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Inferior é o Car*lhø: reescrevendo a história das mulheres

No prefácio da edição brasileira de Inferior é o Car*lhø, da DarkSide Books, Heloísa Buarque de Hollanda é certeira: “a luta pela igualdade não pode deixar de lado o debate sobre as ciências e os fatos ditos biológicos”. O que sempre achamos ser fato, cristalino e objetivo — a ciência como a conhecemos — foi destrinchada por Angela Saini em seu livro Inferior é o Car*lhø: por meio de uma pesquisa aprofundada que vai da origem dos seres humanos até chegar na longevidade das mulheres em relação aos homens, a jornalista científica desvela uma das maiores falácias da ciência enquanto reescreve a história das mulheres.

Uma das afirmações que fez com que Angela Saini saísse em busca de experimentos e teses de cientistas que mostravam as diferenças entre os sexos foi a que diz que o cérebro feminino é 142 gramas mais leve do que o masculino. Essa descoberta abriu margem para que cientistas pudessem afirmar que existem distinções inatas e biológicas entre os sexos, sendo a diferença de peso entre os cérebros apenas uma delas. Angela, apaixonada por ciências desde a adolescência — ela fundou a primeira sociedade científica de sua escola, localizada ao sul de Londres, e organizou um evento para construção de foguetes em miniatura nos anos 1990 —, não aceitou a afirmação como verdade absoluta e decidiu investigar outros estudos que pudessem mostrar o que havia de tão diferente entre homens e mulheres, e como essas diferenças foram usadas desde sempre como forma de nos diminuir e segregar.

A ciência como a conhecemos foi feita a partir de uma perspectiva masculina e privilegiada, o que silenciou o olhar, a vivência e a experiência de mais da metade da população mundial. Mulheres eram autorizadas a fazer ciência apenas enquanto recreação, mas quando se tornou algo “sério”, foram deixadas às margens e excluídas do clube onde apenas homens poderiam brincar. Dessa maneira, a maior parte da produção científica exclui sumariamente as mulheres de suas análises e conclusões, algo feito inclusive por Charles Darwin, pai da teoria da evolução e autor de livros renomados como A Origem das Espécies e A Descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo. Para Darwin, ao observar o processo evolutivo da humanidade ao longo de milhares de anos, era possível comprovar que mulheres eram menos evoluídas do que os homens. Dentro desse contexto, Angela Saini encontra, durante suas pesquisas, algumas correspondências enviadas à Darwin por Caroline Kennard, feminista e cientista amadora norte-americana, que discorda da afirmação do naturalista a respeito da inferioridade da mulher.

Kennard, em 1881, contestou a afirmação de Darwin que dizia que “a inferioridade da mulher era baseada em princípios científicos” e escreveu uma carta a ele pedindo que se manifestasse e reparasse o equívoco contido na assertiva. Darwin respondeu Caroline, mas apenas para reafirmar sua posição de que, “em geral, superiores aos homens [em] qualidades morais, [as mulheres] são inferiores em termos intelectuais e parece-me ser muito difícil, a partir das leis da hereditariedade (se eu as compreendo da forma correta), que elas se tornem intelectualmente iguais aos homens”. Caroline não se fez de rogada e respondeu à Darwin com a verdade que conhecemos tão bem:

“Deixe que o ‘ambiente’ das mulheres seja semelhante ao dos homens, e com as mesmas oportunidades, antes que elas sejam julgadas — de maneira honesta — e consideradas intelectualmente inferiores à eles, por favor”.

Caroline Kennard foi apenas uma entre tantas mulheres que se levantaram contra o sexismo dentro da ciência. Ainda que no final do século XIX a ciência fosse, de maneira intrínseca, produto de seu tempo, isso não justifica a exclusão sumária das mulheres dos meios de pesquisas e os resultados que só consideravam a perspectiva masculina para sua elaboração. Para a historiadora Kimberly Hamlin, “o sexismo da ciência coincidiu com sua profissionalização” o que fez com que as mulheres passassem a ter cada vez menos acesso a ela. Transformada em algo mais sério, com seus próprios conjuntos de regras e grupos oficiais, as mulheres foram deixadas de lado não somente nos níveis mais altos da hierarquia científica mas em qualquer outro tipo de qualificação profissional, visto que a elas não era permitido o ingresso em universidades ou que recebessem diplomas em diversas instituições de ensino até o século XX. Ainda de acordo com Kimberly Hamlin, “os médicos argumentavam que os esforços mentais da educação superior desviavam a energia do sistema reprodutivo da mulher, prejudicando sua fertilidade”.

O sexismo não se resumia apenas a limitar a mulher valendo-se de sua capacidade de gerar filhos. Para os homens, a simples ideia de ter uma mulher por perto poderia ser o suficiente para atrapalhar o trabalho intelectual desenvolvido por eles, pois elas seriam responsáveis por distraí-los de suas pesquisas. Foi apenas quando mulheres conseguiram quebrar as barreiras que as impediam de estudar e se candidatar a cargos de professoras e pesquisadoras que as mentiras da ciência começaram a ruir. É o caso, por exemplo, do que aconteceu quando a primatologista Sarah Blaffer Hrdy entrou em cena. Ao pesquisar os macacos langur na década de 1970, Sarah foi a única entre os cientistas a prestar atenção especial às fêmeas da espécie, o que fez com ela fosse capaz de desafiar ideias pré-estabelecidas por cientistas homens a respeito do comportamento dos macacos. As análises de Sara Blaffer Hrdy batem de frente com a de seus colegas homens e eles, promovendo resistência à pesquisa da primatologista, viriam a dizer que ela deveria se contentar em fazer apenas o trabalho doméstico que lhe cabia. Mas Sarah, é claro, não fez o que lhe foi sugerido e foi eleita para a Academia Nacional de Ciências e para a Academia Americana de Artes e Ciências, além de ser apontada como a primeira feminista darwiniana. A primatologista acredita que o fato de ser uma mulher em sua área de atuação foi um dos motivos que a levou a notar comportamentos nos macacos que não haviam sido reconhecidos antes por seus colegas homens que sempre desprezaram as fêmeas da espécie.

“Feminista é apenas alguém que defende a igualdade de oportunidades entre ambos os sexos. Em outras palavras, é ser democrático. E somos todos feministas, ou deveríamos nos envergonhar de não ser.” — Sarah Blaffer Hrdy

“Desde o momento em que uma mulher nasce, ela é colocada em um lugar diferente de um homem”. Não apenas no que se refere à sua biologia, mas com relação à sociedade em que está inserida: meninas são tocadas, tratadas e alimentadas de maneira diferente do que meninos, e essas divergências continuarão — e se ampliarão — durante o resto de suas vidas. Parece exagero dizer, mas de acordo com Angela Saini e sua extensa pesquisa, a diferenciação no tratamento de meninas e meninos refletirá, inclusive, na forma como médicos e pesquisadores lidam com dores e doenças intrínsecas ao gênero, como é o caso das dores menstruais. Foi apenas em 2016 que o professor de saúde reprodutiva da University College de Londres, John Guillebaud, disse a um jornalista que “a dor menstrual pode ser quase tão terrível como a de um infarto” admitindo, na sequência, que o problema — as dores menstruais — não recebem a atenção que merecem principalmente pelo fato de homens não sofrem dele.

Com Inferior é o Car*lhø, Angela Saini vai à fundo para reescrever a história das mulheres, pesquisando desde teorias que explicam a função da menopausa ao estereótipo de gênero que coloca os homens como caçadores e mulheres como coletoras nas primeiras sociedades humanas — durante sua pesquisa e conversa com diversos cientistas, Angela Saini descobriu que cuidar das crianças da tribo pode ser um trabalho feminino no meio dos Datoga, uma comunidade na Tanzânia, mas o mesmo não pode ser dito a respeito dos homens de Hadza, também na Tanzânia, que cuidam dos mais novos da mesma maneira que as mulheres. Enquanto isso, as mulheres da comunidade de Nanadukan Agta, nas Filipinas, saem para caçar e usam suas habilidades com facas, lanças e arco e flecha para levar comida para casa.

“Uma teoria que desconsidera metade da espécie humana é tendenciosa”. — Sally Linton

Em uma área que se desenvolveu principalmente por meio de homens ocidentais brancos, durante um período específico da história, não admira que teorias como a de Charles Darwin tenham sido escritas de maneira tão tendenciosa. Para a antropóloga Sally Linton, cujas palavras ecoam as de Eliza Burt Gamble, defensora do Movimento das Mulheres no início do século XX e crítica de Darwin e seus contemporâneos, “uma teoria que desconsidera metade da espécie humana é tendenciosa”, e dá a inequívoca sensação de que apenas metade da espécie — a metade masculina — evoluiu. Os antropólogos não pareciam se importar em saber o que a metade feminina da espécie estava fazendo enquanto homens estavam fora, caçando, mas esse cenário começa a mudar quando mulheres começam a quebrar as barreiras que antes as impedia de pesquisar e serem cientistas. Ler Inferior é o Car*lhø nem sempre é uma experiência divertida: perceber como a ciência vem escrevendo as mulheres durante todos esses anos, ou ignorando-as por completo, pode despertar um tanto de raiva durante a leitura, mas é essencial saber o que tem sido feito para reescrever nossa história.

Angela Saini desenvolve um trabalho incrível ao escrever seu livro, confrontando pesquisadores e suas teorias da mesma maneira que abre espaço para que mulheres demonstrem como o feminismo pode ser um aliado valioso para a ciência. Nas palavras da autora, “ele melhora o modo como a ciência é feita, pressionando os pesquisadores a incluir a perspectiva feminina” o que colabora, também, para que a ciência demonstre que não somos tão diferentes no final das contas. Como Angela Saini demonstrou tão bem em seu livro,

“Nossa biologia não determina nossa maneira de viver.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora DarkSide Books.


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