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Crítica: Mulher-Maravilha, o filme que estávamos esperando

Nascidas e criadas em uma era de modelos de feminilidade construídos com base em princesas indefesas e super-heróis fortes e másculos, tivemos que buscar nossos exemplos onde estavam disponíveis. Desenhos animados como Sailor Moon, Sakura Card Captors e Três Espiãs Demais, por exemplo, nos ajudaram a moldar quem queríamos ser: fortes, determinadas, aquelas que salvam o mundo e não as que sentam e esperam ser salvas. Porém, entre todos esses modelos, um sempre brilhou mais forte: Diana Prince, a Mulher-Maravilha.

Embora tenha havido a icônica série de TV da década de 1970 protagonizada por Lynda Carter, anos de espera foram necessários até que o sonho fosse concedido e concretizado na forma de filme, que chega agora aos cinemas, pelas mãos da diretora Patty Jenkins. Nos últimos tempos, cada nova informação que nos levava um passo mais perto da produção era motivo de euforia e agitação. Até que, finalmente, o momento que esperamos há tanto tempo chegou.

Atenção: este texto contém spoilers!

Mulher-Maravilha, o filme, nos leva rumo à Primeira Guerra Mundial, “a guerra para acabar com todas as guerras” e surge a questão: será esse só mais um filme de super-heróis construído com o único intuito de consolidar em nossas mentes a ideologia dicotômica dominante que sempre conhecemos? É o que parece, a princípio, e o incômodo cresce à medida que a história avança. Escondida atrás de uma semideusa poderosa e imbatível, um breve comentário sobre racismo embutido em uma fala aleatória, algumas tiradas girl power, toda uma fachada feminista, parecia estar a velha trama dos bastiões da liberdade que lutam contra os homens maus para garantir que a humanidade possa ser feliz e permanecer segura.

Se anúncios e propagandas usam exaustivamente a bandeira do feminismo para vender produtos e até para expandir o próprio mercado consumidor por meio de uma suposta “quebra de padrões de gênero” que anda tão na moda (sempre para homens), e até a Rede Globo está lançando mão desse subterfúgio para tentar fugir da própria decadência, não é de se surpreender que a ideologia política dominante vá pelo mesmo caminho. Mulher-Maravilha parece a oportunidade perfeita para fazer isso. Felizmente, como o tom esmaecido das cores da armadura da heroína já indicava, à medida que a trama se desenrola, que o filme quebra ligeiramente essa proposta. Apesar de não conseguir destruir a imagem geral dos britânicos como os mocinhos da guerra, o filme tenta, pelo menos em momentos pontuais, indicar que a guerra é feita por dois lados e que o ser humano é um ser complexo no qual bem e mal coexistem. Essa é, na verdade, o fato que Diana (Gal Gadot) é levada a compreender durante toda a história: Ares (David Thewlis) não faz a guerra no vácuo, ele só estimula a natureza que já existe dentro de cada ser humano, que não é apenas bom, nem apenas ruim, mas algo no meio.

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No início do filme somos apresentados basicamente à mesma Diana que vislumbramos em Batman vs Superman: A Origem da Justiça: ela é uma mulher perfeitamente integrada ao mundo em que vive, possivelmente ocupando uma posição importante no Museu do Louvre, em Paris, e que sabe com o que está lidando ao receber uma maleta de Bruce Wayne (Ben Afleck). O presente que o homem morcego lhe envia é a mesma fotografia que já vimos no filme em que Diana faz seu debute: a Mulher-Maravilha, em toda sua glória, de armadura, espada e escudo nas mãos, ao lado de um grupo de homens na Primeira Guerra Mundial. Wayne pede que um dia Diana lhe conte sua história, e é a partir daí que passeamos junto com ela por suas memórias mais distantes, memórias de uma outra vida.

Diana era a única criança a viver em Themyscira, ilha povoada pelas amazonas, e se lembra de como seu maior desejo, desde pequena, era treinar para ser tão habilidosa, corajosa e destemida quanto sua tia Antiope (Robin Wright). Sua mãe, a Rainha Hippolyta (Connie Nielsen), no entanto, parece ter outros planos para a vida da menina. Embora todas as amazonas em Themyscira sejam treinadas e muito habilidosas em combate, Hippolyta decide que resguardar Diana é a melhor maneira de mantê-la protegida da ira de Ares, o deus que foi banido por Zeus após se levantar contra sua criação: os seres humanos. Em uma difícil guerra combatida pelas amazonas, Ares foi deixado em decadência, mas sua presença continuou a pairar sobre a Ilha Paraíso e principalmente sobre os pensamentos de Hippolyta. A origem de Diana está diretamente entrelaçada ao retorno de Ares, e é esse um dos mistérios que movem a trama de Mulher-Maravilha. Na versão original de William Moulton Marston, Diana foi trazida à vida pelo imenso amor de Hippolyta e o desejo que a amazona nutria de ter uma filha — moldada do barro pelas mãos da própria Hippolyta, a deusa Afrodite soprou a vida em Diana, uma origem sem nenhuma interferência masculina. O trio de roteiristas de Mulher-Maravilha — Zack Snyder, Allan Heinberg e Jason Fuchs —, no entanto, optam por colocar Zeus como aquele a dar vida à Diana, uma história de origem utilizada por Brian Azzarello e Cliff Chiang quando estiveram à frente dos quadrinhos da princesa amazona. Embora Diana proclame, em determinado momento do filme, que não tem pai, aos poucos descobriremos que há muito mais a ser revelado a respeito de seu nascimento. 

As amazonas viveram por muitos séculos escondidas em Themyscira para escapar da ira de Ares, sempre treinando e se preparando para o dia em que o deus retornaria. Diana cresce ouvindo histórias de glórias e lutas e, diante sua persistência, consegue autorização de Hippolyta para que também possa treinar com suas compatriotas. A menina cresce e se transforma em uma mulher habilidosa e bem treinada, mas que, ainda assim, não tem ideia de sua verdadeira força. Tudo parece transcorrer na mais perfeita paz na vida das amazonas, até que um avião em queda ultrapassa a barreira que separa a Ilha Paraíso do restante do mundo: Steve Trevor (Chris Pine) está à bordo do avião que cai no mar e está prestes a perder a consciência quando Diana o resgata. Em uma troca de papéis — que até evoca por um momento a cena em A Pequena Sereia em que Ariel resgata o príncipe Eric de um naufrágio —, Steve abre os olhos para exclamar um “uau!” quando se depara com Diana. É a primeira vez que a amazona encontra um homem e seu deslumbramento é nítido nas expressões de Gal Gadot — a atriz, vale frisar, é sempre muito certeira ao exprimir as reações de Diana, principalmente quando a amazona começa a desbravar o mundo dos homens com todas as suas particularidades, esquisitices e estranhezas. 

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Não há muito tempo para uma conversa, pois os soldados alemães estão atrás de Steve e eles também conseguiram passar pela névoa que deixava Themyscira escondida do mundo e partem logo para o ataque. Em uma sequência belíssima, podemos acompanhar toda a destreza das amazonas na guerra e como todas lutam bem. A sequência de ação na praia tem uma coreografia elegante e plástica, quase como uma dança, e há amazonas de todos os tipos, manejando diversas armas. Não há muito o que se dizer do exército alemão que logo sucumbe nas mãos das guerreiras, mas eles conseguem levar consigo Antiope, a guerreira em quem Diana se espelhou por toda a vida. Aqui talvez tenha que ser feita uma ressalva pelo fato de que uma mulher teve que morrer para despertar Diana para o que está acontecendo no mundo fora da ilha, e sabemos como esse é um recurso narrativo comumente usado para motivar o personagem principal a partir para ação. Possivelmente haveriam outros modos de despertar em Diana o desejo de salvar a humanidade, mas esse foi o escolhido pelos roteiristas do filme — tal recurso, inclusive, foi utilizado não uma, mas duas vezes durante Mulher-Maravilha. Mesmo contra a aprovação da mãe, Diana decide que o melhor a fazer enquanto guerreira amazona é acompanhar Steve Trevor em direção ao mundo dos homens e colocar um fim na guerra de todas as guerras.

A jornada de Diana nesse mundo novo tem como guia o próprio Steve Trevor e muito se falou a respeito de seu personagem e em como ele poderia tentar roubar o protagonismo da Mulher-Maravilha, mas o que vemos é muito mais uma interação aos moldes de Capitão América e Peggy Carter do que qualquer outra coisa: assim como ocorreu no filme do primeiro vingador, é por meio dos olhos de Steve que Diana consegue compreender melhor o mundo em que está inserida agora e a dimensão do conflito que pretende destruir. A interação entre os dois acontece de maneira delicada e verossímil — o encantamento que um sente pelo o outro é puro e genuíno, e o romance que se desenrola é muito natural. Embora Steve tente, por algum tempo, dizer a Diana o que fazer e como fazer, inclusive querendo deixá-la de fora da ação, ela faz o que tem vontade e acha correto, enfrentando-o sempre que entende que deve fazê-lo (“I do what I want”), e bate de frente com os líderes britânicos que não lhe dão ouvidos. Não demora para que Steve compreenda que está lidando com uma entidade mística muito mais poderosa do que qualquer pessoa que ele conheça; uma mulher que, apenas com escudo e espada, é capaz de enfrentar soldados entrincheirados com metralhadoras, bombas e granadas.

Essa é uma das cenas mais poderosas do filme, ainda que, ironicamente, quase tenha ficado de fora do longa, sendo necessário que a própria Patty Jenkins desenhasse o que esperava da super-heroína durante a cena para garantir que ela fosse rodada. Diana, sozinha, saindo da relativa proteção da trincheira e se colocando na mira dos soldados inimigos, colorindo o cenário acinzentado com as cores de sua armadura, é de deixar qualquer um arrepiado. É a primeira vez que a amazona se mostra aos homens em seu esplendor de guerreira, o que marca seu nascimento para todos, seja dentro do filme ou fora dele. É uma cena que emociona: Diana, com toda sua força e destreza, faz balas ricochetearem em seus braceletes, afasta bombas com seu escudo e segue em frente sem se abalar. Pensar que muitas meninas irão assistir à cena quando crescerem e poderão escolher suas heroínas dá uma satisfação imensa — muito se diz que a cultura popular é mais do que mera diversão, mas sabemos que representatividade importa. Ver a Mulher-Maravilha enfrentar um exército e libertar a Terra de Ninguém fala muito sobre o que significa ser uma super-heroína, um símbolo de esperança e amor.

A Diana de Gal Gadot é poderosa e destemida, corajosa e divertida. Seus momentos na Londres tomada pela guerra, descobrindo um mundo novo e estranho, são engraçados de um jeito quase infantil. A pureza que ela tem nesses primeiros instantes junto ao mundo dos homens, admirando-se ao ver um bebê na rua ou a maneira como as mulheres se vestem, experimentando sorvete pela primeira vez e encarando o sorveteiro com reverência (“You should be very proud!”) — uma cena que referencia, ao mesmo tempo, a graphic novel Liga da Justiça: Origem e a animação Liga da Justiça: Guerra — marca bem a personalidade da amazona. Aqui não há o lado sombrio e introspectivo dos heróis predestinados, tampouco a tristeza característica dos escolhidos solitários: Diana está exatamente onde deseja estar e fazendo aquilo em que acredita ter sido criada para fazer; parar Ares e devolver a paz ao mundo. E tal inocência nunca é vista como fraqueza, mas como uma marcante característica de Diana, que não deixa de acreditar que a humanidade seja passível de salvação.

Nada muda o que fato de que, ainda que o grande vilão esteja infiltrado no exército inglês, suas piores influências ainda estão do lado alemão. Embora não existam lados bons ou ruins em uma guerra, Mulher-Maravilha mostra um suposto lado “mau” que gasta todas as suas energias e recursos desenvolvendo uma arma fatal, retratada como altamente imoral (como se houvesse uma arma moralmente aceitável), e esse lado mau é o inimigo. O lado que está atacando e dizimando populações inocentes é, invariavelmente, o alemão. Sempre voltamos a algum tipo de paráfrase da citação que representa o que está por trás das afirmações de igualdade em nossa sociedade: todos os homens são um pouco maus, mas alguns são mais maus do que outros.  

A parte um pouco menos incômoda é que, mesmo em face da doutrinação disfarçada, Diana permanece em estado de inocência em relação ao jogo político envolvido na guerra. Ela tem como único objetivo defender a raça humana de si mesma e buscar um mundo em que as pessoas voltam a ser boas, puras e justas como no momento em que foram criadas. A distorção está justamente no fato de que os valores que defende parecem (erroneamente) estar em um determinado lado. Ao fim de tudo, parece que o lado hegemônico precisou fazer concessões sobre a própria imagem, colocar a própria maldade na conta dos indivíduos e assim continuar a difundir o discurso de ética e superioridade que lhes favorece.

Apesar de todas as ressalvas sobre o papel da cultura popular na manutenção de um discurso de poder, é extremamente satisfatório ver a Mulher-Maravilha em ação, acabando sozinha com dezenas de homens, destruindo prédios para, logo depois, olhar para a câmera com uma expressão inofensiva e adorável. Nesses termos, Diana Prince não poderia ser uma arma mais eficaz na propagação do feminismo que não afronta o sistema: ela é independente, tem uma força física absurda e uma inteligência enfaticamente demonstrada, sem romper com modelos de beleza e feminilidade da sociedade patriarcal. Ainda assim, é um modelo positivo em um meio dominado por modelos masculinos e em que a mulher raramente aparece com mais do que um objeto sexual, interesse romântico e pessoa vulnerável a ser protegida.

Ainda que Mulher-Maravilha seja um filme incrível, alguns pontos poderiam ter sido melhor abordados, principalmente na questão das personagens femininas ao redor de Diana. É verdade que Themyscira possui suas amazonas, mas não podemos aceitar que apenas algumas delas sejam negras e apenas uma tenha certo destaque — Philippus (Ann Ogbomo) — ou que todas sigam o mesmo biotipo. Não houve tempo – ou oportunidade, talvez – de abordar os relacionamentos entre as mulheres que vivem na Ilha Paraíso, uma vez que, para além do relacionamento de Diana com a mãe, e de Diana com Antiope, pouco se sabe a respeito da relação das amazonas entre si, inclusive sexualmente. No ano passado, em nota oficial, Greg Rucka, roteirista dos quadrinhos da Mulher-Maravilha, confirmou que a personagem é bissexual, uma nuance que, infelizmente, não ganha espaço no longa. Com isso não queremos apagar a existência de Steve Trevor na trama, mas que mais facetas da personagem sejam exploradas, bem como de outras amazonas. 

Outro ponto que vale a ressalva é a participação de Etta Candy (Lucy Davis), secretária de Steve no longa e amiga de Diana nos quadrinhos. Embora lidere uma importante missão de dentro do escritório do Primeiro Ministro britânico para ajudar Diana e Steve, Etta tem pouco tempo de tela e quase fica marcada como alívio cômico. Para além das amazonas, ela é a única personagem feminina com quem Diana se relaciona no filme, o que nos leva aos companheiros de Steve, que acompanham Diana na guerra: apesar de possuírem origens diferentes, todos são homens. Por qual motivo nenhum deles poderia ser uma mulher? Sabemos que, historicamente, mulheres foram à guerra e seria muito interessante colocar uma personagem feminina para combater ao lado de Diana, deixando a trama ainda mais diversa e inesperada.

Mulher-Maravilha permanece um filme bem feito e assertivo, uma obra que empolga e entrega uma super-heroína em sua forma mais pura e poderosa. A direção de Patty Jenkins é outro ponto a favor do longa: mesmo que Diana usa uma armadura relativamente curta, em nenhum momento ela é sexualidade pela câmera. Mesmo quando se utiliza da câmera lenta, ela serve para enfatizar seus poderes durante as batalhas e não vemos nada mais do que o necessário para entendimento da ação. Não há uma câmera invasiva que percorre sexualmente o corpo da personagem: o que há é uma guerreira em sua plena forma lutando por aquilo em que acredita.

Talvez Mulher-Maravilha tenha dado tão certo e encantado a tantos justamente pelo fato de que mostra a super-heroína do título como ela é: uma super-heroína. Conseguimos captar os conflitos de Diana, a maneira como vai aos poucos compreendendo o mundo novo em que está inserida, e que o amor é a maior força de todas. Significa — e muito — que seja o amor a peça chave para elucidar a trama da princesa amazona. Em um mundo dominado por medo e tons escuros de incerteza, é maravilhoso ver uma super-heroína trazer a luz, a empatia e o amor de volta ao debate.

Mulher-Maravilha acerta, e muito, ao contar uma história de origem por meio de um roteiro bem trabalhado e aparado. Não há cenas desnecessárias e fora de lugar, o que faz com que o filme funcione como uma espécie de recomeço do universo cinematográfico da DC Comics — se em Homem de Aço (2013), Batman vs Superman (2016) e Esquadrão Suicida (2016) temos roteiros confusos que mais atrapalham o desenvolvimento do que os ajudam, e tornam as motivações dos protagonistas quase vazias, Mulher-Maravilha, desde o princípio, esclarece qual é a verdadeira intenção de Diana, quais sentimentos a movem adiante e a transformam na maior super-heroína de todos os tempos. A força do amor e a fé de que a humanidade pode ser melhor é o que fazem de Diana a Mulher-Maravilha, uma super-heroína atemporal que há tanto tempo estávamos esperando.

Crítica escrita em parceria por Paloma e Thay

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5 comentários

  1. É incrível como vocês discorrem tão bem sobre tudo. Dessa vez deixei pra ler a crítica só depois de ver o filme por não querer nenhum spoiler, e só posso dizer que fiquei bem contente com o resultado do filme que tanto foi aguardado, e também com o fato de vir aqui e ver que vocês concordam comigo com o que deveria ter sido mais explorado. E sim, merece muito TODAS as 5 estrelas! {: (obrigada por escreverem meninas) <3

  2. Gal Gadot é uma excelente atriz. Eu vi o filme Liga Da Justica e achei que fez um excelente trabalho. Eu adorei mais do que em mulher maravilha. Os Liga da Justiça personagens são incríveis. A história é boa e bastante divertida. Eu recomendo 100%.. Eu amo filmes de aventura e especialmente esta atriz. Eu recomendo 100%.