Categorias: LITERATURA

Defenda o Livro: 5 publicações nacionais para colocar na sua estante

Em um momento em que precisamos, novamente, nos levantar em defesa do livro, é importante prestigiar cada vez mais a literatura nacional. Essa literatura que tem a nossa cara, nosso jeito de falar e de expressar, que nos envolve em paisagens que conhecemos como as palmas de nossas mãos. Supor que apenas os ricos compram e usufruem dos livros não é apenas uma mentira tendenciosa como também uma distorção da realidade: a proposta de taxação dos livros em 12% os transformará em itens mais caros e inacessíveis, derrubando o projeto de Jorge Amado que intuiu, há 70 anos, a não taxação dos mesmos de maneira a promover um acesso mais fácil à cultura — mesmo que, em teoria, esse acesso não seja tão fácil assim.

Durante a semana, após a proposição do Projeto de Lei 3887/2020 pelo atual Ministro da Economia, vários foram os depoimentos de pessoas que não fazem parte da Classe A, dos mais ricos, a respeito de seus primeiros contatos com livros e como eles mudaram suas vidas. É o caso do youtuber Alexander Costa, que deu um depoimento ao Estadão contando sua trajetória como criador de conteúdo a respeito de livros na internet e como isso mudou sua história, e o caso de todas nós, aqui do Valkirias. Para além de afetar aqueles que amam livros e os universos que suas páginas contêm, a taxação afeta todos aqueles envolvidos de alguma maneira com o setor e que lutam diariamente por sobrevivência em um país governado por pessoas que não enxergam a cultura como essencial. Caso a reforma seja aprovada, o governo receberá mais do que os próprios autores que hoje, em média, recebem 10% da venda pelo preço de capa.

Doe um pouco do seu tempo, leia nacionais, leia sempre, e Defenda o Livro.

O Que Encontramos nas Chamas, Mayra Sigwalt

defenda-o-livro

“O fogo tem sua própria linguagem e não se pode prever o que encontramos nas chamas, mas eu ouço com atenção cada crepitar.”

Mayra Sigwalt é figurinha conhecida no universo literário do YouTube e seu canal, All About That Book, conta com mais de 50 mil inscritos. O Que Encontramos nas Chamas é sua primeira novela, lançada em formato digital, e conta uma história dolorida e muito real, alicerçada em elementos de realismo fantástico. Em pouco mais de 90 páginas, acompanhamos a jornada de Camila que se reencontra com memórias antigas da temporada que passou na casa dos tios durante a infância. Atendendo a um pedido de sua mãe, Camila, já adulta, refaz os passos da Camila criança ao abrir as portas para uma época que ela preferiria esquecer. A narrativa delicada de Mayra nos leva junto de Camila pelas memórias infantis, os momentos de diversão passados ao lado da nova amiga, as sensações recém descobertas de um possível primeiro amor e os episódios de tensão e terror que também permeiam toda a trama.

O Que Encontramos nas Chamas é um livro sensível com um teor pesado, mas Mayra Sigwalt soube trabalhar muito bem essas nuances, construindo uma narrativa que te deixa refém, página após página. Sua novela vai crescendo em tensão, costurando lembranças do passado e sensações do presente de sua protagonista, e é impossível deixar o livro de lado antes de chegar ao seu desfecho. A autora trata de traumas difíceis de digerir, mas o faz de maneira delicada e ágil. Ainda que não tenha cenas explícitas de nenhum dos abusos, é possível compreender cada momento passado por Camila, e o sentimento, ao finalizar a leitura, é querer dar um abraço bem apertado nela — em Camila criança, adulta, e também em Mayra Sigwalt que faz um excelente trabalho em seu livro de estreia. — Comprar! 

Qualquer Clichê de Amor 3, Várias Autoras

defenda-o-livro

“Eu te disse que seu dom é a escrita, mas na verdade são as palavras. Suas palavras me matam constantemente.”

A série Qualquer Clichê de Amor conquista facilmente os corações românticos, e não é para menos: com oito contos onde os finais felizes são garantidos, passeamos pelas histórias de oito autoras que fazem dos clichês seus melhores amigos. Com organização de Nathália Campos e Gabriela Barbosa, a terceira edição da coletânea chega com histórias escritas por Amanda Karolyne, Ana Victória Costa, Any Valette, Cecília Almeida, Debora Theobald, Emily Macedo, Laura Couto e Morgana Feijão. Em Qualquer Clichê de Amor 3 teremos todos aqueles tropos que já lemos (e assistimos) milhares de vezes mas nem por isso deixaram de ser atualizados por suas autoras. Sim, teremos o tropo do casal que se odeia, mas apenas até perceber que na verdade é amor o que sentem um pelo outro, assim como também há um enredo trabalhado no namoro falso e outro sobre encontro às cegas — mas cada um desses clichês é remodelado com muito talento por suas respectivas autoras.

Os destaques da coletânea vão para “Operação Bill Pullman”, de Ana Victória Costa, que conta a história de Amélia e Fernando que, com medo de serem traídos por seus respectivos pares, se unem para evitar que isso aconteça e acabam se envolvendo demais durante a missão; “O que Acontece no Palco, Fica no Palco”, de Laura Couto, que narra as brigas entre Clarissa e Caio, que nutrem ódio um pelo outro desde a infância e são obrigados a dividir o palco em um espetáculo definidor de suas vidas; e “Ódio à Primeira Vista”, de Debora Theobald, onde Alice e Leonardo se odeiam, mas precisam engolir as diferenças para que possam trabalhar juntos em um projeto importante do escritório em que são funcionários. Qualquer Clichê de Amor 3 é a escolha perfeita para desanuviar o sistema da enxurrada de más notícias com histórias que vão te deixar com o coração quentinho no final. — Comprar!

Pisando em Nuvens, Iris Figueiredo

defenda-o-livro

“Andei sem saber para qual direção seguir, e meus pés me levaram até ela porque era o caminho que faziam sempre que tudo estava meio esquisito.”

Pisando em Nuvens é o conto de Iris Figueiredo que se passa no mesmo universo de Céu Sem Estrelas, lançado pela Editora Seguinte em 2018. Aqui, sai Cecília e entra em cena Taís: após ser aprovada para estudar Enfermagem, seu curso dos sonhos, Taís precisa lidar com uma difícil decisão. Aprovada em um campus que fica longe de sua cidade, São Gonçalo, a moça sabe que arcar com os custos de morar e estudar em outra lugar não é algo simples de ser feito. Em dúvida sobre como lidar com a situação, visto que Taís não quer decepcionar a família após tantos meses de esforço nos estudos, ela recorre à Rafaela, sua namorada, mas a reação dela é totalmente inesperada.

Com a sua prosa característica e que nos faz se sentir amigas de suas personagens, Iris Figueiredo constrói uma narrativa com a qual é fácil se identificar mesmo que você não tenha vivido os mesmos dramas ali abordados. Em pouco mais de trinta páginas, a autora consegue cativar o leitor, contar uma história completa e te deixar querendo mais. Pisando em Nuvens tem gostinho de bolo de fubá e diálogos perfeitos, mais uma história de Iris pra gente adorar. — Comprar!

Éramos Seis, Maria José Dupré

defenda-o-livro

“Mas afinal dizem que a felicidade só tem um fio de cabelo e passa só uma vez perto de nós.”

Considerado a obra-prima de Maria José Dupré, Éramos Seis é mais frequentemente lembrado por compor a famosa Coleção Vagalume, voltada ao público infantojuvenil e utilizada como material didático em muitas escolas brasileiras, e por suas adaptações para a televisão (e uma para o cinema, menos conhecida), mas sua importância para a literatura nacional vai mais longe. Lançado originalmente em 1943, o livro recebeu aclamação imediata da crítica, jogando luz sobre o inegável talento de Dupré, não apenas ao construir uma narrativa tão complexa como de fato é Éramos Seis, mas ao costurar fatos históricos ao cotidiano da família Lemos, característica que permearia outras de suas obras, em maior ou menor escala.

Éramos Seis também revela sua imensa capacidade descritiva, e a partir das reminiscências de D. Lola, Dupré faz um belo e melancólico retrato não apenas do Brasil da primeira metade do século XX, mas do significado de ser mulher, e em especial mãe, à mesma época. O gênero é uma questão central em todo o romance, uma vez que todas as mudanças experimentadas pelas mulheres do período — e tanto observadas quanto, em alguma medida, sentidas por D. Lola — são um reflexo de um país que vivia intensas transformações e essas mudanças também ocorriam a um nível pessoal, dentro das famílias. D. Lola é uma mulher que se dedica por quase toda a vida ao marido e aos filhos, mas nenhuma recompensa lhe é reservada. Em muito como As Alegrias da Maternidade, escrito por Buchi Emecheta anos mais tarde, Maria José Dupré capta com sutileza o impacto das novas configurações familiares, do abandono de determinadas tradições e da solidão da velhice. — Comprar!

O Pior Dia de Todos, Daniela Kopsch

“Eu já sabia que pessoas amadas podem nos machucar. Mais cedo ou mais tarde, vai haver um momento em que você vai estar entre aquela pessoa e algo que ela deseja. Então ela vai passar por cima de você. Por mais que não queira, por mais que ame você, ela vai fazer isso porque, quando isso acontece, é você ou ela.”

No dia 7 de abril de 2011, a Escola Municipal Tasso da Silveira, localizada no bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, tornou-se palco de uma das maiores tragédias do país. 12 crianças, sendo 10 delas meninas, foram assassinadas por um atirador, ex-aluno da mesma escola, que havia se identificado como palestrante. Daniela Kopsch, jornalista, foi enviada ao local para cobrir o massacre e ali conversou com sobreviventes, parentes e amigos das vítimas, que ajudaram-na a criar um retrato muito maior do que a tragédia e o sofrimento pelo qual aquelas pessoas haviam se tornado conhecidas. Oito anos mais tarde, foi lançado O Pior Dia de Todos, seu primeiro livro, resultado de tudo que viu, ouviu e vivenciou naqueles dias, ao lado daquelas pessoas.

Embora se trate de uma obra de ficção, O Pior Dia de Todos se baseia em pessoas e experiências reais. Malu e Natália, protagonistas do livro, são meninas cheias de sonhos e expectativas, primas que são criadas juntas, quase irmãs, que traçam planos e criam expectativas juntas, mas que também possuem muitas dúvidas, que às vezes sentem inveja, e experienciam as dores e alegrias de crescerem em um país como um Brasil. Kopsch, que reconhece muitas dessas experiências como suas, constrói um coming of age em que a tragédia é anunciada desde o título, mas que jamais é definido por ela. Com uma prosa que consegue mesclar potência e delicadeza, O Pior Dia de Todos é um livro memorável, que transforma a dor em uma ode à vida. — Comprar!

Texto escrito em parceria por Ana Luíza e Thay


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *