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Crítica: The Perfection

Já é cultura da Netflix apresentar sinopses vagas dos filmes e séries em seu catálogo. Para o filme The Perfection, dirigido por Richard Shepard, é assim que a plataforma de streaming descreve o filme: “Neste suspense macabro, uma musicista excepcional reencontra seus ex-mentores, mas descobre que eles têm uma nova aprendiz talentosa”. Embora mencione que o longa possa ser sombrio, este resumo não prepara o espectador para o festival de plot twists e escatologia que está por vir.

Atenção: este texto contém spoilers!

Evidentemente, isso é uma coisa positiva no sentido de que não há informações posteriores que possam amargar a experiência. E mesmo que seu incômodo trailer mostre cenas confusas em meio a uma trilha sonora perturbadora, dificilmente o espectador, em algum ponto do filme, vai saber o que verdadeiramente esperar. Dividido em três atos e um epílogo, o longa pode ser considerado um terror psicológico, e é uma versão mais refinada do gore ou de filmes trash de horror. Lançado no Fantastic Fest em setembro de 2018, nos Estados Unidos, o filme causou reações “rápidas, intensas e incríveis”, segundo Shepard.

The Perfection

Charlotte  Willmore (Alisson Williams, de Girls e Corra!) é uma jovem musicista extremamente talentosa, mas que teve que abandonar as aulas de violoncelo na prestigiada The Banchoff Academy para cuidar de sua mãe doente. Dez anos depois, após a morte da mãe, Charlotte entra em contato com seus antigos mentores, Anton (Steven Weber) e Paloma (Alaina Huffman), que a aceitam de volta com braços abertos. Eles estão em Shangai procurando uma nova menina prodígio para ensinar, e a convidam para acompanhá-los. Lá ela conhece Elizabeth ‘Lizzie’ Wells (Logan Browning, de Cara Gente Branca), uma artista no auge de sua carreira que, de certa forma, ficou no lugar de Charlotte.

Não é difícil imaginar que o filme abordaria a rivalidade entre Charlotte e Lizzie — já que Hollywood ama as rixas femininas —, mas rapidamente essa impressão cai por terra quando é mostrado o quanto uma tem admiração pela outra. Fugindo ainda mais do óbvio, os flertes logo começam e as duas acabam juntas em um quarto de hotel, onde Charlotte tem a sua primeira vez.

Enquanto isso, uma doença misteriosa e mortal assusta algumas regiões de Shangai. Lizzie se vê inesperadamente doente, e seu medo é que ela tenha sido atingida pela epidemia. Ela tem dores de cabeça, febres intensas, sede incomum, crises de vômitos e diarreia. Este é um alerta para aqueles de estômago fraco: o diretor Richard Shepard não se esconde por trás de subtextos ou câmeras desfocadas. Se a sua personagem está com problemas no estômago, o espectador verá os resultados disso. O mesmo vale para cenas de sexo e violência. As cenas são explícitas e, na maioria das vezes, consideravelmente longas.

O trailer mostra uma das cenas mais perturbadoras — dentre muitas outras ao longo da história —, quando insetos rastejam sob a pele do braço de uma Lizzie desesperada. Com isso, não é difícil deduzir que o filme possa se passar em um universo apocalíptico, com a doença mencionada pronta para causar estragos por onde passa, ou talvez que há uma entidade sobrenatural assombrando a história. Esta é a intenção do diretor: causar desconforto e confusão em seus espectadores. Quando há a certeza sobre algum elemento da história, poucos minutos depois as teorias são derrubadas por reviravoltas surpreendentes.

Há um quê de Garota Exemplar em The Perfection. A cultura pop está em um ponto em que é inevitável comparar histórias de mulheres ferozes que se vingam dos homens que lhe causaram mal à obra de Gillian Flynn. Lá pelo terceiro ato, é revelado que Charlotte e Lizzie estão unidas para se vingar de Anton, o diretor da escola que é, aparentemente, perfeito. Há um importante fator, porém, que separa Shepard de Flynn: a violência sexual.

Anton é, na verdade, um predador sexual. Ele busca o desempenho perfeito de suas pupilas e, quando elas não entregam o que ele espera, sua versão de punição é violentá-las. Com o consentimento e a aprovação de sua esposa Paloma e dos outros professores da academia de música — que também fazem parte dos abusos —, Anton estuprou Charlotte e Lizzie repetidamente durante vários anos, da infância à fase adulta.

The Perfection

Este é um fator incômodo e certamente é um gatilho para muitas pessoas. Embora fale de um assunto bastante pertinente às discussões atuais, a forma como é retratado passa longe do cuidado que o tema exige. Tratar de violência sexual e pedofilia é um grande desafio, e The Perfection deixa uma narrativa cautelosa de lado para se focar no simples objetivo de chocar o público. O filme é uma história de terror/suspense, e uma abordagem mais sombria é adequada para o gênero, mas o desenrolar do enredo poderia ser muito mais delicado, principalmente no terceiro ato, quando uma cena que envolve uma parte do plano de Charlotte e Lizzie se mostra especialmente desconcertante e perturbadora.

Esta aproximação se assemelha à mesma linha de raciocínio da polêmica fala de Sansa Stark (Sophie Turner) na última temporada de Game of Thrones, quando a personagem diz que ter sido violada e abusada foi uma coisa positiva para o seu crescimento. Muitas obras veem a necessidade de adicionar abusos sexuais às histórias de mulheres fortes que vencem suas adversidades. Mesmo quando a indústria do entretenimento busca empoderar suas personagens femininas, elas muitas vezes ainda têm que sofrer terríveis traumas de cunho sexual para provar o quão vigorosas realmente são.

Como dito anteriormente, The Perfection pode fazer o espectador se lembrar de Garota Exemplar, mas este último não recorre à violação sexual para contar histórias sobre o ressentimento e a fúria feminina. Essa é uma característica gritante que difere narrativas criadas por homens e mulheres.

Além disso, o shock value se torna um elemento exacerbado. Não é difícil encontrar filmes e séries que se apoiam no valor de choque para impactar suas audiências. Sangue, sexo, mutilação e longos planos de violência não necessariamente constroem uma história competente. Isso também se aplica a todas as viradas do filme. Um bom plot twist, quando feito de maneira apropriada e muito bem calculada, sempre traz um fator especial à obra, mas uma série de reviravoltas mirabolantes e fortíssimas cenas explícitas podem se tornar um pouco cansativas. Às vezes, causar espanto não preenche a carência de um roteiro bem elaborado.

Problemáticas à parte, a aparente intenção de The Perfection é boa. É sempre uma experiência interessante assistir um estuprador pagar por seus crimes, e as atrizes principais fazem um ótimo trabalho em transmitir toda a angústia do enredo. Destaque especial para Logan Browning, que traz uma experiência sufocante nas cenas que protagoniza, certamente as mais desesperadoras do filme.

The Perfection está longe da perfeição, mas por uma hora e meia, cria entretenimento que prende os olhos na tela e faz sentir intensas emoções — seja nojo, agonia, surpresa ou satisfação.

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2 comentários

  1. Gente, eu JAMAIS imaginaria esse enredo (e essa abordagem gore) só de ler a sipnose do filme. Surreal. Não é muito o meu tipo de filme, acho que são poucos os diretores que conseguem ser bem sucedidos sendo super gráficos assim. Adorei a crítica!

  2. Filme horrível , sem nexo nenhum , os primeiros 40 minutos quem lê a sinopse e vê o trailer já adivinhou. Nunca seria possível prever qual série o efeito específico provocado por um coquetel de drogas o que leva a cena de corte da mão totalmente absurda, o amor por quem acabou de lhe arrancar um membro mais absurdo ainda , a vingança delas e a única coisa com sentido no filme , porém a série de acontecimentos apresentados em sincronia que fizeram o plano dela dar certo , seriam impossíveis de acontecer.