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“Have a biscuit, Potter”: um olhar sobre a trajetória de Minerva McGonagall

Quando Harry Potter, o Menino Que Sobreviveu, se descobriu bruxo no dia de seu décimo primeiro aniversário, sua vida nunca mais foi a mesma. Não apenas pelo fato de que ele tinha um mundo inteiro para conhecer e uma profecia a cumprir, mas também pela oportunidade de construir uma família inteiramente nova sob as ruínas de seu passado, formada por amigos e membros do corpo docente de Hogwarts; responsáveis por lhe ensinar valores muito importantes. Uma dessas pessoas, sem qualquer dúvida, é a professora Minerva McGonagall, que vigiou seus passos desde o primeiro dia dessa história.

Diretora da Grifinória e responsável pela disciplina de Transfiguração, McGonagall é, à primeira vista, uma figura austera inabalável. Sua postura formal a estabelece, quase que imediatamente, como uma professora bastante rigorosa e exigente, que não espera nada menos que o melhor de seus alunos. À medida que a história se desenvolve, no entanto, é perceptível como seu papel vai muito além de suas atribuições como educadora. Braço direito de Alvo Dumbledore, sobretudo em tempos de crise, a presença de McGonagall é o que, por vezes, garante que a escola continue em pleno funcionamento – como acontece nas muitas ausências do diretor, que por motivos de força maior, se faz necessário em muitos lugares para além dos limites da escola.

Nascida na Escócia, em 1935, Minerva é fruto da união de Isobel Ross, uma bruxa bastante talentosa, e Robert McGonagall, um ministro presbiteriano trouxa. Os dois se conheceram no povoado onde viviam, mas o relacionamento encontraria muita resistência, principalmente por parte dos pais de Isobel, que não aceitavam que a filha se envolvesse com alguém cujas origens não fossem mágicas. Assim, ela decidiu fugir de casa e viver seu amor de qualquer forma, ainda que Robert desconhecesse a natureza de suas origens. A falta da família, porém, logo se mostraria um problema para o casal. O nascimento da primeira filha seria marcado tanto pela alegria quanto pela instabilidade; Isobel sentia saudades da família e também da comunidade mágica. Como forma de celebrar suas raízes, ela batizaria a filha com o nome da avó, a também bruxa Minerva, mas a extravagância do nome levaria à implicância da comunidade e à impaciência do marido, que achava difícil explicar a escolha da esposa para seus paroquianos. O fato de manter sua magia em segredo também não tornava as coisas mais fáceis para Isobel, que eventualmente tornou-se uma mulher retraída, que preferia manter-se isolada com seu bebê.

Não levaria nem mesmo um dia para que a magia se manifestasse em Minerva, contudo. De acordo com a mãe, já em suas primeiras horas de vida era possível perceber pequenos sinais mágicos na filha, que era capaz de mover brinquedos ou comunicar-se com o gato da família mesmo antes de aprender a falar. À época, entretanto, Robert ainda não tinha pleno conhecimento sobre o passado da esposa, tampouco sobre o que acontecia com sua filha, o que deixaria Isobel dividida entre o orgulho e o medo. Somente algum tempo mais tarde é que ele viria a descobrir a verdade – e se, por um lado, ele não abandonaria a família, por outro, a confiança entre o casal seria profundamente abalada pela descoberta.

Embora fosse muito jovem para se lembrar da noite em que o segredo da mãe fora revelado, Minerva cresceu com uma opinião bastante específica sobre o que significava crescer como bruxa em um mundo repleto de trouxas, o que era ser diferente em uma comunidade repleta de iguais. De acordo com as leis do Ministério da Magia, tanto ela quanto a mãe eram obrigadas a manterem sua verdadeira identidade em segredo; uma lição que, mais tarde, seria transmitida também aos seus irmãos, Malcolm e Robert Jr. Entretanto, mais do que a repressão da magia, ela logo perceberia que uma vida tão limitada fazia mal a todos os envolvidos. Desde o pai, que precisava lidar com o fato de a esposa não se encaixar na pequena aldeia onde viviam, até a falta de liberdade sentida por aqueles que não podiam revelar seus talentos, Minerva sentia por todos, e também por si mesma.

A tão sonhada liberdade seria encontrada apenas anos mais tarde, em seu décimo primeiro aniversário, quando receberia a carta de admissão da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e, uma vez nos limites do castelo, viria a experienciar uma autonomia ainda inédita. Entre iguais, a situação familiar não parecia exercer grande influência sobre a bruxa, cujo desempenho acadêmico fora, durante todo o período escolar, extraordinário. Considerada uma hatstall, isto é, alguém que intriga o Chapéu Seletor a ponto de tomar-lhe um tempo maior do que o normal para se decidir, Minerva foi não apenas uma aluna brilhante, mas também uma apanhadora proeminente do time de Quadribol da Grifinória. Ela deixaria o time algum tempo mais tarde, após um acidente que a deixaria com várias costelas quebradas e uma concussão, mas seu talento jamais seria posto sob questão, e seu gosto pelo jogo tampouco esvaneceria, o que fica evidente em sua relação com os integrantes do time da Grifinória, sua preocupação com jogos e treinamento, ou a escolha de novos membros.

Minerva graduou-se em Hogwarts com honrarias; ela alcançou números impressionantes em seus exames, foi Monitora Chefe e vencedora do prêmio Transfiguração Hoje. Além disso, sob a orientação de Alvo Dumbledore, seu então professor, a bruxa conseguiu tornar-se um Animago, adquirindo a forma de um gato malhado com marcas de óculos ao redor dos olhos. Mas o sucesso acadêmico não a impediria de sofrer decepções em outros aspectos da vida. Uma vez de volta à casa dos pais, antes de assumir uma vaga no Departamento de Execução das Leis da Magia, Minerva apaixonou-se pelo filho de um fazendeiro local que, igualmente apaixonado, não demoraria a lhe pedir em casamento. O pedido seria aceito por Minerva, mas a história conturbada dos pais a lembraria que a relação dificilmente daria certo. O enlace com um trouxa representaria o fim de suas ambições; seria o início de uma nova vida com varinhas trancadas e crianças ensinadas a mentir para sobreviver. Assim, na manhã seguinte, Minerva disse ao rapaz que havia mudado de ideia e que não poderia se casar, e porque seus reais motivos não poderiam ser expostos, ela não lhe deu maiores explicações, partindo para Londres três dias depois.

O trabalho no Ministério da Magia, porém, logo mostrou-se uma decepção. Ainda que fosse incrivelmente talentosa e tivesse até mesmo recebido uma promoção para um cargo de prestígio, os valores anti-trouxa de muitos funcionários a desagradavam imensamente. Ela sabia que o fato de não possuir traços de magia não os tornava inferiores, mas mais do que isso, o fato de ter parte de sua família – e outros iguais a eles – ridicularizada em seu próprio ambiente de trabalho fazia com que não se sentisse parte daquele lugar. Nem mesmo seu relacionamento com Elphinstone Urquart, seu chefe e futuro marido, a fariam mudar de ideia. Assim, Minerva enviou uma carta à Hogwarts, na tentativa de conseguir uma vaga no corpo docente da escola. Não demorou para que a coruja retornasse com uma proposta de emprego no Departamento de Transfiguração, à época sob o comando de seu antigo professor, Alvo Dumbledore, com quem construiria uma bonita e duradoura amizade.

Em Hogwarts, Minerva encontrou o chamado e o propósito de uma vida inteira. Ao trabalhar no Departamento de Transfigurações, a agora professora decide dedicar-se como nunca, não apenas para provar a si mesma do que era capaz, mas também para se tornar a melhor professora que os alunos da escola poderiam ter. Sua lealdade e coragem são demonstradas em diversos momentos da série de livros, tanto como em sua adaptação cinematográfica, e somadas ao seu enorme senso de justiça e inteligência, a tornariam uma inspiração para alunos e até mesmo para colegas de trabalho. Durante os acontecimentos da saga, McGonagall não hesita em bater de frente com a intragável Dolores Umbridge, por exemplo, mesmo quando esta assume o posto de diretora, seja para defender estudantes ou amigos mais próximos, como acontece quando Sibila Trelawney é expulsa da escola; e é também quem toma para si a responsabilidade de proteger o castelo contra o ataque dos Comensais da Morte no sétimo e último livro da série, Harry Potter e As Relíquias da Morte.

Minerva McGonagall nunca teve medo de se levantar em vista daquilo que acredita ou por aqueles que ama, o que é perceptível em toda a sua trajetória de vida – desde o período como estudante até a carreira como professora, passando pelo trabalho no Ministério da Magia e a relação com a família. Harry Potter é, de maneira geral, uma série repleta de personagens inspiradores, e nesse sentido, Minerva é apenas mais uma entre tantos – de modo que o que a faz tão especial é justamente seu amor pela profissão e também por seus pupilos. Ainda que pareça rígida em muitos momentos, McGonagall zela verdadeiramente por cada um dos estudantes de Hogwarts, garantindo seu aprendizado tanto quanto sua segurança e bem-estar, em um papel que muito se assemelha ao de… mãe.

Estar à frente de uma sala de aula é uma tarefa subestimada por muitos. Quando uma professora se posiciona diante de dezenas de alunos, ele toma para si a responsabilidade pelo desempenho de cada um deles, não só academicamente, como na vida em geral. A McGonagall que conhecemos é a versão de uma mulher em idade avançada que já tem em si uma jornada inteira de bravuras no mundo mágico e um acúmulo de experiências para compartilhar com cada aluno que passa por Hogwarts. Dizem que os professores mais rígidos são os melhores, não porque não demonstram sentimentos em sala de aula, mas porque colocam a disciplina acima deles a fim de mostrar aos jovens que o mundo real exige muita firmeza.

Isso não quer dizer que esses professores são incapazes de nutrir afeto pelos discentes – é justamente o contrário. É preciso muito amor pela profissão para conhecer o que é preciso para formar boas mentes; valores como inclusão, lealdade, honestidade, entre tantos outros. O fato de que Minerva McGonagall não conseguiu prosseguir sua carreira no Ministério da Magia diz muito – o ambiente é conhecidamente corrompido por pessoas que encaram a comunidade bruxa de maneira prática, burocrática, enquanto a escola é um ambiente onde existe a área cinza, onde as coisas não são preto no branco, onde bruxos e trouxas são vistos com o mesmo potencial. A vocação não é nata, mas construída ao longo dos anos junto com a própria formação e aplicação de valores. Minerva McGonagall sabe disso como ninguém.

Texto escrito em parceria por Ana Luíza, Thay e Yuu.

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