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“Crônicas do Confinamento” e a carência por histórias do cotidiano

Em setembro de 2020, o Brasil, recém alcançado os 100 mil mortos pela Covid-19, forçava um retorno a um normal já esquecido. Entre os que podiam cumprir o isolamento ou que saiam devido à necessidade, mas não ignoravam os cuidados, se compartilhava um momento de saudade, de falta e acalento. Era uma saudade das pessoas que partiram, dos planos abandonados, dos toques, dos sorrisos, dos trombos apressados pela cidade. Era saudade da vida e das histórias que nos marcam. Ainda é.

Foi este o cenário que o podcast Budejo, captou em seu episódio 60, o “Crônicas do Confinamento”, um episódio que é um cheiro no cangote e um aconchego no coração. Produzido por Luan Alencar, Ana Carolina, Vamille Furtado e Pedro Philippe desde meados de 2019, o Budejo busca trazer o Cariri (CE) até os ouvidos dos diversos brasis que formam este país. E vem fazendo isso com maestria ao utilizar o áudio para disseminar e popularizar os sotaques brasileiros. É através da voz dos apresentadores e de seus convidados que nos conectamos as interpretações sobre os eventos que nos unem como uma nação.

Segundo o artigo “Jornalismo Narrativo Pessoal e Podcasting” (2020), da pesquisadora Mia Lindgren, as histórias em áudio, frequentemente disponíveis em nossos celulares, permitem uma maior conexão entre os responsáveis pela narrativa e quem ouve. “(…) O espaço personalizado de escuta criado por fones de ouvido acomoda ainda mais o vínculo criado entre as vozes na história e o ouvinte. A voz é a chave íntima para os corações da audiência. Ouvir podcasts com fones de ouvido enfatiza ainda mais a experiência do indivíduo de estar ouvindo uma conversa entre amigos” (p. 144–148).

Para a construção do episódio, contudo, era necessário ir além da relação intimista com o ouvinte, mantida pelas trocas verbais. Em entrevista ao portal Cochicho, Luan Alencar comentou sobre o processo de produção do primeiro episódio ficcional do podcast e as dificuldades de trabalhar com o formato de storytelling, ou seja, de construção de narrativas.

“É um programa que só conseguimos fazer se pararmos um pouquinho, já que não temos uma baita estrutura. Também é muito trabalhoso editar podcast com storytelling porque, geralmente, o Budejo é uma coisa mais automática. Mas esse não, a edição é a parte criativa da coisa e dá mais trabalho. Porque não é só editar, é preciso pensar em como editar, em como vai fazer sentido, como vai passar tais sensações.”

No total, são cinco crônicas de escritores, poetas e produtores culturais naturais do Ceará, como Jarid Arraes (Redemoinho em Dia Quente, 2019) e Kah Dantas (Orgasmo Santo, 2020) que dão corpo ao episódio. E, além de escritos tão ilustres, a narração das crônicas tem como vozes principais a de Ademara Barros (@ademaravilha) e Max Petterson (@maxpertterson), que conseguem transmitir características únicas para cada crônica com uma entonação potente, despertando os mais variados sentimentos. Na entrevista ao Cochicho, Alencar esclarece a escolha destes narradores: “(…) pensamos nos dois porque são influenciadores nordestinos e têm tudo a ver com o Budejo. Achamos legal trazer os dois que são muito associados à comédia para fazer uma coisa que não era humor”.

Por seu formato mais livre, a crônica como gênero literário transita entre o real e a ficção. De acordo com Thomé e Souza (2020), a presença de crônicas na produção de áudio não é algo restrito ao podcast, já sendo explorado nas rádios desde as radionovelas. “(…) Ancoradas no cotidiano das cidades e com um texto coloquial, as crônicas não eram apenas lidas e sim interpretadas” (p. 6). Assim, as crônicas abordadas no episódio são exemplos da “literatura de ouvido” (THOMÉ, 2015), explorando as experiências individuais dos autores para dialogar com o coletivo. Já na abertura temos o tom da proposta do episódio, que foge do padrão das produções do Budejo, que geralmente reúne convidados para uma conversa com temas bem definidos, variando entre a análise da cena política brasileira e discussões acaloradas sobre o BBB ou Sistema Único de Saúde (SUS).

“A quarentena nos privou de tantos planos, de tantos abraços, carinhos, viagens, encontros. Esse ano, bem ou mal, vai ficar na nossa memória pra sempre. Já há um bom tempo estamos vivendo em um mundo que só parecia possível em filme de tragédia. Mas o que aprendemos na prática é que mesmo cambaleando, mesmo com todos os percalços, a vida de alguma forma dá o seu jeito de continuar. E deixar de amar, de sonhar, de observar o mundo, não está nos protocolos de segurança contra o coronavírus.”

Realmente, apesar do estado de inércia que parece afligir toda a população, o tempo não parou em março de 2020. Nosso cotidiano ganhou novas nuances e como seres que produzem estórias que transpassam gerações, ainda buscamos construir narrativas. Ainda amamos, rimos e discutimos com familiares, amigos e estranhos. Mesmo com um futuro incerto, ainda vamos marcar aquela chamada de vídeo com os ‘migos’ na próxima semana. É como disse o Dr. Ian Malcolm em Jurassic Park (1993): “a vida sempre encontra um jeito”. E a ficção nos oferece o melhor caminho para isso.

Pandemia bate na porta

Os autores convidados, segundo o portal Cochicho, trouxeram elementos de suas vidas pré e pós-pandemia para as narrativas, como a crônica “OVINIs”, de Gabriel Queiroz, que se inspira na rotina com a namorada, uma vez que estão isolados juntos. Na crônica, somos introduzidos ao breve cotidiano de um casal que explora os céus da varada do apartamento quando um “objeto não identificado” chama atenção. Entre o corre-corre para tentar flagrar o acontecimento através de uma câmera, a discussão se era ou não um OVINI vai parar no Twitter. É uma crônica leve e divertida, com direito a crítica ao negacionismo e ao presidente da República.

Já na crônica de Jarid Arrares, “Como Você Não Pode Acreditar”, narrada por Ademara Barros — o crossover que ninguém sabia que precisava, mas deixa todo mundo querendo mais — apresenta elementos mais internos, que captam a personalidade da narradora e a percepção que tem de si quando retorna para o seu Ceará. Na crônica, a personagem narra sua viagem para visitar a avó para a namorada. Cheio de sentimentalismo, a crônica permite que o ouvinte acompanhe a personagem caminhando, buscando aquela conexão que só existe com o amor que deixou para trás no aeroporto de São Paulo.

“Eu cética, você energia. Alcançando meu corpo do outro lado de outro mundo. ‘Como você pode não acreditar em energia? Olha isso aqui, isso aqui’, queimando meus olhos enquanto guiava minha mão pra sua mão, prova inquestionável de que tínhamos campos magnéticos e gravitacionais”.

Com Ravenna Matos, produtora cultural no Cariri, temos o “Loucura é Ter Uma Piscina na Sala”, em que relembramos o começo do isolamento com a chegada de alguém. Na crônica, conhecemos Bia, irmã de Bruno, colega de quarto da narradora não nomeada. Ela vem morar com a dupla, e, aos poucos, os desejos e afetos vão se mostrando entre as duas mulheres. É na piscina da sala — sim, um prédio em que ao invés da piscina coletiva, temos individuais em cada apartamento —, que nossa história se solidifica. Enquanto criam uma mulher Frankenstein formada por partes do corpo de mulheres que elas admiram, a água se acalma e os ouvintes suspiram:

“Eu disse que a gente precisava secar a piscina quando acordasse, pois outras coisas foram criadas além de aranhas e monstros. Horas depois, acordo com ela entrando no meu quarto empurrando suas malas, dizendo que tinha outra brincadeira pra gente”.

Em “Papel de Parede”, de Kah Dantas, acompanhamos a escrita de uma carta. Talvez, essa seja a crônica mais imersiva. Sabemos que a autora está em um apartamento perto da praia, pois cita o barulho das ondas, que são o plano de fundo para as suas palavras de amor que retratam o cotidiano de um relacionamento pandêmico. É a carta que todos gostaríamos de receber.

“Muito mais eu poderia dizer, se esquecidos os intervalos em que eu mirava a folhagem, sobre o que eu via enquanto tu me examinavas, teus cabelos grudados à testa, tua voz chamando meu bem e amor, teu desejo inchando dentro de mim, mesmo doendo a carne, viva de tantos amores que fizemos desde a minha chegada clandestina por corredores pandêmicos, mas eu escolho não o fazer, de ciúme das palavras e do segredo imenso que elas outra vez denunciariam”.

Na crônica “Por Trás do Pano”, de Gil Luiz Mendes, podemos conhecer uma das histórias de amor interrompidas pela pandemia. Nosso narrador conta as idas e vindas de sua história com Mariana. Eles se conheceram nas festas de fim de ano de 2019, quando a pandemia ainda estava longe do solo brasileiro. Naquele encontro, a conexão foi intensa e marcada por um bom forró. O beijo não acontece. E, após uma despedida que parece colocar fim na história, o carnaval de 2020 oferece uma nova chance. Enquanto esse amor vai nascendo devagarinho, a pandemia dá uma bela rasteira. Mas nosso casal é resistência.

“Sem toque, sem pele, sem a troca de saliva e outros fluídos, passamos a fazer coisas que nunca tínhamos feito. Nas redes sociais as pessoas não tinham vergonha de mostrar que quebravam a quarentena, o jornal contava mortos empilhando nomes e sobrenomes em cima de linhas. E eu achava que nunca mais veria Mariana. Em vez de mandar mensagem ou figurinhas, Mariana me ligou. Apenas áudio, sem imagens. Era a primeira vez que fazia isso. Pelas minhas inexatas contas, haviam se passado mais ou menos 139 dias desde que nos vimos pela última vez.

— Você jura que está isolado este tempo todo?
— Tenho ido apenas ao mercado a cada duas semanas. É o único momento que saio de casa.
— Então abre o portão. Estou subindo.

Vi o sorriso de Mariana quando ela tirou a máscara.”

O som da imersão

A sonorização é o ponto chave para o envolvimento e mergulho nas crônicas. Cada história tem sua trilha sonora e o uso de sons dos elementos do ambiente, citados nos textos, jogam quem ouve nos cotidianos ali narrados. Na entrevista ao portal Cochicho, Luan ressaltou a importância de se pensar em instrumentos e estilos de música que se encaixassem com o que estava na história.

“É ler, fechar o olho, imaginar uma música, encontrar uma que combina e dar play enquanto ouve a narração. Também é legal tentar ritmar a fala junto com a música, deixar o espaço da fala do texto no ritmo da música, porque dá a sensação de que a trilha foi composta em cima da fala. O que não foi, nesse caso, mas na edição dá para transmitir essa sensação”.

Desta forma, narração, trilha e efeitos sonoros se misturam em uma sinfonia capaz de tornar cada crônica uma digital sonora em que todos que ouvem encontram pequenas familiaridades com os próprios pedaços de seus cotidianos. Em “OVINIs”, temos os efeitos sonoros de ficção cientifica, o bater e o fechar de portas e o áudio de um noticiário sobre o Caso Queiroz ao fundo. O barulho da água na piscina, o barulho de um rosário, do lápis encontrando o papel são alguns dos sons que aliados as trilhas sonoras escolhidas a dedo, jogam quem ouve neste mar de narrativas.

Os 47 minutos do episódio passam rápido devido ao envolvimento criado entre as narrativas, nos deixando com aquele gostinho de quero mais. É o tipo de construção que nos faz sorrir enquanto ouvimos no transporte público, ou chorar, a depender do impacto que tem sobre nós. Em ambos os casos, é uma companhia sem presa e sem hora, que permite uma reflexão sobre como o que entendemos por cotidiano nunca mais será o mesmo.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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