que é abandonar o Império Otomano e pedir abrigo em Constantinopla, vivendo como um espião.

“Um dia você ainda vai chegar a um lugar aonde eu não vou conseguir ir.”

A Queda de Constantinopla realmente foi perpetrada por Mehmed II, O Conquistador, em 1453, e em Dona do Poder acompanhamos as maquinações do sultão — e de Radu — para que a capital comandada por Constantino caia nas mãos de Mehmed. Tomando como base uma profecia, Mehmed acredita ser seu destino conquistar Constantinopla, a capital romana no oriente e símbolo da Igreja Ortodoxa, como forma de transformar seu reinado em algo nunca antes visto. E por esse objetivo, ter Constantinopla em seu poder, Mehmed dispõe de Radu e o envia para o coração do exército inimigo. Quando Lada descobre o que foi feito de seu irmão, ela fica furiosa com Mehmed: mesmo que o relacionamento entre os Dragwlya nunca tenha sido o mais afetuoso, eles se amam da maneira torta deles, e Lada não perdoa Mehmed por ter usado o amor que Radu sente por ele como meio para manipulação.

Dona do Poder é mais um degrau na trajetória de Lada e Radu, obrigados a amadurecer muito cedo para que pudessem sobreviver em uma corte hostil que os via apenas como reféns, peças de tabuleiro em um jogo político muito maior do que eles. Porém, utilizando de sua inteligência e capacidade de sobrevivência, tanto Lada quanto Radu forjam para eles lugares únicos em toda essa teia de poder — Lada, tomando tudo o que está a seu alcance para ajudá-la a retomar Valáquia, e Radu navegando com maestria, sorrisos e delicadezas em ambientes cada vez mais perigosos.

Ao final de Dona do Poder, encontramos um novo mapa estratégico em que os irmãos deixaram de ser meros peões e se tornaram seu próprios jogadores, ainda que isso tenha custado muitas vidas pelo caminho. O amor e o ódio que sentem um pelo o outro, e que sentem também por Mehmed, desde a infância, os move adiante, custe o que custar. O segundo volume da trilogia também nos conduz por todo o cerco de Constantinopla, o que é viver a incerteza de uma guerra e a confusão de sentimentos que inundam os combatentes. Em Valáquia, Lada mergulha cada vez mais fundo na sua crueldade e sede de sangue, espalhando sua fama de sanguinária em toda a Europa e Império Otomano.

Senhora do Fogo

Saga da Conquistadora

“Quem era ela? Era o dragão. Seu país tinha presas, garras e fogo, que ela usaria até o fim.”

A trilogia de Kirsten White é concluída de maneira ímpar em Senhora do Fogo. Poucas protagonistas de histórias fantásticas como de a Saga da Conquistadora conseguem me fazer vibrar a cada instante, e Lada certamente é uma delas. A série de Kirsten White me lembra muito As Crônicas de Amor e Ódio de Mary E. Pearson — publicada no Brasil pela DarkSide Books —, mas enquanto Lia, a protagonista desta, é mais paciente e comedida, Lada não mede esforços — e assassinatos — para chegar onde deseja. É revigorante poder acompanhar a jornada de uma protagonista tão completa quanto Lada: ela abraça a violência, que é intrínseca a ela, e faz o necessário para retomar Valáquia. Ela é feroz, destemida e corajosa, mas também é cabeça quente e impulsiva. Protagonistas femininas normalmente não podem se dar ao luxo de serem como Lada, então é enriquecedor acompanhar uma trama em que os estereótipos são basicamente invertidos, com Lada sendo a senhora de toda a ação enquanto Radu prefere pensar e analisar antes de agir, inclusive com relação aos seus sentimentos.

Kirsten White acertou em cheio ao “inverter” as características dos personagens. Digo inverter entre aspas pois não há nada que diga que mulheres devem ser sempre calmas e delicadas enquanto homens precisam partir para a força bruta — ainda que assim o seja em muitas histórias, sabemos bem. Em a Saga da Conquistadora, os estereótipos são deixados de lado e recebemos personagens verossímeis, com angústias, sonhos e desejos, como tem que ser. Por diversos momentos durante a leitura me questionei sobre como a autora amarraria o final, e eu não poderia ter ficado mais contente com o desfecho das histórias de Lada e Radu.

Bebendo da fonte da História verdadeira, de todas as forças antagônicas que agiram em torno de Valáquia, do Império Otomano e de Constantinopla, Kirsten White costurou uma trama de amor, ódio e vingança protagonizada por dois irmãos que não poderiam ser mais diferentes entre si. Lada e Radu sobreviveram em uma corte inimiga, encontraram suas vocações e lutaram o quanto puderam para atingir seus objetivos. Não imaginei que a autora fosse, de fato, ser gráfica a respeito das ações de Lada — afinal ela é inspirada em Vlad, o Empalador — e fiquei contente quando li que Kirsten White não se esquivou de mostrar o lado aterrorizante de Lada — uma característica que a coloca em rota de colisão com seu destino final.

“Ela era dragão. Ela era príncipe. Ela era mulher. E o último era o que causava mais medo.”

O caminho escolhido por Lada, de crueldade e mortes, não a impede de ser uma protagonista interessante para uma saga incrível. Ela é teimosa, impetuosa e se torna o Dragão da Valáquia que sempre disse que seria e gostar dela enquanto personagem apenas salienta o quão bem foi construída por sua autora. Lada é inteligente, como vemos durante toda a trilogia, mas sua sede de sangue e teimosia serão responsáveis pelo seu fim, visto que erros são cometidos justamente por sua falta de limites — algo inerente à vida, porém escalonados se você é líder de um povo e faz um inimigo após o outro assassinando emissários e devolvendo seus corpos com seu turbantes presos à cabeça por meio de pregos.

Radu, inspirado na figura real de Radu, o Belo, que também foi príncipe de Valáquia, é um personagem incrível e por quem é fácil torcer. Ao contrário de Lada e Mehmed, Radu não deseja ser o líder invencível de um grande reino ou sultão do maior império da Terra — para ele, basta amar e ser amado por aquilo que é. Em a Saga da Conquistadora, temos personagens apaixonantes e é fascinante acompanhar o crescimento deles desde a infância — no caso de Lada e Radu, claro. Mehmed, o que tenho a ver — e como agem diante das situações a eles impostas. O amor que os une na infância, o ódio e a distância que cresce entre eles, tudo culmina para um dos melhores desfechos que já li em trilogias do gênero. Kirsten White não se esquivou de nada e entregou a épica história de dois irmãos, tão diferentes entre si, que compartilhavam o sangue do dragão de Valáquia, e que abriram com as próprias mãos seu caminho em um mundo que não os aceita.

A Saga da Conquistadora é um romance histórico que tira partido de fatos reais para criar uma trama épica do início ao fim. O triângulo amoroso é completamente diferente do que estamos acostumados a encontrar em livros direcionados ao público young adult, e essa é apenas uma das várias surpresas que encontramos nas páginas escritas por Kirsten White. A autora desafia os estereótipos de feminilidade e masculinidade em seus personagens, costura uma trama empolgante e não tem medo de ousar com uma história complexa e cativante de amor, ódio e todos os sentimentos que há entre eles.


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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2 comentários

  1. Sim!

    Ahhhhh! Sim! Encontrei alguém que concorda comigo sobre a Saga da Conquistadora! Eu vibrei tanto pela Lada e pelo Radu que me tornei uma fã automática da Kiersten White depois dessa saga. Que personagens, que enredo, que cenários!

    1. Calma aí, tem alguém que acha a Saga da Conquistadora menos do que perfeita? Sou apaixonada por essa série, queria desler pra ler pela primeira vez!