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O que aprendemos sobre relacionamentos com Sandy & Junior

Quem viveu a infância e adolescência entre o final da década de 1990 e boa parte da década de 2000 provavelmente conhece, pelo menos, uma dúzia de refrões da dupla Sandy & Junior. Filhos do popular cantor sertanejo Xororó, os irmãos começaram a carreira na música ainda crianças, lançando seu primeiro álbum em 1991. Foram mais de 15 anos de carreira, milhões de discos vendidos e multidões de fãs arrastadas em shows por todo o Brasil. Já faz mais de uma década que Sandy e Junior resolveram encerrar suas carreiras como uma dupla, fechando seus últimos trabalhos juntos em 2007; mas, o legado que os irmãos deixaram para a música pop brasileira é inegável — como comprovam todos os hits gravados em nossa memória.

Essa era uma época em que Sandy era a máxima personificação do padrão ideal do que as meninas deveriam ser: certinha, fofinha, simpática, romântica, bonita, magra, branca, cabelo liso, pura, imaculada, perfeita. Tudo isso, é claro, era esperado não só na sua vida profissional, mas também em como ela se comportava em aspectos da vida pessoal. Vimos Sandy crescer e passar de criança a adolescente cercada por esse ideal que ela tinha necessariamente que manter para seguir sendo um exemplo (inalcançável) para nós, meninas. Em seus relacionamentos, ela era igualmente correta, em namoros longos e virtuosos, jamais associando-se a uma imagem sensual. Um episódio clássico: aos 16 anos, a cantora declarou em uma entrevista para a Capricho que nunca tinha beijado alguém, resultando em uma das capas mais populares da revista. Só em uma entrevista no ano passado Sandy admitiu que não falou a verdade na época, que ela já tinha beijado e já namorava, mas não queria assumir para que “não pegassem no seu pé” — o que certamente teria acontecido.

Podemos aprender muito sobre como a imagem da Sandy vem sendo abordada durante toda a sua carreira — o que significa, também, durante toda a sua vida. Mas, mesmo sem acompanhar as questões da vida pessoal da cantora, podemos aprender muito com Sandy (e Junior): as músicas da dupla atravessaram a nossa geração de ponta a ponta, fazendo parte das nossas vidas desde crianças até o final da adolescência, início da juventude. São músicas que chegaram a nós enquanto formávamos nossas opiniões e personalidades, e que nos colocaram em contato com conceitos e ideias diversas, mesmo que isso não tenha nos ocorrido na época.

Muitas das músicas de Sandy & Junior traziam a temática dos relacionamentos. Desde crianças, esse era o principal assunto das canções, que traziam histórias de amores recém despertados, separação, decepção, encantamento, superação, obsessão, angústia, insegurança e realização. Não dá para encaixar todas essas músicas em uma mesma categoria. A obra de Sandy & Junior é vasta no assunto relacionamentos heteronormativos e traz muitas nuances; te convido a revisar algumas comigo.

O homem quer um lance, a mulher quer um romance

Enquanto o Brasil inteiro discutia a pureza de Sandy e se ela tinha ou não beijado, Junior não experimentou esses dilemas: ninguém dedicava tanta atenção assim ao fato dele ter ou não beijado na boca. Afinal, era apenas natural. Surpresa nenhuma, então, que “Enrosca”, a música mais sensual da dupla, seja uma das poucas cantadas exclusivamente por Junior. Frases como “enrosca meu pescoço, dá um beijo no meu queixo e geme” e “encosta seu ouvido em minha boca que eu te boto tonta/ desliza sua mão no meu cabelo e aperta minha nuca” não poderiam vir da boca de Sandy — essa imagem ficou reservada ao irmão que, em shows, performava a canção junto a bailarinas enquanto Sandy nem era vista no palco.

Já quando Sandy canta sobre pegação, temos “Beijo é Bom”, uma música em que fica claro qual deve ser o posicionamento de uma moça direita nessas situações. “Beijo sem amor não serve/ vem, que leva um não/ quem souber amar me leva/ tem que ser assim/ eu tenho juízo, sei cuidar de mim”. Até que tudo bem beijar, mas tem que ter juízo, tá bom, meninas? Nada de assanhamento.

O tema homem que só quer se divertir sem compromisso versus mulher apegada em busca de um relacionamento sério habita outras músicas da dupla. Em “Desperdiçou”, Sandy conta sobre um cara que “desperdiçou o amor, partiu e nunca mais ligou” cuja “indiferença calou a paixão”. Já em “Baby, Liga pra Mim”, a cantora espera pela ligação de um cara com quem ficou na noite anterior — e que não liga, afinal, como a própria canção diz, “eles são todos iguais”. Sandy, porém, segue esperando no seu papel de mulher apaixonada que quer mais que uma noite de pegação (“mas eu sei que ele não é assim/ ficou o tempo todo perto de mim/ mil carinhos e beijinhos/ não sei por que não liga pra mim”), enquanto o irmão surge na música para afirmar que ela está em busca de “um cara legal”.

Mulher tem dono

Hoje é assustador pensar que duas crianças espalhassem por aí letras que naturalizavam relacionamentos abusivos, violência contra a mulher e a ideia de posse. Ainda mais assustador pensar que as duas músicas mais bizarras nesse sentido tenham sido lançadas quando os irmãos tinham seus oito e nove anos de idade, quando não tinham como perceber exatamente o que aquelas letras queriam dizer. Ver duas criancinhas cantando essas coisas era engraçadinho e isso vai muito fundo em como todas essas questões estão tão intrincadas nas pessoas que nenhum dos adultos responsáveis pensou em achar isso problemático.

Em “A Resposta da Mariquinha” temos um marido chegando em casa tarde da noite, depois de passar a noite em uma festa, e dando de cara em uma porta que a esposa se recusa a abrir. Enquanto a esposa o acusa de não tê-la levado porque o marido foi “paquerar mulher alheia”, ele justifica a atitude com a ideia clara de que só ele tem esse direito: “não levei você comigo/ tive medo do perigo desse tal de Ricardão”. Ele ainda dá aquele toque na ideia de que levar a mulher nesse tipo de ambiente demonstraria fraqueza (“você queria que seu bem fosse bocó/ pra te levar no forró e depois ficar na mão”) e faz ameaças diretas (“Mariquinha, eu tô ficando nervoso/ e quando eu fico nervoso/ pra mim meia dúzia é seis, hein”).

A ameaça de violência explícita também é o que mais choca em “Maria Chiquinha”, primeiro hit de sucesso de Sandy & Junior. Ao longo de todo o diálogo da canção acompanhamos um homem interrogando uma mulher que, ele acredita, lhe deve satisfações sobre cada um de seus passos. O interrogatório culmina no verso “então eu vou te cortar a cabeça”, com um “então” que diz que, bem, se Maria Chiquinha não pode provar que não estava com outro homem e possivelmente sendo infiel, estava justificado que matá-la era a solução possível, em uma linha de pensamento que faz parte de tantos e tantos casos de feminicídio. Por fim, quando Maria Chiquinha pergunta o que o marido vai fazer com o resto de seu corpo decepado, a canção é arrematada de forma tenebrosa: “o resto? Pode deixar que eu aproveito”.

Você não é obrigada

Nem só de relacionamentos problemáticos são feitas as músicas de Sandy & Junior, no entanto. A dupla também presenteou a nossa geração com verdadeiros hinos de superação e amor próprio, em lições importantes de que você também é uma prioridade e de que não pode deixar de cuidar de si mesma. Dessas músicas podemos tirar um conceito bem mais saudável de que não precisamos apagar completamente vontades, abrir mão de sonhos ou desconsiderar qualquer coisa que nos seja importante unicamente em função das expectativas e desejos de outra pessoa.

Em “Bye Bye”, Sandy resolve dar uma guinada na vida e deixar para trás alguém que, ela agora percebe, não a amava tanto quanto ela amava. Ao longo da música ela pede: “não me enrole, não me use, fique longe, não abuse […] não me obrigue”. E arremata, decidida: “nada vai me convencer, deus me livre de você”. É bom ouvir que ela decidiu fazer isso por si mesma — “vou parar, meu ego diz, se assim quiser ser feliz”“Nada Vai me Sufocar” é outra em que Sandy decide se separar de alguém por quem ela não tem a intenção de comprometer seus sonhos nem vontades — uma distinção daquele comportamento de donzela-apaixonada-esperando-por-seu-homem de outros seus eus líricos. No meio da música, é claro que Junior aparece com um estrofe machão pedindo para que ela “deixe de lado esse papo de vontade” e “não esconda esse sorriso”, mas Sandy segue firme e forte na decisão de “te perder para me encontrar”.

Em “Imortal”, mesmo sofrendo com o fim do relacionamento, Sandy acredita ter tomado a decisão certa para seguir seu próprio caminho, pensar um pouco nela. Numa escolha entre ela mesma e o outro, quem sai na frente é ela: “quem escolheu fui eu, e tenho que aceitar/ mas não foi erro meu, você no meu lugar/ faria exatamente igual”.

Todo mundo tem amores platônicos

Talvez a grande especialidade de Sandy & Junior tenha sido esta: falar de amor platônicos, paixões possivelmente não correspondidas, a insegurança de tomar alguma atitude diante da figura amada. A sofrência adolescente veio bem a calhar e fez muitos jovens cantarem emocionados de olhinhos fechados enquanto, talvez, se confortassem com o fato de que outras pessoas também se sentiam assim.

Em “Olha o Que o Amor me Faz” Sandy fala sobre a clássica situação de se apaixonar por um amigo e toda a confusão de sentimentos desse contexto: “Será que você sente tudo que eu sinto por você? Será que é amor?”. Em “Você Pra Sempre”, a cantora conta sobre um amor que, por algum motivo, ela não pode manifestar, mas que ela não consegue esconder: “tenho que te amar só no meu silêncio/ num só pedacinho de mim/ eu daria tudo pra tocar você/ tudo pra te amar uma vez/ já me conformei, vivo de imaginação”. Já em “Ilusão”, Sandy divaga sobre um alguém que faz seu coração disparar, mas é um amor que ela mantém no plano das ideias, pois teme tentar alguma coisa e não ser correspondida: “como é que eu posso ter/ coragem pra falar dessa paixão?/ Pois sei que vou morrer/ se você disser não”.

É também um coração disparado que guia um dos maiores sucessos da dupla, “Quando Você Passa”. Na canção, Sandy conta sobre uma pessoa que faz seu coração acelerar (“turu turu turu”) e vai perdendo os limites quando afirma que, por conta dessa paixão, já não dorme mais ou sai com os amigos. A obsessão é tamanha que envereda pelo caminho da posse e da necessidade de controle: “se eu pudesse te prender/ dominar seus sentimentos/ controlar seus passos/ ler sua agenda e pensamento”. Mais um bom lembrete de que é preciso calibrar as coisas para construir uma relação saudável para todas as partes envolvidas.

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1 comentário

  1. Olá, eu sou a maior fã da dupla encontrada na história da humanidade hahaha e achei super fundamentada sua pesquisa, não me senti ataca nem ofendida, achei intensa. Parabéns pelo olhar crítico.
    Os jornalistas deveriam ter esse embasamento na hora de fazer entrevistas com a dupla, eles são completamente esclarecidos e poderiam nos dar respostas sobre seus comentários. Mas, acredito, que Sandy hoje em dia no seu repertório completamente autoral na carreira solo, é nada mais nada menos, que a nossa grande artista iluminada batendo no peito e se desvinculando dos milhões, para apenas, exercer o seu dom indiscutível.