Categorias: LITERATURA

A poesia feroz em Um Buraco com Meu Nome

Como afirmou Elena Ferrante em entrevista ao jornal Estadão na metade de 2020, “escrever é como girar a faca na ferida”. Um processo doloroso, que se reflete na experiência de leitura: caso o corte tenha sido bem feito, o leitor consegue acessar por meio das palavras toda a dor que foi produzida durante a escrita. Um poema que sintetiza a declaração de Ferrante em estrofes é “Laudo”, de Jarid Arraes, que começa com o seguinte verso: “só escrevo o que rasga a carne”. Presente em Um Buraco com Meu Nome, esse é só um dos exemplos dos golpes mais certeiros de Arraes, que choca e encanta da forma mais poética possível.

“só escrevo o que rasga minha carne
o que expõe as costelas
os fatos
as rimas” (laudo, páginas 84 e 85)

Um teto todo seu

Lançado originalmente em 2018, a coletânea é a aventura de Arraes pela poesia. A autora, que também é contista e cordelista, se prova mais uma vez uma escritora das mais versáteis da literatura contemporânea nacional. A nova edição, publicada pela Alfaguara — um dos selos da Companhia das Letras — em 2021, conta com ilustrações realizadas pela própria Jarid, além de sete textos inéditos, compondo assim um projeto gráfico coerente e impressionante.

O livro é dividido em cinco partes, “selvageria”, “fera”, “corpo aberto”, “caverna” e “poemas inéditos”. Dedicado àqueles que nem sempre encontram a matilha, Jarid escreve sobre tramas e traumas, sobre o passado de vidas e de mortes, sobre o mais banal e mais impactante acontecimento do dia. De forma rítmica e imagética, seus poemas cobrem uma vastidão de temas, dos mais singelos aos mais complexos, daqueles que tocam o coração ou tocam a ferida.

“eu quero ouvir
sobre as pequenas vidas
os pequenos instantes
de vida
que ainda resistem
aí” (duas cadeiras, páginas 50 e 51)

Uma das grandes temáticas, também abordada em outros textos de Arraes, como nos contos de Redemoinho em Dia Quente, é a questão de gênero. Por mais amplo e diverso que seja o “ser mulher”, alguns atravessamentos são universais. Em “Uma mulher pergunta”, o que toma conta são as divagações a respeito da posição do homem numa sociedade patriarcal e como suas ações impactam nas mulheres, principalmente pela misoginia tão presente. A loucura, o adoecimento físico e mental e todas as consequências de viver em um mundo que teme e que mata mulheres estão presentes nos poemas, criando uma lembrança constante de que o universo nos é hostil. Além disso, outro lugar visitado pela escritora em sua poesia (e em sua obra no geral) é o da raça, questionando a não-presença nos espaços, reforçando sua identidade como mulher negra e criando novos laços de resistência por meio da escrita, como em “Pele clandestina”.

Contudo, por mais que seja feroz e crítica em grande parte da obra, os textos não perdem a perspectiva intimista, a delicadeza, o pensar em momentos tão específicos e graciosos. “Meio do céu”, um dos destaques, brinca com a preocupação humana e as tentativas (falhas ou não) de prever o futuro. No breve “Cor”, alguns dos versos mais bonitos: “tenho cor/de lágrima/quando/foge”, e em “Bacia de água”, alguns dos mais românticos: “espero o abraço/que só você tem/com os olhos/que só você faz/imensidão”.

Página 72, verso 16

Um Buraco com Meu Nome é uma antologia potente, em conteúdo e estética, que representa uma autora polivalente e corajosa. Envolto num lirismo selvagem, como o próprio livro define, os poemas trazem a voz de quem viu e viveu, de quem luta e resiste e principalmente, da mulher selvagem que quer mais. Como afirma a poesia intitulada “Prólogo”, Jarid Arraes é única no mundo.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras.


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