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Os Incríveis 2: um roteiro que chegou na hora certa

O que faz de um roteiro um filme de sucesso? Não há uma fórmula exata que determine com precisão quais histórias terão ou não uma boa recepção do público e da crítica, mas algumas estruturas são facilmente observadas, como as histórias que se iniciam com a quebra de rotina do personagem principal e se transformam na jornada de um herói em busca de algo maior do que ele. Essa é a premissa de muitas das produções que consumimos, seja na televisão ou no cinema. Mas até mesmo essas estruturas têm sofrido mudanças ao longo do tempo, evoluindo para atender a demanda de um público cada vez mais exigente. Os Incríveis é um exemplo dessa mudança.

Lançado em 2004, roteirizado e dirigido por Brad Bird, e produzido pela Pixar Animation Studions, Os Incríveis nos apresenta aos Pêra, uma família de super-heróis que tenta se adaptar a uma realidade em que seus poderes não são mais necessários, mantendo em segredo suas verdadeiras identidades. Os filhos estão crescendo, se descobrindo, mas são encorajados pelos pais a permanecerem anônimos, já que por lei é proibido usar superpoderes perto dos cidadãos comuns. Beto Pêra (Craig T. Nelson), o Sr. Incrível, porém, se vê completamente desolado ao ter que abdicar de seus dias de glória para morar em um subúrbio; um bairro comum, com vizinhos igualmente comuns. Seu trabalho não é nada animador, e sua rotina, muito chata.

Não muito diferente é a vida de Helena Pêra (Holly Hunter), a Mulher Elástica, que se transforma numa dona de casa que literalmente se estica para dar conta de todos os compromissos da família. Os pequenos Flecha (Huck Milner) e Violeta (Sarah Vowell) sentem-se frustrados por serem tão invisíveis — algo que todos têm se saído muito bem em fazer — e por não poder usar seus poderes. Zezé (Eli Fucile), o bebê, aparentemente não possui habilidades especiais, para o alívio de seus pais, que já precisam lidar com muitos sentimentos conflituosos embaixo do mesmo teto. Mas a situação muda quando Beto recebe uma oferta de emprego que exige, entre outras coisas, que seus superpoderes sejam utilizados. Seus dias de glória retornam. O que ele não sabe é que a oferta era, na realidade, uma armadilha, e que logo toda a família precisar se unir para ajudá-lo. A trama bem amarrada de Os Incríveis nos faz sentir carinho pela família, nos envolver com a narrativa de super-heróis quando esses filmes ainda não eram tão comuns quanto hoje, e que, ao final, nos deixa imaginando o que o futuro reserva para os Pêra.

A resposta viria apenas 14 anos mais tarde. Brad Bird, diretor e roteirista, foi cobrado ao longo de todos esses anos por uma sequência que estivesse à altura do primeiro filme. Para Bird, no entanto, só faria sentido retomar seus personagens e escrever uma nova história caso todas as peças se juntassem novamente, possibilitando que um roteiro tão incrível quanto o primeiro fosse escrito. A espera valeria à pena.

Quando falamos sobre os papéis de gênero dentro da sociedade, estamos falando sobre a ordem que, por muito tempo — e, em alguma medida, ainda hoje — impunha condições distintas entre os seres humanos baseado em seu gênero. Enquanto homens eram os responsáveis por prover alimento, segurança e dinheiro para a família, as mulheres eram, direta ou indiretamente, sentenciadas a manter a harmonia do lar, uma adequada criação para os filhos e um ambiente agradável ao marido. Essa visão relacionava a figura feminina ao delicado, sensível e puro, enquanto os homens seriam o lado da razão e ambição — basicamente a estrutura que vemos na família Pêra no primeiro filme, onde quem trabalha é Beto, e também quem ganha a oportunidade de voltar a ser um herói.

Ao poucos, alguns movimentos que reuniam mulheres em prol da luta por direitos iguais começaram a se formar e exigir uma presente feminina maior em atividades variadas, que também poderiam ser executadas por elas. Trabalhar fora de casa, começar uma carreira, discutir moldes de casamento e até o uso de anticoncepcional foram algumas das pautas das lutas feministas nos anos 1960, que tiveram grande engajamento e presença de mulheres. Porque nada é perfeito, as mudanças aconteceram em um ritmo mais lento dentro do contexto do movimento industrial cinematográfico à época, também chamado de star system.

Com seu início na década de 1920, a base das construções narrativas partiam de elementos do imaginário do espectador… homem. O cinema não era apenas mais um produto midiático do entretenimento, ele também agia como influenciados de valores e ideologias, um espelho da sociedade que tinha a presença humana — personificada pelo ator — como parte da identificação e projeção daquele conteúdo. Por isso da criação das “estrelas de cinema”, as figuras representativas de comportamentos de massa. E a espectadora mulher cria uma versão própria do que as personagens femininas fazem e como se sentem na tela, transformando, assim, esse ícones da cultura popular em projeção e sedução. Só que, ao mesmo tempo em que essas imagens tentam “mostrar” como eram as mulheres, elas criam um estereótipo que diz respeito a sua função na sociedade e não como seriam suas personalidades. E dentro de produções que tem como mote a jornada do herói ainda vemos poucas narrativas que mostrem a mulher como quem vive as aventuras em busca por algo maior.

Como consumidora de produtos midiáticos, no entanto, as mulheres já não conseguem mais se identificar com narrativas que as apresentem como pessoas submissas, à disposição integral do marido. Para que a Indústria Cultural continue a influenciar os padrões de consumo, seu processo criativo precisava mudar. A mulher moderna só vai encontrar significado no produto midiático que ela consome se ele for, no mínimo, um reflexo do que ela vive — o que também influencia a construção de novos personagens. É dessa forma que princesas são recriadas e apresentadas em versões mais maduras, independentes e livres — e rainhas, bruxas e super-heroínas também passam por essa evolução. Por isso, a história de Os Incríveis 2 não poderia surgir em melhor momento. Em tempos em que a busca por maior lugar de fala, representatividade, diversidade e oportunidade são tão atuais, ao colocar mulheres em papéis centrais, a mais nova produção da Pixar acerta em cheio.

Atenção: o texto contém spoilers!

O filme começa exatamente onde terminou seu antecessor, 14 anos atrás, com uma ameaça chegando na cidade e a família inteira sendo colocada em ação. Dessa vez, todos têm papel fundamental no sucesso do caso, mas isso não é o bastante para os governadores, que querem proibir, mais uma vez, que os heróis utilizem seus poderes — ainda que para o bem. Em sua defesa, eles alegam que os super-heróis destroem a cidade enquanto salvam o dia, e a posição do governo logo coloca a família Pêra novamente em uma posição de anonimato, tentando reinventar a própria vida. Nesse momento, surge a figura da cientista Evelyn Deavor (Catherine Keener), que divide uma empresa de tecnologia com o irmão, Winston Deavor (Bob Odenkirk), e juntos, ambos pretendem reunir e apoiar super-heróis. O desafio da vez é mostrar para o grande público como é importante contar com um vigilante na cidade, sempre colocando a segurança da população em primeiro lugar, mas que, em segundo, cuidaria para que a cidade não fosse inteiramente destruída no processo. E, para isso, Helena Pêra, a Mulher Elástica, é convidada para ser essa representante.

Com duas personagens principais dignas de nota (no caso, Helena e Evelyn), a narrativa de Os Incríveis 2 altera a configuração familiar dos Pêra, colocando Beto como a nova figura que precisa conciliar a rotina de cuidado da casa e dos filhos enquanto a esposa salva o dia. O mais interessante, porém, é que, no filme, Beto se sente constantemente inferiorizado por fazer esse trabalho, ao passo que sua esposa combate o crime. Ele quer provar que está de acordo com a situação, que não se importa realmente, mas ele se importa, como o homem que é ensinado que combater o crime e prover o sustento da família é o seu dever, e não o contrário. É só quando Zezé, o bebê, começa a demonstrar seus poderes, Violeta está enraivecida por causa do crush e Flecha não entende matemática, que ele acaba por demonstrar, ao vivo e a cores, que não é tão fácil ser o gestor de um lar. Há uma desconstrução importantíssima dos papéis que, por sua vez, comunicam ao grande público que essa não é uma obrigação exclusiva da mulher.

Ainda estamos longe de alcançarmos a igualdade, seja dentro ou fora de casa, mas Os Incríveis 2 consegue, de maneira simples, didática e bem-humorada, levar o assunto às inúmeras famílias que assistem ao filme — o que também diz muito sobre o momento que vivemos. Alguns anos atrás, talvez esse não teria sido o ensinamento tirado do filme, ou até mesmo não seria o filme produzido, mas hoje, colocar uma mulher em destaque explicitamente e mostrar todo o valor que ela tem, como funciona a dinâmica de um lar quando todos estão juntos, e não separados por concepções pré-estabelecidas, faz todo o sentido. E, mais do que isso, é um movimento necessário.

Empoderar e dar lugar de fala para assuntos tão atuais e que servem como o primeiro passo para mudanças comportamentais e sociais, deveria ser a premissa básica das narrativas existentes. Não somente fantasiar ou entreter, mas também educar e entender a arte e a cultura como agentes transformadores. Os Incríveis 2 vale por cada segundo.

Os Incríveis 2 recebeu 1 indicação ao Oscar, na categorias de: Melhor Filme de Animação.

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