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Free Britney: os contornos obscuros da vida de uma estrela

2020 ficará marcado na história como o ano da pandemia, mas para Hollywood também é o ano em que Movimento Free Britney ganhou força na mídia. Com raízes em 2009, um ano depois que Jamie Spears, pai da estrela, se tornou seu curador, o movimento de fãs existia, desde então, alimentado por pequenos fatos pescados de acontecimentos questionáveis da vida de Britney Spears e boatos de fontes anônimas rapidamente esquecidos sob panos quentes ou a aparência de absurdidade.

Antes, soava simplesmente ilógico que um dos rostos mais conhecidos do mundo, um dos nomes mais emblemáticos da música, vivesse uma vida de extremo controle e possível exploração externos. Sob o olhar do Free Britney, contudo, tal hipótese ganhou cada vez mais corpo e traços de uma realidade se tornando mais e mais assustadora com o desenrolar dos fatos, especialmente no final de 2019, quando Britney se colocou, pela primeira vez, publicamente contra o papel do pai em sua curatela, pedindo judicialmente à Corte de Los Angeles que ele fosse removido do cargo.

Esse foi o mote inicial para uma virada da narrativa midiática que, por todo o ano de 2020 e início de 2021 documentou os acontecimentos conferindo sentido e legitimidade ao movimento, motivando os fãs e outras pessoas do meio artístico a se posicionarem e tornando o Caso Britney mais palpável ao público numa extensa cobertura jurídica.

Os primeiros eventos do “começo do fim” resultaram no documentário Framing Britney Spears (disponível na Globoplay), o qual teve a chancela de peso do The New York Times. A produção teve como intuito elucidar o que levou Britney a ser interditada pelo pai. É claro, a primeira coisa que chega à mente nesse momento são as imagens de 2007, quando Britney entra em uma aparente espiral de descontrole. Porém, o documentário trabalha para derrubar alguns mitos da indústria do entretenimento e apontar outros problemas, melhor analisados sob a ótica e mentalidade atuais do que à época.

Ascensão e queda do fenômeno Britney Spears

Em 2011, ao 60 Minutes with Anderson Cooper, Lady Gaga apontou: “Isso é o que todo mundo quer saber, não é? Como ela vai se parecer quando morrer? Como ela vai se parecer quando tiver uma overdose? Todo mundo quer ver a decadência de uma super estrela.” No início dos anos 2000, Britney não passou por apenas um momento atribulado com a mídia, mas diversos. Deixaram de lado a aparência angelical, os recordes e o profissionalismo para transformá-la num alvo. Sendo jovem e mulher, era fácil colocar Britney num contexto desfavorável.

A opinião pública sempre estaria contra ela, porque assim foi moldada: da sexualização da imagem da cantora desde o primeiro single, “…Baby One More Time” (1998), e a exorbitante exploração do “Conceito Lolita” em trabalhos seguintes até o comportamento da mídia em torno dela, confortável para fazer perguntas invasivas e colocá-la em situações onde inevitavelmente geraria a polêmica que estamparia as manchetes do dia seguinte. De maneira geral, as pessoas se sentem totalmente livres para expressar opiniões sobre todas as particularidades da existência feminina, das escolhas à forma física, denotando um sentido de propriedade sobre os corpos, que exacerba os níveis do aceitável quando se trata de mulheres famosas.

Naquela época, a cantora era verbalmente questionada sobre seu corpo, sua virgindade e sua sexualidade, como se a própria indústria não explorasse esses aspectos num ciclo vicioso, que jamais soaria como uma intrincada orquestra midiática, pois Britney, jovem, mulher e supostamente autoconsciente demais da própria sexualidade, sempre seria a culpada. “Sabe, eu trabalhei com todas as boybands, todas elas. E nenhum dos garotos foi tratado daquele jeito.” — apontou Hailey Hill, ex-diretora de moda da revista Teen People e ex-stylist de Britney.

Porém, assim não deixou de ser. À Britney nunca foi permitido tomar o controle da narrativa como Justin Timberlake fez após o término do estrondoso namoro deles (1999–2002), ganhando o apoio massivo da mídia, que condensou ataques àquela que quebrou o coração do cantor — a versão de “Cry Me A River”, música dele que ganhou um clipe com uma atriz idêntica à Britney —, pois a misoginia sempre permeou o lado dela da história. Sobre esse período é importante destacar como é possível notar a posição de controle em que a cantora aparentava se encontrar, ao menos de alguns aspectos do início da carreira, como descreve o Diretor de Coreografia, Kevin Tacharoen:

“A ideia de que Britney era uma boneca, que era controlada e apenas obedecia é incrivelmente incerta. Quando eu estava envolvido, em todos aqueles anos, nós apresentávamos muitas ideias. Ela tinha que gostar e aprovar. Ela era muito criativa, sabia o que queria e fazia isso acontecer… Ou fazia com que as pessoas fizessem acontecer. […] Ela era a chefe.”

Entretanto, essa postura de quem conduzia as reações de todos ao seu redor vai sendo minada com o passar dos anos, a cada entrevista, a cada “frame”, se transformando numa postura indefesa, recuada como se à espera do próximo ataque, da próxima manchete sensacionalista — especialmente entre 2004 e 2006, quando fez uma pausa na carreira e se tornou mãe, emendando o fim do casamento atribulado com Kevin Federline. Ao documentário Britney vs. Spears, o controverso ex-namorado de Britney,  Adam Ghalib, que atuava como paparazzi antes do relacionamento, afirmou: “Pode dizer que ela estava chateada, com raiva, ou que estava machucada. Escolheria todas essas antes de ‘louca’”.

A visível vulnerabilidade em que se encontrava na época, quando passava por batalhas judiciais contra o ex-marido pela guarda dos filhos, deixou o terreno aberto para o crescimento da perturbação dos tabloides, alimentados por paparazzi que literalmente a seguiam dia e noite, às vezes em perseguições de carro, violando sua privacidade, espaço pessoal, colocando em risco sua segurança e denotando sua falta de controle sobre o mundo que a cercava. Britney havia se tornado mais um objeto de curiosidade pública por sua queda do que por sua música, uma vez que “seu desequilíbrio foi fascinante para o público”, como é descrito por Brittain Stone do U.S. Weekly, e ninguém a havia preparado para esse tipo de trabalho, para ser esse tipo de entretenimento.

Para além disso, o declínio foi amplamente documentado. Capas de revista estampavam momentos de fragilidade, entrevistadores conseguiam grandes matérias cutucando suas feridas e a fazendo chorar na frente das câmeras, lucrando com a decadência que todo o mundo almeja ver. Tudo isso, obviamente, culminou nos fatídicos episódios de 2007 e, no ano seguinte, na interdição de suas decisões pessoais e financeiras sob o controle de Jamie Spears.

A construção da incapacidade mental

Nos Estados Unidos, conservatorship é um instrumento jurídico que visa proteger a pessoa considerada incapaz, assim como seu corpo de bens, se houver, designando uma pessoa para representar sua vontade legal. Se tratando de Brasil, seria um instituto equivalente ao da curatela — e não da tutela — uma vez que se refere à representação da vontade do maior incapaz, por causa transitória ou permanente. Assim, por 13 anos, o pai de Britney desempenhou o papel de curador das decisões pessoais, profissionais e econômicas da filha, responsável por definir tanto os investimentos e direcionamento de carreira quanto seus tratamentos médicos.

Tanto o Framing Britney Spears quanto o Britney vs. Spears (Netflix) apontam como Jamie curiosamente nunca foi próximo da filha até meados de 2008 e, em ambos, o advogado Adam Streisand, procurado por Britney à época da audiência de custódia que definiria os primeiros passos da curatela pedida pelo pai, reforçou que ela não o queria como seu curador. Entretanto, a história começa a ganhar contornos mais obscuros quando o advogado escolhido por ela é dispensado da audiência devido a um laudo médico que atestava a incapacidade de Britney, o que incluía a inaptidão para orientar e contratar um representante sem o auxílio de terceiros.

A questão da saúde mental é, ainda, um ponto não esclarecido na longa narrativa do Caso Britney. Existem rumores de que ela teria sido atestada com demência, um quadro incomum entre pessoas tão jovens que, segundo o Ministério da Saúde, “apresenta três características principais: prejuízo da memória […]; problemas de comportamento […] agitação, insônia, choro fácil, comportamentos inadequados, perda da inibição social normal, alterações de personalidade; perda das habilidades, tais como: organizar compromissos, dirigir, se vestir, cuidar da vida financeira, cozinhar, etc.”.

Há certa inconsistência, porém, no fato de que, ao mesmo tempo que direitos básicos eram retirados de Britney por ações da curadoria, como a autonomia social e pessoal pela restrição de passeios em público com o namorado ou a proibição para dirigir o próprio carro e o corte em seus cartões de crédito, além da impossibilidade de administração de seu patrimônio, Britney lançava o álbum Blackout (2007) — seu projeto mais bem sucedido entre a crítica — gravava o “Circus” (2008) e se preparava para a memorável Circus Tour no ano seguinte. Por isso, há anos a pergunta sem resposta intriga fãs ao redor do mundo: como alguém que, supostamente, sofre de uma síndrome tão incapacitante para ações comuns consegue continuar trabalhando tão normalmente quanto aparentou nos últimos anos?

Adnan Ghalib, contou que, à época, o fato de Britney ser colocada sob a curatela temporária soava absurdo justamente por não conseguir enxergar nela qualquer sinal de incapacidade mental: “Ela é funcional. Eu a vi escrever o álbum Blackout em um guardanapo da Starbucks na Ventura Boulevard em Studio City. Eu a vi sentar lá e pensar na coreografia. E estávamos discutindo… Sabe, sobre que cores usar, o cenário, a mudança de cenário, a cortina de fundo, figurinos… Ela fez tudo isso e você está me dizendo que o pai dela vai conseguir uma curatela? Não fez sentido pra mim.”

Em retrospectiva, ficou claro que, nos anos seguintes ao caótico 2007, Britney manteve um corpo de trabalho constante, deixando a impressão de que a curatela estava funcionando como o esperado e que, supostamente, a cantora só precisava de alguém — um homem — que tomasse as rédeas da situação, como o pai havia feito por ela. Essa é a mesma visão do Sr. Spears que, no documentário For The Record (MTV), afirma que Britney gostava apenas de cantar e dançar, sendo um arranjo necessário que outra pessoa cuidasse de todos os outros aspectos que não se referissem ao show em si mesmo. A afirmação contrasta de forma gritante com a declaração da própria à produção de 2009:

“Se eu não estivesse sob as restrições que estou agora… Você sabe, com todos os advogados, médicos, pessoas me analisando todo dia, etc. Se não tivesse isso, eu me sentiria muito livre, me sentiria como eu mesma. Quando eu falo o que sinto, eles me ouvem, mas não estão realmente ouvindo [prestando atenção]. Eles ouvem o que querem ouvir, não o que eu digo. Então é… É ruim. Estou triste.”

O negócio Britney Spears

Pelos depoimentos de pessoas que foram próximas dela ao longo dos anos, realmente fica evidente que a “coisa” de Britney sempre foi O Palco. É descrito como ela amava cantar e dançar, mas também como a falta de autonomia sobre as próprias decisões e ações a anularam como pessoa, como cidadã de direitos civis, uma característica cruel e limitadora do instituto da curatela, embora continuassem requisitando que fosse Britney Spears, a estrela, pois Britney Spears era também um negócio muito rentável.

Com a curatela instalada permanentemente, o patrimônio de Britney sustentava uma verdadeira rede de pessoas beneficiadas pelo sistema, se tornando a única fonte de renda de Jamie Spears, o pai que anos antes havia declarado falência, mas foi considerado apto pelos Tribunais a tomar decisões sobre o patrimônio alheio. A curatela foi lucrativa também para os advogados Samuel Ingham III e Andrew Wallet, que desempenhavam o papel de co-curadores dela, além do empresário Larry Rudolph, o qual retornou ao cargo assim que o Sr. Spears foi nomeado. E todos os demais profissionais envolvidos no caso, como médicos, advogados e terapeutas, independente se de sua defesa ou não, foram pagos com a fortuna da cantora.

Além disso, a produção da Netflix ventila o nome de Lou Taylor, mas receia adentrar mais a fundo em seu envolvimento nos acontecimentos. Um dos grandes nomes por trás das cortinas de Hollywood, atuando com estrelas como Mary J. Blidge e Jennifer Lopez, Taylor surge na narrativa dos Spears em 2008 e rapidamente é contratada como gerente de negócios de Britney. Ciente do documentário em desenvolvimento, a empresária enviou um comunicado prévio à produção prometendo medidas legais ante qualquer menção que a relacionasse, ou a sua companhia, a Tri Star, à curatela. No entanto, no livro de memórias de Lynne Spears, Through The Storm: A Real Story of Fame and Family in a Tabloid World (2008), a mãe da cantora alega que Lou Taylor foi uma das primeiras figuras na vida de Britney a sugerir uma curatela temporária, o que alimenta a teoria conspiratória de que havia um plano para assumir o controle da vida da cantora e que, por um tempo, funcionou, uma vez que a empresária seguiu no cargo até 2020.

Apesar de, nos registros judiciais do caso, ser manifesta certa preocupação com a saúde mental de Britney, fica claro que havia muita tolerância quanto ao trabalho, ainda que se tratasse de viagens exaustivas em turnês, ensaios ou horas esperando para gravar. Assim, a equipe a manteve trabalhando assiduamente desde 2011 com o lançamento do álbum Femme Fatale, que emendou com o contrato milionário para aparecer como jurada do The X-Factor em 2012, com a Piece Of Me Vegas, residência que de 2013 a 2017 rendeu 137,7 milhões de dólares em bilheteria, além da Piece Of Me Tour (2018), considerada a mais lucrativa daquele ano, tendo passado por apenas nove países e arrecadado 54,3 milhões de dólares, e a gravação de outros dois projetos — Britney Jean (2013) e Glory (2016).

Por tudo isso, soa estranho que a fortuna da cantora, avaliada pela revista Forbes em 2021, seja estimada em apenas 60 milhões de dólares. Quando comparada a outras estrelas, o déficit se torna ainda maior: Beyoncé, que iniciou a carreira solo depois de Britney, tem seu patrimônio líquido estimado em 420 milhões de dólares, enquanto Taylor Swift, um fenômeno de outra geração, possui uma fortuna estimada em 365 milhões de dólares. Segundo a conceituada publicação, embora a cantora tenha dado continuidade ao trabalho na música até 2018, os gastos legais com a curatela são exorbitantes e, por motivos indeterminados, desde 2015 não foi fechado nenhum acordo publicitário, o que garantia um rendimento mais alto.

Em detrimento disso, com a expectativa de anúncio da aguardada Residência Domination para 2019, Andrew Wallet, responsável por auxiliar Jamie Spears nos aspectos financeiros da curatela, enviou uma petição à Corte de Los Angeles pleiteando um aumento de remuneração justificado por uma previsão de demanda de trabalho e lucros maiores e afirmando que, àquela altura, “a curatela devia ser encarada mais como um modelo híbrido de negócios”. É como se Britney estivesse trabalhando unicamente para gerar dinheiro e manter a lucratividade do negócio àqueles que a mantinham sob rígido controle em diversos aspectos, o que chocou aqueles que acompanhavam o caso, mas foi prova essencial da situação abusiva sob a qual a estrela viveu por todos esses anos, o que antes era tratado apenas como uma assustadora teoria da conspiração.

A silenciosa insubmissão de Britney

É importante destacar que Britney nunca foi uma vítima inerte, mas foi coagida a sê-lo. Segundo o advogado Adam Streisand, ela compreendia perfeitamente os efeitos que recairiam sobre sua realidade e estilo de vida e sempre se manifestou exaustivamente contrária, principalmente pelo fato de pessoas de caráter questionável, na visão dela, estarem ganhando um papel muito importante. Em 2009, já silenciada pela nova equipe composta por Jamie Spears, Larry Rudolph, Lou Taylor e os demais advogados da curatela, a própria cantora tentou contratar outro advogado para representá-la e expressar sua insatisfação sobre a curatela e especialmente sobre Sam Ingham III, pelo qual não tinha confiança. Novamente, Britney foi considerada incapaz para contratar um representante que falasse em seu nome.

Como a curatela se trata de um procedimento jurídico onde os envolvidos devem prestar contas sobre a pessoa que está sendo curatelada visando seu bem-estar, o namorado de Britney Spears por volta de 2011, Jason Trawick, ex-agente da estrela e posteriormente ator no clipe da música “Criminal”, afirmou explicitamente que ela desejava sair da curatela. Além disso, relatou situações absurdas onde a cantora era obrigada a pedir permissão para sair com ele ou ter acesso ao próprio dinheiro, mesmo que fosse para comprar livros para os filhos. Assim, ela fazia um pedido e esperava alguns dias pela resposta de seus curadores.

Britney vs. Spears deixa explícito, no entanto, como a submissão de Britney à tutela sempre esteve ligada aos dois filhos, Sean e Jayden. Em 2008, ela perde a guarda de ambos para Kevin Federline — após o conhecido episódio onde ela se recusa a entregá-los ao pai no período combinado, saindo de casa em uma ambulância parecendo desnorteada — e só retoma o contato com as crianças após a instalação da curatela temporária e sob a responsabilidade de Jamie Spears

A maternidade sempre foi uma prioridade para Britney. No auge das perseguições dos tabloides, ela vinha sendo uma mãe, assim como em seus momentos de maior vulnerabilidade, onde lutava para, simplesmente, poder desempenhar esse papel. Na mídia, é marcado o incidente onde a cantora ataca o carro de um paparazzi com um guarda-chuva. Porém, o contexto na época era completamente diferente do atual: ninguém se preocupava com o fato de que, por toda a noite, Britney havia sido seguida até um posto de gasolina pelos paparazzi e, depois, até a casa de Kevin Federline para tentar contato com os filhos, onde sequer foi recebida. A privacidade de sua fragilidade estava no lixo e a frustração apenas aumentava.

Ao advogado que tentou contratar, Britney verbalmente alegou numa mensagem de voz, que não tentava sair da curatela, pois “eles” usavam seus filhos para ameaçá-la. Dessa forma, o poder que essas pessoas mantinham sobre a cantora se sustentava por seu maior vínculo emocional, bem como sua mais visível “fraqueza”: a maternidade, negada a ela desde o início, quando, logo após o divórcio, Kevin Federline iniciou as batalhas judiciais pelas crianças e que também pode ser uma das motivações dos acontecimentos de 2018 em diante, quando o assunto ganha força novamente culminando no estrondoso depoimento de Britney à Corte de Los Angeles, em 2021.

23 de junho: mais forte do que ontem

À essa altura, o que acontecia no Caso Britney já escandalizava o mundo, mas quando a cantora falou por si mesma, depois de tanto tempo em silêncio, foi diferente, impactante, forte e absurdamente triste: soou como uma vitória, ainda que estivesse implorando por ajuda à juíza do processo e relatando as inúmeras medidas abusivas pelas quais vinha passando para tentar encontrar o fim de tudo aquilo.

Pela primeira vez após treze anos se obrigando a se manter sob as restrições da curatela em silêncio, à cantora foi permitido falar por si mesma em depoimento concedido via ligação de telefone, expressando toda a sua insatisfação com o rígido controle sobre o qual estava vivendo e detalhando com riqueza de detalhes a dinâmica da equipe que a cercava, principalmente a forma como era coagida a trabalhar para ter seus “privilégios”, como o acesso ao dinheiro, aos filhos e a liberdade de ir e vir:

“[…] Eu trabalhava sete dias por semana, sem folga. Na Califórnia, a única coisa semelhante a isso se chama tráfico sexual. Fazer qualquer um trabalhar contra a sua vontade, levando embora todos os seus bens: cartão de crédito, dinheiro, telefone, passaporte. […] Se eu não fizesse nenhuma das minhas reuniões e trabalhasse das oito às seis da noite — o que é 10 horas por dia, sete dias por semana, sem dias de folga — não seria capaz de ver meus filhos ou meu namorado. Nunca tive chance de opinar nada sobre minha agenda de compromissos. Eles sempre me disseram que eu tinha que fazer isso ou aquilo. […] Não está certo me forçar a fazer algo que eu não quero fazer. […] eu deveria ser capaz de processá-los por me ameaçarem dizendo que ‘se não fizer essas reuniões duas vezes por semana, não podemos deixar você ficar com seu dinheiro e ir para Maui em suas férias. Você tem que fazer o que lhe foi dito para este programa e então você poderá ir.’ […]”

No depoimento, ainda, ela frisa várias vezes como é o seu trabalho e dinheiro que mantém a equipe da tutela, mas, mesmo assim, é considerada incapaz de fazer suas próprias escolhas, deixando claro que se trata de um meio de enriquecimento às suas custas e que os envolvidos, inclusive, seu pai “deveriam estar na prisão”:

“[…] Novamente, não faz sentido algum o estado da Califórnia sentar e literalmente me observar com seus próprios olhos, ganhar a vida para tantas pessoas e pagar a tantas pessoas, [mantendo] caminhões e ônibus na estrada comigo e ser informada que eu não sou boa o suficiente. Mas eu sou ótima no que faço. […] desde o início, uma vez que você vê alguém — seja lá quem for — na curatela ganhando muito dinheiro e [sou] eu trabalhando! […] Eu não deveria estar em uma tutela se posso trabalhar pra mim e fornecer dinheiro para outras pessoas […] Que estado permite que as pessoas possuam o dinheiro e a conta de outra pessoa e as ameace dizendo: ‘você não pode gastar seu dinheiro a menos que faça o que queremos que faça’? E eu estou pagando a eles. […]”.

É notável como fazê-la continuar trabalhando era uma prioridade da curatela para manter o “Negócio Britney Spears” funcionando e a forma de conseguir isso eram as ameaças. Britney afirma que, em 2018, trabalhava há quatro anos e meio sem férias e queria fazer uma pausa, mas foi ameaçada por seu empresário, Larry Rudolph, para cumprir os contratos do ano seguinte. Com a curatela, Britney era incapaz de contratar um advogado para defender uma possível quebra de contrato, no entanto.

Desde que a Residência Domination foi cancelada por motivos ainda não completamente esclarecidos, a cantora não esteve em nenhum projeto e, em 2020, informou ao Tribunal que não voltaria a trabalhar enquanto o pai estivesse como a maior cabeça por trás de seus negócios: “Eu mereço ter uma vida. Eu trabalhei minha vida inteira. Eu mereço ter um intervalo de dois a três anos e apenas, você sabe, fazer o que eu quero fazer.”

Na época, o manifesto de Britney foi tratado como displicência e até birra por parte de Jamie Spears, pois os custos altos de todos os procedimentos ainda deveriam ser mantidos pela fortuna dela. Porém, a primeira petição da cantora não deixou de cair como uma bomba na organização bem pensada que a rodeava, mas que já vinha internamente ruindo desde que Andrew Wallet, o gestor financeiro que havia pedido aumento em 2018, se desligou da curatela em 2019. Em 2020 e 2021 foi a vez de Lou Taylor e Larry Rudolph deixarem de representar os interesses de Britney.

Ainda que Britney continuasse a trabalhar e gerar dinheiro por todos esses anos, não era suficiente, como ficou claro em 2018. Não fosse o Movimento Free Britney, a repercussão mundial e a pressão midiática em torno do caso, ela jamais teria autonomia para fazer coisas básicas, como “ver amigos que moravam há oito minutos de casa”, passear com o namorado, se defender publicamente de alegações sobre ela ou engravidar. A última restrição escancara o nível de controle autoritário:

“[…] Disseram-me agora, na curatela, que não posso me casar ou ter um filho. Tenho um DIU dentro de mim agora, então não posso engravidar. Eu queria tirar o DIU para começar a tentar ter outro bebê, mas esta suposta equipe não me deixa ir ao médico para tirá-lo, porque eles não querem que eu tenha mais filhos. […]”

Sob os cuidados de Jamie Spears e inegavelmente da justiça americana, Britney é uma vítima moderna de um sistema patriarcal que, onipresente, alimenta a ideia do controle sobre corpos femininos. A partir de 2008, os ataques sofridos pela estrela deixam de ser públicos e passam a ser internos, a minando de dentro para fora, inclusive por meio de remédios fortes, pois após a negativa sobre a Residência Domination, suas drogas foram trocadas como uma punição:

“[…] Ele [o terapeuta] imediatamente, no dia seguinte, me deu lítio do nada e tirou os remédios normais, que eu usava há cinco anos. E o lítio é um medicamento muito, muito forte, completamente diferente do que eu estava acostumada. Você pode ficar mentalmente debilitada se tomar muito, se ficar por mais de cinco meses. Mas ele me colocou nisso e me sentia bêbada. Eu realmente não conseguia nem cuidar de mim mesma. Eu não conseguia nem ter uma conversa com minha mãe ou meu pai sobre qualquer coisa. Eu disse a ele que estava com medo e meu médico me colocou com seis enfermeiras diferentes, que vinham à minha casa, ficando comigo para me monitorar com esse novo medicamento, que desde o começo eu nunca quis tomar. Havia seis enfermeiras diferentes em minha casa e elas não me deixaram entrar no carro para ir a lugar nenhum por um mês. […]”

Ainda que o pai de Britney tenha cedido à pressão e pedido para ser afastado do controle da curatela em 7 de Setembro de 2021, o que foi acatado pelo Tribunal de Los Angeles, como a própria disse em seu depoimento, ela está traumatizada, com medo e tem dificuldade de confiar nas pessoas tal foi o nível dos absurdos pelos quais passou por treze anos conferindo a letra de “Overprotected” (2001) um sentido assustador. No Instagram, depois de agradecer aos fãs por não desistirem do Movimento Free Britney — e até dela mesma —, Britney contou que esperou tanto tempo para estar livre daquela situação que, agora que os procedimentos estão sendo agilizados para o fim da curatela, tem medo de fazer qualquer coisa por acreditar que irá cometer erros.

A motivação dúbia de anos de curatela sob o argumento da proteção contra supostos inimigos externos e a suposta incapacidade da cantora claramente a impediu de passar por processos de amadurecimento que viriam com a idade e as experiências vividas por ela. Prestes a completar 40 anos, Britney vivia sob restrições que se equivaleriam às de uma criança — pedindo dinheiro, autorizações e direcionamentos aos seus responsáveis —, o que entrará para os anais das histórias mais bizarras de Hollywood, potencializada por uma época onde tudo aconteceu sob os olhos de um público ávido.

Resta agora esperar que Britney se adapte novamente à autonomia pessoal, profissional e financeira encontrando um caminho próprio, o que será necessariamente doloroso. E, não diferente dos anos 2000, certamente há aqueles esperando pela queda da super estrela, mas também há torcida. O mundo todo está assistindo.

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