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Eleven, Max e porque precisamos de mais amizades femininas nas telas

Quando escrevi minha crítica sobre a primeira temporada de Deadly Class deixei bem claro que o conflito gerado pelo roteiro entre duas das personagens principais, Saya (Lana Condor) e Maria (María Gabriela de Faría), quase que exclusivamente por causa do interesse romântico em um garoto, neste caso Marcus (Benjamin Wadsworth), tirou, e muito, o brilho da série para mim. Mais ou menos na mesma época, foi lançado o trailer da terceira temporada de Stranger Things e algumas imagens da nova temporada liberadas. Nelas, Max (Sadie Sink) e Eleven (Millie Bobby Brown) apareciam se divertindo, combinando looks e passando um tempo de qualidade entre garotas. Foi um bom dia para se viver.

Por dois anos o fandom esperou por essa guinada na trama e finalmente, com o lançamento dos nove episódios da nova safra entregue pela Netflix, pudemos ver Max e Eleven se conhecendo melhor, criando laços e sendo uma das várias versões possíveis de si mesmas: garotas adolescentes normais. Após a relação das duas personagens não ter terminado de forma auspiciosa na segunda temporada, muitos previam um cenário em que Eleven e Max competissem uma contra a outra e que os roteiristas escolhessem por perpetuar, assim como em Deadly Class, o estereótipo extremamente nocivo, e enraizado, de inimizade que aflora quando há convivência entre mulheres, em especial quando se tem uma equação com pares românticos envolvidos. O rumo tomado por Matt e Ross Duffer, no entanto, foi outro.

Atenção: o texto contém spoilers da terceira temporada de Stranger Things!

Seis meses se passaram desde que o dia foi salvo, o portal para o Mundo Invertido fechado e o Devorador de Mentes, aparentemente, derrotado por El; todos retornaram para suas vidas com relativa tranquilidade, lidando com seus traumas da melhor maneira possível. Para Eleven isso significa dividir seus dias entre sair com Mike (Finn Wolfhard) e seus amigos, ficar presa na cabana de Jim Hopper (David Harbour) e assistir programas de TV com ele. Logo percebemos que, para além da parte romântica, a vida de Eleven não evoluiu muito neste meio tempo que estivemos longe de Hawkins. Ela não pode aparecer em lugares públicos, o que a limita a ficar semi-confinada entre a sua própria casa e de seus amigos, além de reduzir consideravelmente as pessoas com quem interage — algo que sempre foi muito escasso em sua vida.

Por tudo isso, o desenvolvimento emocional e social de Eleven, além do senso de identidade — que parecia ter avançado após o seu makeover no sétimo episódio da segunda temporada — não é dos melhores. Isso, aliado aos hormônios adolescentes, faz com que ela não ligue para as coisas muito além de sair com Mike. Com ciúmes e preocupado com a codependência entre o casal, Hopper obriga Mike a passar um tempo longe de Eleven, levando-o a mentir para ela e a deixando confusa e sem a mínima noção do que está acontecendo.

Assim, Eleven descobre que amigos podem não mentir, mas namorados, sim. E é neste momento que Max entra em cena. Apesar de passar por maus bocados na mão do irmão abusivo, Billy (Dacre Montgomery), e de a trama deixar pistas claras que, de forma geral, ela não vive em um ambiente familiar dos mais saudáveis, Max é gentil, de língua afiada e com a bagagem de uma garota adolescente com um bom tato social, além de possuir vontade de sobra em formar um laço mais profundo com a única outra menina do seu grupo de amigos. Exatamente tudo o que Eleven precisa neste momento.

Max oferece uma gama de conselhos para a nova amiga e expressa de forma sucinta a sua sabedoria feminina, tonando-se imediatamente o ponto de referência para Eleven neste assunto, algo que estava em falta na vida da garota que, ao crescer em total isolamento, sendo vítima de experimentos de laboratório, teve suas habilidades e noções sociais profundamente prejudicadas.

Stranger Things sendo, orgulhosamente, uma série que se utiliza de diversos clichês para construir sua trama e desenvolver seus personagens, não poderia ter um texto diferente ao nos apresentar a amizade entre Eleven e Max. Durante o segundo episódio deste terceiro ano, intitulado “The Mall Rats”, Max faz o que toda amiga sensata faria com alguém enfrentando problemas amorosos e que precisa se distrair: a leva para passar um tempo de qualidade entre garotas na nova atração da cidade, o shopping Starcourt. Lá, elas fazem compras, experimentam roupas, tomam sorvete, dão muita risada enquanto se divertem e até usam os poderes de Eleven para pregar uma peça em algumas garotas mais velhas, tudo isso ao som de “Material Girl”, o que por si só já torna o momento em um dos mais icônicos da temporada. Afinal, a vida é muito mais do que apenas meninos estúpidos.

Este novo laço na vida de Eleven também é uma forma de colocar seu crescimento em movimento, pois além de ajudar a equilibrar toda a carga emocional negativa que ela carrega dos anos anteriores de sua vida, traz experiências normais e corriqueiras para o seu cotidiano, como fazer compras com sua melhor amiga e se autodescobrir, um passo de cada vez. Em um desses momentos, um diálogo simples, mas elucidador, se desenrola entre as duas.

“Eleven: Como sei que é algo que eu gosto?
Max: Você experimenta, até achar algo que pareça com você.
Eleven: Como eu?
Max: Isso, não como Hopper ou Mike. Você.”

Em outro momento, quando estão se preparando para uma festa do pijama — evento essencial para fortificar uma amizade —, as duas leem histórias em quadrinhos da Mulher-Maravilha, o que leva El a questionar quem é a super-heroína; a resposta de Max resume bem o nosso sentimento pela nova relação entre as duas: “é por isso que você não pode passar todo o tempo com Mike”.

Desta forma, Max atua como peça fundamental na socialização de Eleven e ambas se tornam modelos uma para a outra, cada uma a sua própria maneira.  A prova de quão benéfica é a amizade das duas está no fato de que ao encontrar um ponto de afeição fraternal e compreensão, Eleven (e Max também) ganha mais camadas; ela não é mais apenas a arma ou a namorada ou, ainda, uma das pessoas que Hopper precisa proteger, mas vai além disso, sendo a amiga e ganhando mais um laço incondicional em sua vida. Com a adição definitiva e mais próxima de Max em sua vida, El nunca foi tão ela mesma quanto agora.

Mais do que ajudar Eleven a se encontrar como pessoa, a amizade entre as duas também nos presenteia com uma boa mudança de ares e perspectiva em relação as temporadas passadas da produção. Parece que finalmente os Duffer decidiram ouvir o seu público e inseriram mais do que uma cota feminina em cada núcleo da série, e eu não poderia estar mais feliz que foi disto que nasceu a primeira amizade feminina da série após a dupla Nancy (Natalia Dyer) e Barb (Shannon Purser) parar de existir. Quem também ficou satisfeita com esses rumos foram Sadie Sink e Millie Bobby Brown, intérpretes das personagens, como demonstraram em entrevista para a revista Glamour.

“We’ve only ever really seen boy power on the show. It’s so important to have those boys and their friendship, but this season we needed to see the girls on screen too. It was so important for Stranger Things to embody that girl power — and what other way than to have Max and Eleven, two powerful forces, come together?”

“Nós apenas vimos boy power na série. É tão importante ter esses garotos e sua amizade, mas nesta temporada nós precisávamos ver as garotas na tela também. Foi tão importante para Stranger Things abraçar esse girl power — e que outro jeito de fazer isso do que ter Max e Eleven, duas forças poderosas, ficarem juntas?”

Podemos não viver em Hawkins, ou em um mundo com Devoradores de Mentes e russos com bases secretas embaixo de shoppings (ou quem sabe sim!? Fica aí a teoria da conspiração), mas, seja na ficção ou realidade, ter alguém com quem contar e nos dar suporte é um evento transformador e poderoso em nossa vida, sobretudo quando se é uma mulher em uma sociedade governada por um sistema que, dentre outras coisas, insiste em nos colocar umas contra as outras.

Sororidade como palavra de ordem

O grande mito da inimizade e falsidade feminina não é uma novidade e, provavelmente, é tão antigo quando o sistema patriarcal, uma vez que opera como um dos pilares que alicerça a sua manutenção. Temos este sentimento de desunião e competição incutido em nós desde muito cedo, algo que se intensifica na adolescência e adentra a vida adulta. Somos ensinadas a sempre buscar aprovação, melhor ainda se vier da parte masculina, e de ser melhor, mais bonita, mais popular, mais talentosa, mais tudo do que nossas semelhantes. Por isso, também é significativo que dentro da série a junção das duas personagens ocorra logo neste momento em que saem da infância e que se mostre uma relação de cumplicidade em detrimento de rivalidade.

Contar com uma rede de apoio feminina, aonde se encontra suporte e uma compreensão que pode ser alcançada quando se compartilha tal vínculo, é essencial para que sejamos mais felizes, saudáveis e nos sintamos mais acolhidas e autoconfiantes. Afirmar isto não é apenas fruto de algo empírico, mas vem também de uma base científica, como comprova uma pesquisa publicada pelo Women’s Health Bulletin no final de 2015. Conforme o estudo, mulheres tendem a manter mais relações de amizade com o próprio gênero do que os homens, além de procurar suporte em suas iguais em tempos de estresse e tristeza. Outros estudos também descobriram que a amizade entre o gênero feminino traz benefícios para a saúde física da mulher: a taxa de sobrevivência de mulheres com câncer de mama pode, em alguns casos, estar ligada ao fato de as pacientes possuírem círculos de amizade repletos de amor e confiança.

(…) adult women (…) turn to female friends more often, and report more benefits from contact with female friends and relatives than males.

“(…) mulheres adultas (…) recorrem à amigas com mais frequência, e relatam mais benefícios com o contato com amigas e parentes do que homens.”

Com isso, não é preciso dizer muito mais além do quão importante se torna a disseminação e o cultivo da ideia de sororidade, artifício poderoso para quebrar o círculo vicioso que provém da sociedade patriarcal. Ainda um termo estranho para alguns, sororidade é o equivalente feminino para o que as amizades masculinas conhecem como fraternidade. Regida pela empatia e companheirismo, a palavra traz para o feminismo o conceito de coletividade e nos une em uma irmandade, fortalecendo o movimento e sua disseminação. Não há feminismo efetivo se não há união o suficiente para nos fazermos ouvir com nossas reivindicações. E não há união se não formos capazes de superar e desconstruir um discurso de inimizade incutido em nossas cabeças por anos a fio. É um processo longo, difícil e cheio de pedras no caminho, mas um bom primeiro passo a se dar é observar mais atentamente o que a mídia nos vende como ideal feminino, seja em seu conteúdo ou publicidade, quando se trata de relacionamentos fraternais entre mulheres.

A cultura nociva da rivalidade feminina, sobretudo quando há um homem romanticamente envolvido, é transportada para as telas sem nenhum pudor ou intenção de subversão e quebra de expectativas. Milhões de produções que se apoiam em tal tropo podem ser lembradas em um piscar de olhos. O mesmo não se pode dizer de histórias que dobram essa trama e entregam uma ligação repleta de entendimento e confidência.

Bons exemplos são tão raros e escassos que há uma necessidade latente de supervalorizá-los — mas não de forma leviana — e de exigir que representações positivas cresçam cada dia mais. Em Brooklyn Nine-Nine, os roteiristas fazem um bom trabalho ao escrever a amizade entre Amy Santiago (Melissa Fumero) e Rosa Diaz (Stephanie Beatriz). Um dos momentos de destaque ocorre no episódio “Sal’s Pizza” quando Amy está chateada com Rosa e começa a competir com ela; é então que Rosa a relembra que o suporte mútuo é indispensável nesta relação, uma vez que as duas são as principais detetives em uma delegacia de polícia lotada de homens.

O Mundo Sombrio de Sabrina também escolheu o caminho certo ao retratar a amizade entre a personagem homônima e sua melhor amiga, Rosalind (Jaz Sinclair). Mesmo com um interesse romântico incluído na jogada, a relação das duas não dá uma guinada para o lado da competição e inveja. Tudo é debatido de forma madura, saudável e racional. Por último, o elo entre irmãs também carrega um grande peso de representação negativa quando se trata de possuir uma irmandade entre duas personagens. Um programa de TV que quebra esse arquétipo é Supergirl, ao nos apresentar as irmãs Danvers, Kara (Melissa Benoist) e Alex (Chyler Leigh), como duas pessoas extremamente unidas, cúmplices e ligadas por um carinho que quebra a barreira das discordâncias ou brigas. Menção honrosa para o modo como Agents of S.H.I.E.L.D apresenta um grupo de mulheres multidimensionais trabalhando juntas sem colocá-las umas contra as outras por motivos mesquinhos e rasos; quando há conflito é algo bem fundamentando e com propósito.

Em outras palavras, enxergar que a compra de um discurso feito e vendido por homens é cilada é primordial para nos tornarmos cada vez mais unidas e poderosas — individualmente e coletivamente. Ver Max e Eleven se divertindo com “futilidades” e compartilhando momentos simples pode parecer o cúmulo da normalidade, mas a amizade das duas, bem como todas as outras da ficção ou da vida real, além de dar um quentinho no coração, transmite uma mensagem contundente: juntas somos mais fortes.

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