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Let’s do the Time Warp again: como The Rocky Horror Picture Show se tornou um clássico queer (e de Halloween!)

De 2009 a 2015, Glee foi responsável por apresentar aos telespectadores mais do que apenas reinvenções de hits, mas também clássicos da cultura pop não tão conhecidos pelo público geral. Dentre esses clássicos, uma das performances que sempre me marcou foi a de “Time Warp”, um dos números principais do musical punk The Rocky Horror Picture Show. E foi a partir do loop em que eu assistia o vídeo da versão de Glee de “Time Warp” (e sob influência do meu amor por As Vantagens de Ser Invisível) que fui coagida a assistir o filme.

A premissa de Rocky Horror (para os íntimos) é ser uma grande sátira musical e extravagante de filmes de terror da década de 1960: um casal de recém-noivos, Brad (Barry Bostwick) e Janet (Susan Sarandon), viaja de noite quando uma tempestade e um pneu furado os obriga a buscar ajuda em um castelo na região. Quando chegam na propriedade, eles são jogados em meio a uma demonstração científica realizada pelo Dr. Frank N’ Furter, vivido por Tim Curry (o Pennywise do It — A Coisa de 1990), um “doce travesti da Transilvânia Transexual”, como proclamado na canção “Sweet Transvestite”. A partir desse encontro e do simbolismo teatral dos 14 números musicais, o filme constrói uma narrativa um tanto quanto exótica, mas que é impossível de tirar os olhos. Rocky Horror começa como uma paródia e se mostra, ao longo das 1h40m, uma ode à liberdade e ao público LGBTQA+. Mas houve uma longa caminhada antes da obra se tornar um clássico cult e tema deste especial de Halloween.

“Don’t dream it, be it”: dos palcos para as telas e a transformação do filme em uma experiência

Em 1973, nascia em Londres a peça The Rocky Horror Picture Show, dirigida por Jim Sharman e com roteiro e composições de Richard O’Brien, os mesmos responsáveis pela versão cinematográfica. O musical estreou no Royal Court Theatre e passou pela Broadway, chegando a ser nomeado pelo Tony Awards. A história nasceu como uma grande homenagem subversiva aos clássicos do terror e ficção científica, especialmente Frankenstein, e o sucesso nos palcos incentivou a 20th Century Fox a comprar os direitos e adaptar a peça para as telas.

O estúdio esperava escalar grandes estrelas para o filme (imaginem Mick Jagger como Frank N’ Furter e Elvis Presley como Eddie), porém os criadores insistiram em manter o elenco original do teatro. Aliadas a isso, a trama à frente de seu tempo ganhou vida com a estética punk e burlesca e o filme chegou aos cinemas em 15 de agosto de 1975. E foi um grande fracasso.

Apesar de todo o potencial e de um pequeno, porém fiel, público das apresentações ao vivo, Rocky Horror não conseguiu encher as salas de cinema logo de cara. Foi apenas em 1976, quando passou a ser exibido em sessões da meia-noite, que o filme ganhou destaque e, a partir da euforia do público, se tornou um fenômeno cultural. A audiência do filme era quase sempre a mesma e diz a lenda que, em uma noite, um dos espectadores gritou para a tela durante a cena em que Janet tenta se proteger da chuva com um jornal, surgindo assim o costume quase que religioso de responder ao filme durante a sessão. Ao longo dos anos, novos hábitos como se fantasiar para as sessões e participar dos números musicais tornaram Rocky Horror mais que um filme: por 40 anos, The Rocky Horror Picture Show se tornou um evento.

“Double Feature”: a perfeita junção entre o rock e a sátira

A abertura do filme dá um bom tom do que vem pela frente: uma boca vermelha (e pertencente à intérprete da personagem Magenta, Patricia Quinn) dublando a voz do compositor Richard O’Brien enquanto ele mescla elementos da história com referências da cultura pop. De Flash Gordon (inspiração para o Rocky) ao King Kong, a música previu o futuro da obra:

“At the late night
Double feature
Picture show”

“Tarde da noite
A sessão dupla
Do cinema”

Logo em seguida, somos apresentados a Brad e Janet, um típico casal branco, suburbano e heteronormativo. Até mesmo o noivado dos dois é básico, levando a um número musical vergonhoso e risível, mas também cheio de simbologia. Enquanto cantam sobre sua história, seus votos de castidade pré casório e todos os motivos de se amarem (que não poderiam ser mais mornos), Brad e Janet passam por um cemitério e um funeral, gerando um cenário contrastante e talvez uma previsão do futuro da relação?

A seguir, a trama caminha para o encontro do casal com o enigmático castelo de Dr. Furter. Quando chegam à propriedade, cantam sobre uma luz chamativa e salvadora, versos que remetem a muito mais do que apenas auxílio numa noite de tempestade, pois os acontecimentos seguintes são a salvação e, mais importante, a libertação dos personagens.

“In the velvet darkness of the blackest night
Burning bright, there’s a guiding star
No matter what or who you are”

“Na escuridão aveludada da noite mais negra
Queimando brilhante, há uma estrela guia
Não importa o que ou quem você é”

Quando entram na casa, Brad e Janet são arrastados para uma dança de motoqueiros exóticos, que cantam sobre realizar a “dobra do tempo” e dançam em sincronia. “Time Warp” vulgo a performance de Glee responsável pelo meu amor por Rocky Horror é uma música divertida e contagiante, mas que logo dá espaço para a icônica introdução de Dr. Furter. “Sweet Transvestite” segue o embalo da anterior e apresenta ao público Frank N’Furter, o enigmático cientista que convida Brad e Janet para passarem a noite e conhecerem sua mais nova criação: um homem, em suas próprias palavras, “com cabelo loiro e bronzeado, bom para satisfazer minha tensão”.

O erostismo e carisma da figura de Furter seduz os convidados e a audiência e, mesmo quando ele mata sem piedade e gera cenários que alteram do cômico ao estranho, ele ainda é a grande estrela. Sem grandes spoilers, mas performances como de “Rose Tint My World”, “I Can Make You a Man” (que inclusive conta com uma marcha nupcial) e “I’m Going Home” mostram a magia do personagem e o talento do ator Tim Curry.

Outros personagens também têm seu momento de brilhar. A Janet de Susan Sarandon protagoniza um dos números mais divertidos do musical, “Touch-A, Touch-A, Touch Me”, na qual ela se liberta de sua castidade e abraça seus desejos, enquanto as ajudantes de Furter, Magenta e Columbia, cantam em um divertido (e performático, daqueles de imitar enquanto ouve a música) coro.

Mesmo com o choque e estranheza de todo o exotismo de The Rocky Horror Picture Show, é impossível parar de olhar para a tela. O filme é divertido e investe o telespectador naquele cenário surtado e nos personagens caricatos e gostosos de acompanhar. E tudo isso com um estilo único, perfeito para o Halloween, e mensagens inspiradoras por trás de toda a esquisitice.

“Thrill me, chill me, fulfill me”: por que The Rocky Horror Picture Show é tão importante?

A influência de Rocky Horror na cultura pop é gigantesca, sendo citado em obras como Glee, Gilmore Girls, As Vantagens de Ser Invisível, Simpsons e até mesmo Phineas e Ferb. Porém, o grande mérito do filme e da peça está nas vidas que impactam, como exposto na matéria da BBC “The Rocky Horror Picture Show: The Film That’s Saved Lives” (em tradução livre, “The Rocky Horror Picture Show: O Filme que Salvou Vidas”).

Se o teor LGBTQA+ do filme não está claro pelo protagonista travestido, o discurso de liberdade sexual das canções e da conclusão do filme bastam para explicitar a mensagem. Em “Rose Tint My World“, os personagens cantam sobre como Dr. Furter impactou suas vidas, em meio a desabafos sobre libertar sua libido, expandir suas mentes e abraçar a luxúria. Brad até mesmo faz um apelo por sua mãe, dizendo que será bonzinho se ela tirar essa personalidade sexual recém descoberta dele, enquanto Janet se sente mais confiante pela experiência e honestidade com seus sentimentos. Não seria essa canção o reflexo de toda vivência queer?

Apesar de utilizar do forte erotismo para expressar esse desejo por libertação, Rocky Horror não se define por esse estereótipo de promiscuidade LGBTQA+, mas utiliza da caricatura desse para romper com as barreiras heteronormativas dos anos 70 e presentes até hoje.

Como diz Frank: “não sonhe, seja!” Rocky Horror é sobre abraçar seu verdadeiro eu, por mais exótico, grotesco, extravagante e irônico que ele seja. É a normalização do diferente e a espetacularização da diversidade, sempre na moda e passada de geração em geração como um clássico cult, do horror subversivo e do orgulho LGBTQA+. Brad e Janet não permanecem os mesmo depois de seu encontro com Frank N’Furter, e o telespectador certamente não é o mesmo depois de assistir ao filme. Quem sabe talvez o filme até se torne sua ~ favorite obsession ~ (entendedores e Dr. Frank N’Furter entenderão.)


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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