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30: a atemporalidade dos sentimentos na perspectiva de Adele

Após seis longos anos de espera, carregados de expectativa por parte da indústria musical e dos fãs, Adele retornou com um novo trabalho. O álbum 30, lançado em novembro de 2021, como previsto, chegou arrebatando os primeiros lugares das paradas musicais em todo o mundo, alcançando números em streaming e visualizações como poucos artistas conseguem fazer, tomando para si todas as atenções.

Desde a estreia de “Easy on Me”, a canção escolhida para dar início aos trabalhos da nova era em outubro de 2021, cada próximo passo da cantora foi aguardado com expectativa, desde entrevistas para falar sobre as inspirações por trás do álbum até meras fotos para revistas e apresentações ao vivo das novas canções. O movimento provocado pelo nome Adele e pela imagem de Adele é um fenômeno que pode ser explicado por algumas suposições, sendo a mais óbvia a identificação com as letras profundas e bem construídas, explorando os temas mais universais do mundo, relações amorosas intensas, corações partidos e a autocompreensão nestes relacionamentos.

Ainda, há o fato de as canções por si mesmas nascerem numa atemporalidade pouco comum para os tempos atuais: recentemente, 21 — álbum que levou Adele para o patamar internacional com a estrondosa “Rolling in the Deep”, as melancólicas “Someone Like You” e “Don’t You Remember”, além “Set Fire to the Rain” com seu inigualável solo inicial de piano — completou dez anos sem sair da Billboard 200, a principal parada de álbuns dos Estados Unidos, tendo vendido cerca de 12 milhões de cópias apenas no país. Recentemente também se tornou o álbum feminino mais vendido da história do Reino Unido com cinco milhões de unidades vendidas em terras britânicas, seguido de longe pelo segundo lugar — Back to Black de Amy Winehouse — e a cantora volta a aparecer na lista duas vezes:  com 25 em 5° lugar e 19 em 14° lugar.

Em que pese não se sobrepor em quantidade ao catálogo da maioria dos artistas que a cercam, a estabilidade musical evocada pelo trabalho de Adele demonstra a atualidade sem data de seu trabalho, seja pela sonoridade, pelos temas abordados, pela tangibilidade de suas letras ou pela verdade de quem ela demonstra ser. Ao longo dos anos, inclusive para rebater comentários sobre sua aparência, a britânica sempre frisou que tudo o que fazia começava e terminava em apenas um lugar: a música.

Contudo, ao mesmo tempo e quase que sem querer, Adele conquistou o fascínio do público com o carisma magnético que apenas as estrelas deste patamar têm. Por trás da mulher vestida elegantemente com rosto de boneca, visuais inspirados nas grandes estrelas da Velha Hollywood e uma voz potente cantando de pé no centro dos palcos, Adele se mostra autêntica: ri de si mesma, ri dos outros, fala palavrões, fala demais sobre tudo — possivelmente, bebe vinho demais — e se emociona num pequeno pedaço gravado da mulher que ela realmente é na “vida real”, como a própria se refere à sua realidade fora dos palcos.

É nessa pouca tangibilidade, onde se deixa ser palatável por apenas instantes que surge a identificação e o interesse latente e duradouro por essa figura tão irreverente, que se torna real, independente da aparência perfeita. Isso tudo porque o acesso que se tem a Adele é muito diferente de outras estrelas devido à forma com que preza pela própria privacidade e dos seus, pois já confessou que o nível de fama alcançado, especialmente com o single viral “Hello” de 2015, que conta com quase três bilhões de visualizações apenas no YouTube, é assustador. O interesse por sua vida em todos os aspectos, para além da música, não é algo que a artista vê com bons olhos, como contou ao The Q Interview:

“Eu sinto que agora estou mais acostumada a ir de 0 a 1000 em… Sabe, poucos meses. Eu não sei… Já falei sobre isso, não gosto de ser famosa, sabe? Vem do nada depois de tanto tempo e sei que me torna mais do que uma grande coisa. Você poderia pensar que eu vou lançar um álbum a cada ano, mas eu também não quero fazer isso, [por quê] é difícil me acostumar a… Você sabe, ter todo mundo falando sobre mim. […] É estranho, não é normal […] e eu vivo uma vida muito normal.”

Além disso, é muito visível como a cantora tem receio do que a fama, potencializada pela mídia tradicional e a internet, pode fazer a uma pessoa. Tendo alçado ao sucesso concomitantemente à morte de Amy Winehouse, com quem foi comparada à época pela força da voz e gênero musical, Adele ficou muito marcada pela forma como uma mulher jovem, que claramente precisava de ajuda, teve sua trajetória final explorada na frente das câmeras e, agora, coloca em perspectiva a própria relação com o álcool e a forma como teria sido fácil, em algum momento de sua carreira, ter se perdido na fama, no dinheiro e provavelmente nas drogas, não fossem o filho, Angelo, e o marido, Simon Konecki, de quem se divorciou em 2019. À Oprah, ela contou que eles chegaram no momento certo para lhe dar a estabilidade que precisava.

Assim, 30 representa um momento de maior maturidade de Adele, tanto musical quanto pessoal. Mais do que “O Álbum do Divórcio”, a artista considera o trabalho como o “Divórcio de Si Mesma”, onde explora nuances pessoais nunca tão profundamente encaradas antes, o que, segundo a própria, foi “mortificante” e “assustador”, mas tão necessário quanto o caminho que escolheu tomar com a decisão do fim do seu casamento.

Ao especial de TV da emissora americana BBC, o Adele One Night Only (disponível no Globoplay), a cantora explica que o momento em que precisava seguir em frente ficou mais claro quando, numa noite entre amigos, contou que não estava genuinamente feliz, mas vivendo no automático e que, compor as canções do que — ainda — não era um projeto oficial, a ajudou a dar perspectiva a tudo o que estava vivendo, desde como se sentia sobre o divórcio e sua jornada de autoconhecimento até a relação com o filho.

Liricamente, o álbum adentra as profundezas da vulnerabilidade da Adele mulher e mãe, muito menos da estrela repleta de conquistas e recordes profissionais. Agora, os temas da cantora se transformam um pouco e até mesmo o aguardado projeto pós-divórcio chega num tom completamente diferente das expectativas. Isso porque, ela tem consciência de que esperavam que fosse a “mulher divorciada louca”, atacando o parceiro por tudo o que deu errado na relação, mas ela garante que as coisas não aconteceram desse jeito e, assim, “Easy On Me” era o ideal para preparar o público para o que estaria por vir. Ao The Q Interview, a cantora falou abertamente sobre o que a canção representa para si:

“Não é uma música sobre alguém machucando o outro, é uma música do tipo ‘nós nos amamos muito, mas não está funcionando’, então o tom é… Gentil, acredito. Eu senti que esse era um bom tom para um retornar [à música].  […] Porquê foi assim que aconteceu na minha vida, sabe? Não foi… Não foi confrontante, não foi… Ácido, não foi do tipo ‘foda-se você’ e todas essas coisas. Não pode ser assim, tem uma criança envolvida e várias outras coisas […] Acho que a maioria das pessoas pensou que eu seria uma “mulher divorciada louca”. Então, pensei que Easy On Me fosse boa no sentido de ‘eu não sou assim, então, ouça o meu lado’.”

Na letra, a cantora deixa claro que poderia continuar a vida do jeito que estava, se assim quisesse, mas ao mesmo tempo, pede calma para a mulher que desejava mais do que a realidade estável, mas sem propósito, que aquele momento oferecia, explorando a dubiedade de sentimentos conflitantes pela qual se via passando até desistir de segurar o casamento: “Não há nenhum ouro nesse rio/ Onde estive lavando minhas mãos no ‘para sempre’/ Sei que existe esperança nessas águas/ Mas não consigo me colocar para nadar/ Enquanto estou me afogando nesse silêncio”.

Adele conta que o álbum é quase uma ordem cronológica do processo pelo qual teve de passar para se compreender e curar por meio da música e que, também, foi durante esse momento, que percebeu como apontava os dedos para os outros pelo fracasso de suas relações quando o problema poderia muito bem ser ela mesma e suas questões internas mal resolvidas.

Assim, enquanto em “Rolling in the Deep”, no longínquo 2011, cantava “Nós poderíamos ter tudo/ Perdidos nas profundezas/  Você tinha o meu coração nas suas mãos/ Mas brincou ao som da batida” em 2021, Adele confere à sua mitologia musical um tom mais autopiedoso, tomando para si parte da culpa, como canta em “Strangers by Nature”: “Eu vou levar flores para o cemitério do meu coração/ Por todos os meus amores, no presente e na escuridão/ A cada aniversário, vou prestar homenagens e dizer ‘sinto muito’/ Por eles nunca terem tido uma chance, como se isso fosse possível”.

Para a Vogue Magazine, em novembro de 2021, a britânica que vive na ensolarada Los Angeles, falou sobre o fato de seus relacionamentos anteriores não serem nada saudáveis, o que, querendo ou não, acabou respingando em sua arte de uma forma ou outra: “Meus relacionamentos com homens, no geral, por toda minha vida, sempre foram do tipo: você vai me machucar, então vou te machucar primeiro. Era apenas tóxico e me impedia de alcançar qualquer felicidade.”

Além disso, durante a divulgação do álbum, Adele explorou bastante um lado que, até então, nunca havia abordado tão direta e publicamente: a ausência do pai, com o qual não teve uma boa relação até que ele ficou doente e faleceu em 2021; e como essa falta de presença masculina e atenção influenciaram a mulher que se tornou e com a qual está, até dias atuais, aprendendo a lidar. À Oprah, a cantora disse que a situação como um todo criou nela expectativas sobre como sua vida deveria ser e a prendeu aos padrões que deveria seguir para não ser como ele — e não causar na vida do filho o estrago que o pai causou na dela:

“Por toda a minha vida, fui obcecada por ter uma família padrão, porque não tive uma. Vemos isso nos filmes e na TV, crescemos aprendendo que precisa ser assim. Desde muito nova, prometi a mim mesma que ficaríamos junto dos filhos, que seríamos essa família unida. E eu tentei durante muito tempo. Então, [por causa do divórcio] eu fiquei muito desapontada por meu filho e comigo mesma, porque eu pensava… Sabe, que conseguiria interromper esse maldito padrão.” 

É devido à esse medo latente de falhar como mãe e a culpa, ainda não superada, de ter escolhido o divórcio e a própria felicidade invés de lutar para manter a estrutura familiar perfeita do filho, que Adele decidiu escrever o álbum: para registrar esse momento de extrema vulnerabilidade, anseios, dúvidas, egoísmos e libertações, daí surgindo a canção mais pesada do álbum. “My Little Love” conta com mensagens de voz do filho da cantora, em dúvida de seu amor por ele devido ao momento de incerteza causado pelo divórcio, uma tentativa de diálogo com Angelo e uma gravação de voz da própria Adele, aos prantos, contando para alguém como estava se sentindo sozinha pela primeira vez, apesar de sempre ter gostado da própria companhia.

A canção expressa toda a incerteza que a uma mãe não é permitido ter. Especialmente quando Adele diz que “sente que não sabe o que está fazendo”, é possível notar a surpresa do filho, pois, quando se é criança, assume-se que pais e mães são esse tipo de fortaleza que detém todas as respostas. Porém, apenas na terceira música do projeto, Adele adentra em uma de suas nuances mais profundas para desmistificar essa crença e demonstrar toda a ansiedade causada pela sensação de estar perdida nos próprios deveres, expectativas alheias e desejos.

A cantora contou que, com o ex-marido, decidiu passar por isso da forma mais suave que um divórcio pode ser para que não fosse um choque para o filho. Por isso, o pai de Angelo mora numa casa próxima e eles estão frequentemente em noites de filmes juntos, embora, ainda assim, seja uma situação estranha. À Vogue, ela contou sobre a reação do filho ao divórcio:

“Ele tem muitas perguntas simples que eu não consigo responder, porque não sei a resposta. Como, ‘porque nós ainda não podemos morar juntos’? Isso não é o que as pessoas fazem quando se divorciam! ‘Mas porquê?’ E eu fico ‘Eu não sei, é assim que a sociedade faz!” E ‘porquê você não ama mais o meu pai?’ e eu estou: ‘Eu amo o seu pai, apenas não estou mais apaixonada’. Eu não consigo fazer isso ter sentido para uma criança de 9 anos’. 

Ainda assim, por mais que seja um álbum onde ela utiliza a música para garantir que o filho a compreenda no futuro, melhor do que poderia fazer numa conversa direta, Adele garante que o trabalho não é sobre suas relações, mas sobre si mesma, a forma como teve de “rastejar pela merda para chegar ao outro lado” (em suas próprias palavras) e como se enxerga, atualmente, nos 30 e poucos anos, uma vez que a música sempre será uma forma mais fácil de acessar e expressar seus verdadeiros sentimentos.

Foi no “Ano da Terapia” — 2019 —, quando o divórcio foi finalizado, que a cantora começou a explorar o autoconhecimento e as falhas na relação consigo mesma que, segundo a própria, nunca foi das melhores. Essa característica respinga na evolução de seu eu-lírico, uma vez que em “Set Fire To the Rain”, canção de 21, Adele coloca toda a sua fragilidade nas mãos de outra pessoa, esperando ser consertada (“Eu deixei cair, meu coração/ E enquanto caía, você se ergueu para reivindicá-lo/ Estava escuro e eu estava acabada/ Até que você beijou meus lábios e me salvou”), enquanto que, na nova “To Be Loved”, quase dez anos depois, toma a própria responsabilidade de amar e ser amada, consciente das consequências da decisão — a forma como teria que se abrir de maneira diferente do que estava acostumada para alcançar esse objetivo, reconhecendo a antiga inaptidão amorosa ao jogar sobre outra pessoa a própria felicidade: “Já é hora de eu me enfrentar/ Tudo o que faço é sangrar em outra pessoa/ Pintando paredes com todas as minhas lágrimas secretas/ Enchendo quartos com todas as minhas esperanças e medos”.

É neste se enfrentar que Adele se coloca no ciclo de “Love Is A Game (For Fools to Play)” — “amar é um jogo para os tolos jogarem” —, mais um degrau de reflexão sobre como amá-la não é fácil, como explicita na introspectivamente furiosa “Woman Like Me” —, pois não se considera tola o suficiente para jogar este jogo, apesar de constantemente se jogar nas relações à procura desse algo abstrato que está em busca, como canta nas mais faixas “Oh My God” e “Can I Get It”; e como termina de constatar ao fim da última canção do álbum: “Oh, você sabe que eu farei tudo de novo/ Eu amo agora, como eu amava antes/ Sou uma tola por eles/ Você sabe que eu, você sabe que eu vou fazer/ Eu vou fazer tudo de novo, como eu fiz antes”.

Conhecendo a si mesma melhor nas entrelinhas de sua própria discografia, Adele termina o álbum em uma sensação de continuidade do ciclo, ensaiando uma orquestra de fim de filme — uma sonoridade inspirada no clássico Bonequinha de Luxo (1962), que passava em mudo na TV do estúdio enquanto gravava — com um ápice fatalista da visão sobre si mesma, especialmente porque, durante todo o disco fica claro como ela, a protagonista de seu próprio filme, não foge das relações, de buscar viver o jogo mesmo em meio aos seus egoísmos e culpas.

Porém, o ângulo dessa visão é diferente de seus trabalhos anteriores. A essa altura, Adele tem consciência da necessidade de uma boa relação com seus demônios interiores para manter boas relações com todos ao redor, incluindo família, parceiros românticos, colegas e o próprio filho, pois está cansada de ser sua própria inimiga, como canta em “Hold On” — faixa que conta com um coro de vozes especialmente cantado pelos amigos, que a acompanharam nessa jornada de altos e baixos representada pela tatuagem em formato de montanha no interior de seu pulso.

“Eu disse a minha amiga: sinto como se estivesse numa montanha íngreme tentando chegar no topo. E ela estava tipo: você vai chegar lá, vai ter um passeio legal e tranquilo e, então, vai haver outra montanha. E eu fiquei: mas eu sequer passei por essa ainda! E minha amiga veio com: isso é apenas a vida.”

A ideia cíclica é constantemente explorada por Adele em todo o projeto, inundado pela percepção de como não haverá na vida esse momento de completa certeza sobre seus passos, como expressa em “I Drink Wine”, faixa que melhor condensa a essência de 30: “É melhor acreditar que estou tentando/ Continuar escalando/ Mas quanto mais alto subimos/ Mais parece que não nos tornamos nenhum pouco sábios”. 

Na nova obra de Adele, o ponto final é uma armadilha contada às pessoas para mantê-las na linha, especialmente mulheres casadas que supostamente alcançaram a conquista de suas vidas, fazendo-as descartar a autodescoberta, deixar de encarar o novo temor, o novo desejo e a nova busca, os quais podem surgir seja qual for a idade. “I Drink Wine” expõe essas amarras em versos como “Porque estou obcecada/ Com coisas que não posso controlar/ Porque estou buscando aprovação/ De pessoas que eu nem conheço?” e a forma de tornar o caminho mais simples — para além de beber vinho — se compreendendo e não deixando que as expectativas de outros se sobreponham à sua autonomia: “Então, espero aprender a me levar menos a sério/ Parar de tentar ser outra pessoa”.

Nessas entrelinhas, é possível enxergar o tom esperançoso que a própria Adele descreve sobre o álbum, bem como o motivo da estabilidade de seu trabalho. Para além da sonoridade catártica fincada no soul e no jazz com versos em estruturas de música pop, a compositora Adele explora uma pluralidade de sentimentos — especialmente femininos quanto ao 30 —  que conversam com as mais diversas facetas humanas. No adentrar as profundezas de si mesma, Adele desvenda também aqueles que a escutam. Hoje ou daqui a outros dez anos, seus desejos, fraquezas, dubiedades e culpas estarão lá para fazer alguém não se sentir sozinho quando estiver passando pelo mesmo turbilhão de sentimentos, residindo aí sua atemporalidade.

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