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Happiest Season: traumas familiares na “melhor época do ano”

Happiest Season, o principal grande lançamento natalino de 2020, se tornou um marco dentro de um gênero cinematográfico dominado por enredos de personagens heterossexuais antes mesmo de sua estreia. A trajetória do filme até seu lançamento não foi tranquila, levando dois anos desde o anúncio de que Kristen Stewart seria a protagonista da trama até o adiamento de seu lançamento nos cinemas por causa da pandemia da Covid-19 para uma estreia direta no serviço de streaming Hulu, no exterior, somente nesse ano.

Happiest Season pode ser visto como uma continuação do retorno de Kristen Stewart para gêneros mais leves e populares de longas, em contraste aos filmes dramáticos e complexos que ela está mais acostumada a fazer parte. Kristen já contou em algumas entrevistas que prefere esses filmes pela complexidade em suas produções, que são intensas, porém, desde As Panteras, de Elizabeth Banks, vemos uma abertura em sua gama de papéis para personagens mais descontraídos e com uma pegada mais cômica. Desde o fim da franquia Crepúsculo, Kristen Stewart vem construindo uma carreira sólida na indústria cinematográfica e é fácil vê-la atuando em produções estrangeiras e aclamadas em festivais de todo o mundo. É ótimo que a atriz esteja se abrindo novamente para filmes mais populares e em gêneros diferentes, é um ganho para todo mundo.

Atenção: este texto contém spoilers!

Em Happiest Season acompanhamos a história de Abby (Kristen Stewart) e sua namorada Harper (Mackenzie Davis) que, de maneira espontânea, convida Abby para passar o Natal com sua família. Durante uma caminhada turística natalina, enquanto Harper tenta convencer Abby a gostar do Natal tanto quanto ela, Harper inventa de subir no telhado de uma casa para observar o bairro iluminado de luzes e decorações natalinas. No meio da adrenalina de fugir de uma moradora brava com a invasão, Harper convida Abby a passar o Natal na casa de seus pais, uma vez que a namorada ficaria sozinha no dia mais mágico do ano cuidando dos animais de outras pessoas.

Happiest Season

O que Harper esquece de mencionar, no entanto, é que sua família não apenas não sabe que ela e Abby são namoradas como também não sabem que Harper é gay. Para o feriado, Abby precisa fingir que ela e Harper são apenas colegas — hétero — de quarto até que a namorada tenha coragem de contar a verdade para seus pais, e é na estrada, a caminho das férias, que Harper conta tudo isso a Abby. Muitas pessoas LGBTQIA+ escolhem o final do ano como o momento em que vão sair do armário para suas famílias e entes queridos, aproveitando que todos estão juntos, porém essa também é uma época de muita pressão e possíveis experiências traumáticas mesmo que a data seja famosa pelos sentimentos de aconchego, conforto e amor para a maioria das pessoas.  Harper, então, promete a Abby que contará toda a verdade aos seus pais logo após as festividades.

A primeira impressão que temos da família de Harper, os Caldwell, é que eles vivem de aparências. Tipper (Mary Steenburgen), matriarca da família, se encarrega de manter todos na linha e compartilhar os momentos perfeitos deles em seu perfil na internet para que seu marido, Ted (Victor Garber), consiga conquistar votos para as próximas eleições. A presença de Abby parece ser um incômodo para Tipper, que mantém uma atitude passiva-agressiva ao longo do filme, enquanto que Ted se mantém neutro, mas isso é uma atitude que ele mantém em relação a todos. Focados em seu mundo e em manter as aparências para conquistar uma financiadora para sua campanha, Ted e Tipper estão alheios ao que acontece em sua casa e com suas filhas.

É quando Tipper mostra o antigo quarto de Harper (decorado com pôsteres de ídolos homens e retratos com o ex-namorado) para Abby, é que ela começa a conhecer mais sobre o passado dela e o universo em que a namorada foi criada. Harper cresceu entendendo que ela precisava ser perfeita para ser amada pelos seus pais e, assim como suas irmãs, aprendeu que é competindo que alguém prova o quanto merece ser amada. Foi se escondendo de quem ela era e se magoando, e magoando pessoas que ela amava, que Harper se fez encaixar nas expectativas de seus pais quando jovem. O que não mudou quando ela se tornou adulta.

“Toda a minha vida foi esperado que fossemos essas crianças perfeitas feitas de ouro. O amor em nossa casa não era algo que simplesmente recebíamos de graça, é algo pelo qual competimos e se desviarmos de seu curso, nós o perdemos.”

Enquanto Harper se esconde de seus pais, ela também obriga Abby a se esconder ao pedir para ela não comentar o fato de que é lésbica. Da mesma maneira que Harper busca a aprovação de seus pais como forma de manter seu carinho e amor, começamos a perceber que Abby faz o mesmo para se provar digna do amor de Harper ao tentar ao máximo engajar em conversas com Ted.

A diferença da trajetória de Abby e Harper neste ponto é que Abby encontra o apoio necessário para navegar por seus problemas, enquanto Harper está lidando com a própria família, traumas e dilemas que estão enterrados dentro dela desde a adolescência, sentimentos com os quais ela não lidou desde que saiu da casa dos pais. A dinâmica do filme em mostrar Abby e Harper é super importante quando falamos sobre os traumas que passamos e como lidamos com essas situações, desde como estamos presentes para quem está passando por um momento difícil, que no caso é se assumir para a família, lidar com os traumas e o medo de não ser aceito, até entender qual é o nosso papel e o nosso limite quando estamos ao lado de alguém passando por essa situação.

Harper não é uma pessoa perfeita, mas quem é? O que Harper vive não é estranho para pessoas LGBTQIA+ que saem de casa para se encontrar e se descobrir longe de suas famílias, em busca de um novo começo. Quando retornamos para esses ambientes é fácil ser sugado de volta para aquele lugar do qual realmente nunca saímos, apenas trancamos dentro de nós e fazemos de conta que não está lá. É como se criássemos mais de uma pessoa dentro de nós, aprendendo a trocar de lugar dependendo do ambiente em que estamos. Isso não faz de Harper uma pessoa ruim, ela é o produto do ambiente em que foi criada, do medo e do receio de não ser amada por aqueles que deveriam amá-la, não importa o quê. E isso a faz humana.

Happiest Season

Enquanto Harper está tentando lidar com seus demônios particulares, Abby encontra o apoio que precisa em Riley (Aubrey Plaza). Riley já passou pelo o que Abby está passando, ela já foi a pessoa que se esconde para que Harper mantenha as aparências para sua família, e já foi magoada, por querer e sem querer, por Harper. Todos nós precisamos de apoio, de alguém que entenda nossas dores e medos — e em algumas ocasiões, Abby é esse alguém para Harper e, em outras, Riley atua dessa maneira para Abby, principalmente quando as situações com os Caldwell ficam muito difíceis de suportar.

A melhor parte do enredo de Happiest Season, que é um grande avanço em histórias em geral, é como a amizade de Riley e Abby não se transforma na clássica traição que vira o motivo principal do clímax quando, na verdade, existem problemas mais graves e sérios para explicar o motivo do distanciamento das personagens. Riley não está presente para separar Harper e Abby, porque não temos dúvidas do amor que uma sente pela outra em nenhum momento do filme; Riley está lá porque nós precisamos de pessoas que nos entendam e compreendam o que estamos passamos e é quase como um sinal de que não importa para onde vamos, sempre teremos alguém em quem confiar e apoiar.

“Eles são meus pais e estou com medo de que se eu contar a eles quem eu realmente sou, vou perdê-los. E eu sei que se eu não contar a eles, eu vou perder você. Eu não quero perder você.”

É interessante ver que, no início do filme, Harper é a pessoa confiante da relação, que se arrisca subindo em telhados alheios, mas se transforma em alguém insegura e que se isola daqueles que realmente a conhecem quando retorna para a família. Enquanto isso, Abby, que sempre confiou na namorada e a deixava liderar o caminho, precisa entender qual é o seu limite e defender o que ela sabe que merece. Sabendo que ela não consegue ver a pessoa que ela mais ama se machucando e se escondendo enquanto se transforma em outra, Abby decide se manter fiel a ela mesma por mais que isso a faça sofrer.

Happiest Season

Quando a verdade a respeito da sexualidade de Harper aparece, durante a festa de véspera de Natal, todos os medos a dominam: o medo de perder o amor de seus pais, de suas irmãs, de seus amigos, e também o medo de perder Abby. Harper não está pronta para viver esse momento, o momento em que nós sempre adiamos e adiamos e adiamos, e é esse medo que a faz repetir o mesmo erro de antes: ela joga os seus problemas em outra pessoa. Ver a pessoa que nós amamos se esconder, e nos esconder, não é algo fácil de lidar, porém vê-la se negando e negando o que sente por você é muito pior — e Abby não aguenta viver isso.

Abby tem a impressão de que Harper não a ama o suficiente a ponto de sair do armário para seus pais, mas na verdade isso mostra que a situação tem dois pesos e duas medidas. Alguém não estar pronto para sair do armário, seja pelo motivo que for, não significa que ela não ama assim como não quer dizer que ela não é digna do amor que outras pessoas têm por ela.

“A história de cada um é diferente. Essa é a sua versão e tem a minha versão e tudo mais. Mas a única coisa que todas essas histórias têm em comum é aquele momento antes de você dizer essas palavras, quando seu coração está acelerado e você não sabe o que vem a seguir. Esse momento é realmente assustador. E então, depois que você diz essas palavras, você não pode desdizê-las. Um capítulo terminou e um novo começou, e você tem que estar pronto para isso. Você não pode fazer isso por mais ninguém.”

O filme não tenta abordar apenas a saída de armário, mas também sobre como as aparências e a falta de diálogo podem afetar uma família. Harper não foi a única afetada pelo ambiente hostil criado na família de forma descontrolada e suas irmãs, Sloane (Alison Brie) e Jane (Mary Holland), também precisam lidar com seus traumas. Ted, assim como suas filhas, também sempre acreditou que para receber o amor delas e da esposa, precisava ser bem-sucedido, fazendo a história se repetir de geração em geração.

Filmes natalinos podem ser considerados uma indústria independente do resto das produções cinematográficas. Eles foram popularizados pelos canais Hallmark e Lifetime e possuem um padrão bem específico: são produções que não precisam de um orçamento grande, as filmagens duram no máximo duas semanas e o roteiro é previsível e básico. O gênero não tem o propósito de ser uma produção elaborada com atuação digna de Oscar ou efeitos especiais que competem com as produções da Disney; filmes natalinos nos entregam o que mais precisamos nessa época: algo descomplicado, fantasioso e que fuja da realidade.

A Hallmark, canal norte-americano que produz anualmente mais de 35 filmes natalinos, mantém seu sucesso nessa época do ano com a mesma fórmula: casais heterossexuais, brancos, cisgênero, e roteiros caprichados em clichês que se repetem com tranquilidade a cada temporada. Como são produções muito curtas, a inovação não existe aqui, sendo o conforto e a sensação familiar altamente priorizados, e é fácil notar isso quando vemos que críticas de filmes natalinos dificilmente dão mais de três estrelas para os longas desse gênero. Quando inserimos o protagonismo LGBTQIA+ em um gênero como esse é preciso levar algumas coisas em consideração no momento de avaliar a produção.

Happiest Season

Quando falamos sobre representatividade é normal querermos que aquela produção reflita a nossa vivência, a nossa verdade e seja tudo na nossa vida, porém precisamos entender que representatividade não significa ter uma única coisa representando aquela minoria. Não haverá uma produção perfeita para todo mundo e está tudo bem; pessoas e ativistas lutam todos os dias por mais representatividade justamente para que tenhamos uma gama de produções em que cada pessoa possa se sentir representada. Dessa forma, precisamos urgentemente acabar com a excelência de minorias quando elas estão sendo representadas.

Happiest Season pode não ser o filme perfeito sobre pessoas LGBTQIA+, mas ele também não deveria precisar ser. Dentro do gênero de filmes natalinos, o filme possui um padrão muito superior ao esperado. Finalmente temos um filme de Natal que retrata duas mulheres LGBTQIA+ se amando, com muitas confusões e cenas engraçadas, porém ele não pode, e não deve, ser o último do tipo. Muitas pessoas não foram representadas neste filme, pessoas negras LGBTQIA+, pessoas assexuais e arromânticas, pessoas PCD — ainda há muitos que precisam se ver representados e o gênero natalino é um universo incrível para que isso aconteça, porque é confortável, familiar e reúne os clichês que nós mais amamos enquanto cria um universo à parte em que o limite é onde nossa imaginação consegue chegar.

Happiest Season entrega o que nos foi prometido e mais: uma produção aconchegante, em que podemos rir e chorar, ver com a família e se sentir mais abraçados nessa época do ano em que tudo o que queremos é ser amados. E tudo bem.

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