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“Back in the 90’s I was in a very famous TV show”: BoJack Horseman

(“Nos anos 90 eu estava em uma série muito famosa” — BoJack Horseman)

Eu não acredito que tu tá assistindo esse cavalinho de novo” — essa foi a reação da minha família, mais de uma vez, quando me pegou assistindo com muito afinco às quatro temporadas de BoJack Horseman. O espanto, acredito, se dava mais pelo fato de eu estar assistindo a uma animação do que estar assistindo uma série por incontáveis horas. Animação como forma de entretenimento nunca foi vista com demérito por mim. Acompanhando um número considerável de ilustradores nas redes sociais, só posso imaginar a dedicação investida por trás de um trabalho tão grande como animar uma série ou um filme. Eu só não sou, nem nunca fui, acostumada a consumir produções animadas. Eis então que certo dia, depois de muito detestar um domingo sem nada para fazer, decidi dar uma chance para três animações da Netflix. Assisti três episódios de cada, mas foi BoJack Horseman que eu levei para frente.

Atenção: este texto contém spoilers!

BoJack Horseman foi criada por Raphael Bob-Waksberg, com design da cartunista Lisa Hanawalt, e está na Netflix desde agosto de 2014. A série animada conta a história de BoJack Horseman (voz de Will Arnet), meio homem, meio cavalo, e ex-ator famoso que caiu no esquecimento depois de fazer muito sucesso na comédia Horsin’ Around nos anos 90. Ele divide a casa com Todd Chavez (Aaron Paul) e mantém uma relação meio conturbada com Princess Carolyn (Amy Sedaris), sua agente e empresária. Na série, acompanhamos BoJack lidando, sozinho, com seu ego, sua depressão, o alcoolismo e, acima de tudo, um punhado considerável de péssimas escolhas. O ator então tem a chance de escrever um livro contando a sua história, mas, depois de muito procrastinar, não consegue sair do lugar. Seu agente literário — sempre preocupado com o fracasso do mundo dos livros — sugere que BoJack aceite utilizar um “ghost writer” para fazer o trabalho que o cavalo bípede não consegue fazer. Ele aceita, Diane Nguyen (Alison Brie) entra na trama, e aí tudo engrena.

A ideia de uma animação que ambientaliza animais, humanos e criaturas antropomórficas em uma mesma realidade, fazendo coisas normais, soa nonsense só de imaginar (e é, mas é fácil de acostumar), não fosse a série tão competente em entregar tudo o que entrega.

Uma pitada de realidade

“Nós reunimos esse painel diversificado de homens brancos em gravatas-borboletas para falar sobre aborto.”

É preciso, já e agora, jogar as cartas na mesa: o melhor aspecto de BoJack Horseman — série, não personagem — é seu humor triste, amargo e real. Não se trata de uma série que quer ser mais do que é. A série não posa de inteligente para atingir um nicho específico de fãs. O humor presente em BoJack não dá volta em si mesmo, tampouco é metafórico. A descrição soa pedante até para mim, uma amante da série, mas juro que não é. Por assim ser, BoJack pode não agradar a todos: é mais comum você acabar o episódio tristonho, incrédulo ou impressionado do que com o coração quentinho que outras sitcoms animadas muito famosas conseguem promover. A dosagem de humor escolhida na série serve muito para fazer com que o telespectador sinta! coisas!, e não é incomum terminar o episódio com a sensação de que um soco no estômago doeria o mesmo tanto. A série é vendida como comédia, no fundo é uma dramédia, e com o passar das temporadas se torna um drama com pitadas generosas de alívio cômico — e se torna cada vez melhor de uma temporada para a outra, mantendo-se sempre divertida. Afinal, é possível existir diversão no drama.

Muito do que nós, telespectadores, sentimos ao assistir a série é intrinsecamente conectado com o estado em que se encontra o personagem principal. BoJack é um homem de meia idade que sofreu muito quando criança, na mão de uma mãe que o abusava emocionalmente e sob o olhar de um pai negligente. Cresceu aos tropeços, ficou famoso, ficou amargo, e, mais comum do que não, acaba por tratar os outros de forma porca. Age egoisticamente, de forma manipuladora e com má educação, sendo tão duro com as pessoas próximas como sua mãe foi com ele — e da mesma maneira com que ele, ainda, trata a si próprio. Para tentar fazer as pazes com uma realidade de fracasso e esquecimento de quem um dia foi muito famoso, BoJack abusa da bebida, das drogas e do sexo. É um mecanismo de defesa, pois a outra opção é justamente lidar consigo mesmo: suas partes boas, suas partes ruins e, principalmente, com a depressão.

Ao longo de quatro ótimas temporadas, temos o prazer de assistir uma representação real do que a depressão e o vício podem fazer com alguém — ou com um meio-homem, meio-cavalo. Em BoJack, a doença não é romantizada, e sim bem representada. Como bem apontado por Courtney Enlow, a falta de boas representações não é apenas frustrante, mas também perigosa. Quando a mídia interpreta de forma equivocada as doenças mentais, ela contribui, justamente, para o aumento dos estigmas que essas doenças já carregam — o que não ajuda em nada aqueles que sofrem com isso. No auge de um mês tão importante como setembro, que, com o movimento do Setembro Amarelo, que promove a prevenção do suicídio, traz à baila discussões importantes sobre doenças mentais, é pertinente que se fale sobre como essas mesmas doenças são retratadas dentro das telinhas e telonas, e da responsabilidade que roteiristas e escritores carregam quando se propõem a falar sobre tais assuntos.

“Não se isso era algo de que realmente tínhamos consciência quando estávamos escrevendo e apresentando a série. O objetivo nunca foi algo como ‘vamos realmente criar uma exposição, vamos realmente investigar esse tipo de coisa, vamos diagnosticar BoJack de uma maneira exata’. Acho que foi mais sobre só tentar escrever esse personagem honestamente e levá-lo a sério. A ideia era pegar uma trope que é talvez um pouco arquetípica , ou que já vimos antes, mas realmente acreditar nela, e tentar ser honesta e respeitosa com ela.” — o criador Bob-Waksberg disse em entrevista para Vice, quando perguntado se tinha a intenção de criar uma série sobre doença mental.

Entre monólogos horríveis que, para o bem e para o mal, conversam com muita gente e proporcionam momentos de estarrecimento, não estou sozinha dentre as vozes que apreciam BoJack Horseman por sua crua representação da depressão. Para além desse tema, entretanto, a forma como a série fala sobre vícios não fica para trás — e parece ser um dos grandes plots da temporada lançada hoje (14), na Netflix.

Indo ainda mais além, outros assuntos importantes e oportunos da vida real são comuns na série. Questões como o aborto, assédio em Hollywood, dependência química, o amor dos estadunidenses por armas e seu eventual ódio contra a mulher, abuso emocional, padrões estéticos e gordofobia, perda e luto, também aparecem ao longo das temporadas. Tais tópicos, vez que outra, caem num didatismo, mas não é incomum que eles estejam envoltos em ironia ou em nonsense milimetricamente arquitetado para acompanhar uma reação esperada — a de “eles realmente fizeram isso?” No entanto, o sem noção, o sentimental, o importante e a didática conversam entre si, o que deixa tudo balanceado.

Os personagens

“Não posso acreditar que esse país odeia mulheres mais do que ama armas.”

O protagonista que dá nome a série, por si só, é um personagem bom o suficiente para convencer o telespectador de que BoJack Horseman é uma série boa para ser assistida e apreciada. Mas — e esse “mas” é bem enfático — seus personagens secundários, e por vezes tão importantes quanto o protagonista, adicionam mais motivos em uma lista imaginária que tenta convencer você, que ainda não assiste, a assistir à série.

Diane Nguyen, humana, vietnamita-americana, é a escritora fantasma (ghost writer) designada a colocar em palavras a jornada de BoJack. Ela é responsável por organizar as histórias do ator em declínio, e o faz de maneira sensível, o que gera uma boa recepção ao livro. Diane é tímida, quase nerd, e, também, militante de carteirinha. Sabe a hora de se posicionar, como se posicionar, e traz para a série alguma das melhores discussões de cunho feminista — inclusive quando, depois de muita consideração, decide fazer um aborto. A personagem é próxima ao protagonista, e adiciona camadas de profundidade à trama.

Outra personagem feminina que tem seu devido lugar ao sol é Princess Carolyn, uma gata humanoide cor-de-rosa, agente e ex-namorada de BoJack. Princess Carolyn é a típica mulher profissional. Sua carreira está em primeiro lugar e ela não mede esforços para correr atrás do que seja lá o que ela ache necessário. Ser uma mulher que prioriza a própria profissão se revela uma dificuldade quando Carolyn tenta manter uma relação estável e saudável. De modo amplo, Princess Carolyn tenta manter sob controle tudo e o máximo que pode, deixando suas vulnerabilidades e inseguranças longe de qualquer olhar. Quando sua vida está uma bagunça, Princess Carolyn confessa: “Eu cuido de outras pessoas compulsivamente quando não sei como cuidar de mim mesma”. Importar-se com a sua carreira, no entanto, não anula sua vontade de ser mãe e ter uma família. Em um dos melhores e mais tristes episódios da série até então, uma tataraneta fictícia de Carolyn, chamada Ruthie, conta para sua classe a história da família. É um episódio focado na personagem que, estando em uma relação quase promissora, sofre mais um aborto espontâneo e precisa lidar com a perda e a dor em um dia movido por melancolia.

Todd Chavez é humano, tem lá seus vinte e poucos anos, e mora de favor na casa de quem, ao longo do tempo, se tornou seu melhor amigo: BoJack. Todd poderia ser considerado um manchild em sua melhor forma — até certo ponto, ele realmente o é. Ele está no centro de alguma das cenas mais sem noção da série, mas também no centro de um plot muito interessante de se assistir: aquele onde ele descobre e mais tarde aceita a sua assexualidade. Diversas vezes, Todd tenta entrar para o mundo dos negócios com Mr. Peanutbutter, mas quase nunca dá certo. Mr. Peanutbutter é meio homem, meio cachorro, rival televisivo de BoJack e insuportavelmente alegre — é um labrador que dirige um carro com a placa estilizada G00D B0Y [bom garoto], no fim das contas. Mr. Peanutbutter sofre espasmos niilistas, acredita que “o universo é um vazio cruel e indiferente. A chave para ser feliz não é a busca por significado, é só manter-se ocupado com absurdos desimportantes e, eventualmente, você estará morto”, e em certo ponto da vida até entra para a política. É um adicional interessante que contrasta com o nosso cabisbaixo protagonista.

Além dos personagens fixos, alguns personagens recorrentes têm seu impacto, como é o caso de Wanda Pierce (Lisa Kudrow), uma coruja executiva de TV que recém acordou de um coma de 30 anos e está se adaptando com o mundo moderno; Vicent Adultman, claramente três crianças empilhadas usando um casaco comprido e fingindo ser um único adulto; e Sarah Lynn (Kristen Schaal), que cresceu sob os holofotes no papel de Sabrina, a filha adotiva do personagem de BoJack em Horsin’ Around. Sarah é uma famosa que se perdeu no mundo das festas e das drogas e tem uma relação próxima com BoJack. Hollyhock Manheim-Mannheim-Guerrero-Robinson-Zilberschlag-Hsung-Fonzerelli-McQuack (ufa!) (Aparna Nancherla) é uma personagem introduzida no final da terceira temporada: uma adolescente doce e inteligente, mas tão ansiosa e isolada como BoJack. E esses são apenas alguns dos nomes, para citar.

Sem noção, trocadilhos, boas referências e um ponto negativo

Como se humanos e animais convivendo na mais pura normalidade não fosse o suficiente, a animação é recheada de momentos que, de uma maneira boa, não fazem sentido. Como bons animais, é comum assistir os personagens fazendo coisas de animais — Mr. Peanutbutter não pode comer chocolate e detesta fogos de artifício, e Princess Carolyn, quando está no trabalho, gosta de brincar com um arranhador com um ratinho amarrado, por exemplo.

Por se tratar de uma série ambientada em Hollywood, com dramas tipicamente hollywoodianos, BoJack Horseman é recheada de referências a atores, atrizes e cantores famosos. Mais de uma vez, famosos da vida real aparecem na série — Daniel Radcliffe, Margo Martindale, Stephen Colbert, são alguns dos nomes —, quando não aparecem em sua forma humana, podem aparecer como um trocadilho bem intencionado, ou até mesmo como uma sátira da “celebrity culture” [cultura da celebridade]. Um episódio da série foi, inclusive, relembrado no auge do escândalo envolvendo o assédio sexual em Hollywood e a conexão de tais assédios com o, até então, mega produtor Harvey Weinstein. O episódio em si coloca Diane em um embate com um famoso de TV acusado de ter abusado ex-colegas de trabalho, que se protege das acusações atrás da fama e do poder.

Sem dar ponto sem nó, até os backgrounds e artes presentes no mundo BoJack Horseman são referências ou adaptações de artes do mundo real, o que angaria mais um ponto positivo para a série. A Zuzanna Stanska, do Daily Art Magazine, reuniu em um post diversas artes de Hollywood e suas respectivas equivalentes, e vale a pena conferir.

Em uma ótima entrevista e matéria da UpRoxx, o maior problema com a animação é adereçada sem delongas. A falta de diversidade no elenco de dubladores é um ponto negativo na série, em especial no que tange sua grande personagem Diane Nguyen, dublada por Alison Brie, que cumpre muito bem o papel, só não o papel que deveria ser dela, uma mulher branca. Quando confrontado sobre o problema, o criador Bob-Waksberg reconhece o erro, admite que, fosse o caso de uma live-action, jamais daria papéis de pessoas não-brancas a pessoas brancas, e finaliza se posicionando que para ir contra a falta de representatividade, você precisa ativamente contratar apenas pessoas não-brancas, em vez de passivamente esperar que elas procurem tal papel. Waksberg não se desonera de seu próprio erro, e tampouco poderia, mas busca corrigi-los, ainda que um pouco tarde demais.

Colocando na balança

Quando terminei minha ávida maratona de BoJack Horseman no final do ano passado, não consegui acreditar que uma das minhas maratonas favoritas havia sido proporcionada por uma animação de um cavalo narcisista, depressivo, e quase um Don Drapper (Jon Hamm) sem a publicidade e o silêncio gritante. Assistir BoJack Horseman não é o equivalente do entretenimento montanha-russa, com seus altos e baixos. Emocionalmente falando, até pode ser — você está rindo só para sentir #bater alguns minutos depois. Mas, em se tratando uma análise de qualidade, a série só cresce e tem crescido ao longo das temporadas.

Apesar do seu problema grave no que diz respeito à representatividade por parte de quem dubla os personagens, BoJack Horseman tem competência e consegue segurar muito das Grandes Questões que se propõe a falar e representar. A quinta temporada estreou hoje na Netflix, e, pelo que tudo indica, mais uma vez retoma discussões honestas sobre assuntos nem sempre bem representados nas produções típicas da TV e do streaming. A série está, sem dúvidas, entre uma das melhores já produzidas pelo serviço. Se você não a conhece ou ainda não havia dado uma chance, espero que você curta a jornada. E se você, assim como eu, já curtiu a jornada, me diz se tem outra opção para essa sexta-feira que não seja aproveitar os novos episódios?

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