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Pantera Negra e Capitã Marvel: anti-imperialismo e resistência no MCU

Se um dos meus grandes incômodos lá em 2017, em Mulher-Maravilha (um filme de que eu gostei muito, importante registrar), foi o discurso imperialista forte que ele incorporou; 2018 e 2019 me trouxeram grandes felicidades na forma de Pantera Negra e Capitã Marvel, que chegaram com o pé na porta e uma mensagem oposta e muito positiva. Países africanos desenvolvidos e sem colonização, refugiados (ainda que interplanetários) saindo da posição de “terroristas perigosos” e recebendo o espaço para disseminar suas próprias versões dos fatos: esse é definitivamente o tipo de mensagem que eu quero ver nas telonas, nas telinhas, e no mundo como um todo.

Não preciso me alongar sobre a importância histórica e política desses dois filmes, porque isso já foi feito de forma irretocável nas críticas que publicamos sobre ambos (e você pode conferir aqui e aqui), de modo que o objetivo desse texto é única e exclusivamente retomar e ressaltar as mensagens tão fundamentais de resistência, descolonialidade e anti-imperialismo que as duas obras trazem, sinalizando um movimento emergente muito mais politicamente engajado do universo MCU.

Não preciso me alongar mais uma vez sobre a importância e a grandeza da mensagem de Pantera Negra ao representar um país do continente Africano que teve os recursos econômicos, políticos e tecnológicos para resistir ao domínio europeu que se estabeleceu, intensificou e difundiu pelo mundo principalmente entre os séculos XV e XIX. Foi esse fator, em conjunto com a riqueza natural e a presença do vibranium, que permitiu a Wakanda se desenvolver ao longo dos séculos como uma nação politica e economicamente independente e descolonizada, com uma cultura riquíssima e não adulterada pelo processo colonizatório, senhora dos próprios recursos naturais e tecnológicos e livre da divisão internacional do trabalho que até hoje contribui de forma tão decisiva para que países periféricos permaneçam em situação de miséria e dependência. Esse mesmo fator também pode ter muita ligação com a posição de destaque que as mulheres de Wakanda têm na sociedade, se afastando da posição de subserviência herdada nos moldes da colonização europeia.

Por outro lado, a mensagem anti-imperialista e a crítica colonial em Capitã Marvel são infinitamente mais veladas — e até mais contestáveis —, uma vez que estamos falando sobre povos alienígenas, planetas desconhecidos e de uma protagonista branca e estadunidense. Ainda assim, a minha impressão é de que, de alguma forma, a mensagem também está lá.

Atenção: o texto contém spoilers de Pantera Negra e Capitã Marvel!

Capitã Marvel

Capitã Marvel tinha tudo para ser apenas mais um filme como todos os outros filmes de super-heróis, e de fato começa dessa forma, até que somos atingidos por um plot twist não completamente inesperado, mas muito bem vindo. O grupo que nós até então enxergávamos como os mocinhos da história, protetores do universo e garantidores da paz, da liberdade e da ordem, acaba por não ser tão bonzinho quanto eles mesmos queriam fazer crer. Essa imagem sobrevivia unicamente baseada em propaganda ideológica, direcionada à demonização do grupo rival para legitimar um projeto imperialista interplanetário que já estava em estado avançado — o famigerado discurso do “inimigo”. Qualquer semelhança com um certo país que não vou mencionar agora não é mera coincidência. Nesse contexto, Carol Denvers (Brie Larson) — então sob a alcunha de Vers — realmente acredita que está atuando do lado do “bem” e da “justiça”, rechaçando e afastando ataques de um grupo terrorista perigoso que quer destruir o império intergaláctico dos Kree.

Só quando tem a oportunidade de se encontrar diretamente com um dos poucos representantes que sobraram do grupo rival, os Skrull, é que a personagem tem acesso ao outro lado da história e finalmente se dá conta de que seu trabalho de defesa não era tão defensivo assim. O lado que ela sempre acreditou ser bom e pautado por valores nobres atuava com base em um projeto imperialista e colonizatório, que exterminou boa parte da população Skrull, dividiu famílias e expulsou-os do seu planeta natal, deixando os poucos sobreviventes sem um lar, sem recursos e sem um lugar para onde ir. Sob essa luz, qualquer eventual ataque realizado por Skrulls contra colônias Kree não são mais do que atos de resistência, de autodefesa, insignificantes dada a disparidade de poder e recursos existente entre os dois grupos. Essa mesma situação encontra diversos paralelos com nossa política internacional terrestre, incluindo a questão dos “conflitos” entre Israel e Palestina e basicamente todas as guerras nas quais os Estados Unidos estão envolvidos.

A partir dessa perspectiva, não é muito difícil traçar paralelos diretos com a realidade da política internacional, apoiada fortemente pelo discurso ideológico hollywoodiano. É difícil encontrar um filme ou série de TV norte-americana que esteja completamente livre de incorporar algum tipo de agradecimento aos “heróis” que lutam todos os dias para que a população dos Estados Unidos possa ser livre — também conhecidos como militares que são despachados pelo governo para atacar e ocupar outros países em defesa dos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos. O discurso de “autodefesa” não se sustenta se pensarmos, por exemplo, que todas essas guerras acontecem no território “inimigo”. O último grande atentado acontecido em território norte-americano em breve vai completar 20 anos, o “inimigo” ataca com bombas caseiras feitas com panelas de pressão, enquanto os paladinos da justiça e da liberdade despejam quase diariamente bombas reais sobre a cabeça de populações civis que não têm para onde fugir. Tudo isso amparado e legitimado por meio de produções culturais e pelo discurso da defesa da liberdade do seu próprio povo, que nunca é diretamente afetado por nada disso.

Todo esse discurso imperialista é diametralmente oposto à postura adotada por Wakanda em Pantera Negra. Apesar de todo o seu poder bélico e tecnologia, o país adota uma postura pacífica de não interferência em outros países. Esse discurso é, inclusive, contestado pelo filme e pelo “vilão”, Killmonger (Michael B. Jordan), que acredita que Wakanda teria o dever de usar seus recursos para defender a população negra oriunda da diáspora africana do genocídio que sofre diariamente em outros lugares do mundo. Estou longe de ser qualificada para opinar nesse debate, mas se pularmos para o final do filme, observamos que o próprio protagonista e rei de Wakanda, T’Challa (Chadwick Boseman), reconhece a procedência dessa crítica e muda sua postura. O interessante é que ele não faz isso por meio da guerra, de forma que poderia ser considerada imperialista e paternalista, mas treinando e compartilhando recursos com essa população oprimida para que possam ser agentes da sua própria libertação.

Pantera Negra

Essa postura é bem diferente da adotada em Capitã Marvel, na qual vemos uma super-heroína branca e com ligações com a raça imperialista (ainda que originalmente ela não pertença à nação Kree), atuando como “salvadora e guardiã” dos povos oprimidos do universo, sem nunca buscar alguma forma de garantir independência e autossuficiência para esses povos. Em Capitã Marvel, era a Dra. Wendy Lawson (Annette Bening), que descobrimos ser a cientista kree Mar-vell, que busca desenvolver recursos para que os skrull possam buscar a própria independência e encontrar por si mesmos um novo lar. Fornecer recursos para a resistência dos povos oprimidos é uma questão de justiça, ocupar a posição de herói e salvador sem contribuir em grande coisa para a emancipação desses povos é questionável.

Essas escorregadas imperialistas de Capitã Marvel também são observadas nas cores do uniforme da heroína, as tradicionais cores da bandeira norte-americana. O filme ainda tenta dar alguma explicação mais sentimental para a escolha, mas o simbolismo permanece, mantendo a ligação entre a imagem dos Estados Unidos e o papel de guardiã do universo e da liberdade ocupado pela personagem.

A questão é justamente que sempre vai haver um limite no quão “revolucionário” são os discursos vindos de fontes hegemônicas. Nesse sentido, dá para dizer que Capitã Marvel vai bem mais longe do que o esperado, ainda que não alcance ainda a grandiosidade da mensagem de Pantera Negra. Este último, apesar de vir de um grande estúdio de um país imperialista, fala a partir do lugar de um sujeito politica e historicamente marcado pela escravidão e pelo tráfico humano, e todas as suas consequências econômicas e sociais, o que afasta os resquícios imperialistas que ainda são observáveis em Capitã Marvel.

O discurso decolonial só se concretiza quando aprendemos a valorizar aquilo que é local, o saber tradicional, nossa própria história que é, sim, marcada pela colonização e o imperialismo, mas também por muita resistência. É nessa medida que assumem grande importâncias iniciativas como a animação paraense Icamiabas na Amazônia de Pedra, que dialoga com paisagens e lendas regionais, contribuindo para a memória e a identificação local; ou o Projeto Mega-Ultra Super Secreto, do anglo-brasileiro Sam Hart, ilustrador de Atômica: a cidade mais fria. Romper com o imperialismo na indústria cultural em geral e nas histórias de super-heróis e super-heroínas especificamente significa reconhecer e abrir espaço para obras de outras origens, descolonizar mentes para vozes plurais e histórias plurais. O que buscamos é a quebra do monopólio cultural de uma origem única, que estamos tão condicionados a consumir mas não nos representam realmente.

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