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Rastro de Sangue: Príncipe Drácula

Após perseguir os rastros de Jack, o Estripador, na Londres vitoriana, agora é a vez de Audrey Rose Wadsworth ir em busca de outra figura com sede de sangue: Drácula. Em seu segundo livro acompanhando as aventuras de sua destemida protagonista, Kerri Maniscalco nos leva para um sombrio castelo na Romênia que é lar de morcegos, de uma das melhores academias de estudos forenses da Europa e das sombrias histórias de vampiros. Com a ajuda de Thomas Cresswell, um jovem rapaz tão bonito quanto irritante, Audrey precisará correr contra o tempo para desvendar uma série de assassinatos em Rastro de Sangue: Príncipe Drácula antes que também se transforme em uma das vítimas.

Publicado no Brasil pela DarkSide Books por meio de seu selo DarkLove, Príncipe Drácula reúne todos os elementos apaixonantes — e macabros — do primeiro livro da série, Rastro de Sangue: Jack, o Estripador. Audrey Rose permanece uma protagonista à frente de seu tempo e que não se deixa definir por seu gênero e que, em uma época de costumes tão rígidos quanto a vitoriana, tenta a todo custo conquistar seu lugar ao sol, o que significa dizer, basicamente, que nossa heroína está mais do que disposta a dar continuidade aos seus estudos de medicina forense mesmo que, enquanto isso, precise lidar com os traumas que carrega desde o embate fatal com Jack, o Estripador. O confronto com o serial killer deixou marcas profundas na alma de Audrey, mas ela luta com todas as forças para não se deixar levar pelas emoções, principalmente quando esses mesmos sentimentos podem distanciá-la de seu objetivo final que é estudar medicina forense em uma das melhores escolas da Europa.

“Os monstros estão nos olhos de quem os observa. E ninguém queria descobrir que seus heróis eram os verdadeiros vilões da história.”

É com alguma surpresa que Audrey recebe permissão de seu pai, Lord Wadsworth, para embarcar em uma viagem para a Romênia com destino a Academia de Medicina e Estudos Forenses onde, ao lado de Thomas Cresswell, concorrerá a uma das duas vagas disponíveis para integrar o corpo discente da prestigiosa instituição. Como a única mulher da turma de candidatos, Audrey sabe que terá que trabalhar com o dobro do concentração e dedicação para conquistar seu espaço, mas as coisas começam a sair de seu controle quando um rastro de assassinatos a acompanha desde o início de sua viagem de trem pela Transilvânia até o castelo que pertencia a Vlad III, príncipe romeno também conhecido como Vlad, o Empalador, e que agora funciona como a sede da Academia.

Enfrentando fantasmas do passado enquanto tenta colocar a lógica e a razão acima das macabras cenas de crime que tomam conta do castelo de Vlad, Audrey Rose faz o possível para investigar a série de assassinatos e lida, nesse meio tempo, com os professores e alunos que não a levam a sério apenas por ser mulher, e os flertes e faíscas que surgem entre ela e Thomas durante todo o tempo em que estão juntos — discutindo ou investigando. A narrativa de Kerri Maniscalco está mais afiada do que nunca e todo o enredo de Rastro de Sangue: Príncipe Drácula é construído de maneira a te deixar sempre ansioso para virar a próxima página. A autora reúne os melhores elementos dos romances históricos ao retratar a era vitoriana com seus costumes e aspectos socioculturais, entrelaçando-os com o mistério e as pistas que todo fã dos romances de Agatha Christie adora tentar desvendar. Some-se a isso a protagonista vivaz que é Audrey Rose, além da adição de novas personagens femininas, e você terá Príncipe Drácula, uma trama diabolicamente divertida.

“Todos nós estávamos aqui para aprender. Era ele quem tinha um problema, não eu. Talvez estivesse na hora de os pais ensinarem seus filhos a se comportar na presença das moças. Eles não nasciam superiores, por mais que a sociedade falsamente os condicionasse a pensar como tal. Aqui, nos éramos iguais.”

Ainda que seja realmente divertido acompanhar a trajetória de Audrey em busca do assassino que drena o sangue das vítimas, algumas passagens do livro são mais longas do que o necessário e a autora parece se perder em alguns momentos, narrando acontecimentos que não fazem diferença dentro da trama maior de Príncipe Drácula. O desejo que Audrey sente por Thomas, inclusive, parece anuviar os pensamentos da mocinha em mais de uma ocasião em que ela deveria estar concentrada em seguir as pistas do serial killer e não pensar, pela centésima vez, em como o Cresswell é bonito. Não que exista algo de errado em ser uma investigadora forense e estar apaixonada, mas a quantidade de passagens do livro dedicada a esse turbilhão de sentimentos de Audrey quebra um pouco a narrativa — não é de fato um “erro” de Kerri Maniscalco, mas a tensão que ela constrói entre os personagens cresce e (quase) não dá em nada.

Um dos pontos positivos dessa nova aventura de Audrey é a inserção de novas personagens femininas na trama. Se no primeiro livro a protagonista só podia contar sua prima Liza — que, agora, aparece apenas por meio de cartas que troca com Audrey —, em Príncipe Drácula Audrey Rose constrói amizades com outras mulheres que surgem em sua vida, personagens verossímeis e únicas, com motivações e desejos diferentes. É importante que Audrey não seja a única personagem feminina relevante da trama e mais importante ainda é vê-la construir relacionamentos saudáveis com outras mulheres de sua idade, trocando confidências, discutindo teorias ou simplesmente tomando um chá antes de dormir. A mensagem que fica, principalmente para jovens leitoras, é que faz toda a diferença cercar-se de apoio e construir uma rede de confiança com outras mulheres.

A trama de Príncipe Drácula é algo que eu amaria ter lido durante a adolescência. Ver Audrey Rose encarar seus demônios, revestindo-se de coragem para enfrentar seus fantasmas, é verdadeiramente inspirador. A jovem protagonista tem fibra, inteligência e força de vontade, e mesmo envolta nas mais belas sedas, corpetes e vestidos, consegue investigar e se mostrar a altura dos desafios que se apresentam. Esse é outro ponto muito importante da narrativa construída por Kerri Maniscalco: sua protagonista não se conforma com os papéis de gênero impostos pela sociedade e vai à luta em busca daquilo que deseja sem se perturbar com quem possa se ofender por sua atitude. Ela enfrenta a descrença de seus colegas — todos homens —, de seus professores, e bate de frente com cada um deles em nome daquilo em que acredita.

Com pitadas de licença poética, a autora desenvolve em meio a uma deliciosa narrativa um enredo que prende a atenção do leitor, recheado de referências a mitologia dos vampiros e a ambientação gótica da Romênia. Kerri Maniscalco é excelente na arte de descrever ambientes e sensações, então é simples se colocar no lugar de Audrey quando a protagonista sente-se ansiosa durante as investigações, imaginar com riqueza de detalhes o castelo de Vlad com seus corredores iluminados por archotes e decorado com tapeçarias sanguinárias, ou visualizar a arquitetura do vilarejo de Brasov, vizinho à Academia de Medicina e Estudos Forenses. A descrição dos métodos científicos estudados por Audrey e seus colegas também passa verossimilhança, o que é acompanhado por uma série de ilustrações presentes durante o livro que variam desde gravuras de morcegos a fotografias de antigas salas de autópsia. Ainda que seja um romance ficcional, Maniscalco fez sua tarefa de casa direitinho e recheou seu Rastro de Sangue: Príncipe Drácula com informações reais — o que a autora tomou liberdade de modificar, ela deixa explicado em um capítulo de notas ao final do livro e que vale a leitura.

“Eu não seria tratada como se minha mente fosse inferior porque eu tinha sido abençoada com a capacidade de parir filhos.”

Com relação a edição, a DarkSide Books repete o mesmo cuidado observado no primeiro exemplar da série — com capa dura brilhante, fita para marcar páginas e muitas ilustrações e mapas no miolo do livro, o cuidado com a edição faz toda a diferença e nos faz mergulhar por completo na experiência de leitura. A tradução de Príncipe Drácula é de Anna Death Duarte, que também traduziu Jack, o Estripador.

Príncipe Drácula move a história de Audrey Rose adiante e demonstra como a protagonista precisou amadurecer após os eventos do primeiro livro. Novos personagens são inseridos à trama, o que a enriquece de maneira singular, enquanto novos mistérios são colocados diante de Audrey. A autora peca, como dito anteriormente, em investir muito tempo na tensão romântica entre Audrey e Thomas sem de fato levá-los a algum lugar por grande parte do livro — não há problema algum em desenvolver um relacionamento como o deles, que realmente é divertido de acompanhar, mas o excesso de idas e vindas pode deixar o leitor impaciente. Audrey é uma personagem progressista e é ótimo vê-la enfrentar o machismo e sexismo da época: diferente do que acontecia no livro anterior, Audrey não tem mais rompantes de raiva por ser “rebaixada” por ser mulher mas decide mostrar seu valor com atitudes, o que mostra como, de fato, amadureceu.

“Eu me recuso a ser regida por qualquer coisa que não seja minha própria vontade, (…). Permita-me ser ainda mais clara, visto que obviamente você não entendeu o meu ponto antes: eu preferiria morrer uma solteirona do que me submeter a uma vida com você e suas melhores intenções.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a DarkSide Books.


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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2 comentários

  1. Eu comentei com uma amiga que a história tava legal, mas o “fogo na periquita” da Audrey Rose em momentos completamente impróprios tava começando a me irritar. 😂 Fora os problemas de revisão e tradução do livro.

    A história ficou meio óbvia pra mim no meio do livro, mas gosto muito da construção de mundo, da forma como a autora descreve os cenários, as pessoas, o ambiente vitoriano gótico. Queria ter tido mais livros assim quando eu era adolescente.

    1. Realmente não é difícil prever o desfecho da história, ainda mais se o leitor é habituado com literatura desse gênero, mas eu gosto muito da maneira como a autora escreve e desenvolve a narrativa. Eu também teria amado ler mais coisas assim quando adolescente – mesmo que o fogo de Audrey tenha me irritado em vááários momentos, ela estava impossível, HAHAHA