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1917, o drama arrasa-quarteirão da temporada

Há uma boa chance de que, caso você esteja lendo este texto depois do dia 9 de fevereiro de 2020, 1917 tenha saído carregado de estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor para o britânico Sam Mendes. Caso isso não tenha acontecido e, por algum milagre, o brilhante Parasita (ou Coringa) tenha sido premiado, não desconsidere a leitura deste texto.

O drama de guerra arrasa-quarteirão da temporada já deixou sua marca entre os lançamentos do ano. Ainda que não seja o melhor em um grupo em que concorre ao lado do filme de Bong Joon-Ho ou O Irlandês, 1917 é um exemplar competente de como o cinema ainda consegue encantar e abusar de técnicas já exploradas por outros mestres para elevar a outro patamar uma história tão simples quanto a de um cabo que atravessa um front de batalha para entregar uma carta.

Muitos acusaram o filme de Mendes de não ter alma. Quando comparado a outros grandes filmes de guerra como Apocalypse Now ou O Resgate do Soldado Ryan, o vencedor mais recente do Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama realmente sai perdendo. Porém, ainda assim, a técnica apurada de Sam Mendes e a atuação de seu protagonista, Schofield (George MacKay), levam o espectador para dentro dos campos de batalha com intensidade em cada escolha narrativa.

Trata-se de uma imersão diferente, quando pensamos em outros filmes que são falsos planos-sequência. Lembra-se muito de Birdman, de Alejandro González Iñárritu, que preza pelo ritmo frenético e pela confusão da mente de seu personagem principal, vivido com maestria por Michael Keaton. No entanto, Sam Mendes tem um legado ainda mais difícil de segurar, quando recordamos que, em apenas 84 minutos, Alfred Hitchcock fez, com seu Festim Diabólico, a união entre cinema e teatro enquanto construía uma tensão galgada em basicamente um único ambiente.

Ainda que seja um quase plano-sequência, Festim Diabólico vai na contramão dos filmes de Iñárritu e Mendes, pois o que chama a atenção nele não é a técnica, e sim a forma com que a proporção que a mentira escondida pelos protagonistas vai ganhando. Cada diálogo e esboço de reação revelam algo novo, a ponto de alarmar um terceiro personagem, com um terceiro ato galgado na atuação brilhante de James Stewart. Há também uma condição única que Festim Diabólico divide com Birdman e 1917: o plano-sequência não significa necessariamente que os filmes apresentem suas respectivas histórias em tempo real. As elipses estão presentes, seja na sutileza do anoitecer da cidade que envolve o apartamento do filme de Hitchcock, ou na rapidez impressa no drama vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2015, que passa por diversos momentos do personagem de Michael Keaton antes, durante e depois de uma apresentação importantíssima para o renascimento de sua carreira.

No caso de 1917, o filme conta, em duas horas, uma situação que se desenrolou em dois dias. Muito do mérito do filme de Mendes vem, claro, da coreografia impecável e da ambientação única propostas por Roger Deakins. Um dos melhores diretores de fotografia do cinema atual, ele é o responsável por tornar 1917 uma experiência sensorial e quase um videogame, onde acompanhamos cada passo (ou fase) de Schofield e seu colega de trincheira, Blake (Dean-Charles Chapman): dois personagens que recebem uma missão e precisam sair de um ponto a outro em meio a um cenário desconhecido e perigoso, com diversos desafios ao longo do caminho.

A gamificação de 1917 não é algo exatamente inédito. A pesquisadora Rosângela Fachel de Medeiros publicou em 2017 um trabalho onde analisa a gamificação na novela Velho Chico. No caso da novela, o conceito aparece por meio da câmera subjetiva, alternativa usada na reta final da trama como forma de suprir a ausência de Domingos Montagner, morto enquanto a produção ainda estava no ar e em gravações. Segundo a autora, a gamificação “surge para identificar o processo cada vez mais frequente da apropriação e utilização de repertórios, elementos, mecanismos, dinâmicas e técnicas de games — por outras áreas”.

Em 1917, a gamificação não deixa de ser um viés interessante para um filme de guerra, ainda mais um que não foca especificamente em um evento ou batalha, mesmo que a mensagem a ser enviada por Schofield tenha uma forte relação com a Operação Alberich, ou seja, o recuo até a Linha de Hindenburg. Isso porque, apesar de ter um tom bem menos intimista e um objetivo bem diferente dos de Birdman e Festim Diabólico, 1917 está mais preocupado com a jornada pessoal de Schofield naquele front.

Em termos de gamificação, o cinema tem brincado com possibilidades semelhantes às dos First Person Shooter (ou Jogos em Primeira Pessoa), os FPS Games. De acordo com Rosângela de Medeiros:

“Essa perspectiva narrativa é muito usada e tem muito impacto em jogos com armas de fogo, jogos de atiradores (shooters em primeira pessoa), os quais são reconhecidos como os primeiros a utilizar essa perspectiva. No entanto, narrativas em primeira pessoa estão cada vez mais presente nos mais variados gêneros de jogos: corridas, simuladores de voo, jogos de aventura (…) Nestes o jogador se sente imerso no espaço diegético da narrativa, contrário dos outros em que é apenas o foco do olhar o mantém ligado à narrativa.”

Nesse sentido, deve-se elogiar a corajosa atuação de MacKay, que, rodeado de atores conhecidos em participações menores, vai além da fisicalidade exigida para o papel e tem estampado em seu rosto o medo e os traumas que aquelas horas irão lhe custar no futuro. O trabalho do ator é fundamental para que essa engrenagem funcione, já que é pela experiência dele que vamos vivenciar aquelas horas de horror.

Inspirado nas histórias que seu avô contou sobre a Primeira Guerra Mundial, Sam Mendes criou em 1917 seu projeto mais pessoal e ousado. O mesmo diretor que já explorou a hipocrisia do subúrbio norte-americano em Beleza Americana e no belo Foi Apenas Um Sonho, e que levou aos palcos versões elogiadas de Cabaret e Oliver!, parece ter gostado de fazer filmes grandiosos com suas incursões no universo de 007, como Operação Skyfall e Spectre. Se ele tem o melhor trabalho em uma categoria com Martin Scorsese e Bong Joon-Ho? Provavelmente não, mas premiá-lo novamente não seria dos maiores erros da Academia.

1917 recebeu 10 indicações ao Oscar nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Fotografia (Roger Deakins), Melhor Direção (Sam Mendes), Melhor Cabelo e Maquiagem (Naomi Donne, Tristan Versluis e Rebecca Cole), Melhor Trilha Sonora Original (Thomas Newman), Melhor Design de Produção (Dennis Gassner e Lee Sandales), Melhor Edição de Som (Oliver Tarney e Rachael Tate), Melhor Mixagem de Som (Mark Taylor e Stuart Wilson), Melhores Efeitos Visuais (Guillaume Rocheron, Greg Butler e Dominic Tuohy) e Melhor Roteiro Original (Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns).

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