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Las Chicas del Cable: isso é melodrama

Seis meses se passaram desde a última vez em que vimos nossas telefonistas favoritas. Lidia (Blanca Suárez), Ángeles (Maggie Civantos), Marga (Nadia de Santiago) e Carlota (Ana Fernández) tiveram suas histórias deixadas em suspenso quando, ao final da segunda temporada, uma delas fica gravemente ferida após uma fuga desesperada. A terceira temporada de Las Chicas del CableAs Telefonistas, em português — tem início com um flashback de sua season finale anterior e nos dá as respostas que ficamos meio ano esperando apenas para nos entregar mais uma porção de perguntas na sequência.

Atenção: este texto contém spoilers!

Ao tentar fugir do hospital para onde foi levada a mando de Doña Carmen (Concha Velasco) para que sua gravidez fosse interrompida contra sua vontade, Lidia acaba sofrendo um acidente e corre risco de perder sua filha. Carlos (Martiño Rivas) a resgata após a queda que sofre e Lidia é levada às pressas para outro hospital, longe das garras de Doña Carmen e sua influência. Na trama, passou-se quase um ano desde a season finale da segunda temporada e as protagonistas de Las Chicas del Cable encontram-se em pontos diferentes da vida, o que quebra um pouco a expectativa de quem assiste a série, visto que os conflitos deixados em aberto no último episódio simplesmente desaparecem sem resoluções: Lidia e sua filha, a bebê Eva, sobreviveram ao atentado contra suas vidas e a antiga telefonista se prepara para seu casamento, mas não se fala mais nada sobre a perseguição e o acidente. O questionamento no momento, e que tem separado os fãs da série entre Team Carlos e Team Francisco (Yon González) é, obviamente, a respeito de quem a estará esperando no altar.

A própria série brincou com a questão quando começou a divulgar os primeiros materiais promocionais da terceira temporada: sabíamos de antemão que Lidia subiria ao altar para se casar, mas o rosto do noivo foi mantido em segredo até a estreia do “Capítulo 17”, o primeiro da terceira temporada. Não surpreende, no entanto, que quem a espera na igreja é Carlos, o pai de Eva. Nos primeiros instantes do episódio realmente parece que os roteiristas de Las Chicas del Cable finalmente deixarão o triângulo amoroso entre Lidia, Francisco e Carlos desvanecer, mas durante os oito episódios subsequentes a ideia de que a protagonista ainda pode escolher um em detrimento do outro paira sobre o enredo, fazendo com que a mocinha dessa história fique, novamente, entre idas e vindas com seu grande amor do passado e seu novo amor.

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Quando Lidia está prestes a alcançar o seu sonhado “e viveram felizes para sempre” dizendo sim a Carlos, um incêndio começa na igreja onde Doña Carmen, Sebastián Uribe (Ernesto Alterio) e Elisa (Ángela Cremonte) aparecem sem serem convidados. É durante o incêndio que Eva desaparece, sendo arrancada das mãos de Marga durante a confusão, e tem início um novo ciclo de dor e sofrimento na vida de Lidia. Ela acredita com todas as forças que o incêndio foi planejado por Doña Carmen, e que Eva está viva, mas além de Marga, Carlota e Ángeles, poucos acreditam em sua versão da história. Mesmo Carlos, tão apaixonado por Lidia e em luto pelo desaparecimento e aparente morte da filha, não consegue apoiar a noiva o tempo inteiro na busca por indícios de que Eva está viva e que a culpa do incêndio é de sua mãe. Nesse contexto, é Francisco quem, mais uma vez, surge como ombro amigo e fiel escudeiro para Lídia, confortando-a e apoiando-a mesmo quando as provas contra Doña Carmen parecem ser apenas fruto da dor que Lidia sente pelo desaparecimento de Eva.

Em defesa de Carlos, no entanto, há de se dizer que é difícil romper os laços com a família, principalmente com a mãe manipuladora que é Doña Carmen. Ele apoia Lidia o quanto é possível em sua busca, mas quando a noiva, cega de vingança, arma um atentado para tirar a vida da vilã, Carlos sente que não pode mais aceitar a situação em que seu relacionamento com Lidia ficou após tanta dor e mentiras. Manipulado mais uma vez pela mãe, ele termina com Lidia, que corre para os braços de Francisco — o que causa ciúmes a Pérola, a mulher a quem Francisco ofereceu um trabalho no White Lady, cabaré que ele agora gerencia, e com quem tem um caso. Em uma sucessão de acontecimentos dignos das melhores novelas, com direito a sequestro e explosão da sede da Companhia Telefônica de Madrid, Lidia não desiste de encontrar a filha, Carlos é baleado e Francisco é dado como morto em um final de temporada que, mais uma vez, deixa seus fãs reféns do cliffhanger e das dúvidas.

Enquanto o foco de Lidia é a busca por Eva, as outras telefonistas precisam lidar com seus próprios dramas. A começar por Marga que descobre que seu marido, Pablo (Nico Romero), tem um irmão gêmeo, Julio, que está na cidade e decide ficar hospedado com eles na pensão. O relacionamento entre os irmãos não é dos melhores visto que Pablo conhece o histórico relapso do irmão: ainda que tenha servido no exército, Julio é famoso por se aproveitar das situações que surgem, vivendo ao sabor do vento e de sua malandragem. Quando Julio é confundido com Pablo na Companhia Telefônica de Madrid, ele vê a oportunidade de assumir o cargo do irmão para não precisar lidar com a posição menos privilegiada que consegue na empresa — não demora, no entanto, para que Marga descubra a farsa e precise ajudá-lo com o serviço de contabilidade para que Julio não faça com que Pablo perca o emprego. Nesse meio tempo, Marga está tentando encontrar uma maneira de sentir prazer com o marido durante o sexo, coisa que não acontece até que ela confessa sua intimidade para Ángeles, que tem uma ideia.

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Querendo ajudar a amiga, Ángeles oferece o livro O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, para que Marga possa ter uma ideia melhor do que o sexo pode significar entre um casal apaixonado. O livro, à época em que se passa Las Chicas del Cable, teve sua venda proibida devido às palavras “inapropriadas” e por falar de sexo, então Marga o recebe das mãos de Ángeles com receio de ser descoberta durante a leitura — mas nem mesmo o medo de ser pega a impede de concluir o livro e tentar fazer, na sequência, com que suas noites com Pablo sejam prazerosas para ela também. Nessa terceira temporada de Las Chicas del Cable, Marga recebe uma carga dramática um pouco maior do que nas temporadas anteriores ainda que ela e Pablo sejam, em alguns momentos, o alívio cômico de um enredo cada vez mais melodramático. A interação entre Marga, Pablo e Julio é interessante de acompanhar por ser uma dinâmica nova dentro da série e é realmente divertido ver Nico Romero incorporando dois personagens tão distintos (e com igual talento). Mas nem tudo são flores entre os três e quando Marga tem uma noite romântica com Julio, acreditando que ele é, na verdade, Pablo, o triângulo que se forma entre eles fica ainda mais complicado para a moça balancear. Ao transar com Julio, Marga sente o prazer que tanto buscou anteriormente no matrimônio, e isso sela sua nova trajetória na trama, deixando pontas soltas para uma vindoura quarta temporada.

Ángeles, enquanto isso, mesmo livre de seu marido abusivo, cai novamente nas mãos de outro homem. Ao retornar para o casamento de Lídia e ficar gravemente ferida com o incêndio na igreja, ela é pega pelo Inspetor Cuevas (Antonio Velázquez) que faz uma proposta: ele não a prenderá pelo assassinato de Mario (Sergio Mur) caso ela concorde em ajudá-lo em uma investigação. Dessa maneira, Ángeles se vê, novamente, como mero joguete nas mãos de outro homem, ainda que esse homem acredite estar dando a ela uma boa oportunidade de escolha. Não demora para que o alvo da investigação descubra o que está acontecendo entre Ángeles e Cuevas, colocando-a contra a parede. Ángeles, que lutou por sua liberdade com unhas e dentes na temporada anterior, não evolui na nova trama e fica, novamente, passiva diante das maquinações de homens mais fortes e poderosos do que ela até o último episódio. Sua história não acrescenta em nada no enredo geral de Las Chicas del Cable, o que é uma pena, visto que Ángeles poderia, finalmente, voar solo após ter se livrado de um relacionamento abusivo e perigoso.

Se os dramas de Lídia, Ángeles e Marga não saem do lugar comum, o mesmo não pode ser dito de Carlota. A moça está cada vez mais absorta na luta feminista na Madrid de 1930 e agora integra o grupo batizado de Violetas. Por meio da herança que recebeu após a morte do pai no incêndio durante o casamento de Lidia, Carlota decide ajudar o grupo que luta pelos direitos das mulheres e, não demora, adota o codinome de Atena para falar na rádio de Carlos sobre o sufrágio feminino. Usando de seu privilégio e dinheiro, Carlota leva a quem quiser ouvir os ideais de igualdade pregados pelo feminismo, mas ela logo se torna alvo de um grupo de homens que se autointitulam Cavaleiros da Ordem. Eles não concordam com os ares de mudança que sopram sobre Madrid e não aceitam que as mulheres possam ter os mesmos direitos que eles, então uma de suas primeiras ações é atentar contra a vida de Carlota, esperando fazê-la se calar por meio do medo.

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O que poderia ter sido o final de Atena e seu programa no rádio transforma-se apenas em força motriz para Carlota. Ainda que saia realmente abalada da tentativa de estupro organizada pelos Cavaleiros da Ordem, Carlota decide que a melhor arma contra os extremistas é dar nome à sua voz, assumindo diante de todos os ouvintes da rádio quem é a mulher que usa como seu o nome da deusa grega da sabedoria e da justiça. A trama de Carlota reflete a luta que ainda travamos em pleno 2018: muito foi conquistado, sim, mas a estrada é longa e árdua, e muito ainda precisa ser feito para podermos dizer que vivemos em uma sociedade justa e igualitária para ambos os sexos — sempre lembrando que o recorte de raça é peça fundamental para entendermos como a igualdade atinge apenas um grupo. Com a incursão de Carlota no feminismo e sua luta ao lado das Violetas — nem sempre usando dos melhores meios para tal —, a história de Sara (Ana Polvorosa) fica totalmente esquecida. Na segunda temporada de Las Chicas del Cable, Sara assume para si e para Carlota não sentir-se confortável no próprio corpo, e busca um médico para ajudá-la a entender sua transexualidade.

A ajuda não é exatamente o que Sara esperava e em uma sucessão de momentos desesperadores, ela é resgatada por Carlota quando o sofrimento já se tornava insuportável. Os novos episódios, no entanto, não voltam a bordar essa trama e usa Sara apenas como apoio para o desenvolvimento de Carlota. Mesmo Oscar, sua identidade masculina, surge em poucos momentos e sem muito propósito além de nos lembrar do potencial da história para a personagem e para o roteiro da série como um todo. O relacionamento amoroso entre Carlota e Sara é bonito de se ver, pautado em carinho e cumplicidade, mas a série peca quando esquece — ou finge esquecer — a revelação de Sara sobre sua transexualidade e o que isso significa em um lugar como a Madrid de 1930.

A terceira temporada é apenas mediana se comparada com suas antecessoras. É verdade que a trama fala muito mais de suas mulheres do que a respeito dos relacionamentos delas com homens — ainda que isso marque a vida de todas de maneira definitiva —, mas a essência da série, e de suas personagens, acaba diluída em um sem números de tragédias e dramalhões. Las Chicas del Cable não tem vergonha de abraçar todos os tropos e clichês novelescos — e só nessa terceira temporada vimos a vilã incendiar uma igreja durante um casamento, sequestrar a filha bebê da protagonista e não morrer mesmo após bater o carro e ficar com uma barra de ferro atravessada no corpo —, mas nenhuma dessas maluquices de roteiro nos impede de torcer por Lidia e companhia, nos fazendo reféns de uma trama que, ainda que seja pouco original, pode contar com o carisma de suas quatro atrizes principais para carregá-la com maestria. E é por isso que nos importamos com a busca desesperada de Lidia por sua filha, pelo drama de Marga dividida entre seu marido e o irmão gêmeo dele, a incursão de Ángeles em uma investigação de polícia e a luta de Carlota pela liberdade das mulheres.

Las Chicas del Cable nunca se propôs a ser um drama de época como Downton Abbey ou Call the Midwife, e não se prende a verossimilhança de suas histórias. Ainda assim, a série é capaz de trazer à vida a resplandecente Madrid de 1930 com toda a sua arquitetura e figurino inspirado. É impossível assistir à série sem sentir vontade de trocar todas as nossas roupas contemporâneas por vestidos e plumas, e mesmo as músicas modernas — capazes de incomodar alguns fãs — apareceram com menos intensidade dessa vez. Las Chicas del Cable conta com personagens carismáticas e histórias carregadas por boas atrizes, mas a trama precisará se reinventar caso queira continuar prosseguindo.

Por muitas vezes as personalidades das quatro protagonistas são diluídas em prol de um desfecho mais adequado para o roteiro, e isso prejudica a evolução delas na história visto que a trama deveria se adaptar às suas personagens, e não o contrário. Doña Carmen permanece como vilã incontestável de toda a série e os outros personagens apenas reagem a ela e suas maldades, o que acarreta em um sem número de tramas sem conclusão durante os oito episódios. A única constante na terceira temporada — além da maldade de Doña Carmen — é a amizade entre Lidia, Ángeles, Marga e Carlota, que segue mais forte do que nunca.

As quatro construíram do inusitado uma relação bonita e duradoura capaz de sobreviver a uma investigação de assassinato, um incêndio no casamento e uma filha desaparecida. Las Chicas del Cable peca em inúmeros momentos, apostando muito no drama para prender seu telespectador, mas consegue acertar ao manter a união entre Lidia, Ángeles, Marga e Carlota como foco. As quatro mulheres passam por momentos e dificuldades distintas na vida, mas sabem que poderão recorrer umas às outras quando preciso for. Há menos do triângulo amoroso e mais das amigas dando força umas às outras enquanto tentam navegar no mar de melodrama que suas vidas se transformam, e isso é refrescante. O que os roteiristas devem fazer para uma quarta temporada mais empolgante é resgatar as tramas deixadas em aberto — principalmente a de Sara — e retomar as personalidades fortes de suas protagonistas. Lidia permanece a força motriz da série e nunca se mostrou tão resiliente e decidida, os dramas de Marga e Carlota fisgam a atenção com muita facilidade, mas Ángeles precisa se reinventar se não quiser ser engolida pelas histórias de suas amigas.

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14 comentários

    1. Em se tratando de Las Chicas del Cable, acho que tudo é possível, desde fazê-lo de morto para surgir depois, colocando mais drama na história, ou realmente tirá-lo de jogo pra não sobrar. Mas acho que ainda tem muito pano pra manga nessa série, então acredito que ele ainda pode estar vivo! 😉

  1. Eu sou totalmente team Francisco, não é possível que ela vá ficar com Carlos, Francisco só se ferra, tadinho!😢 E sobre Angeles, ela era minha maior aposta, o final dela tem que ser incrível pra compensar tanto subjugamento masculino!

  2. Lidia tem que terminar com Francisco, acho que ela tem + química e combina + com ele do que com Carlos, fora que o Yon é um Ator muito talentoso, atua muito melhor do que o Martiño, mesmo que a série o deixe de lado, o pouco que aparece se destaca +,ao meu ver suas atuações são + notáveis, quem acompanha o trabalho dele desde Gran Hotel sabe disso!!

  3. Adorei a resenha!
    Eu preferi esse plot central da busca pela filha do que o drama do triangulo-amoroso na segunda temporada. Lídia voltou a ser esperta, diferente da 2 temporada onde ela foi trouxona pelo amor dos homens.
    Se a história de Lídia foi mais interessante, não posso dizer o mesmo das outras personagens.
    Primeiro que Miguel que namorava Carlota-Sara, sumiu, dps apareceu no white lady e dps apareceu trabalhando na companhia. De um cara legal passou a ser um babacao, e foi mal aproveitado nessa temporada.
    Sara e Carlota tb foram se perdendo, principalmente Sara que na primeira temporada não tinha nenhum sinal de ser trans, na segunda não se aguentava no corpo e agora na terceira tá de boa de novo com o corpo.
    Angeles e o policial, realmente, foi uma trama que não acrescentou em nada na história. Teria sido muito mais bacana se a série focasse na reconstrução da vida dela pós-morte do marido abusivo. Inclusive ela que era louca pela filha na temporada anterior, nessa esqueceu completamente da bichinha kkkk
    Elisa que cresceu tanto na segunda temporada, voltou a ter um papel beeeem raso.
    E em relação a esposa de Sebastian, ela surgiu do nada, se comunicou com alguém dando a entender que tinha algum grande plano por trás das ações da empresa, mas na verdade só cobrou mais dinheiro e sumiu? Será que a série vai aprofundar em quem ela telefonou? Ou vai sumir como outros personagens?
    ENFIM, adorei sua resenha. Conheci a série recentemente e assisti tudo de uma vez. A série é um bom passatempo, mas poderia ser bem mais aproveitada!

  4. Pra mim, Francisco deve ter um final feliz com Lídia. Um ator de um talento incrível, além de lindo e maravilhoso, não pode morrer assim.

  5. Adorei a análise!
    Confesso que essa 3º temporada dei pausa varias vezes e voltei em outro momento! Kk
    A série não empolgava, não fluía, os personagem presos a um roteiro que não impressionava, uns “ buracos” que se quer teve explicações!
    Eu fiquei muito intrigada com a história da Ángeles, achei que fosse ressurgir algo grandioso para personagem dela, mas ficou bem no mais do mesmo! Eu gostei da relação dela com o Cuevas, gostei do ator e eles tinham sintonia na trama, mas uma história muito sem pé e sem sentido, mas acredito que depois da revelação do último capítulo essa personagem pode seguir um outro caminho na trama, já que ela pareceu bem determinada no fim da série!

  6. Desde do início torço por Lídia e Francisco, a história dos dois é linda, e sofrida, eles merecem terminarem juntos. Não acho justo Francisco ter morrido depois de tanto sofrimento, perca do amor de sua vida, perca de tudo que ganhou… A historia das meninas precisa ser mais aprofundada, principalmente Angeles que sempre sofreu.