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A narrativa de Democracia em Vertigem, um documentário de Petra Costa

Democracia em Vertigem é o quarto filme da diretora Petra Costa e concorre ao Oscar de Melhor Documentário em 2020. A produção do documentário começou em 2016, no início do processo de impeachment da presidente Dilma Rousself. O filme aborda desde o afastamento da presidente, até a prisão do ex-presidente Lula e a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Petra mostra momentos decisivos da política brasileira, a partir de imagens de jornais, intercalados com momentos de privacidade e seu próprio arquivo pessoal.

Logo no início o documentário faz uma alternância de cenas de momentos opostos da política brasileira. Com narrativas de jornais nacionais e internacionais ao fundo, surge o Sindicato dos Metalúrgicos, palco do discurso do ex-presidente Lula antes da sua prisão, em 2018.

A polarização é demonstrada pela alternância de cenas de manifestantes que dizem que não vão deixar que Lula seja preso, apesar da decisão judicial, e de manifestantes de verde e amarelo que pedem a prisão do ex-presidente. Essa dualidade será levantada em vários momentos do documentário. E a semente dessa divisão está nas manifestações de junho de 2013, quando os manifestantes negavam partidos e rasgavam bandeiras. A partir daí, as únicas bandeiras que seriam aceitas eram verde, amarelo e azul.

Uma das questões polêmicas sobre o documentário foi a descoberta da adulteração da foto da Chacina da Lapa, em que Pedro Pomar foi assassinado. Petra fala sobre Pedro no documentário por ser o mentor político de sua mãe e, por quatro segundos, é mostrada uma imagem adulterada de quando Pedro foi assassinado. Na imagem original, haviam armas no chão da sala onde os corpos estão. Na imagem do documentário, as armas foram digitalmente apagadas. Para Petra, retirar as armas da imagem foi uma forma de homenagear Pedro com uma imagem mais próxima a uma “verdade” — as aspas são dela.

democracia em vertigem

Existem diversos depoimentos sobre o caso da Chacina da Lapa, de sobreviventes e repórteres, que afirmam que as armas foram colocadas lá. Talvez, se houvesse uma foto antes da adulteração da cena, ela seria assim, como mostrada no documentário. Só que Petra modifica um registro histórico e não avisa a ninguém, só comenta a questão quando repórteres descobrem a diferença entre as imagens.

Sobre esse caso, é possível tecer excelentes argumentos para discordar ou concordar com a escolha feita pela diretora, mas, primeiro, isso não transforma o documentário em ficção. Segundo, o que ela faz aqui é disputar a narrativa sobre essa imagem, da forma que julgou conveniente. É assim que ela gostaria que essa imagem fosse lembrada.

Em todo documentário, Petra apresenta a sua perspectiva na questão, e deixa claro, desde o início, de onde parte — tanto politicamente quanto financeiramente. Não nega críticas ao seus, fala sobre sua esperança e também sobre suas decepções. Os 21 anos de ditadura fazem parte da sua história. A vida na oligarquia política e econômica, também.

Petra valoriza a importância que os discursos têm. Ela sabe que a narrativa, como a história é contada, é fundamental para definir como ela será lembrada no futuro. Há muito pouco tempo a maioria de nós imaginava existir um consenso sobre a crueldade e a impossibilidade de defesa de alguns períodos históricos. Hoje, vemos esses períodos serem lembrados com saudosismo.

Discursos absurdos foram banalizados nesses últimos anos e é possível que nós tenhamos nos acostumado com algumas das cenas que vimos. Quando foi que nos tornamos tão apáticos? Quando foi que um país, que parecia ter se livrado do seu passado autoritário, resolveu que, do jeito como as coisas estavam, era melhor voltar a esse passado? A democracia, tão duramente conquistada, vê sua existência ameaçada por fantasmas do passado.

Imagine como deve ser, para alguém que desconheça a maior parte do contexto político do país, a cena da votação de abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados? Um mar de homens brancos de terno, a maioria deles aos berros, espremidos perto do púlpito comemorando tal qual a copa do mundo, com bandeiras penduradas no pescoço e lançador de papel picado.

E, ainda, um desses deputados dedica seu voto a um homem, a narração explica que esse homem, Carlos Alberto Brilhante Ustra, não foi apenas o nome mais infame da ditadura brasileira, como também foi ele o responsável por torturar a presidente que está sendo retirada do cargo. Minutos antes, Dilma contava sobre sobreviver à tortura, “você tem que pensar que é só mais um minuto”.

democracia em vertigem

Ao mostrar o processo anterior ao impeachment, Petra deixa evidente que ele não é um mecanismo estritamente jurídico, é também político. Assim como a Operação Lava Jato. E é essa dimensão política que carrega dentro de si a percepção da opinião pública, insistentemente alimentada pela cobertura midiática. Prova disso é a autocrítica feita pelo jornal Folha de S. Paulo sobre a Lava Jato, reconhecendo que, a imprensa foi transformada, muitas vezes, em linha auxiliar da operação como uma estratégia de angariar suporte.

Os jornais têm um grande papel na construção da imagem e da percepção de cada acontecimento — e o documentário frisa essa importância. De novo, os discursos importam. O que chamamos de fato são narrativas no presente construídas a partir do que já é passado. O que é dito sobre algo é, na verdade, o mais importante sobre ele, pois é tudo que fica.

Utilizando diferentes materiais, fontes de informação, imagens antigas e filmagens novas, baixa e alta resolução, Petra constrói uma história muito bem estruturada e organizada, onde cada personagem é apresentado em seu devido momento. Longe de ser uma história linear, adota uma narrativa clara, que quer ser compreendida.

A ditadura, manifestações sindicais, a eleição de Lula, a eleição de Dilma, a apresentação de Michel Temer e a mudança de lado do vice-presidente. Dilma chega a aparecer em uma imagem entre os Ministros no momento em que Lula é presidente, mas ela só será apresentada de fato quando chega o momento de falar sobre a escolha de Lula para que ela seja sua substituta. As personagens são mostradas ordenadamente. Como uma peça, cada personagem tem seu momento de entrar em cena.

E essa apresentação nos dá momentos de aproximação e afastamento da história. Como um zoom, Petra nos coloca dentro do que está sendo dito ao combinar a narração com o que é mostrado na imagem, falando diretamente sobre as pessoas ou lugares que aparecem. Em outros momentos, essa narração é dissociativa, somos afastados da história, empurrados para fora e obrigados a ver a narrativa sobre uma visão macro.

E nesse processo de apresentação de personagens e aproximação e afastamento da história, Petra traça anos de história política do Brasil, causando indignação em quem assiste — ainda que nem sempre pelos mesmos motivos.

Democracia em Vertigem

Democracia em Vertigem recebeu 1 indicação ao Oscar, na categoria de: Melhor Documentário. 

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