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Sem Dó: a poesia em forma de quadrinho de Luli Penna

“A São Paulo dos anos 1920 é uma cidade em transformação.” É assim que começa a sinopse de Sem Dó, primeiro livro da quadrinista Luli Penna publicado pela Editora Todavia, projeto que trás uma bela e trágica história de amor ambientada em uma cidade que sente os efeitos da modernização na arquitetura de seus prédios assim como na cultura e nos hábitos de seus moradores. É a partir da história de Lola, uma típica moradora da cidade, que vislumbramos os costumes de um tempo que não está tão longe assim do nosso — ainda que pareça fazer parte de outras vidas.

Para escrever seu primeiro livro, Luli Penna se inspirou na história de sua família. Em entrevista ao blog Vitralizando, a quadrinista disse que a ideia inicial era tratar da história de seu avô e tio-avô, ambos espanhóis, e a travessia que fizeram, cruzando o Oceano Atlântico até desembarcar no Brasil. Luli Penna mudou de ideia, no entanto, quando ouviu a história de suas tias: para a autora, seria muito mais significativo contar as histórias de suas tias “obscuras” do que dos homens da família, visto que os dois se tornaram renomados arquitetos na década de 1950. Foi assim que nasceu o enredo de Sem Dó, a história de um romance que consegue contrapor costumes ainda conservadores em uma cidade em eterna transformação, mas que também é a história de duas irmãs tão diferentes entre si.

Assim, a história de Lola e Pilar é costurada em um passeio em preto e branco por São Paulo, seus bairros e arquitetura. A arte de Luli Penna consegue captar as nuances de outro tempo, marcando em nanquim os desenhos dos bondinhos, dos trilhos, das estações de trem e dos edifícios art deco que tanto se destacaram na década de 1920. A quadrinista une recortes e anúncios de jornais ao seu texto e ilustrações, o que serve tanto para reafirmar a ambientação de sua história quanto para deixar pistas para quem a lê. Os enquadramentos escolhidos pela autora também são feitos de maneira especial e evocam características do cinema da época, que apenas começava a ser falado, com quadros de fundo preto e letras brancas para as falas, fugindo dos óbvios balões de diálogo que conhecemos tão bem e que logo vêm à mente quando o assunto é história em quadrinho.

Os detalhes inseridos por Luli Penna fazem de Sem Dó uma história única e especial: os sapatos, roupas e chapéus de suas mocinhas se intercalam com caixinhas de lembranças repletas de segredos, revistas de moda e anúncios de rádio em um retrato perfeito de uma época que já passou. Ler Sem Dó é como entrar no storyboard de um filme mudo em preto e branco, uma das paixões da autora que dedicou sete anos de sua vida ao projeto de sua HQ de estreia, o que resultou em um trabalho impecável do começo ao fim. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, a quadrinista disse que se inspirou no filme Limite, gravado em 1930 por Mário Peixoto, adicionando, inclusive, alguns fotogramas — uma imagem fotográfica realizada sem a utilização de câmera e que acontece diretamente a partir da exposição do papel fotográfico à luz do ampliador — do filme em sua HQ.

A história das tias, fio condutor de Sem Dó, fala principalmente sobre como era ser mulher na década de 1920, um período de tempo que abraçava a modernização de suas cidades, mas não de seus costumes. Lola e Pilar, mulheres anônimas de São Paulo, vivendo no bairro do Brás, precisavam lidar diariamente com uma sociedade repressora que as podava e restringia. Ainda que, a princípio, a história pareça ser apenas de Lola e seu amor por um homem de quem não sabe nada a respeito, e com quem seu pai não quer que ela se case, Luli Penna consegue transformar seu enredo em algo muito maior: Sem Dó se converte em uma história sobre o lugar da mulher na sociedade e o que ela está disposta a fazer para conseguir se sentir em paz com a própria consciência e seu lugar no mundo.

Luli Penna, que antes de se aventurar em seu primeiro livro solo já ilustrou para revistas como Vogue, piauí e Time Out, além de jornais como Folha de S. Paulo, cria em Sem Dó um retrato não apenas da vida da mulher na década de 1920 mas da cidade de São Paulo como um todo. Tanto quanto Lola e Pilar, São Paulo atua como uma personagem à parte nessa história, principalmente quando a quadrinista resgata lugares que já não existem, como o Edifício Santa Helena, lar por muitos anos de um dos mais visitados cinemas da década de 1920, e outros icônicos, como a Estação da Luz. Quase como um filme em preto em branco, Sem Dó não precisa de muitas palavras para nos fazer viajar para outros ares e outros lugares.

“Afinal, a pobreza, a tosse e o amor não se escondem por muito tempo.”

O exemplar foi cedido para resenha como cortesia pela Editora Todavia.


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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