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Malhação: Viva a Diferença, um manifesto pela diversidade

Depois da estreia da 25ª temporada de Malhação, em março de 2017, a noção sobre o que é uma novela de adolescentes mudou: se antes essas narrativas eram infantilizadas, Viva a Diferença nos mostrou um jeito diferente de tratar o jovem brasileiro na televisão. Um jovem que é ligado ao mundo em que vive, um mundo diversificado, cheio de problemas complexos que afetam suas vidas de forma profunda. Esses assuntos foram mostrados sem tabus, com a mesma qualidade destinada aos públicos em outros produtos da programação da Globo.

O grande sucesso dessa temporada pode ser atribuído à mudança de ambientação da novela. Sai o desgastado Rio de Janeiro e entra a grande metrópole de contrastes, São Paulo. A emissora poderia investir nesse legado e continuar a explorar histórias de jovens pelo Brasil: seria possível produzir mais 23 temporadas com personagens e narrativas inéditas e inusitadas, nunca antes vistas na televisão brasileira. A temporada mostrou que, ao contrário de muitos adultos, a maioria dos jovens respeita as diferenças, procuram se encontrar nelas, em um meio termo, aceitar e respeitar o que o outro tem a oferecer. Essa diversidade, pouco mostrada na TV aberta, foi o carro chefe de Viva a Diferença. O jovem brasileiro tem muito o que mostrar, tem muito o que falar; tem a necessidade de compartilhar seu dia a dia, de expressar o quanto as diferenças estão presentes em suas vidas e o quanto eles crescem com elas. A juventude dos anos 2010 é aberta a novas experiências e é compreensiva com a realidade alheia. E tem muita voz.

A educação no Brasil

Parte quase indissociável da vida desses jovens é a escola. A temporada propôs ver o ambiente escolar na vida do jovem de forma diferente ao que vem sendo apresentado no país. Hoje, o ensino é dado como algo necessário, mas “à parte”, onde o aluno apenas vai para escola e faz o dever passado pelos professores. Não há integração entre a vida pessoal e escolar do estudante, embora seja no ambiente da escola que os adolescentes passam a maior parte do tempo. Nada disso tem a ver com escola integral, com o aluno que praticamente passa a morar no colégio, mas com a participação de professores, coordenadores, pedagogos e pais em ambas as esferas da vida do jovem. O que acontece dentro do ambiente familiar do adolescente afeta profundamente seu rendimento escolar, assim como acontecimentos escolares — também levando em consideração a relação entre os próprios jovens com romances, bullying, etc — podem afetar a relação familiar e até mesmo a saúde física e mental do estudante.

É por isso que a noção de escola e ensino como um negócio baseado no lucro deve ser deixada no passado. Atualmente, o bom desempenho de uma instituição de ensino é medido pela quantidade de jovens que passam no vestibular, mas os anos em que o aluno fica no ensino médio são também anos de formação, da busca do jovem pela construção de uma identidade única, de encontrar o que lhe agrada ou não e assim descobrir si mesmo. O jovem e seu futuro viram ferramenta de lucro para um negócio. É isso que também contribui para o sucateamento do ensino público, por exemplo. O ensino médio brasileiro, desde sua criação, sempre viu uma demanda maior do que a infraestrutura existente. Não há escolas suficientes para os alunos e não há previsão para que essa estrutura seja criada. A verba repassada para o ambiente escolar não é suficiente para a demanda. O Colégio Cora Coralina, escola pública que é um dos cenários de Viva a Diferença, é utópico e uma realidade distante do que acontece verdadeiramente na maioria das escolas do país.

Viva a Diferença

É claro que uma escola se faz com a comunidade, mas o ensino público depende de repasse de verbas, o que não vem acontecendo com frequência. Ao contrário, verbas para educação vêm sendo sistematicamente cortadas, não repassadas ou não chegam até a escola e os alunos. Ensino de qualidade é direito de todos, mas às vezes parece ser tratado como privilégio: quem pode pagar tem uma qualidade melhor; para quem não pode, qualquer coisa serve. Com esse sucateamento, muitos pais veem na escola particular uma saída para a educação dos filhos, como a própria trama da temporada propôs em sua reta final. Com crises de desemprego cada vez mais frequentes no país, os responsáveis pelos jovens têm na opção do ensino público a única possível. Mas então surgem as escolas particulares “caça níquéis”: escolas que parecem de qualidade, com uma infraestrutura adequada, mas que são baseadas em sistemas de ensino engessados, que não dão espaço para o jovem crescer nele mesmo, criar sua identidade.

Muitos desses sistemas de ensino são baseados numa educação apostilada, vendidos como franquias e visam unicamente o vestibular. É o aluno como ferramenta de lucro: quanto mais alunos passam no vestibular, mais propaganda a escola gera e mais pais se impressionam com os resultados obtidos. Assim, mais responsáveis matriculam jovens nessas escolas, sem se importar com o que realmente o adolescente irá aprender ali.

A escola também é parte responsável pela formação do caráter do jovem e é nesse ambiente que ele aprende a conviver com a diversidade — um sistema engessado não permite a troca de experiências. É por isso que a narrativa é tão contra o projeto de escola de Malu (Daniela Galli) e Edgar (Marcello Antony), que ia em direção oposta a tudo o que a escola em que Edgar é diretor prega. O Colégio Grupo — escola criada pelo pai de Edgar e avô de Lica (Manoela Aliperti) e Clara (Isabella Scherer) — é uma escola que pode ser encontrada hoje em dia, mas que está cada vez mais rara. Uma escola aos moldes do que propõe grandes educadores como Paulo Freire e Darcy Ribeiro, que formaram o sistema de ensino consciente no país. Escola que, junto ao Cora, foi a proposta de Viva a Diferença para solucionar a crise de ensino do Brasil.

Uma temporada de contrastes

Viva a Diferença

O Grupo é a escola particular como muitas outras da realidade: tem seu mundo fechado, uma “bolha” em si mesma. Por isso, o encontro e a amizade entre as “Five” foi tão importante: fez com que essa bolha da escola particular paulistana estourasse. Todos os alunos do Grupo acabaram tendo contato com alunos do Cora. Amizades improváveis são geradas, romances difíceis acontecem e o mundo dos alunos de ambas as escolas se expande.

Os alunos ricos do Grupo têm acesso grande às vidas dos alunos do Cora, mas o movimento contrário é um pouco mais complicado. A realidade do jovem negro e pobre no Brasil é destoante do branco e rico; são universos quase paralelos. É assim, também, em universos paralelos, que o tratamento sobre o alcoolismo diferiu tanto na narrativa das duas realidades. Aldo (Cláudio Jaborandy), pai de Tato (Matheus Abreu) — em um arco com narrativa forte e real — acaba nas ruas por causa do vício, mas o filho não desiste dele. Com a ajuda de Keyla (Gabriela Medvedovski) ele consegue emocionar e conscientizar o pai a ponto de fazê-lo procurar o Alcoólicos Anônimos, que ajuda Aldo a se manter sóbrio e, consequentemente, capaz de ser um bom pai para Tato. Já o personagem alcoólatra adolescente e rico tem um final apressado, em que o vício não é nada mais que um traço de personalidade. Durante toda a temporada é mostrado que MB (Vinicius Wester) abusa de bebidas alcoólicas e drogas, a ponto de em um momento extremo de estresse ele dizer que “precisa de uma vodka para relaxar”. Mas em nenhum momento esse problema é endereçado de forma consciente. O alcoolismo de MB não é tratado, não é apresentado como um problema muito grande. É algo que vem e vai no personagem. Mesmo outros personagens reclamando das bebedeiras do garoto, nada é feito sobre isso.

O que impede que MB tenha um destino parecido com o de Aldo e também acabe nas ruas é ter crescido com dinheiro, na bolha da escola particular. Apesar de terminar a temporada praticamente falido — com o pai procurado pela Interpol por estar envolvido em corrupção de empreiteiras —, MB pertence e sempre pertencerá a uma classe privilegiada. Quando indagado como ele fará para viver a partir dali, a primeira coisa que o garoto afirma é que vai “pedir dinheiro para a avó”. A classe alta paulistana sempre cai de pé.

Viva a Diferença

Esse é o oposto da narrativa dos jovens pobres e negros de Viva a Diferença. Na primeira parte da temporada, Fio (Lucas Penteado) sofre racismo e tem um encontro preocupante com a polícia. Nessa última parte, ele ajuda os espectadores a descobrir o genocídio feito contra os jovens negros brasileiros por meio do assassinato de um conhecido na rua em que mora. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras; pessoas negras possuem chance maior de serem assassinados em comparação com brasileiros de outras etnias (23,5% maior). A situação é mais que preocupante: a ONU lançou a campanha Vidas Negras pelo fim da violência contra a juventude negra brasileira. É a roteirista Renata Martins quem assina esses arcos da novela com primazia, emocionando os espectadores na cena em que as Five, Anderson (Juan Paiva), Fio e Jota (Hall Mendes) assistem a condenação dos assassinos do pai de Ellen (Heslaine Vieira) pela televisão.

Fio se impressiona com as estatísticas, o que é crucial para sua decisão de seguir a carreira no Direito. Lucas Penteado (Kóka), o intérprete de Fio, não é alheio às causas sociais: foi uma das vozes do Movimento Secundarista que lutou em 2015 e 2016 por melhorias no ensino público. Alunos adolescentes do Ensino Médio ocuparam escolas com objetivo principal do não encerramento de atividades de diversas unidades escolares no Estado de São Paulo. Em segundo plano pediam a abertura de uma CPI que investigasse desvio de verbas da merenda escolar e reivindicavam a exclusão da presença da polícia militar dentro das escolas, documentada diversas vezes sendo truculenta com os alunos.

Esse modelo de reocupação do espaço público é trazido para a ficção por meio de uma feira cultural realizada pelas Five no Cora. A ocupação dos secundaristas tinha atividades culturais extensas, o que Viva a Diferença empresta da narrativa da vida real. Uma dessas atividades é o protesto organizado pelos alunos contra as difamações propagadas pela internet contra o Colégio Cora Coralina e a diretora Dóris (Ana Flávia Cavalcanti). Essas difamações são as famosas fake news: notícias pagas e inventadas que não condizem com a realidade, usadas para chocar a população e usá-la como massa de manobra. No caso do Cora, Malu era quem estava por trás das notícias caluniosas, com o objetivo de desmoralizar o colégio público e aumentar as matrículas em seu novo colégio caça-níquel, o The Best. Dóris é quem sofre mais com os ataques e tenta lidar com a situação do melhor jeito que consegue, mas é convidada pela Secretaria de Educação a tirar a licença maternidade mais cedo que o previsto. Uma maternidade que durante boa parte da temporada ela afirmou não querer experienciar. Ter filhos não era prioridade na vida da educadora, mas a vontade do marido Bóris (Mouhamed Harfouch) prevaleceu. Não houve diálogo sobre qual era a vontade dela.

Viva a Diferença

Assim que ficou grávida, Dóris mudou de opinião instantaneamente, aceitando a nova situação familiar mesmo apresentando diversas ressalvas quanto a ter um bebê. Para quem não queria ter nenhum filho, a gestação de gêmeos deve ser confusa e assustadora, mas Dóris tira tudo de letra. É uma Super Mulher, seu super poder é ter as estatísticas na ponta da língua. Apesar da ótima representação dos adolescentes negros, a mulher negra não pode ter defeitos. Ela deve ser profissional uma competente, ótima esposa e mãe carinhosa, ainda que jamais tenha mostrado vontade alguma em ter filhos anteriormente.

O maniqueísmo dos adultos da temporada destoa da profundidade dos personagens adolescentes. São poucos os que continuam complexos: Roney (Lúcio Mauro Filho), Josefina (Aline Fanju), Aldo, Edgar, Nena (Roberta Santiago), Dóris, Bóris, Marta (Malu Galli), Luís (Angelo Antônio), Das Dores (Ju Colombo), Noboru (Carlos Takeshi) são todos intrinsecamente bons, desejam o bem para os outros, estão presentes constantemente na vida dos jovens e não os julgam. Já Malu e Mitsuko (Lina Agifu) parecem ter saído de um livro infantil ou de alguma das temporadas anteriores: armam, manipulam, invadem a privacidade das filhas, prejudicam quem precisar e passam por cima de tudo e qualquer coisa para ter o que querem.

O que fazer com os adultos?

Quando uma temporada que trata de temas profundos apresenta vilãs maniqueístas e unilaterais acaba por dramatizar demais as questões, tornando-as irreais. Não são monstros que praticam racismo, homofobia, machismo. Não são monstros de histórias da carochinha que impedem as pessoas de viverem suas vidas de forma plena. São outras pessoas, de carne e osso. São até pessoas que amamos e que nos amam. Pessoas que têm partes boas e partes ruins, assim como todo ser humano tem essa dualidade dentro de si e que convivem constantemente em todas as escolhas que fazemos.

É nessa dualidade que conseguimos crescer, amadurecer, nos transformar em pessoas melhores. Quando esse amadurecimento acontece com personagens numa narrativa fictícia, é chamado de desenvolvimento do personagem (do termo em inglês “character development”). Com esse desenvolvimento vemos personagens completos, tridimensionais, parecido com as pessoas reais. São casos como dos personagens Katarine/K1 (Talita Younan), MB e Douglas/Dogão (Giovanni Gallo). Nos três casos os adolescentes-problema — K1 fazia bullying com Benê (Daphne Bozaski), MB só queria saber de baladas e curtir a vida e Dogão colocou uma bombinha no banheiro da escola — com a influência de uma boa educadora (Dóris) no caso de K1 e Dogão e de amigos bem intencionados no caso de MB, mudaram de caráter e viraram adolescentes cientes e responsáveis pelo próprio futuro.

Dogão, justamente por ser o jovem em maior posição de risco, foi o que mais mudou: com alguém que acreditava no potencial do garoto, esse potencial pode ser aflorado em prol da comunidade. O final do personagem, com ele pensando em se tornar um educador, mostra que toda a atenção e influência que se depositam em um jovem não são em vão. Um bom educador muda a vida das pessoas.

Mas nem todos os personagens tiveram espaço para se desenvolver. Foi o caso de Katiane/K2 (Carol Macedo). A garota ficou a temporada toda obcecada por Tato e Keyla. Estragou roupas do brechó da ex-amiga, inventou gravidez forjando testes e ajudou Malu a difamar o Cora Coralina. É sabido que K2 tinha um pé no dramático e tanto K1 quanto Fio afirmaram que a garota gostava muito de novelas. Não só isso, mas a própria narrativa nos conta o quanto Katiane era fã de folhetins: na época em que era namorada de Tato chamava o moço de “gato garoto”, alusão ao mesmo jeito de falar de Jacque Joy (Juliana Paes) e Darlene (Deborah Secco) em Celebridade, de Gilberto Braga, no ar atualmente no Vale a Pena Ver de Novo. Gilberto, aliás, parece ser o autor favorito da jovem, tendo seu trabalho referenciado em outros momentos, como na festa dos anos 70 quando ela foi vestida de Júlia Matos (Sônia Braga), a mocinha do fenômeno televisivo Dancin’ Days, de 1978.

De ser fã de novelas ao maniqueísmo observado apenas nos adultos, a personagem foi empobrecida em desenvolvimento e ficou sem arco narrativo, o que não aconteceu com nenhum outro coadjuvante durante a temporada. Até Jota e Juca (Mikael Marmorato) tiveram seus momentos na narrativa, principalmente Juca mudando de escola do Grupo para o Cora. K2, no entanto, foi apenas vilã, existindo para não deixar Keyla e Tato ficarem juntos. Toda essa narrativa poderia ter levado a personagem a uma epifania própria, ter feito com que ela percebesse algo que levava em si com essa obsessão, mas seu final foi apressado e raso: ela não pagou por seus atos inconsequentes e não vimos o quanto mudou.

K2 foi uma personagem desperdiçada que poderia ter sido usada como carro chefe da narrativa queer dessa segunda parte da temporada. A obsessão de Katiane com Tato seria justificada magnificamente se na verdade ela fosse apaixonada por Keyla sem saber. Aos poucos, a descoberta da orientação de K2 e o ódio que ela sentia pela ex-amiga poderia ter sido melhor explicado (a dualidade ódio-amor em sua mais pura forma), enriquecido a trama com uma ótima representação de descoberta do queer (de si mesma e até uma possível “saída do armário”) e dado à personagem um arco narrativo profundo e de significado no cenário adolescente atual e sem perder o drama das novelas que K2 sempre gostou.

Orgulho e diferença

Viva a Diferença

Pela primeira vez em 23 anos, Malhação tratou abertamente da questão LGBTQ+ com três personagens que se encaixaram na temática. Lica, a rebelde com causas, tinha inclinações ao poliamor. Teve um caso com MB e outro com Felipe (Gabriel Calamari) na primeira fase da trama, mas foi com Samantha (Giovanna Grigio) seu romance mais interessante. O casal Limantha ganhou o coração dos espectadores da temporada, ávidos por uma representação positiva queer em novelas. Lica e Samantha passaram de amigas a “ficantes” de forma um tanto rápida, mas a química das duas deixou a falta de narrativa desimportante. O foco era o primeiro casal lésbico na novelinha, papel que Limantha desempenhou de forma bela e suave.

Mas o casal não foi poupado das narrativas usadas no mundo heterossexual. Lica beijou Juca enquanto estava com Samantha apenas para provar um ponto — de que quem escolhia seu destino ela era mesma e não os homens a sua volta — sem que isso fosse discutido entre as duas, antes ou depois do acontecido. Um beijo dado para um garoto que em cena anterior havia fetichizado beijos lésbicos, mesmo que a narrativa tivesse o condenado levemente (por ninguém menos que Samantha). Na reta final da temporada, Limantha passou por um término que pareceu deslocado na narrativa das duas garotas. Tanto Lica quanto Samantha se perguntam o que estão fazendo juntas, já que nenhuma das duas havia se interessado por pessoas do mesmo gênero antes. Elas resolvem terminar pois não entendem o que está acontecendo. Lica e Benê comentam sobre Lica “virar lésbica” ou “ser lésbica às vezes”.

Pelo fato de muito em Viva a Diferença ter ficado implícito, o relacionamento Limantha acabou esbarrando em algumas questões que caem justamente em não deixar coisas às claras. Em nenhum momento é citado o conceito de bissexualidade na temporada. Inclusive, a bifobia internalizada das meninas parece ser o que faz com que elas acabem temendo assumir a relação. Outra questão importante que poderia ter sido explorada pela temporada, mas passou despercebida, é o conceito de heterossexualidade compulsória. Algo que muitos da comunidade LGBTQ+ já experimentaram, ocorre quando a pessoa reprime — por motivos variados, mas na maioria das vezes pela pressão da sociedade — desejos/atrações pelo mesmo gênero e internaliza o interesse por outros gêneros. Ou seja: se força a ser heterossexual de forma inconsciente.

Na narrativa de Lica e Samantha — ambas se descobrindo pertencentes à comunidade queer — os rótulos se faziam necessários. Sim, é verdade que Lica afirmou diversas vezes não gostar deles, mas nomes e conceitos são importantes para que os espectadores que passam pelos mesmos dilemas não se sintam diferentes ou errados. A bissexualidade de Samantha e a suposta heterossexualidade compulsória de Lica estão presentes narrativamente mas, como estão implícitas, dão brechas para o discurso homofóbico de que elas estão “confusas” ou de que “é apenas uma fase”.

Ainda é uma manifestação de homofobia, tema que a temporada tratou com tanto zelo na narrativa do personagem Gabriel (Luis Galves). Filho recém-descoberto de Roney e meio-irmão de Keyla, o garoto protagonizou um dos momentos mais doloridos e necessários da temporada. Abertamente gay, Gabriel sofreu ataques homofóbicos verbais e físicos. Junto a Felipe — que logo que se conheceram viraram melhores amigos — foi agredido fisicamente por um grupo de colegas de sala. A cena espelhou o ataque cruel e homofóbico que ocorreu em 2010 onde cinco rapazes agrediram outros três usando lâmpadas em plena Avenida Paulista, em São Paulo. Foram cenas fortes que necessitavam de um “aviso de gatilho” no início do capítulo (o famoso trigger warning), que também seria necessário no capítulo de tentativa de suicídio de MB.

Mas os preconceitos nocivos não vieram apenas da homofobia ou da bifobia internalizada. O machismo de Anderson diversas vezes foi posto em xeque por sua namorada Tina (Ana Hikari). A intenção de ter um personagem que repete normas e discursos prejudiciais da sociedade foi interessante, mesmo que em algumas dessas vezes o machismo do personagem tenha entrado mais numa narrativa de “falar, não fazer”. Foi o caso do arco em que ele não quis aceitar o dinheiro de Tina para montar sua própria produtora musical. Nessa narrativa, a recusa de Anderson pareceu mais receio de usar o dinheiro da namorada do que um ato de machismo. Com uma grande influência das Five, principalmente de Tina e da irmã Ellen, Anderson mudou seus hábitos sutilmente.

O relacionamento de Tina e do produtor foi discutido amplamente na temporada. Com altos e baixos, foi abalado pela ida forçada de Tina para o Japão; com a volta da compositora para o Brasil, logo os dois voltaram a ficar juntos. Mitsuko, a mãe da garota, até tentou separá-los, oferecendo dinheiro para Anderson ficar longe de Tina, mas com um relacionamento construído numa base sólida e pautado na confiança, o resultado foi o oposto. Essa atitude acaba provocando um acidente em que o moço fica temporariamente sem o movimento das pernas e Tina se muda para a casa de Anderson para ajudar na recuperação do rapaz, rompendo com a mãe. Na casa de Nena e Das Dores são apresentadas cenas importantes onde nenhum personagem branco se faz presente. A narrativa fica em torno de Tina, descendente de japoneses, e a família de Ellen, todos negros. Para uma novela-seriada em que a primeira personagem principal negra protagonizou apenas a temporada anterior (2016), é algo completamente inédito que seja apresentado um núcleo narrativo inteiro sem personagem branco algum. Isso não só no que se refere a Malhação, mas também todas as outras produções da emissora.

A tentativa de representação de cadeirantes no arco narrativo do acidente e recuperação de Anderson foi um tanto rasa, no entanto. Em um primeiro momento tentaram mostrar um Anderson resignado com sua futura condição, com consciência que a vida continua e que é possível passar as dificuldades de estar numa cadeira de rodas da mesma forma que pessoas com funções nas pernas o fazem. Mas logo o moço mudou de atitude e ficou ansioso para voltar a andar. Talvez tenha faltado um roteirista cadeirante para auxiliar nesse arco. A recuperação rápida do moço dá a entender que seu acidente serviu apenas como narrativa de choque e não para abordar como cadeirantes vivem em uma sociedade que muitas vezes é hostil para com eles, carente de acessibilidade, mas apenas para gerar um sentimento de dó ou pena do garoto que não pode mais andar. Um desserviço desnecessário de representação, que parece ir para o lado oposto ao que deveria ser: uma denúncia da falta de preparo que nosso sistema de sociedade e que a infraestrutura de nosso país apresentam. Em momento algum vemos Anderson pegando um ônibus ou um metrô sozinho, vivendo de forma independente, sem o olhar e proximidade constantes de sua família.

Após o acidente, no hospital, Anderson acaba sendo operado por Mitsuko. Muitos personagens agradecem a médica por ter salvado a vida do moço, ao que ela responde que não havia feito mais do que a profissão mandava — e realmente é isso que acontece na medicina. Quando alguém está ferido não há discriminação moral, social ou penal que façam com que aquele paciente não tenha atendimento, e é por isso que médicos têm que salvar vidas de estupradores ou serial killers. Ao se formar, todos os médicos fazem o Juramento de Hipócrates, mesmo que simbolicamente. Junto com a profissão vem a carga de salvar vidas. Operar Anderson não torna Mitsuko menos vilã maniqueísta e não faz um bom arco de redenção, mas mostra que a personagem é uma profissional competente.

A leucemia de Mitsuko foi outra tentativa de redenção da médica. Porém, durante todo o tratamento do câncer ela continuou rejeitando o relacionamento de Anderson e Tina. O doador de plaquetas de Mitsuko ser justamente o genro rejeitado por ela soa dramático e forçado. É interessante que a narrativa propõe que o doador seja justamente quem menos se espera, mas ocorre num arco piegas e exagerado. Não combinou com o assunto ou com o que a temporada vinha fazendo até ali.  A narrativa da doença de Mitsuko levanta uma questão implícita importante, que não ficou tão clara quanto deveria. Segundo pesquisa em conjunto da OPAS/OPS (Organização Pan-Americana de Saúde) e da OMS (Organização Mundial de Saúde) o Brasil tem apenas 1,8% de doadores de sangue em sua população. A pesquisa, que ocorreu entre 2014 e 2015 feita em 18 países e territórios da América Latina, mostra que o país está abaixo da porcentagem ideal de doadores, que a OMS coloca em 3%. Uma bolsa de sangue pode ser utilizada em até quatro pacientes. Ou seja, uma bolsa de sangue de 450ml a 500ml pode salvar a vida de 4 pessoas — por isso a exigência do peso acima de 50kg; apenas se pode tirar 9ml por litro de sangue de alguém de uma vez.

Esse tratamento implícito das situações pelas quais passaram alguns personagens prejudicou o entendimento de uma das principais narrativas de Viva a Diferença: Benê faz parte do espectro autista, mas isso só fica claro ao final da temporada. Numa cena necessária, já no meio da temporada, ela explica para o pai, Cícero (Luciano Pontes), o que “tem”. Ela dá as características da Síndrome/Transtorno de Asperger: dificuldade em fazer amigos e conviver com pessoas, grande entendimento de assuntos teóricos (Benê dá como exemplo ela saber todas as espécies de pássaro), não conseguir tocar ou abraçar outras pessoas. Ela mostra esse quadro de forma que emociona o espectador, dizendo que cada asperger apresenta sintomas diferentes. Mas como algumas outras narrativas, deixar para abordar o assunto apenas ao final da temporada deixou uma sensação de pressa.

Chamada de esquisita tanto por alguns espectadores como por vários personagens na trama — Samantha e Lica brigam porque a primeira tacha Benê como “anormal”, enquanto o pai da pianista tem uma dificuldade enorme em aceitar as características da garota —, a situação poderia ter sido melhor entendida se a cena viesse alguns capítulos antes da última semana. Uma abordagem mais direta ao assunto daria um maior entendimento da personagem e suas atitudes, como também de suas limitações. Espectadores evitariam dizer coisas como “o jeito de Benê já está irritando”, pois saberiam que aquele é o jeito dela ver a vida, de lidar com as experiências proporcionadas pela convivência. E de perceberem que isso não limita Benê, ao contrário. Como ela mesma disse “isso [Asperger] não é uma doença, é uma diferença humana”.

Com a convivência com pessoas de personalidades, jeitos e vivências diferentes das suas, todas as cinco protagonistas evoluíram e aprenderam. As Five aprenderam algo com o choque de seus mundos, cada uma ao seu modo: Keyla se transformou numa mãe responsável e pessoa mais decidida, sem perder a empatia e sem deixar de sonhar; Tina lutou para ter o que queria: amor romântico e um melhor relacionamento com a mãe, aprendendo a aceitar as limitações de Mitsuko; Ellen se tornou mais paciente, passando seus conhecimentos para outras pessoas; Lica aprendeu a não ser tão impulsiva, a usar sua personalidade de liderança em prol de causas que abrangessem outras pessoas; enquanto Benê conseguiu superar dificuldades, aprendeu a tocar piano, desejou e conseguiu uma vida independente e completa.

Não somos todos iguais, é isso que a temporada nos mostrou. Somos diferentes, mas não devemos nos hostilizar por isso. Devemos celebrar as diferenças, respeitá-las, lutar para que essas diferenças não atrapalhem nós e os outros a terem uma vida digna. E o mais importante: aprender com as diferenças alheias, usá-las para que sejamos melhores e tratemos o outro melhor. Viva a Diferença foi um grande manifesto de Cao Hamburger e Paulo Silvestrini (diretor artístico da temporada) pela diversidade humana e como podemos aprender e melhorar com elas.

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3 comentários

  1. Amei a matéria, colocou muito bem os erros e acertos da temporada sem deixar de enaltecer esse grande passo pra televisão brasileira que foi viva a diferença, tenho orgulho de ter vivenciado isso!! Parabéns pelo texto!!

  2. Adorei esse texto e suas análises, parabéns!
    Não assisti, mas até fiquei com vontade de ter assistido essa temporada. Que bom que o adolescente real está sendo retratado, mesmo que capenga as vezes
    acho que a última temporada de Malhação que assisti foi o começo de uma era meio mistério, acho que foi a primeira repaginada séria que fizeram; e antes disso umas temporadas ainda com remanescentes da icônica Vagabanda! Kkkk

  3. Acho q só não entendeu que a Benê , tinha algum tipo de limitação, a síndrome de Asperger é uma reclassificação do Autismo leve, e isso era notório desde o primeiro capítulo de Malhação, e quem não entendeu isso, tem mais limitações RO q a personagem Benê.